CRITICA MUSICAL / MUSICAL CRITIC

Um blog de Álvaro Sílvio Teixeira

2005/04/28

GOSTAVA DE FAZER MAIS TRABALHOS SINFÓNICOS



Peter Neumann esteve na Festa da Música a dirigir o Kölner Kammerchor e o Collegium Cartusianum que foram protagonistas dos melhores momentos desta festa. Como tinha decidido fazer uma só entrevista a escolha só poderia recair sobre este grande músico com o qual me cruzei por acaso num concerto de outro agrupamento.


Álvaro Teixeira: Ouvi-o a primeira vez em Bach. Já não me lembro o quê. Era um cd de uma editora alemã. Fiquei impressionado.

Peter Neumann: Talvez a Paixão Segundo São João...

AT: Exatamente! Gostei muito de facto.

PN: Obrigado. Muito obrigado.

AT: Finalmente encontro-o aqui em Lisboa e ontem escutei dirigidas por si uma maravilhosa, uma genial, leitura da oratória e da missa em dó de Beethoven. Mas... você faz frequentemente os clássicos como Beethoven?

PN: Beethoven não tanto. Fiz a Missa Solemnis, a Missa em Dó e a cantata para o Imperador. Fiz muito Mozart. A integral das missas para a emi.

AT: Prefere as obras com côro e cantores?

PN: Sim. Tenho um côro o Kölner Kammerchor e trabalho muito com eles. Normalmente estou ocupado com este género de repertório mas gostava de fazer mais trabalhos sinfónicos. Também fiz a segunda sinfonia de Beethoven.

AT: E com este grupo com quem tocou a missa e a oratória? Dirige-os frequentemente?

PN: Collegium Cartusianum.

AT: Exatamente. São geniais!

PN: Sim, sim. Normalmente os meus concertos são feitos com eles. Juntam-se nestas ocasiões.

AT: Nunca pensou, por exemplo, fazer a integral das sinfonias de Beethoven?

(risos)

PN: Ainda não, ainda não... Ainda não me solicitaram isso.

AT: É pena porque achei a sua direcção genial. Daquele fabuloso grupo que toca nos instrumentos antigos. Tudo perfeito. Os tempos, as dinâmicas, os ataques... Por isso espanta-me que não o convidem para fazer uma integral das sinfonias de Beethoven.

PN: Já existem muitas integrais dessas sinfonias.

AT: Seria mais uma de grande nível.

PN: Sim. Se me pedirem posso pensar no assunto.

AT: Você faz concertos sobretudo na Alemanha ou por todo o mundo?

PN: Sim. Na Alemanha. Também na Foule Journée em França e na Itália fizémos muitos, muitos concertos. Agora menos. Na Alemanha fiz muito Haendel, muitas oratórias. Gosto muito das oratórias de Haendel.

AT: Eu também. Quais são os seus projectos para o futuro próximo?

PN: Faremos a oratória de Haendel, Débora, em Novembro. Faremos a Paixão segundo São João em St. Peteresbourg e Moscou em dez dias. O próximo ano será um pouco mais calmo. Espero fazer Saúl de Haendel na Festa da Música. Também em Nantes e em Bilbao.

AT: Creio que não é suficientemente conhecido no mercado francês...

PN: Tivémos muito boas críticas em França para os oratórios de Haendel...

AT: Imagino...

PN: Sobretudo na "Réportoire". Gostaria muito de fazer as óperas de Mozart. Isso agradar-me-ia muito.

AT: Na actualidade há uma enorme onda de grupos que se dedicam a tocar nos instrumentos da época, supostamente ao estilo da época. Sobretudo na Europa, nos Eua não sei, mas que pensa desta explosão de músicos que buscam uma suposta autênticidade?

PN: Penso que é uma maneira de dar uma vida nova à música. Creio que é muito bom. No princípio era de cariz mais historicista mas agora há a maneira de tocar, as colorações, fazem-se interpretações modernas, de hoje.

AT: Conheço muitas orquestras alemãs que ouvi aqui e na Alemanha, sobretudo orquestras convencionais. Mas... todas as que ouvi são excelentes. As melhores entre as melhores!

(risos)

AT: Mas é verdade. Nem sequer falo na Berliner Philarmoniker... Há dois anos escutei a Orquestra Sinfónica de Berlim que acabou de falir. Que tem a dizer sobre isto?

PN: Certamente que é uma pena mas creio que vai haver uma mudança na construção e funcionamento das orquestras. Em trinta anos, não sei, haverá mais formações como a nossa que se juntam para um projecto concreto mas os músicos mantêm as suas actividades noutras orquestras, agrupamentos e no ensino. Haverá menos orquestras das cidades pagas pelo governo das cidades. Haverá mais orquestras de "mercado livre", constituídas por free-lancers.

AT: Ha!!! A sua orquestra é privada!

PN: Foi formada para um projecto. Os músicos tocam noutras orquestras.

AT: Acabou de me dizer que esta orquestra que dirigiu não tem um trabalho em permanência!

PN: Não. Não tem.

AT: Incrível!

PN: Sim. Mas tentamos sempre chamar os mesmos músicos para os diversos projectos. Desde que eles estejam disponíveis.

AT: Estou espantado. Eles revelam uma invulgar coesão de conjunto...

PN: Sim. É desta maneira.

AT: Isto é uma questão estranha mas... você ouve música contemporânea? Dos séculos vinte e vinte e um?

PN: Do século vinte escutei em Berlim e em Paris, escutei muitas obras da escola de Viena. Estudei também na classe de Messiaen. Durante um mês. E depois com Maderna e Boulez. Foi em 65/66. Toquei muito Messiaen no orgão também.

AT: Que pensa da construção europeia?

(risos)

AT: Ao nível cultural o que é que espera?

PN: É uma questão demasiado geral...

AT: Ao nível dos intercâmbios. Eu espero que você venha mais vezes a Portugal, por exemplo.

PN: Sim. Isso seria muito bem. Mas existem impostos que nos impedem. Impedem-nos de ir, por exemplo, a Itália onde se tem de pagar 30% de impostos. Muito mais que aquilo que pagamos ne Alemanha. E isto impede-nos de ir.

AT: Talvez uma Europa Federal com leis e impostos uniformes resolva isso...

PN: Pode ser, pode ser...

AT: Esta-me a dizer que em Itália paga 30% de impostos sobre o cachet que lhe pagam e aos músicos...

PN: Sim. Desta forma saímos demasiado caros ou então ganhamos demasiado pouco. Aqui e em Espanha não sei.

AT: Eu também não. De uma maneira geral o que pensa da actualidade musical não sómente ao nível da música antiga mas também ao nível das grandes orquestras românticas. Pensa que actualmente existem formações ainda melhores que há vinte anos?

PN: Sim. Eu penso que o nível técnico é verdadeiramente mais elevado. Mas ao nível da expressividade creio que se perdeu. Por vezes é somente a técnica. Mas também as gravações exigem que os concertos estejam ao nível dos registos.

AT: Acha que esqueci alguma pergunta? Quer dizer algo que ache importante?

PN: Não sei...

(risos)

AT: Gostou de estar nesta Festa?

PN: Muito. Gostei muito. Viémos aqui três vezes a Lisboa, quatro a Nantes e três a Bilbao e é verdadeiramente uma grande festa. Gostei muito.

AT: E para mim foi um grande prazer esta pequena conversa consigo que protagonizou os que foram para mim os melhores momentos desta Festa. Muito obrigado Peter Neumann.









2005/04/26

BEETHOVEN POR RUDOLF SERKIN


Pianista pouco conhecido entre nós e que no entanto é um dos "grandes absolutos" de todos os tempos, tem uma peculiar abordagem do compositor alemão caracterizada por uma depuração que muitos referiram como uma tentativa de anular a sua personalidade para que o resultado fosse "a música". Claro que da sua personalidade única faz parte essa modéstia e humildade extremas de alguém que procura de alguma maneira desaparecer para deixar a obra no "estado puro". Depois de uma Festa da Música com interpretações más ou medianas das sonatas para piano de Ludwig não poderia deixar de referir algumas gravações do grande Rudolf Serkin, todas a preços convenientes.

A aura-music tem editado um recital ao vivo de 1957 no qual é interpretada de uma forma miraculosa a sonata Apassionata. Contém peças de outros compositores. Uma preciosidade por cerca de sete euros em que se pode ter uma ideia da dimensão real deste imenso pianista.

A sony na colecção essential classics re-editou a sonata "patética" e a "hammerklavier" com leituras deslumbrantes do grande artista.

Foi também a sony que há anos colocou no mercado "The Unreleased Studio Recordins" onde nos três cd's, entre várias sonatas para piano, estão incluídas a primeira e as três últimas. Tratam-se de interpretações históricas e geniais.

Finalmente a telarc editou os concertos para piano onde Rudolf Serkin é acompanhado pela Boston Symphonic Orchestra dirigida por Seiji Ozawa. Estes registos receberam Awards 2004 da Gramophone além de um "galardão" da revista hi-fi pela qualidade sonora. O meu preferido é o cd que contém os concertos 1 e 3.

O outra grande referência (uma não exclui a outra, evidentemente) é o estojo de seis cd's de Emil Gilels, re-editados pela brilliant classics, que contém várias sonatas e a integral dos concertos para piano. O preço varia entre 18 e 22 euros. Sobre estas gravações já escrevi noutra ocasião.


A já referida aura-music também tem um cd ao vivo de Arturo Benedetti Michelangeli com três sonatas do compositor entre as quais a op.111. Por cerca de sete euros. A adquirir sem hesitações. Ast




Um e-mail que vale a pena publicar

Oláaa, Ast
Finalmente consegui ler o teu blog com calma.
Está muito bom (e é nº1 nos motores de busca da google e yahoo, UAU!!). Mesmo para leigos, como eu, está bastante interessante. Ajuda-nos a ter uma perspectiva um pouco diferente da música a seleccionar, o que poderemos ou não comprar. E também a não nos sentirmos uns 'babalus'. Dá vontade de ouvir música. Gostei muito. Parabéns. Beijinhos. Inês Portugal (Porto)


Aqui fica um e-mail que um tal "peão contemporaneo" me desafia a publicar. Se o PC só está a tentar "ajudar-me" a ultrapassar as minhas limitações porque é que faz tanta questão em ser publicado? Isto não é uma polémica e este espaço não é de todo um "fórum". Por isso o comentário da Inês à insinuação do "peão" não será publicado. Evidentemente que o "peão" não pode esperar vir a ser publicado novamente nesta página, independentemente dos argumentos mais ou menos artificiosos que esgrima. O editor.

Caro Sílvio,
Estou a escrever-lhe desinteressadamente e gostaria que publicasse este meu comentário do mesmo modo que publicou o da personagem "Inês Portugal", por favor.
Quero dizer-lhe que o seu blog me despertou algum interesse pelo facto do seu próprio autor fazer de tudo para que ele seja notado. Não posso deixar de lhe dizer que o seu esforço é realmente digno de nota. Consegue que (quase) toda a gente, pelo menos uma vez na vida, tenha consciência da sua existência. Porém, o teor da informação nem sempre é o mais interessante, a escrita é descuidada e revela uma certa iliteracia: uma grande quantidade de erros ortográficos, erros de sintaxe, erros de toda a espécie. Só com boa vontade se percebe o que quer dizer. Isto torna a leitura francamente desconfortável, aspecto que apenas poderia ser superado com a qualidade da informação (que neste caso é fraca, portanto não adianta nada). É visível o seu gosto pela escrita. Dado que descobriu essa sua inclinação, poderia tentar ler bons autores (romancistas, mesmo) e perceber por que motivo eles são bons autores. O que faz dum escritor um bom escritor? Tente aplicar as suas descobertas, depois, nos seus textinhos sobre música e músicos. Sinceramente, desaconselhava-o de tentar chamar a atenção para a sua pessoa. Um verdadeiro intelectual quer-se discreto. Não é fazer de tudo para ser notado e para imitar aqueles que o são que se chega a algum lado. Não inveje aqueles que têm algum protagonismo mesmo não o merecendo. Esse protagonismo será sujeito à triagem da história e, com ela, só os intelectuais elegantes e que deixam obra conseguem perpetuar. Também não é a segurar-se à muito antiga prática jornalística de pasquim (na publicação local a que o seu pai estava directamente ligado...) que conseguirá elevar-se aos olhos daqueles a quem pretende agradar (ou junto de quem pretende reconhecimento). Seja discreto. Escreva mais e publique muito menos. Pratique. Não tenha pressa. Seja homem e publique este meu comentário no seu blog. Mostre a sua disponibilidade para aceitar críticas construtivas. Se precisar de outros conselhos, não se acanhe. Os leitores servem para ajudar os críticos que estão a começar. Atentamente, PC









2005/04/24

TERCEIRO E ÚLTIMO DIA


Como já foi abaixo referido este domingo começou com a Heróica de Beethoven numa excelente interpretação da Sinfonia Varsóvia.
O Quarteto Prazák fez uma interpretação paradigmática do quarteto nº 11, 0p.95. Este quarteto possui um elevadíssimo nível e entre os quartetos de cordas presentes foi de longe o melhor. No outro extremo, o Quarteto Aviv deu-nos uma leitura mediocre da mesma obra. Má sonoridade, desafinações, brutalidade e falta de subtileza foi a "imagem de marca" deste agrupamento. Para esquecer.

Para relembrar foi a interpretação do concerto nº 5 do grande Ludwig tendo como solista Boris Berezovsky no piano, acompanhado pela Orquestra Filarmónica de Varsóvia dirigida por Antoni Wit. Berezovsky no seu estilo rápido e potente deu-nos uma leitura fulminantee desta obra grandiosa, acompanhado por uma boa orquestra dirigida por um grande maestro. As falhas do pianista foram irrelevantes num contexto de grande música.

A Festa da Música finalizou não como estava previsto com Variações Diabelli de Beethoven por Boris Berezovsky no piano mas com o trio op. 97 "Arquiduque" do compositor, numa fantástica interpretação de Dimitri Makhtin (violino), Alexander Kniazev (violoncelo) e o mesmo Berezovsky ao piano. Sobretudo no terceiro andamento a poesia fez música e os artistas ofereceram-nos momentos de genialidade. No entanto nas partes em que as cordas têm uma função de acompanhamento, continuaram a tocar como se tivessem a linha melódica condutora, escondendo as subtilezas melódicas que aconteciam no piano. Aconteceu sobretudo com o violoncelista que, diga-se de passagem, é um grande músico mas talvez tenha alguma dificuldade em fazer música de câmara onde todos os instrumentos têm os seus momentos de "brilho".



Excluindo como seria de prever a execução das sonatas para piano, pois pianistas de génio escassearam nesta festa, o balanço geral é positivo. As minhas escolhas pessoais estão feitas. São as mesmas que poderão ler mais abaixo. Quanto ás sinfonias de Beethoven, apesar da ausência de orquestras sinfónicas de primeiro plano, a Sinfonia Varsóvia (que não é um agrupamento sinfónico) teve um excelente desempenho. A Orquestra Filarmónica de Varsóvia também esteve bastante bem. Foi pena que agrupamentos como o Concerto Köln e o Colegium Cartusianum de Peter Neumann não tivessem sido solicitados para uma integral dessas sinfonias. Isso seria seguramente algo de muito especial.

Quanto ás futuras Festas da Música o governo tem de acautelar desde já uma descentralização progressiva dos concertos. Se é verdade que o público lisboeta acorreu em massa também é evidente que este acontecimento é pago por todos os portugueses que não fogem ao pagamento dos impostos. E que por consequência têm direito a participar deste evento. Ast










2005/04/23

GENIAL INTERPRETAÇÃO DA MISSA EM DÓ E DA ORATÓRIA OPUS 85


O Kölner Kammerchor e o Collegium Cartusianum dirigidos pelo fantástico Peter Neumann, tendo como solistas Simone Kermes, Franziska Orendi, Virgil Hartinger e Markus Lemke, ofereceram aos lisboetas no segundo dia da Festa da Música uma leitura assombrosa destas obras de Beethoven.

Tudo o que anteriormente foi escrito sobre o Concerto Köln aplica-se a este agrupamento que também utiliza instrumentos da época. Neste caso sob direcção de um maestro inspirado, com um côro deslumbrante e com solistas à altura. Simplesmente genial.

Genial foi igualmente a interpretação pela mesma orquestra e côro dirigidos pelo fantástico Neumann da oratória Cristo no Monte das Oliveiras, tendo como solistas Simone Kermes (soprano), Virgil Hartinger (tenor) e Markus Lemke (baixo). Para além dos aspectos já referidos noutro local foi impressionante a gestão das tensões por parte do chefe de orquestra que nos transmitiu uma leitura impressionante que comoveu o público que enchia totalmente o auditório principal do CCB. Destaque também para a grande técnica e expressividade dos solistas. A orquestra e o côro, tal como já foi escrito, são do melhor que existe no mundo não só para interpretações do periodo clássico como para um Beethoven da "segunda época" que já transcendeu o classicismo. A minha escolha antecipada, já o tinha dito na antena 2 da rdp que esteve totalmente entregue de corpo e máquinas à "festa", vai portanto para os dois agrupamentos alemães, para director Peter Neumann e para este fabuloso côro que nos trouxeram a Lisboa o que de melhor se pode fazer na interpretação do grande Ludwig (e também na interpretação dos amigos do van Beethoven).

A grande decepção foi a Missa Solemnis op 123, à volta da qual se geraram as maiores expectativas. O Concerto Köln que no dia anterior, sem maestro, foi genial demonstrou logo no início descordenação entre os naipes e até entre os instrumentistas do mesmo naipe. O grupo coral de renome (Rias-Kammerchor) surpreendeu pelo agudos gritados das sopranos sendo as cantoras solistas fracas. O maestro (Daniel Reuss) parecia nunca ter dirigido uma orquestra e foi ele quem provocou as descoordenações num agrupamento que é dos melhores do mundo em instrumentos da época. Malogro total. Ast








2005/04/22

SINFONIA VARSÓVIA, DUMAY E CONCERTO KÖLN


Se as Vinte e seis Variações sobre La Folia di Spagna de Salieri foram o "fait-divers" do concerto da Sinfonia Varsóvia não deixaram por isso de mostrar uma orquestra excelente e coesa com um óptimo concertino que desempenhou com falhas desprezíveis o dificil sólo que esta peça lhe reserva.
Mas foi na 5ª Sinfonia de Van Beethoven que a orquestra hipnotisou uma sala totalmeente cheia que aplaudiu estrondosamente no final. Impressionantes as duas trompas, o oboé e o clarinete. O fagote nem por isso mas as cordas são invejáveis. Os trombones foram emprestados: Hugo Assunção e companhia da orquestra Sinfónica Portuguesa desempenharam com valor o papel que lhes foi confiado. Um grande momento com pequenas falhas que no contexto global são irrelevantes. Peter Csaba, o maestro, foi eficaz.

A mesma orquestra com o mesmo director interpretaram o concerto para violino do mesmo compositor com o célebre Augustin Dumay como solista. No início descoordenados (devem ter tido um curto ensaio antes do concerto...) mas conseguiram entender-se e oferecer uma boa interpretação com desafinações muito pontuais do solista que no entanto é dono de uma sonoridade única. No terceiro andamento Dumay conseguiu momentos memoráveis apesar de quebras esporádicas.


No último dia da "festa" logo de manhã, este mesmo agrupamento interpretou a 3ª Sinfonia de Beethoven. Uma leitura muito boa onde a orquestra demonstrou a excelência de todos os naipes (os fagotes estiveram melhor) e Csaba mostrou ser pelo menos capaz de dirigir correctamente um agrupamento com um nível de excepção. Poderia ser diferente com outro chefe de orquestra mas o que nos foi oferecido foi de muito grande qualidade.


Em instrumentos da época e sem maestro o famoso Concerto Köln, no primeiro dia, interpretou três andamentos da sinfonia nº6 de Jan Willem Wilms (1772-1847) onde o impto romântico é uma evidência e que teve uma espectacular leitura por parte deste agrupamento que é talvez o melhor do mundo em instrumentos da época. Afinações perfeitas, controles dinâmicos impressionantes o que nem sempre é evidente nos instrumentos antigos e uma coordenação (sem director. Mas atenção que antes de Beethoven era o concertino ou o solista, no caso de concertos, que dirigia a orquestra) impressionante fazem-me eleger este concerto como o melhor deste 1º dia da Festa da Música. Foi também interpretado o Andante com moto da sinfonia op.33 de Anton Eberl, sendo a leitura igualmeente excelentee. Finalmente no primeiro andamento da 3ª de Beethoven (em meu entender foi uma interpretação excessivamente rápida. No entanto devo ressalvar que é este o andamento que Beethoven indica na partitura. Raramente os intérpretes optam por esta velocidade de leitura que pode impedir nuances expressivas) o concerto Köln mostrou porque é que durante anos e anos se tem mantido como uma das grandes referências nas interpretações "antigas". Ast








O DELÍRIO DO KITSCH

Pierre Henri. Um histórico. O inventor da música electroacústica. Trouxeram-no a Lisboa para inaugurar a Festa da Música com a sua "10ª Sinfonia". Evidentemente entre aspas. Inspirou-se, diz ele, em Beethoven. No Ludwig. Naquele que dá o mote à festa da música deste ano.

Que nos trouxe Henri? Colagens. Colagens de excertos de obras do Ludwig com uns ruidos muito identificáveis que ele gravou lá no seu laboratório em Paris. O problema foi evidente. A estas colagens faltou a cola. Tudo se sobrepôs, presentificando-se num mesmo presente, mas não fundiu. Não se trata já do velho preceito inventado pelo mesmo Henri que nos diz que todo o material concreto utilizado deve, na obra final, estar totalmente metamorfoseado e não ser identificável. Não se trata já disto. Tratam-se de elementares questões de bom gosto no que toca ás densidades e à gestão de tensões, à organização das polifonias, à concepção formal e a resultante perceptiva na audição, enfim à maneira como se cria uma obra.

Mas Henri conseguiu surpreender-nos a todos. De repente pôs uma batida dance-rasca que pôs o René Martin a abanar a cabeça como se estivesse numa disco. Só lhe faltava mesmo um copo de whisky na mão. Talvez um gin-tonic... Gente do público ria-se, o meu amigo "melómano" na fila de trás parecida algo estupefacto mantendo-se muito silêncioso. O maestro brasileiro e a esposa pareciam consternados. Afinal tratava-se de Pierre Henri, não de um qualquer dj a fazer de palhaço.
Isto é patético, pensei olhando para a histórica figura que dava saltinhos cada vez que manuseava os botões da mesa de mistura e movia o pé ao som da batida. Sentia-me comovido e nauseado pelo ridículo daquilo tudo.

Ouve-se uma cabra berrar. Uma, duas vezes. Foi o auge, pensei. Mas não. Passados momentos voltou a cabra berrando ainda mais alto, desta vez ao som de chocalhos. Isto é que é o verdadeiro espiríto da 6ª que esse bacamarte do Ludwig não captou.

Muito tempo depois ouve-se um relógio dar horas.

- Sim já são horas de fechar a loja, comentei eu.

E fechou mesmo. Um estrondoso ruído de uma porta (esqueceste-te dos nossos suspiros de alívio, Henri) fez-nos perceber que a loja tinha de facto fechado. O público saíu sem aplaudir. Ast





Um e-mail que vale a pena publicar


Boa tarde caro Álvaro Teixeira,

antes de mais quero agradecer-lhe o facto de me ter acompanhado a mim a ao Maestro Atalaya até à praça de táxis, depois do "memorável" espectaculo. Apresento as minhas humildes desculpas pelo modo como me ausentei ontem. Não tinha contado com a demora depois do "espectáculo" e os transportes públicos não são de muita confiança. Mas foi agradável a conversa através do jardim até aos Jerónimos. Agradeço que apresente as minhas desculpas à jovem que acabara de chegar e que me deve ter considerado " um bicho do mato".
Memorável espectáculo, bom gosto timbrico e chocálhico nas cordas de um 10ª à moda moderna. Remix de salão com ovelhas e cabra à mistura ( pareceu-me a mim ). Concordo plenamente consigo "aquilo" foi horrível, intragável e de mau gosto estético. Alguém não acreditou que o Henri suportava todo aquele tempo em pé. Perdeu a aposta. Impávido e não acreditando que aquilo demorasse tanto tempo, ele lá conseguiu suportar. Acto heróico concerteza.
Lembro-me de uma visita de estudo que efectuei ao museu da Gulbenkian, estava uma exposição de Picasso. Uma grande quantidade de pessoas aglomerava-se junto a um quadro, aproximei-me mas não consegui ver nada, tal era a quantidade de entendidos. Esperei que eles saíssem e fui investigar o que tanto entusiasmava aquele público. Olhei e juro que não consegui ver coisa alguma, uma enorme tela com uma pinta verde no canto superior esquerdo, mais nada. Fiquei ali a tentar entender o porquê de tanto interesse. Uma senhora idosa aproximou-se de mim e perguntou baixinho " fantástico, não acha?", olhei para ela e respondi "pois, mas o que é que está pintado?". Olhou para mim espantada e disse " meu jovem,não está a ver? Aquela pinta representa uma grande dor no artista, você é que não percebe nada". E afastou-se.
Pronto! Nós é que não percebemos nada do concerto de ontem. Tá explicado. Os melhores cumprimentos. Antonio Feio

Nota do editor: não se trata do actor homónimo.









2005/04/18

JIAN WANG INTERPRETA AS SUITES DE BACH


O violoncelista chines tocou as suites 1,5 e 3 de Johann Sebastian Bach na Gulbenkian na segunda-feira.
A sua leitura caracterizou-se por um virtuosismo inteligentemente manipulado e aparentemente trespassado por um conceito pessoal que se afasta tanto da leitura romantica quanto das mais recentes que se preocuparam essencialmente com uma suposta fidelidade ao "espirito da epoca". Trata-se portanto de um acontecimento em que esperamos podemos escutar, nas suites seguintes, Bach por um artista que revela uma autonomia interpretativa que pode fazer dele um marco contemporaneo na re-leitura destas suites para violoncelo solo.


Infelizmente na terça-feira Jian Wang nas suites 2,4 e 6, demonstrou não ser uma "terceira via" mas muito simplesmente uma repetição estafada das leituras românticas do passado mas muito abaixo de um Casals ou de um Fournier. De facto nas sonatas e partitas para violino do mesmo criador existem interpretações fabulosas em instrumentos modernos que se impuseram ao lado das leituras nos instrumentos da época (algumas para melhor) e que nada têm a ver com as "velhas" interpretações romantizadas. Era isto que esperávamos de Wang.

A "velha" leitura romântica só tem interesse devido aos "rasgos" daqueles grandes intérpretes pois no que diz respeito a aspectos como os fraseados, respirações, questões interpretativas relacionadas com o carácter de dança das várias partes das suites, esses eram pura e simplesmente escamoteados dando-se ênfase a uma individuação determinada por aspectos que não têm em conta a vertente estético-estilística destas composições, embora nas leituras de um artista genial como Casals se (pre) sinta uma "alma" muito peculiar que ainda hoje nos pode comover.

Na actualidade outros intérpretes de excepção tocaram estas suites em instrumentos da época (com cordas de tripa e um arco com curvatura contrária à dos arcos modernos que manipulado com posição diferente de prensão permite um fraseado muito ritmado e "dançante") que se tornaram as "grandes referências" contemporâneas. Primeiro foi Anner Bylsma que as gravou duas vezes, sendo a minha preferida a última tocada num grande Stradivarius com espigão (os instrumentos antigos são mantidos entre as pernas sem qualquer outro apoio o que permite outra ligação e manipulação do instrumento. Dado o tamanho do Stradivarius utilizado por Blysma esta posição não é praticável tornando-se indispensável o uso do espigão). Depois foi o seu aluno Pieter Wispelwey que as gravou para a Channel Classics e foi louvado em todo o mundo, continuando esta a ser para mim "a interpretação referência" para estas suites.

Leituras como a que Wang fez na terça-feira são maus produtos de uma concepção romântica que não consegue singularizar-se por falta de génio e incapacidade de inovação que é indispensável especialmente quando se está nos limites de uma concepção romantizada.
Não vou especificar mas genéricamente chocou-me a falta de "respiração" que é um aspecto essencial para delimitar os arcos discursivos. Chocou-me a falta de "balanceamento ritmíco". Chocou-me o fraseado monótono, consequência dos aspectos acima referidos. Chocou-me o ênfado e a falta de alma na Allemande e na Sarabande da 6ª suite em que intérprete soçobrou a um romântismo kitsch só capaz de provocar bocejos. Chocaram-me as desafinações consecutivas no prelúdio da mesma suite e na Giga que finaliza a obra, não aceitáveis num intérprete que nos é apresentado como sendo de "top mundial". Por acaso até tomei mais notas mas isto basta e sobra. O público que enchia o grande auditório da Gulbenkian aplaudiu de pé e com estrondosos "bravos". Assim é que é!

Procuram o sublime através destas suites? Então ouçam a interpretação de Peter Wispelwey.


Nota: não me sinto na obrigação de dar explicações mas como já fui repetidamente acusado de erros ortográficos ficam a saber que a primeira parte deste artigo foi escrito numa máquina sem acentos. Como não me apetece fazer a correcção aqui fica a informação. E a rima foi propositada.









2005/04/14

DAVID GRIMAL APRESENTA-SE EM LISBOA


David Grimal, que é um dos expoentes interessantes do violino na actualidade, interpretou o concerto para violino e orquestra de Erich Korngold acompanhado por uma pateticamente mediana Orquestra Gulbenkian, dirigida por Daniel Nazareth. Do programa fez parte a abertura de Hänsel und Gretel de Engelbert Humperdinck e na segunda parte foi interpretada a terceira sinfonia de Robert Schumann. No final do concerto de quinta-feira, que repetiu sexta, conversámos com David Grimal.


Álvaro Teixeira: Há muitos anos escrevi num diário português que este concerto não passa de um pastiche ultra-romântico. Continuo a pensar exatamente o mesmo...

David Grimal: Eu penso que é uma música muito kitsch. É uma música muito hollywoodesca mas com as raizes vienesas. No parte central do segundo movimento há como uma recordação de Schoenberg. Mas tudo o resto está no modo de fá que será posteriormente, depois Korngold porque foi ele quem começou a escrever no modo de fá, vulgarizado. Agora temos John Williams e outros que escrevem nesse modo, o que é completamente kitsch.

AT: Mas mesmo essa melodia do segundo movimento está muito mas construída. Na minha opinião. Depois existem fortes dissonâncias absolutamente desintegradas do contexto, do discurso musical.

DG: Isso não sei. É bastante naif sobretudo, a melodia do segundo movimento. Eu penso que dentro do género que esta obra representa está é bastante conseguida. Mas... não podemos dizer que é música séria.

AT: Você que acabou de tocar uma peça muito interessante (um extra de Bela Bartók) pouque é que toca uma peça nula como este concerto de Korngold?

(muitos risos)

DG: Nem sempre escolhemos com quem e o que vamos tocar...
Mas isto faz parte da música também. Eu toco muito o concerto de Beethoven, o de Brahms, o de Bartók, o de Berg, ou os de Mozart mas também toco Paganini e Korngold que também fazem parte da vida. Pode-se ter um prazer diferente tocando-os e escutando-os. São coisas diferentes que existem e que eu acho que merecem ser tocadas.

AT: O problema é que para vocês violinistas não há muito repertório... Contráriamente ao piano por exemplo.

DG: Não é verdade. Eu tenho cinquenta peças no repertório e tenho de estudar mais cinquenta. É um repertório enorme. Não sei se toda a minha vida será suficiente para tocar todo o repertório. Pode-se tocar Pendereki, Lutoslawski, Britten, não sei que mais... o concerto de Schoenberg, toda a música francesa, os concertos menos conhecidos de Miklos Rosa...

AT: Rosa?

DG: Rosa é um húngaro que foi para hollywood também. Há muito para tocar e a descobrir. Mas grandes obras? Concertos de Beethoven há só um. Não existem cinco. De Mozart não existem trinta. De Brahms não há dois, não contando com o duplo concerto. Mas há também um concerto de Schumann, um de Elgar, dois concertos de Prokovief, dois concertos de Chostakovitch...

AT: Ao nível da música contemporânea existem muitas obras para violino solo?

DG: Não existem assim tantas. Há muito mais para violoncelo solo, de facto. No século vinte o violoncelo conseguiu um grande destaque porque pessoas como Rostropovitch fizeram muito trabalho com os compositores e os violinistas foram mais preguiçosos. De tal maneira que se para o violoncelo existem muitas obras, para o violino de facto não existe uma verdadeira sucessão para a sonata de Bartók. Eu procurei... Há uma sonata de Zimmermann que no meu entender não tem a mesma qualidade.

AT: Não conheço essa obra mas Zimmermann é um grande compositor.

DG: É um grande compositor mas essa peça para violino não está, na minha opinião, ao nível da sonata de Bartók. Falei de Zimmermann justamente porque é um grande compositor. Trabalhei com muitos compositores que escreveram...

AT: Pascal Dusapin não tem nada para violino sólo?

(silêncio)

AT: Não gosta de Dusapin...

DG: Não sei. Não conheço tudo de Dusapin. Ele escreveu uma pequena peça para violoncelo mas que não é uma coisa séria... Mas isso depende se falamos de coisas sérias ou se falamos de tudo. Fomos muito severos com Kornagold mas na música contemporânea há muito "Korngold" também. E estão vivos!

AT: Bom... eu conheço bem a obra de Dusapin e em meu entender é um muito grande compositor. Mas não conheço essa peça para violoncelo. Mas qual é para você o limite entre a música séria e a não séria?

DG: Para mim não é uma boa pergunta porque não existe música séria e música não séria. Existe sim a maneira séria de abordar a música ou a maneira não séria de o fazer. A maneira não séria não me interessa. Daí que mesmo a música de Korngold para mim também pode ser séria nos limites do "décor" e do seu enquadramento. Mas pode ser trabalha com seriedade também. É isto.

AT: Mas assim temos limites demasiado volúveis... Podemos dizer que o último andamento do concerto de Korngold é absolutamente kitsch. Estivemos de acordo: não é música séria. Não podemos dizer agora, passados poucos minutos, que afinal é música séria.

DG: Mas não é isso. O que pode ser sério é a maneira de a interpretar.

AT: A sua forma de a tocar.

DG: Exatamente. Eu não sou compositor. Não sou compositor, nem crítico, nem professor de reflexão estética. Eu sou simplesmente um intérprete. Quer dizer que devo tocar toda a música. A minha missão é tocar tudo. Mas cada coisa que abordo, abordo-a de acordo com o seu carácter, de acordo com o seu contexto mas com o respeito pelo trabalho do compositor que eu de todas as maneiras não sou capaz de fazer. Depois há a música que eu recuso tocar porque é desonesta. Mas para mim Korngold não é uma música desonesta. É uma música sincera. Kitsch mas sincera.

AT: Pode-me dar um exemplo de música desonesta?

DG: Música desonesta... Sim, vou-lhe dar um exemplo de música desonesta... Existem obras sim... Mas não vou falar delas diante de um microfone. Em frente de uma garrafa de vinho podemos discutir sobre música. Existem mesmo compositores muito respeitáveis e muito sérios... Em Chostakovitch, por exemplo, existem obras desonestas. Para mim. Ele tem obras extraordinárias mas também tem obras em que ele não é sincero. Eu sei que foi por causa do sistema que ele foi obrigado a escrever obras um pouco de propaganda.

AT: São casos particulares...

DG: São casos particulares eu sei mas há obras em Beethoven que são peças de circustância e mal conseguidas. Ele próprio viu isso. Podemos encontrar muitos situações entre os maioires que escreveram música porque foram obrigados. Daí que essa música não funciona. E podemos ao mesmo tempo ver em compositores menores como Korngold, que era no entanto um compositor dotado mas que começou a fazer merdas como este concerto, mas ele fez isto com humor. Daí que eu aceito isto. Eu prefiro isto, onde há apesar de tudo talento, a coisas mais escolares como a Sinfonia Espanhola de Lallo que é mais estúpida. Bem mais estúpida. Há obras de Saint-Sains que também são mais estúpidas.

AT: ...

DG: O Rondó-Caprichoso foi conseguido como peça de circunstância. Não é música séria mas foi bem concebido. Mas o primeiro concerto não o foi.

AT: Você vive em França ou no Estados Unidos?

DG: Eu vivo em Paris!

AT: Como começou a falar inglês... É que existem alguns músicos franceses que foram para os Eua... A Hélène Grimaud foi viver para lá...

DG: É verdade?!

AT: Sim, é. Porque acha que ela foi para lá?

DG: Não sei. Temos de lhe perguntar.

(muitos risos)

AT: Que tem a dizer da música francesa post-Boulez? Crê que agora há mais liberdade estética que quando Boulez controlava tudo?

DG: Não se pode dizer que estamos no post-Boulez porque Boulez é ainda o papa. Mas há bastantes correntes estéticas em França e a linguagem está em vias de se re-definir, já não há uma linguagem homogénea. É muito dificil saber, quando não há continuidade histórica do ponto de vista da linguagem, o que tem valor ou não. É dificil dizer o que é experimental e o que vai ficar porque é uma linguagem que vai ter continuidade. A actualidade, para mim, é um periodo de transição onde se vai encontrar uma continuidade histórica com o passado, seja com a música tonal seja com a música modal , seja com outros caminhos expressivos que em meu entender estão ou na modalidade ou na tonalidade porque em meu entender a música serial ficará sempre em estado experimental.

AT: Você crê que todo o post-serialismo, todas as técnicas de triagem serializadas ficarão sempre em estado experimental?

DG: Penso que a música serial não funciona nas grandes formas. Funciona para as pequenas formas como em Webern. E Berg é música tonal não é música serial. Daí que funciona muito bem, efectivamente. A música serial é muito interessante mas não funciona. Como a Ars Subtilior do XIII século que era a música contrapuntística pura, isto não funciona. Os monges faziam vinte e quatro cânones ao mesmo tempo... isto não funciona. A música tem necessidade de um centro. Isto é muito interessante no papel mas não funciona. Na música serial é o mesmo. Há muitos acontecimentos ao mesmo tempo sem uma continuidade orgânica e uma correlação de tensão e distensão. E a música é isso. A música modal está menos neste registo de tensão/distensão mas é muito descritiva através das colorações. Para mim a linguagem serial na forma da música clássica não funciona.

AT: Muito obrigado.









ENSEMBLE MICROLOGUS INTERPRETA CANTIGAS DE SANTA MARIA


Afonso X, o sábio, século XIII, dedicou-se a homenagear a virgem pela composição de textos poéticos com música nos quais foram relatados os milagres e feitos louvores à dita virgem. Existem outras histórias que nos dão um retrato da época e das preocupações de Afonso: uma freira que é seduzida por um cavaleiro... batalhas entre Mouros e Cristãos... Numa das cantigas Afonso relata como foi milagrosamnte salvo mantendo sempre ao seu lado um livro com as cantigas...

É interessante por outro lado verificar a utilização de ritmos tipicamente árabes com métricas quinárias e octanárias. Ainda segundo as notas do programa, no que toca à rima existe uma relação evidente com a forma do Zajal que é um género mouro-andaluz que se desenvolveu na península ibérica. O idioma utilizado por Afonso foi evidentemente o galaico-português. No entanto deve referir-se que estilisticamente este ciclo tem pouco que ver com as cantigas de amor, de amigo, de escárnio e mal-dizer que todos estudamos no ensino secundário.

A corte de Afonso X foi um viveiro de intelectuais e artistas vindos de todo o mundo. Também essas influências estão presentes na sua obra.

A interpretação de Ensemble Micrologus foi de uma vivacidade fantástica utilizando instrumentos da época que nos permitiram contactar com as mesmas sonoridades que supostamente Afonso escutou. Interessante também é o conceito de não especialização. Os cantores eram também multi-instrumentistas.
Um espectáculo pleno de vivacidade e interesse. Como notou no final o doutor João Bosco, ainda hoje nos Açores se ouvem músicas populares que nos fazem lembrar algumas das escutadas neste concerto. Uma amiga assinalou ter ouvido algo parecido no folclore turco. Não tenho dúvidas que a influência deste códex se estenda muito para lá das antigas delimitações geográficas da cultura galaico-portuguesa. Existe um cd muito interessante da naxos com outras cantigas do códex interpretadas por outro agrupamento. Ast









2005/04/13

SÃO CARLOS COM O MESMO ORÇAMENTO QUE A GULBENKIAN?!


Pode ler-se em bajja.blogspot.com no artigo "O cancelamento de parte da temporada em São Carlos":

"O S. Carlos leva a cabo 4 ou 5 produções por ano, com 4 ou 5 récitas de cada uma. Não existe qualquer itinerância ou mesmo récitas populares (coliseu, etc.) que levariam as suas produções a um auditório muito alargado. Assim, o seu orçamento, só equivalente ao do serviço de música da Gulbenkian (e compare-se a actividade...) ou ao total do orçamento do IA, para todas as áreas!!! (teatro, música, dança), embora proveniente das contribuições de todos os cidadãos, é gasto num plano de actividades de uma irrelevância incontornável, já que a acção do Teatro apenas afecta uns 2000 portugueses. É muito, muito grave e começa a ser altura de alguém dizer que o rei vai nu."


Isto a ser verdade (ainda me custa a crer que um teatro de ópera de vigéssima categoria tenha um orçamento igual ao da Gulbenkian que é a oitava maior fundação europeia, que mantém a única temporada de música de nível internacional em Portugal e que não depende um cêntimo dos dinheiros públicos) exige algumas medidas imediatas. A saber:

1- Desvinculação da Orquestra Sinfónica Portuguesa da Fundação São Carlos. Esta orquestra que poderia ser uma boa orquestra tem vindo sucessivamente a ser destruída pela política dos responsáveis do São Carlos. A orquestra deve passar para a tutela directa do secretário de estado da cultura e de uma vez por todas deve ser ordenada à fundação do ccb (tantas fundações "públicas" para expoliarem o que os portugueses pagam de impostos...) que esta orquestra passe a utilizar a tempo inteiro as suas instalações, passando a orquestra residente.

2- Declaração de falência da Fundação São Carlos com a respectiva extinção.

3- Organizar um corpo heterogéneo de consultores para estudar e apresentar projectos para uma nova companhia de ópera, projectos a serem submetidos a debate público entre as partes interveninentes e os "críticos", "comentadores", "melómanos", políticos, etc. Não me parece pertinente a existência de uma companhia de ópera sem ser ser bem definido um projecto claro e consistente fundado sobre uma filosofia descentralizadora para a única companhia de ópera suportada com dinheiros públicos.


Um governo pode ter ou não coragem para governar contra as expectativas de alguns. Mas deve pelo menos ser capaz de impedir que os impostos dos cidadãos sejam totalmente espoliados em conjunturas nas quais nem há montanha nem há rato mas sim absurdidades que transcendem o rato e a montanha.


Nota: Uma regra básica do jornalismo é a das duas fontes: uma informação deve ser confirmada pelo menos através de duas fontes diferentes, coisa que não fiz neste caso. Em conversa com o ex-ministro da cultura Pedro Roseta, este demostrou-me o seu cepticismo em relação à veracidade da informação acima veículada e informou-me que uma parte do orçamento da ministério da cultura é cativo, isto é só pode ser disponibilizado pelo ministro das finanças. Daí as últimas peripécias do governo Santana em que a secretária de estado da cultura dizia haver todo o dinheiro necessário para a temporada do S. Carlos ser totalmente levada a efeito e o director do Ipae garantir que não. Evidentemente que não existiam as verbas porque o ministro das finanças não as tinha disponibilizado e o despacho da sec não teve qualquer efeito na libertação das mesmas.

Quanto à comparação dos orçamentos, o blog referido não diz se nele (no da Gulbenkian) estão incluídos os gastos fixos com a orquestra, o côro e a companhia dee dança (que está tutelada pelo serviço de música) ou é "únicamente" o orçamento respeitante aos artistas convidados.

No que diz respeito à descentralização, e nisto Pedro Roseta esteve de acordo comigo, existem já por todo o país salas com fosso de orquestra que permitem a apresentação de óperas, coisa que aliás tem acontecido com as companias do "ex-leste" que fazem digressões para ganharem "o pão nosso de cada dia". Ast



Uma saudação

"Desta vez tive tempo para visitar a sua página, com interesse e proveito. Tentei deixar um comentário no blog, mas não consegui. Por isso envio esta mensagem de felicitações. Cumprimentos do João Bosco Mota Amaral"















2005/04/10

ORQUESTRA SINFONICA DE BERLIM FALIU


Este acontecimento remete-nos para a entrevista de Heinz Holliger em que ele referiu exatamente a possibilidade, que a mim me pareceu irreal, do desaparecimento de orquestras e grupos corais de renome.
Ao dramatismo do discurso de Holliger contrapus um optimismo que parece de alguma maneira posto em causa.

Tempos estranhos estes...
No entanto devo assinalar que a Alemanha continua a contar com dezenas de orquestras de top (a Berliner Philharmoniker, por exemplo). A realidade demonstra que discos de musica classica continuam a aparecer nos top's de vendas de muitos paises europeus e que os grandes concertos encontram-se permanentemente esgotados em todo o mundo. Ast









2005/04/06

SETE DISCOS TRÊS PIANISTAS E UM CONCERTO


Um dia em conversa-entrevista com o grande pianista Abdel Rahman El Bacha que vem de editar a integral dos concertos de Prokovief que parece ter entrado na moda, referi-me a Hélène Grimaud como uma vedetazita superficial. El Bacha imediatamente saltou em defesa da pianista ficando eu a imaginar uma paixão longínqua que o impeliu à defesa da virtual amada que na altura passava de dez em dez minutos no canal muzik, agora mezzo, publicitando a sua última realização discográfica.

El Bacha disse-me algo do género: não sei como ela toca actualmente mas era uma pianista com uma intuição e uma inteligência musical fora do comum.

Passaram-se meses, menos de um ano. Já há algum tempo que tenho uma colecção de cinco cd's de Hélène Grimaud editados pela Brilliant Classics (a um preço fora de concorrência como todas as suas edições). Foi o preconceito que me levou a esperar meses até os escutar. Hélène Grimaud para mim era uma espécie de vedeta de tv (ainda que televisão de qualidade) e não ia perder tempo a escutar cinco discos desta pianista. Mas acabei por os ouvir...

O que El-Bacha disse é uma evidência nestes registos e só um surdo ou alguém com má fé poderá negar. São registos de há anos onde se escuta uma pianista radiosa, plena de talento e expressividade, tanto no 2º concerto de Rachmaninov como na 1ª Balada de Chopin interpretada com um vigor e uma frescura fabulosas. Também na "sonata Dante" de Liszt a pianista revela grande técnica ao serviço de uma expressividade inteligente, o mesmo se passando na Kreisleriana de Schumann e nas sonatas e peças de Brahms.

Na primeira série dos Études-Tableaux de Rachmaninov, que aparece num dos cd's deste estojo, Grimaud não é de todo convincente. Para estes "études" recomendo-vos vivamente a interpretação (re-editada pela emi a preço ultra-económico na série encore) de Vladimir Ovchinnikov. Interpretação absolutamente transcendente. Neste disco Ovchinnokov demonstra ser um pianista imenso.

Já agora... recomendo Rudolf Buchbinder em "Chopin - piano works" da mesma série. Grandes interpretações por um grande pianista práticamente desconhecido em Portugal que na Gulbenkian fez uma excelente interpretação do concerto em fá para piano e orquestra de Gershwin. Consta no programa que Sergei Diaghilev terá dito que este concerto é "bom jazz mas Liszt mediocre". Não me parece. Liszt não é de todo e se fosse bom jazz seria boa música.
Pena é que Buchbinder não tivesse sido convidado para um recital a solo.

A segunda parte do concerto foi preenchida com obras para orquestra de Maurice Ravel. A Orquestra Gulbenkian dirigida por Lawrence Foster esteve bem, sendo muito aplaudida no final. Deveria ampliar-se integrando os musicos convidados. Neste tipo de programa para grande orquestra demonstra ser bem mais eficaz que nas obras para orquestra reduzida. Ast



Nota: em www.portugalmusical.com encontrará uma agenda dos eventos musicais.










2005/04/04

MARATONA PROKOFIEV

Aconteceu domingo dia 3 em Lisboa e apresentou-se um grupo de alunos de Alexander Toradze e o próprio na interpretação da integral das sonatas de Sergey Prokofiev.

A "maratona" começou com a pianista Irma Svanadze que na interpretação das sonatas 1 e 2 conseguiu transmitir-nos de forma arrebatada e inteligente a profunda rotura estilística que acontece de uma para a outra. Apesar de serem as primeiras, são obras bem conseguidas do ponto de vista formal. Parte da música de Prokofiev padece de um pensamento descritivo que que não consegue garantir uma boa consistência formal. Estas sonatas são obras deliciosas onde a errância ao nível do desenvolvimento que marca outras, sobretudo a quarta e a nona, não se faz sentir. Irma é uma pianista sensível dotada de grande técnica que está a dar os primeiros passos numa carreira internacional que prevemos grande. Esperamos ouvi-la brevemente na interpretação de Scriabin.

Vakhtang Kodanashvili deu-nos uma fabulosa interpretação das terceira e sexta sonatas. Foi o único que levantou o público das cadeiras, em nosso entender justamente. A sua paleta de dinâmicas é grandiosa, o seu controle é total e as suas interpretações arrebatadas são de grande clareza e compreensibilidade. Auguram um grande pianista que em certa medida já é.

Tea Lomdaridze interpretou a quarta sonata que é uma obra desinteressante e aborrecida. É uma boa pianista que conseguiu grandes aplausos. Apesar da obra...

Sean Botkin ofereceu-nos a sonata nº5 e a 8ª sonatas. Substancialmente um bom pianista.

O mesmo direi de George Vatchnadze que interpretou a nona sonata, demasiado longa para o tipo de concepção estrutural que adopta. Motivos que aparecem e desaparecem sem consequências, retorno sistemático aos temas sem um desenvolvimento bem sustentado. Enfim, o contrário da escrita genial que Prokofiev conseguiu nos concertos para piano e orquestra e na 7ª sonata que é uma grande obra. Esta última foi interpretada por Toradze que teve uma performance excelente no primeiro andamento (o contraste entre o primeiro e segundos temas...) mas já no segundo que é um "andante caloroso" o pianista foi linear com um arco dinâmico restrito. No último que diz "precipitato" foi totalmente contido. Inevitável a comparação com a gravação de Polini.
Para acabar Vatchnadze ofereceu-nos os 40 compassos descobertos à poucos anos do que viria a ser a 10ª sonata do compositor. Pelo menos nesta quatro dezena de compassos pareceu que poderia vir a ser mais interessante e bem conseguida que a nona. Basicamente o "tríptico de guerra"(sonatas 6,7 e 8) é o grande legado do compositor na forma sonata. Ast



Nota: Durante os dias 2 e 3 decorreu no Teatro de São Luiz em Lisboa a 3ª Festa do Jazz onde para além dos "veteranos" portugueses se apresentaram agrupamentos de escolas de todo o país. Ficamos impressionados com o elevado nível que estes estudantes já apresentam o que augura um bom futuro para o Jazz Português. Destaque para o Sexteto da ESMAE-Porto. A 4º Festa do Jazz já foi anunciada para os dias 1 e 2 de Abril de 2006. Evidentemente a não perder.









2005/04/02

PROKOFIEV POR TORADZE

Acompanhado pela orquestra Gulbenkian que sob direcção de Bertrand de Billy lá fez fez o que pôde, Alexander Toradze interpretou o concerto para piano e orquestra nº3 de Prokofiev.

Alexander Toradze, fazendo justiça à fama que ganhou como um dos grandes intérpretes actuais do compositor russo, ofereceu-nos um autêntico show de sonoridades, ambiências, dinâmicas e contrastes ritmícos a que esta fantástica obra, que em nosso entender é uma das mais interessantes escritas para piano e orquestra, se presta.

Toradze gravou recentemente a integral dos concertos para piano de Prokofiev com a Orquestra do Kirov dirigida pelo grande Valery Gregiev, gravação saudada em todo o mundo como uma das referências discográficas para estes concertos. Para alguns "a referência", o que me leva a aconselhar muita precaução pois existem várias gravações por grandes pianistas e o registo deste 3º concerto por Martha Argerich é algo muito especial. Todos sabemos que sempre que há uma novidade discográfica surgem os "críticos de serviço" a falar em referência. Normal: faz parte da estratégia do mercado dos discos. Nesse mesmo cd, onde também é tocado o 3º de Bartók, Martha Argerich interpreta o 1º concerto do compositor russo de uma maneira simplesmente deslumbrante. Para além de tudo não nos podemos esquecer que a naxos tem o registo do 3º concerto tocado pelo próprio Prokofiev que era também um grande pianista. Na realidade se se falar de "a referência" para este concerto só pode ser seguramente esta fabulosa interpretação pelo próprio.

Comparações à parte, Toradze é um bom pianista que num dos dias nos ofereceu como encore uma muito personalizada (e discutível...) sonata de Scarllati e uma fulgurante (mas algo "amassada") interpretação do último andamento da 7ª sonata de Prokofiev. No dia seguinte (sexta-feira), Toradze ofereceu-nos outra peça de Prokofiev onde foi de novo mestre nos ambientes sonoros, assim como uma peça de Liszt (a 1ª consolação que pequenas nuances harmónicas à parte "é Chopin"). Aí Toradze revelou-se um mestre nas dinâmicas extremas dos pianíssimos. O limiar entre o audível e o inaudível. Ast









2005/04/01

PEDRO CARNEIRO INTERPRETA ERKKI-SVEN TÜÜR


Recebemos um exemplar "privado" daquilo que brevemente será disponibilizado ao público pela ecm. Tratam-se, tanto a obra como a interpretação, de algo que vale a pena ouvir, re-ouvir, colocar entre os cd's favoritos e voltar a ouvir sempre.

Tüür é um compositor completamente afastado da tradição post-serial. No entanto não se deixou resvalar para revivalismos de efeitos fáceis que na generalidade são para tratar como exercícios de estilo ou "brincadeiras" e não como obras de arte.

Ardor, concerto para marimba e orquestra, é uma grande obra de composição musical onde se demonstra que os caminhos existem "há é que caminhar". E para caminhar desta maneira há que ter intuição, inteligência e talento.

Pedro Carneiro é um percussionista português com uma excelente carreira internacional. Neste concerto em que é acompanhado pela Estonian National Symphonic Orchestra dirigida por Olari Elts o Pedro demonstra que para além de um virtuoso é um intérprete capaz de uma leitura meditativa e densa. A performance da orquestra é genial. Em nosso entender indispensável para os amantes da "grande música". Ast

Nota: a edição disponível ao público poderá aparecer interpretada por outra orquestra. O cd vai conter mais duas obras do compositor que já estão gravadas por orquestras diferentes. A ecm parece desejar que todas as obras do cd sejam executadas por uma única orquestra, o que vai obrigar a novas gravações talvez por uma orquestra diferente das três utilizadas nos anteriores registos.









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