CRITICA MUSICAL / MUSICAL CRITIC

Um blog de Álvaro Sílvio Teixeira

2005/09/29

NELKEN

Cravos.
Nada mais além de cravos.
Entram personagens, cada uma transportanto a sua cadeira. Sentam-se.
Paragem.
Um levanta-se. Está vestido de preto. Faz uma diagonal de um lento indeciso. Subita mas pausadamente desce o palco. Convida uma espectadora e sai com ela. Outros e outras imitam-o num andamento mais fluente.
Os que ficam começam a retirar-se. Levam as cadeiras.
Resta o homem de preto e gravata. Recita e mimetisa em linguagem gestual.
Grande luminosidade com música nostálgica.

Pina Baush, no seu melhor estilo, fez questão de que se realizasse uma pré-estreia para bailarinos, artistas, imprensa e "outros". O Teatro Municipal de São Luiz (Lisboa), de bom grado lhe fez a vontade. Os bilhetes para os espectáculos da coreógrafa mais famosa do mundo estavam esgotados faziam já alguns meses.
Durante o espectáculo este público de "habitués", "entendido" e caloroso, não se poupou a mostras do seu contentamento. Como seria de esperar... Pina Baush, como todos os grandes criadores, repetem-se sempre. Na inovadora genialidade dessa repetição estará, por acaso, o rasgo que os impõe à história.

Detenhamo-nos porque nos interestícios da repetição emerge, muito frequentemente, a diferencialidade.

Olhando bem vemos a imagem do poder que coage e goza (em pleno sentido lacaniano) com o acto de pura maldade, entrar em processos sucessivos de auto-destruição. Estamos na segunda tópica freudiana. Nesse obscuro "ça" que já não se opõe ao "moi". É um discurso sobre a "pura maldade" enquanto sublimação, sabendo-se ser este um dos aspectos mais obscuros e paradoxais do último Freud.

Depois dos "gorilas" se atirarem, num acto de espectacularidade suicidária, sobre as caixas que tão bem enfileiraram, destruindo-as, Pina Baush tinha delimitado as margens da sua poética.

Tudo e nada se passou entretanto com a coação do poder, seja ele qual fôr, ridiculamente omnipresente, ridiculamente ridicularizada, que vai de parceria com o acto de compulsão repetitiva (a trágica monotonia da repetição, segundo Freud).

O segundo momento chave foi a sucessão de quedas, impressionantes quedas, impressionante sequência, sobre uma mesa, oferecendo o seu ritual auto-destrutivo, como se de uma refeição se tratasse, a uma mulher. Que, sem sucesso, lhes ofereceu tudo para que se detivessem. Se o sadismo faz parte do exercício de um poder que pode ser sempre destruído e aniquilado sem se sair sequer (talvez por isso mesmo) do mesmo "campo pulsional"; já o masoquismo é dificil, insuportavelmente dificil de conceber - muito mais de observar - pois implica, em última instância, um "outro" que se escapa, nulificando um poder que não teve o poder de o deter, nem pela sedução. Há algo de fundamental, nesta incomodidade, quando esse masoquismo é exibido. Um retorno em espelho de uma pulsão elementar?

Já só resta o delírio. A esquizofrenia como escape, aqui na vertente do uso da substância. Do químico tão natural quanto as maçãs...

Por fim, face à atrocidade da auto-agressão exibida pelos carrascos que não desaparecem com subtileza, que insistem em impôr a sua mutilação numa derradeira tentativa de se esquivarem à verdadeira morte e afirmarem o seu poder, só queda o mergulho na vulgaridade. Vulgaridade da inconsistente foto de família feliz. Vulgaridade da motivação que os (nos) levou a ser bailarinos (as), artistas, ou qualquer coisa. AST
















2005/09/28

GUSTAV LEONHARDT NO FESTIVAL DE ORGÃO DE LISBOA

A carreira de Leonhardt corresponde ao nascimento da "nova" interpretação da "música antiga", ao seu desenvolvimento e à sua contemporaneidade. Foi Leonhardt quem no cravo e na direcção de pequenos grupos usando instrumentos da época, esteve na origem de todo um revivalismo que atinge, na actualidade, uma espécie de apogeu, com alguns dos seus ex-alunos a imporem-se na cena internacional com algum vedetismo, por um lado. Por outro lado, o quase infindável filão de cravistas excelentes que, provindos de uma linhagem quase directa, garantirão a continuidade da obra de Leonhardt que ficará para sempre como o "grande pai" e simultâneamente como o "paradigma".

Seria árduo fazer-se uma listagem exaustiva da obra de Gustav Leonhardt. Decidi por isso isolar três momentos, muito próximos, da sua obra que dificilmente poderemos não qualificar de "grandiosa": a gravação da partita do Clavierubung II no dia 3 de Novembro de 1967; o registo das suites francesas em 1975 e finalmente o das variações Goldberg em 1978. Obras, todas elas, do mestre de Leipzig.

Isolei estes três momentos, em meu entender particularmente conseguidos (não obstante a genialidade de todas as gravações mais recentes do intérprete), porque nos permitem fazer uma ponte directa, de quase 40 anos, com o recital que ontem (27 de Setembro de 2005) Gustav Leonhardt nos ofereceu em Lisboa.
Estou-nos a remeter, nomeadamente, para a obra com que finalizou o recital: Aria Variata alla Maniera Italiana BWV 989 de Johann Sebastian Bach.

Ontem, como nas gravações de há quarenta anos, Leonhardt situou-se numa espécie de transcendentalidade que pela inspiração profunda e tranquila, sem necessidade de recorrer a pirotecnias rítmicas, nos dá uma dimensão outra, que é dele Gustav Leonhardt, que o coloca sempre pelo menos um grau acima do mais genial dos génios do cravo, sejam eles quais forem, pois, felizmente, graças a ele - Leonhardt - há muitos na actualidade.

A interpretação que fez das variações "alla maniera italiana" à volta de uma ária simples, emanadas do punho do grande Johann Sebastian, remetem-nos directamente para o passado, nomeadamente para aqueles três momentos que escolhi, em que Leonhardt optou pela metafísica. Simplesmente a sua metafísica é uma metafísica do belo. Uma metafísica do genial. Ao acesso de todos. Basta estar disponivel, livre, e ouvir. E pela audição somos conduzidos, pelos dedos inspirados de Leonhardt, através do melhor que a "humana condição" nos conseguiu oferecer. E que já foi bastante. AST









FESTIVAL DE ORGÃO DE LISBOA
Junto um elogio a este festival que já vai na nona edição e é querido dos lisboetas, e deixo só a sugestão de no programa constar SEMPRE a tonalidade das peças, para nos ficarem elucidados os caprichos de diapasão dos instrumentos.
A bicha de pessoas que se estendia até depois da Trindade também pode elucidar a opinião corrente e liberal que reza que o povo não dá valor a concertos grátis. http://arauxo.blogspot.com (29.9.05)















2005/09/27

Pièces de clavecin en concerts

Jean-Philippe Rameau, depois do sucesso das sonatas para cravo com acompanhamento de violino (podemos verificar influências deste estilo em Mozart e Beethoven em algumas partes das sonatas para violino e piano onde o papel condutor é claramente desempenhado por este último), quis criar mais peças, em que ao contrário da "sonate a tre" de origem italiana, o cravo desempenhasse um papel solístico. No conjunto verifica-se que todos os instrumentos desempenham um papel mais equilibrado, ao contrário da "sonate a tre" onde o cravo e o violoncelo (normalmente uma viola de gamba ou um fagote) fazem o "baixo cifrado" que não passa de um acompanhamento escrito em cifra.

Portanto, estas peças para "cravo em concerto" possuem uma versatilidade tipicamente barroca ao nível da orquestração, uma vez que podem ser feitas por um cravo com um violino, uma flauta e uma viola de gamba, como por um violino, uma viola e uma viola de gamba, ou simplesmente um violino e uma viola de gamba (mais o cravo), com a introdução de pequenas alterações. Alterações essas previstas pelo compositor que fez a transcrição, ele mesmo, de algumas dessas peças para cravo solo.

O cravista Christophe Rousset, em 1992 preferiu realizar a interpretação com mais um violino (Ryo Terakado) e uma viola de gamba (Kaori Uemura). Mais recentemente Blandine Rannou gravou com um violino, uma flauta e uma viola de gamba, recebendo todas (ou quase) as "condecorações" das revistas francesas.

Ouvindo a versão re-editada em 2003 (musique d'abord - harmonia mundi) de Rousset, não ficam dúvidas que este último consegue uma leitura mais contrastante rítimica e dinâmicamente (as dinâmicas no cravo - que é um instrumento sem possibilidade de graduação das intensidades - trabalham-se pelas densidades, através dos registos escolhidos). Uma leitura onde o intérprete demonstra quer a sua faceta lírica e meditativa, quer a sua faceta de grande virtuoso. Rousset registou também as versões só para cravo transcritas pela mão de Rameau. Esta gravação continua, em meu entender, a ser a grande referência para estas peças criadas por um Rameau supostamente já quinquagenário. Dos títulos das peças, se alguns são já históricamente evidentes (o texto que acompanha o cd fala-nos disso e de tudo o resto), outros mantêm o seu enigma. Afinal o importante é a grande música que o compositor aqui nos oferece através de um virtuoso inspirado que nos últimos anos (quase) abandonou o cravo, como solista, para se dedicar à direcção orquestral de obras barrocas. AST















2005/09/24

MOUTIN REUNION QUARTET

Os gémeos Moutin (Louis na bateria e François no contrabaixo) apresentaram-se em Portugal com Pierre de Bethmann ao piano e Stéphane Guillaume nos saxofones (alto e soprano). Aconteceu dia 23 no Auditório Municipal Eunice Muñoz, no segundo dia do Ciclo Internacional de Jazz - Oeiras 2005.

O jazz francês tem já uma longa tradição de elegância e inovação. Este concerto foi mais uma prova da imensa vitalidade do jazz que se produz no hexágono.

Não vale a pena estar a destacar os impressionantes "curricula" musical dos gémeos (curiosidade: François é doutorado em física, Louis é licenciado em matemática). Vale sim a pena dizer que no auditório de Oeiras se viveram momentos de grande força rítmica, trabalhada de maneira inteligente e com musicalidade, de grandes contrastes eficazmente enquadrados, de grande balanceamento melódico e de encadeamentos harmónicos onde a tradição jazzística francesa coexistiu com o rasgar de novas modalidades de a re-trabalhar. Sem margem para dúvidas: foi um dos melhores concertos de 2005. AST















JORGE PEIXINHO (1940-1995)

Dia 23 de Setembro a Câmara Municipal de Matosinhos homenageou o compositor que marcou toda a segunda metade do século vinte em Portugal.
Na ocasião o compositor Cândido Lima apresentou o álbum "Música para Piano" de Jorge Peixinho do qual foram interpretadas algumas peças pelo pianista Miguel Borges Coelho.
A homenagem contou com a presença de Mário Vieira de Carvalho, musicólogo e secretário de estado da cultura.















2005/09/20

LOCATELLI: FLUTE SONATAS


Pietro Antonio Locatelli (1695-1764) compôs duas séries de sonatas para flauta "travessa": as doze sonatas op.2 e as seis sonatas "a tre" op.5

São peças onde a fluência melódica coexiste com um virtuosismo inteligente que as transforma num "must" da produção barroca para o instrumento.

De novo, num registo do presente ano, Jed Wentz, acompanhado por Musica ad Rhenum, oferece-nos interpretações paradigmáticas que recomendo não só aos flautistas mas a todos os amantes da boa música.
Wentz, na sua melhor forma, desenvolve um fraseado fabuloso, um dos seus ex-libris, que eleva a mais-valia inerente a estas obras escritas por um inspirado Locatelli.

Musica ad Rhenum, já aqui foi escrito, é um dos mais interessantes grupos de música antiga da actualidade. Nestas interpretações os seus elementos, quer fazendo o baixo-continuo quer participando como solistas, uma vez mais nos demonstram o seu nível supremo, temperado por uma evidente (audível...) musicalidade. Uma edição, em 3 cd's, da Brilliant Classics. AST

Nota: Em 2004 este mesmo agrupamento gravou para a mesma editora a integral de música de câmara de François Couperin que foi louvada como um dos acontecimentos discográficos daquele ano. oe










Está anunciada para Dezembro próximo mais uma edição do festival Other Minds. Organizado pela homónima organização sem fins lucrativos, baseada em S. Francisco, Califórnia, em co-produção com a Swedenborgian Church e a Piedmont Piano Company, agrupa compositores, estudantes e ouvintes da nova música contemporânea.
O festival inspira-se nas ideias e concepções musicais de John Cage, compositor norte-americano falecido em 1992, e num obituário publicado pelo jornal The New Yorker, em que se dizia ter Cage escrito música “in other peoples’ minds”. Daí a denominação daquele que é considerado um dos maiores festivais intenacionais de new music.
O director artístico e executivo é Charles Amirkhanian, ele próprio um compositor de música electroacústica de renome. Enquanto músico e pensador, Amirkhanian interessou-se pela música de John Cage deste o início dos anos 50. Com outros compositores foi agregando vontades. Assim, entre 1988 e 1991, co-dirigiu com John Lifton aquele que foi o antecessor do Other Minds, o Composer-to-Composer Festival, por onde passaram John Cage, Lou Harrison, Brian Eno, Pauline Oliveros, Morton Subotnick, Laurie Anderson, Henry Brant, Wadada Leo Smith, Louis Andriessen, Conlon Nancarrow, Jin Hi Kim, Joan La Barbara, I Wayan Sadra, Eleanor Alberga, Peter Sculthorpe, Alan Hovhaness, Tom Zé, Terry Riley e Sarah Hopkins.
Para se ter uma ideia da diversidade estética e da importância musical associadas ao festival, repare-se nos nomes que já integraram o Other Minds Advisory Board: Muhal Richard Abrams, Laurie Anderson, Henry Brant, Gavin Bryars, Luc Ferrari (falecido o mês passado), Philip Glass, Lou Harrison, George Lewis, György Ligeti, Meredith Monk, Kent Nagano, Terry Riley, Frederic Rzewski, Tan Dun, Trimpin e Julia Wolfe. http://jazzearredores.blogspot.com (22.9.05)









Já a ficção das instituições que se dizem privadas sendo inteiramente financiadas por dinheiros públicos é escandalosa e altamente lesiva dos interesses do Estado, e o exemplo do CCB é por demais elucidativo das inconsistências que este tipo de disfuncionalidades podem ocasionar.
Boa parte destes artigos de Seabra versam ainda sobre os mecanismos perversos do mecenato, e na generalidade retratam a podridão e a ferrugem que nunca como agora está a aparecer nas fundações do nosso sistema público da cultura, reclamando com legitimidade e urgência esclarecimentos que a tutela até agora não viu necessidade de prestar. Ficamos a aguardar.
José Augusto encontra ainda que "há algumas matérias de trabalho jornalístico de fundo, necessárias ao esclarecimento, que nunca vi na imprensa portuguesa. Por exemplo sobre as modalidades e âmbitos do mecenato, como sobre os modelos orgânicos de certas instituições culturais públicas." Isto é claramente um understatement, a miopia dos editores da cultura na imprensa portuguesa é outro escândalo que reclama esclarecimentos. Tenho a impressão que bem podemos esperar sentados. http://arauxo.blogspot.com (21.9.05)















2005/09/17

Esperanças Destruídas e Oportunidades perdidas


Os compromissos na luta contra a pobreza da Cimeira de Nova Iorque seriamente enfraquecidos


Milhões de activistas no mundo já expressaram o seu desapontamento e surpresa com os resultados da Cimeira das Nações Unidas em Nova Iorque. Em vez de aproveitarem uma oportunidade histórica para tomar passos claros na luta contra a pobreza e insegurança, os líderes mundiais acabaram simplesmente por reafirmar promessas já feitas.
...
Na Cimeira do Milénio em 2000, os líderes mundiais anunciaram promessas ambiciosas: “de que não poupariam esforços para libertar os nossos homens, mulheres e crianças das condições desumanas da pobreza extrema, em que vivem mais de mil milhões deles.”
Cinco anos depois a diferença abismal entre as promessas e a acção mantém-se. Pouco ou nada mudou. Os níveis de pobreza globais aumentaram desde 2000, tal como as desigualdades nos países e entre países. Nenhum tipo de discurso caloroso conseguirá esconder o facto de que os líderes mundiais falharam no seu apoio aos mais pobres e fizeram orelhas moucas a milhões de activistas.
...
Os únicos pontos positivos em termos de resultado da Cimeira foram, principalmente, nas áreas dos direitos das mulheres e o acordo de que os governos têm, de forma colectiva, uma “responsabilidade para proteger cidadãos e cidadãs” do genocídio, crimes de guerra, limpeza étnica e crimes contra a humanidade. Os governos reconheceram que a equalidade de género só pode progredir se os governos puserem fim à impunidade na violência contra as mulheres, garantir os seus direitos laborais, de propriedade e saúde reproductiva, e envolver as mulheres em todos os esforços para a paz e segurança. OS governos comprometaram-se também e de forma clara em alcançar o acesso universal à prevenção, tratamento e cuidados no que toca ao HIV/SIDA, reafirmando o compromisso feito no encontro de Julho dos G-8 em Gleneagles.

Assumindo a responsabilidade de cidadãos, os milhões de activistas da campanha “Pobreza Zero”, em Portugal e no Mundo, redobrarão esforços na luta contra a pobreza, através de várias estratégias:

Educação para o Desenvolvimento, promovendo a tomada de consciência de todos os cidadãos, para o imperativo da dignidade e dos direitos humanos;
Advocacia social, pressionando os nossos líderes políticos para que executem as políticas sociais e económicas realmente exigidas pelos cidadãos;
Programas e projectos de cooperação para o desenvolvimento, através das organizações não governamentais que actuam no terreno.

Nota para os Editores: A campanha “Pobreza Zero” está integrada na Global Call to Action against Poverty (GCAP) – Apelo Global para a Acção na Lututa Contra a Pobreza, a maior coligação anti-pobreza do mundo. Esta campanha pretende iniciar o fim da pobreza extrema, ainda em 2005, com acções muito diversas, de forma a despertar os decisores políticos na luta contra a pobreza extrema, tomando medidas concretas nas Nações Unidas para que sejam atingidos os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio e acabar de vez com a pobreza extrema. Esta coligação é feita por campanhas nacionais sediadas em 74 países, tais como a Pobreza Zero em Portugal, MAKEPOVERTYHISTORY no Reino Unido, 'Wakati Ni Sasa' (O momento para agir é agora) no Quénia, Wada Na Todo Abhiyan’ (Mantenham as vossas promessas!) na Índia, 'Sin Excusas contra la Pobreza' no Paraguai.

O símbolo global da campanha é uma banda branca e o site www.whiteband.org , onde se pode obter todas as informações sobre cada campanha no mundo. O site da campanha portuguesa é o www.pobrezazero.org






Muito grave foi, em nosso entender, terem esquecido - limitaram-se a reconhecer que "é um problema" - a questão das emissões de gazes poluentes para a atmosfera. Mesmo o Katrina não conseguiu imprimir lucidez aos governantes mundiais. A começar pelos EUA. Uma lástima...
Inacreditáveis foram os "efeitos colaterais" devidos a um filme israelita que, supostamente por engano, foi exibido num festival de cinema no Egipto: o director do festival declarou que foi evidentemente um engano porque um filme israelita nunca poderia ser apresentado num festival egípcio!
Mas têm acontecido situações idênticas no desporto: a recusa de atletas islamitas - talvez coagidos directa ou indirectamente pelos radicais - em se disputarem com atletas israelitas. Tudo sob o olhar, pouco afectado, da "comunidade internacional".
E já agora, se pudessem, proibiam a audição do maior génio da música sinfónica? Gustav Mahler era judeu. Entre outros "monstros sagrados" da história.
Surrealista a situação que se vai repetir em Portugal com as movimentações das "forças de segurança", agora acompanhadas pelos militares. Provavelmente, se não estivéssemos na "Europa", já teriam feito um golpe de estado. A "Europa" que nos vai salvando...
Mas nada é de espantar num país em que se dão e retiram convites (para os concertos de música clássica, nomeadamente) de acordo com o "culturalmente correcto" que em Portugal, como em alguns países do ex-terceiro-mundo, significa adaptar-se ("muito adequadamente") ao "sistema"... O editor


Já agora, por (mera) curiosidade: http://criticademusica.blogspot.com/2004_04_01_criticademusica_archive.html















2005/09/15

CONCERTOS OITOCENTISTAS POR JED WENTZ E MUSICA AD RHENUM

Trata-se de um duplo cd a preço fora-de-concorrência editado pela Brilliant Classics. No primeiro cd podemos escutar alguns concertos para flauta transversal e grupo de câmara de vários compositores italianos (Vivaldi, Ferrandini, Albinoni, Galuppi e Giordani). O segundo cd é inteiramente dedicado aos concertos (igualmente para "travesso") criados em Dresden e Berlin por Johann Joachim Quantz.

O flautista é Jed Wentz que simultâneamente dirige este grupo de músicos que interpretam com instrumentos da época: Musica ad Rhenum

Wentz, que estudou flauta com Barthold Kuijken e trabalhou com alguns dos agrupamentos que fizeram história na "nova" interpretação da "música antiga", é capaz de fraseados belíssimos devidos a uma excepcional compreensão da literatura musical daquela época e a uma técnica suprema que faz dele um dos flautistas mais inspirados da actualidade.

O agrupamento, aqui, em gravações de 1991 e 1996, afirma-se como um dos grupos mais interessantes, coesos e musicais no que respeita à re-interpretação da chamada música antiga em instrumentos (ou cópias de instrumentos) da época, utilizando o que se conhece das técnicas interpretativas em uso no tempo em que os compositores viveram e criaram.

18-th Century Flute Concerti é uma verdadeira dávida que estes intérpretes de excepção oferecem ao seu potêncial público por intermédio de uma etiqueta (uma das poucas) que pratica o "preço justo". Preço esse só possivel graças aos músicos que prescindem de honorários e só recebem as "royalites" devidas ás vendas. Pena que em Portugal estes cd's estejam um pouco mais caros que noutros paises... AST




Nota: Estão mais caros cerca de 50 cêntimos por cd. Pinhões... se pensarmos que a última gravação de La Mer de Debussy, por Simon Rattle à frente da Berliner Philharmoniker, custa mais 5 (cinco!) euros em Portugal que, por exemplo, na casa Fame, bem no centro de Amsterdam, onde pode ser adquirida por 15 euros. Uma multinacional que vende (e muito) em Portugal, colocou este cd ao preço "especial" de 18,95 euros... O editor







Uma breve deslocação à Holanda e a última manhã antes do regresso passada em Amesterdão, o que permitiu reduzir a lista de CDs por comprar. A visita foi à loja do costume, na Kalverstraat, mesmo à beira do Museu da Madame Tussaud. E é sempre um prazer descer as escadas para a secção de música clássica e encontrar menos gente e muitos mais discos do que na FNAC... http://desnorte.blogspot.com (Julho 15, 2004)






Em 1933, o compositor austro-húngaro (e cidadão americano) Arnold Schoenberg (1874-1951), de quem já falámos de passagem neste postal a propósito da sua amizade com o igualmente compositor Alexander Zemlinsky (1871-1942), rumou aos Estados Unidos, que a sua condição de judeu a isso o obrigou.
Em Setembro de 1936 concluiu o Concerto para Violino, em Los Angeles, cidade onde se tinha instalado em 1934. É um concerto de grande dificuldade técnica, um dos mais difíceis do repertório para violino, dedicado por Schoenberg ao compositor austríaco Anton Webern (1883-1945) e "destinado a violinistas de 6 dedos"...
A estreia teve lugar em Filadélfia no dia 6 de Dezembro de 1940, com o violinista norte-americano, ucraniano de nascimento, Louis Krasner (1903-1995) e a Orquestra de Filadélfia dirigida por Leopold Stokowski.
Curiosamente, Schoenberg, o autor da obra, nasceu num dia 13 de Setembro, de 1874, e Stokowski, o maestro que a estreou, faleceu igualmente num dia 13 de Setembro, há 28 anos! http://desnorte.blogspot.com (Setembro 13, 2005)














2005/09/12

L'AMOUR DE LOIN

A primeira ópera da finlandesa Kaija Saariaho (www.saariaho.org), em cinco actos, foi estreada no Festival de Salzburg de 2000.

Desde logo se impôs como uma obra fundamental do e para o novo milénio. Mas mais do que isso: esta imensa obra (dura pouco mais de duas horas mas é "imensa") é, em meu entender, mais uma incontornável de toda a história da música.

L'amour de Loin é uma obra com libreto de Amin Maalouf, escritor libanês que escreve em françês, onde Kaija consegue fabulosos equilibrios graças ao seu génio, claro está, mas também a uma muito inteligente orquestração.

Esta impressionante obra encontra-se agora em dvd, com uma explêndida direcção musical de Esa-Pekka Salonen à frente dos excelentes côro e orquestra da Ópera Nacional da Finlândia. Há absolutamente que destacar a interpretação da soprano Dawn Upshaw que consegue transmitir toda a densidade e dramatismo desta criação fora-de-série.

Falta dizer que se trata também de uma obra de arte da realização em vídeo: o director é nada mais nada menos que Peter Sellars. O cenário e os figurinos são sóbrios e fantásticos! AST







L’AMOUR DE LOIN

DISTRIBUTION

JAUFRÉ RUDEL, prince de Blaye et Troubadour (baryton)
CLÉMENCE, comtesse de Tripoli (soprano)
LE PÈLERIN (mezzo-soprano)

Au XIIe siècle, en Aquitaine, à Tripoli et en mer.

Acte I - Jaufré Rudel, prince de Blaye, s’est lassé de la vie de plaisirs des jeunes gens de son rang. Il aspire à un amour différent, lointain, qu’il est résigné à ne jamais voir satisfait. Ses anciens compagnons, en choeur, lui reprochent ce changement et le moquent. Ils lui disent que la femme qu’il chante n’existe pas. Mais un pèlerin, arrivé d’Outremer, affirme qu’une telle femme existe, et qu’il l’a rencontrée. Jaufré ne pensera plus qu’à elle.

Acte II - Reparti en Orient, le Pèlerin rencontre la comtesse de Tripoli, et lui avoue qu’en Occident, un prince-troubadour la célèbre dans ses chansons en l’appelant son "amour de loin". D’abord offusquée, la dame se met à rêver de cet amoureux étrange et lointain, mais elle se demande aussi si elle mérite une telle dévotion.

Acte III - Premier tableau. Revenu à Blaye, le Pèlerin rencontre Jaufré et lui avoue que la dame sait désormais qu’il la chante. Ce qui décide le troubadour à se rendre en personne auprès d’elle. Second tableau. Clémence, de son côté, semble préférer que leur relation demeure ainsi lointaine. Elle ne veut pas vivre dans l’attente, elle ne veut pas souffrir.

Acte IV - Parti en mer, Jaufré est impatient de retrouver son "amour de loin", mais en même temps il redoute cette rencontre. Il regrette d’être parti sur un coup de tête, et son angoisse est telle qu’il en tombe malade, de plus en plus malade à mesure qu’il s’approche de Tripoli. Il y arrive mourant...

Acte V - Quand le bateau accoste, le Pèlerin s’en va prévenir Clémence que Jaufré est là, mais qu’il est au plus mal, et qu’il demande à la voir. Le troubadour arrive à la citadelle de Tripoli inconscient, porté sur une civière. En présence de la femme qu’il a chantée, il reprend peu à peu ses esprits. Les deux "amants de loin" se rencontrent alors, et l’approche du malheur leur fait brûler les étapes. Ils s’avouent leur passion, se tiennent, promettent de s’aimer... Quand Jaufré meurt dans ses bras, Clémence se révolte contre le Ciel, puis, s’estimant responsable du drame qui vient de se produire, elle décide d’entrer au couvent. La dernière scène la montre en prière, mais ses paroles sont ambiguës et l’on ne sait pas très bien qui prie-t-elle à genoux, son Dieu lointain, ou bien son "amour de loin". www.schirmer.com/amour/indexf.html







Kaija Saariaho

The Finnish composer Kaija Saariaho (born 1952) has lived and worked in Paris since 1982. She studied composition under Paavo Heininen at the Sibelius Academy and later at the Musikhochschule in Freiburg with Brian Ferneyhough and Klaus Huber, receiving her diploma there in 1983. In 1982 she attended courses in computer music at IRCAM in Paris, since when the computer has been an important element of her composing technique.
In 1986 she was awarded the Kranichsteiner Preis at the new music summer courses in Darmstadt, and in 1988 the Prix Italia, for her work Stilleben. In 1989 Stilleben and Io were awarded the Ars Electronica Prize. More recently, in 2000 she received both the Nordic Music Prize (for Lonh) and the Stoeger Award of the Chamber Music Society of Lincoln Center (in recognition of outstanding services to chamber music).

She achieved international reputation with works that include Verblendungen (orchestra and tape, 1982-84), Lichtbogen for chamber ensemble and electronics (1985-96), Nymphéa (1987) for string quartet and electronics, a commission from the Lincoln Center for the Kronos Quartet), and two linked orchestral works Du Cristal and ...à la fumée premiered in 1990 and 1991 both in Helsinki and Los Angeles. Saariaho has also taken part in a number of multimedia productions such as the full-length ballet Maa (1991) and a pan-European collaborative project to produce a CD-ROM Prisma about her life and work.

More recent works include a violin concerto, Graal Théâtre, for Gidon Kremer premiered at the 1995 BBC Proms and two pieces for Dawn Upshaw: an orchestral song cycle, Château de l'âme, premiered at the 1996 Salzburg Festival, and a solo song cycle Lonh for soprano and electronics, premiered at the 1996 Wien Modern Festival. Lonh was awarded the Nordic Music Prize in 2000. In 1999 Saariaho completed a major work for chorus and orchestra, Oltra mar, which was premiered by the New York Philharmonic and Kurt Masur on 11th November 1999, as part of their millennium series of commissions.

These last three projects point to Kaija Saariaho's next major work: her first opera, L'amour de loin. A co-commission from the Salzburg Festival and Théâtre du Châtelet, L'amour de loin is based on "La Vida breve" of Jaufre Rudel, Prince of Blaye, one of the first great troubadours of the 12th century. The libretto has been written by the French-Lebanese author Amin Maalouf. L'amour de loin was premiered on 15th August 2000 at the Salzburg Festival, directed by Peter Sellars and with a cast including Dawn Upshaw, Dagmar Peckova and Dwayne Croft. The orchestra of SWR Baden-Baden was conducted by Kent Nagano. Théâtre du Châtelet, and Stadttheater Bern will produce the work at the end of 2001, and the US premiere will be given by Santa Fe opera in summer 2002.

In 2001 Kaija Saariaho was awarded the Rolf Schock Prize (Sweden) and the Kaske Prize (Germany). Saariaho's music is available on the Finlandia, Ondine, Wergo, Neuma and BIS record labels. Her CD-ROM Prisma is now available for purchase via her website: www.petals.org www.schirmer.com/composers/saariaho/bio.html















QUESTÕES DE SOBERANIA...

Uns dias após ter escrito nesta página que Portugal desbaratou fortunas com dois submarinos que não se percebe bem para o que servem, um analista (que supostamente nos lê e por quem temos todo o respeito) escreveu num diário português qualquer coisa do género: deveria ter sido explicado ao cidadão comum (obrigado pela qualificação!) que a aquisição dos submarinos se prende com questões de soberania.

Não pensei voltar a abordar a questão neste espaço de crítica de música. No entanto como nesta época escasseiam os grandes acontecimentos musicais, voltemos ás "questões de soberania".

Portugal viu recentemente reduzido o espaço das suas águas territoriais. As águas comunitárias são responsabilidade da UE que não sugeriu ao estado português a aquisição de quaisquer submarinos. Os compromissos adquiridos no âmbito da Nato não têm qualquer relevância face ás responsabilidades de Portugal dentro da UE. A Nato é uma instituição condenada à dissolução: não faz qualquer sentido nos tempos que correm, tantos anos após o fim do Pacto de Varsóvia.

A Noruega, que pelo quinto ano consecutivo vai ser considerado o país do mundo com o melhor índice de desenvolvimento humano e não faz nem quer fazer parte da UE não podendo - por inerência - contar com a protecção de um futuro exército comunitário, não tem nem pensa ter exército próprio. É completamente autónoma, tem petróleo mas desenvolve energias alternativas, e não vive obececada com questões de soberania.
Possui alguns dos submarinos mais desenvolvidos do mundo, completamente concebidos e fabricados naquele país. Todos destinados à investigação, ao trabalho sub-aquático e a operações de resgate. O editor















2005/09/03

JOACHIM KUHN E SONNY FORTUNE NO FÓRUM LISBOA

O conhecido pianista de "jazz-contemporâneo" apresentou-se a solo, dia 2, no novo festival de jazz que aconteceu de 1 a 4 de Setembro no Fórum Lisboa.

Kuhn, que demonstrou um elevado nível técnico e um conhecimento aprofundado da escola clássica, nomeadamente da segunda escola de Viena com a qual manifesta claras afinidades, afirmou-se como um dos mais interessantes e inventivos pianistas de jazz da actualidade.

Se no início parecia procurar um conceito, procura esta que se manifestou em cortes temáticos abruptos e numa falta de desenvolvimento consistente dos temas apresentados (que eram atonais e nos quais as harmonias apareciam sem carácter funcional, como uma espécie de pontuação do discurso), já no desenvolvimento que fez dos temas de Ornette Coleman demonstrou uma linguagem muito mais consistente sem fazer cedências à tonalidade tradicional enquanto motor de estruturação do discurso musical.

Surpresa das surpresas: pega num saxofone alto e desata a improvisar de maneira virtuosa, numa "onda free", demonstrando uma excelente técnica e sonoridade; improvisação essa que foi desenvolvida ao longo de cerca de quinze minutos.

Acabou novamente ao piano (foi para isso que nos deslocamos para o escutar...) com uma improvisação que de início parecia estacionar dentro de uma concepção minimal-repetitiva que prometia monotonia mas, num arrebato, fez a modulação que causou a ruptura e a partir daí manteve um ritmo de variação e movimento que garantiram um grande e conseguido final de concerto.
Um concerto que em qualquer parte do mundo seria de casa cheia aqui esteve preenchida a um quarto...

No dia seguinte Don Byron quase encheu a casa. No entanto o famoso clarinetista ficou-se por fórmulas previsíveis. Nos andamentos rápidos adoptou harmonias mais "arrojadas", sempre dentro da mesma "onda" improvisativa; nos lentos refugiou-se em harmonias mais "calorosas" e clássicas. Foi acompanhado por um pianista bastante eficaz ao nível rítimico, preenchendo bem um contrabaixo que Byron dispensou, mas cuja mão-direita, bem patente nos seus solos, faria sorrir um estudante dos primeiros anos do conservatório. O baterista optou por uma batida frequentemente quadrada, pouco trabalhada ao nível de nuances e sem surpresas ritmico-tímbricas. Excepto nos solos em que ao fogo de artíficio percutivo opunha uma secção de sonoridades e subtilezas. Curioso é o facto de Byron, no saxofone tenor, extrair uma sonoridade mais rica e expressiva que no clarinete que o tornou conhecido mundialmente. Neste último, movimenta-se exclusivamente nos registos agudo e sobre-agudo, por vezes com claras falhas no ataque, sustentação e controle dos harmónicos, deixando por explorar a rica zona grave do instrumento e não aproveitando as enormes potêncialidades tímbricas e dinâmicas do clarinete, tão exploradas na música contemporânea.

Sonny Fortune (sax alto) e Rashid Ali (bateria), com a sala a um terço, ofereceram-nos um "free" pleno de balançeamento mas onde poderiamos reduzir as figurações rítimicas utilizadas pelo saxofonista, que é um grande músico, a três um quatro grupos. Poderia ter evoluido gradualmente para formulações mais complexas... Ficou a sensação de se ter escutado transposições sucessivas do mesmo material, ao longo da improvisação ininterrupta de mais de uma hora, que teve por base o tema Impressions de John Coltrane.
O baterista optou por baquetes duras que produziram uma sonoridade penetrante; por vezes exageradamente impositiva. A sua performance também foi empobrecida por uma insistente marcação do tempo que produziu uma desagradável sensação de quadratura. No entanto e apesar destes aspectos, Ali foi capaz de uma exuberância tímbrico-rítimica que muito enriqueceu o denso discurso de Fortune no saxofone.
Basicamente foi um grande concerto que encerrou a primeira edição do ForUmusica - protagonizado por dois históricos do jazz - que deixa boas expectativas em relação ao futuro deste festival. AST








Em 1868, o compositor austríaco Anton Bruckner mudou-se para Viena, passo essencial para alargar as suas oportunidades no mundo da música, algo limitadas em Linz, cidade onde tinha vivido e trabalhado desde 1855. Um dia cruzou-se no restaurante Zum roten Igel com o igualmente compositor Johannes Brahms (1833-1897), a residir em Viena desde os inícios dos anos 60, tendo a conversa entre ambos incidido exclusivamente sobre temas... culinários! http://desnorte.blogspot.com (Setembro 04, 2005)










Vacation is Over... an open letter from Michael Moore to George W. Bush

Friday, September 2nd, 2005
Dear Mr. Bush:
Any idea where all our helicopters are? It's Day 5 of Hurricane Katrina and thousands remain stranded in New Orleans and need to be airlifted. Where on earth could you have misplaced all our military choppers? Do you need help finding them? I once lost my car in a Sears parking lot. Man, was that a drag.
...
And don't listen to those who, in the coming days, will reveal how you specifically reduced the Army Corps of Engineers' budget for New Orleans this summer for the third year in a row. You just tell them that even if you hadn't cut the money to fix those levees, there weren't going to be any Army engineers to fix them anyway because you had a much more important construction job for them -- BUILDING DEMOCRACY IN IRAQ!
...
No, Mr. Bush, you just stay the course. It's not your fault that 30 percent of New Orleans lives in poverty or that tens of thousands had no transportation to get out of town. C'mon, they're black! I mean, it's not like this happened to Kennebunkport. Can you imagine leaving white people on their roofs for five days? Don't make me laugh! Race has nothing -- NOTHING -- to do with this!
You hang in there, Mr. Bush. Just try to find a few of our Army helicopters and send them there. Pretend the people of New Orleans and the Gulf Coast are near Tikrit.
Yours,
Michael Moore

P.S. That annoying mother, Cindy Sheehan, is no longer at your ranch. She and dozens of other relatives of the Iraqi War dead are now driving across the country, stopping in many cities along the way. Maybe you can catch up with them before they get to DC on September 21st.
www.michaelmoore.com
















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