CRITICA MUSICAL / MUSICAL CRITIC

Um blog de Álvaro Sílvio Teixeira

2006/03/24

DISENCHANTED FOREST x 1001

Esta instalação de 2005, criada pela canadiana Angela Bulloch, nascida em 1966, é bordejada por 1001 chapas de metal numeradas e dispostas em sequência, contornado as paredes que a delimitam.
Estas chapas foram usadas pela agência ambiental canadiana para numerar árvores.
Sete canais com sons, trabalhados por Florian Hecker, disparam polifonias sonoras que atravessam a instalação, ao mesmo tempo que as luminosidades controladas automaticamente variam, destacando aspectos e encobrindo outros. Um texto em branco fluorescente destaca-se numa das paredes quando a luminosidade se torna difusa.
Quando as luz baixa ao seu mínimo os fios brancos que formam a “floresta” adquirem fluorescência assumindo composições várias de acordo com o lugar onde nos situamos. Há um ponto, um e só um, que nos permite penetrar a floresta de fios. Penetrar até um lugar delimitado a partir do qual se torna impossivel prosseguir.
Lá em frente, quatro círculos litografados, cuja visibilidade é favorecida ou anulada pelo jogo das luminosidades.
No chão outro círculo litografado parece em vias de construção: junto a ele um martelo e outros instrumentos de trabalho.
Referência evidente a “Sisteen Miles of String”, apresentada em New York, no ano 1942, por Marcel Duchamp. A ver na British Tate. Entrada livre. Pilar Villa














O QUE É TERCEIRO-MUNDISMO?

É quando uma instituição construída com os dinheiros públicos, o CCB em Lisboa-Portugal, recebe um "subsídio" de 16 milhões de euros, segundo "consta", para passar a maior parte do tempo a alugar salas para eventos comerciais, alugueres esses que deveriam pagar a festa da música que anualmente organiza, dispensando quaisquer ajudas do Estado. Mas não.

É o teatro nacional português de ópera encomendar, repetidamente, obras a um tal Azio Corghi. Não estão a ver? Naturalmente não.

Terceiro-mundismo é quando o fisco, a "máquina" que nunca falha em reter os impostos de quem trabalha por conta de outrem, se "esquece" de cobrar mais de 700.000 euros devidos pelo patrão da Vodafone Portugal. Como foi possivel ter acontecido um "esquecimento" destes?! Quem vai pagar ao estado português a quantia que deveria ter sido cobrada e não o foi?

É quando, segundo notícia na primeira página de um diário português (edição de 20 de Março de 2006), triplicaram as reformas de luxo oferecidas pelo estado português. E aparecem números: gente que pode gozar a "terceira-idade" com uns confortáveis 7.500, 6.000, e por aí fora, euros mensais. Num país onde o ordenado mínimo está abaixo dos 400 euros mensais e onde existem idosos a receber menos de 300 euros mensais, como se pode denominar o "fenómeno"? Em vez de se diminuirem estes montantes que, eles sim, exaurem os cofres da segurança social que o governo diz estar em ruptura (ruptura para alguns: isto é bem claro e bem típico do "terceiro-mundo" que não parece estar em "vias de desenvolvimento"), permite-se que tripliquem o número dos "reformados dourados"!

Terceiro mundismo também é, no país da UE com maior taxa de acidentes de viação (Portugal), não estarem presos desde há muito, e impedidos definitiva e liminarmente de voltarem a exercer qualquer actividade no sector, os corruptos do mundo do "ensino" da condução, que praticam, entre outros crimes graves, homicídios por negligência ao receberem dinheiro extra dos alunos para lhes facilitarem a aquisição da respectiva licença de condução. Um perigo para todo o mundo, nomeadamente para a UE, uma vez que esta gente, sem as capacitações necessárias, pode alugar um carro e praticar, noutros países, a sua condução suícida e assassina. Desde há muito que se sabe que o "ensino" da condução é uma das áreas mais obscuras da corrupção em Portugal. Mas tudo continua igual!

Terceiro-Mundismo é um país onde as universidades possuem tanta autonomia que todas as arbitrariedades escapam a qualquer controle "superior" pois o "poder superior" está centrado nos orgãos da própria instituição, que muito dificilmente o exercem pois há que respeitar a "autonomia inter-pares". Aumentou a oferta de cursos universitários, o número de mestrandos e doutorandos, mas o país parece não beneficiar rigorosamente nada com isso, antes pelo contrário. Fica-se com a ideia que, nas universidades portuguesas, se criaram cursos e pós-graduações, mestrados e doutoramentos para justificar os lugares que os docentes ocupam, mais nas públicas que nas privadas, e para as universidades ganharem mais "algum" com o montante das propinas pagas pelos alunos.
Existem compadrios, mediocridade e arbitrariedade em algumas, provavelmente demasiadas, universidades portuguesas. Das públicas, onde os docentes têm regalias e condições na generalidade melhores que os das privadas, raramente emanam trabalhos "interessantes", isto é, com relevância internacional. Em Portugal não há avaliação séria dos docentes universitários. Todos sabemos disto mas nada parece mudar realmente. Na Argentina, por exemplo, os professores universitários são obrigados, de sete em sete anos, a defender o seu lugar, demonstrando que para além de se terem mantido actualizados fizeram, durante esse periodo, investigação considerada "relevante". E não têm, na Argentina, nem no Reino Unido, os ordenados, relativos ou absolutos, nem o horário lectivo especialmente reduzido como acontece com os docentes das universidades públicas portuguesas. Louvo as excepções. Louvo aqueles que se dedicam, de forma espontânea e genuína, mantendo a intensidade de investigação e produção ao longo de toda a sua vida académica.
Houve doutorandos que, em universidades públicas portuguesas (nunca assisti a doutoramentos nas privadas), passaram com unânimidade, distinção e louvôr (houve um, em que no júri ninguém "dominava" minimamente a área em que o candidato trabalhou, limitando-se a constatar, o arguente, que aquela era uma tese "muito erudita"), que numa qualquer universidade europeia, na Argentina, ou em universidades com o mínimo de exigência, seriam obrigados a refazer a tese. Na melhor das hipóteses...

Também é verdade que parte substâncial dos alunos das universidades privadas portuguesas e dos alunos de muitos cursos das universidades públicas e institutos politécnicos portugueses, num sistema "normal", "evoluído" e "eficaz", estariam em cursos profissionalizantes. Que lhes seriam muito mais úteis a eles e ao país.

Para já não falarmos daqueles que voltaram a Portugal com doutoramentos ilegais - que não são reconhecidos no país onde o grau foi adquirido - e que estão a ocupar lugares em universidades portuguesas. E porque os continuam a ocupar tendo um documento que não é válido nem à luz do Processo de Bolonha nem à luz do mais vulgar senso comum? Porque as universidades portuguesas são tão autónomas que podem aceitar diplomas que não têm validade no país onde estão estabelecidas as instituições que os emitiram. Em Espanha, estado das grandes autonomias, as universidades não têm autonomia para reconhecer diplomas estrangeiros com vista à aquisição de grau com validade académica dentro do país. Em Espanha só têm validade os diplomas expedidos pelos serviços centrais do ministério da educação, assinados pelo(a) ministro(a) da educação e pelo rei.

Pede-se pois à Comissão Europeia que tenha a gentileza de intervir. O seu actual presidente tem uma responsabilidade muito grande e muito directa em todo este estado de coisas uma vez que foi primeiro-ministro de Portugal. Acredito que ao governo português lhe interesse modificar este estado de coisas. Afinal o que está em causa, na realidade, é, nada mais nada menos, a sustentabilidade do país no médio prazo. Em palavras mais simples: a existência do país. AST



... os burros são afectados por dificuldades cognitivas, a caridade e a benemerência são solidariedade social, e os primos e primas, afilhados e amigos a quem é necessário arranjar emprego no Estado são acessores, adjuntos e técnicos especialistas. A única coisa que não muda é Portugal. Metro Portugal, 22 de Março de 2006, pag 8



If it were within, within our power/Beyond the reach of slavish pride/To no longer harbour grievances/Behind the mask's opportunist's facade/We could welcome the responsibility/Like a long lost friend/And re-establish the kingdom of laughter/In the dolls house once again/For time has imprisoned us in the order of our years/In the discipline of our ways/And in the passing of momentary stillness/We can see our chaos in motion, our chaos in motion/We can see our chaos in motion/View our chaos in motion/And the subsequent collisions of fools/Well versed in the subtle art of slavery - Dead Can Dance http://aeperdida.blogspot.com















2006/03/17

UM RIGOLLETO SERVIDO EM INGLÊS

Acha uma ideia bizarra?
E se fôr com uma encenção fabulosa, uma orquestra de grande nível, uns intérpretes com grande voz e teatralidade, acompanhados por um côro de excepção? Continuará a achar o mesmo?
A produção do Rigoletto de Giuseppe Verdi, levada a cabo pela English National Opera (ENO), à qual que pûde assitir na noite de sábado, dia 18 de Março, foi tudo menos banal.
Logo na abertura, a orquestra, dirigida Phillip Thomas, ofereceu-nos uma introdução de estarrecer, dando o mote para uma interpretação marcada pelo tragédia que teve o apogeu com o assassinato de Gilda. Há que dizer que a encenação, originalmente criada por Jonathan Miller, aqui re-creada por Elaine Tyler-Hall, remetendo-nos para o mundo da máfia dos anos 50, reforçou (e de que maneira!) todo o clima de insanidade que esta ópera do genial Giuseppe (que trabalhou sobre um texto de Francesco Maria Piave a partir do romance Le roi s'amuse de Victor Hugo) nos dá. Um clima de insanidade que esta encenação demonstra ser transversal a uma determinada e vulgarizada "condição humana". Transpôr o texto de Piave para os anos 50, substituindo os personagens que rodeavam o duque italiano por mafiosos, teve muito mais eficácia que as encenações convencionais, porque nos transmite "mais realidade". As encenações tradicionais remetem-nos para uma história que nos surge longínqua e desprovida de actualidade. Esta encenação remete-nos para o nosso mundo recente e faz-nos pensar nas formas súbteis que os mafiosos de todas as ordens, nuns paises mais que noutros, adoptam para contornar leis, chantagear ou tentar anular social, política e culturalmente quem se torna incómodo e, sobretudo, manter intocáveis os seus inenarráveis privilégios. Na verdade, comparando com uma interessante encenação de "Cosi" de W.A. Mozart que trabalhava o mesmo conceito de emprestar à encenação um maior grau de actualidade, remetendo-nos, naquele caso, para os anos 70, encenação que pûde assistir na Staatsoper Unter den Linden já lá vão vários anos, considero que o trabalho deste conceito, foi, neste Rigolleto posto em cena pela ENO, mais eficaz e potênciou substancialmente mais o texto do libreto que, sem qualquer dúvida, oferece-se bem para este género de tratamento. No que toca à encenação ficarei por aqui. Para não entrarmos no campo das ilações de carácter ético-filosófico (mas sobretudo psicanalista se quisermos ir ao "fundamento"), à volta da "sede de poder" e da absoluta tangencialidade do mesmo...
O côro da ENO revelou uma excelência que me surpreendeu. Apesar de ser bem conhecida a tradição dos ingleses na música coral, a elevada prestação que o côro da ENO atingiu nesta produção superou francamente as minhas melhores expectativas, sendo mais um elemento fundamental para o grande nível de toda a performance.
Quanto aos solistas, antes de todos tivemos um fantástico Rigoletto, incarnado por um convincente Alan Opie, que nos deu toda a trágica dimensão deste personagem-símbolo, cuja sede de vingança, variante da sede de poder, o conduziu ao abismo. A sua voz timbrada de colorações sombrias foi o instrumento ideal para este desempenho.
O Duque foi interpretado por Peter Auty que, na pele de um mafioso esperto, desenrascado e pragmático, sempre de pente em riste a compôr o cabelo para mantêr a "imagem", dotado de uma voz clara, bem colocada e com grande projecção, nos remeteu à dimensão mais básica e elementar que a existência humana pode adquirir.
Judith Howarth, no papel de Gilda, sem ser especialmente marcante conseguiu ser minimamente eficaz revelando um nível razoável.
Scott Davies esteve muito bem como Borsa, o mesmo acontecendo com David Stephenson que foi Marullo, Hans-Peter Scheidegger que representou Monterone e Paul Reves no papel de Ceprano. Fiona Canfield, que representou a esposa de Ceprano, no seu curtíssimo desempenho esteve excelente. A versão em inglês foi de James Fenton. AST















ROMEO AND JULIET POR GENNADI ROZHDESTVENSKY

O grande chefe-de-orquestra russo veio mostrar-nos o que pode ser uma leitura assombrosa da obra que, repetidamente, tem sido (mal) tocada na ROH a acompanhar o famoso ballet que tem esgotado as bilheteiras. Por isso, nem por acaso, poucos dias passados depois de ouvirmos a orquestra da ROH a fazer uma asneirada de primeirissima ordem (sob batuta de um "maestro" do qual nem nos lembramos do nome), maltratando esta obra impressionante, veio o genial russo mostrar aos londrinos como verdadeiramente se toca o Romeu e Julieta do seu compatriota Sergei Prokofiev, dirigindo a Royal Philharmonic Orchestra.

Este genial chefe de orquestra, homem idoso que caminha a custo, homem cujas leituras das sinfonias de Shostakovich se tornaram paradigmas, com gestos minimais conseguiu elevar a RPO a estados de grandiosidade a que raramente assistimos. Claro, houve aquela oitava sinfonia de Mahler, inesquecivel, sob batuta do grande Sinnopoli. Que quando o fomos procurar a Dresden tinha falecido... Como consolo, muito a-posteriori, este Gennadi, inspirado, genial, modesto (dirigiu no mesmo patamar da orquestra, rejeitando subir ao estrado que o eleva face aos constituintes da mesma) e velhinho, veio oferecer-nos uma leitura do "ballet", uma integral, que supera tudo o que ouvimos em concerto e possuimos em discos. Se se trata de uma obra "programatica" pois que vivam as obras com programa, "descritivas"... Se dirigidas por maestros como Gennadi.

A RPO, com a sua sonoridade grandiosa e quente, com sete trompas espectaculares, com os metais dotados da maestria dos trompas, com naipes de madeiras perfeitos, timbaleiros artistas e cordas eloquentes (ainda que a sonoridade do naipe dos violoncelos necessite de um maior apuramento), com o fabuloso maestro russo a dirigir, conseguiu, nesta noite do dia 17, fazer algo de novo. De monumental. Esperemos que tenham feito um registo... Livios Pereyra















EXCERTOS DE ROMEU E JULIETA POR YURI SIMONOV

Enquanto esperamos ansiosamente que as edições The Royal Philarmonic Orchestra tenham a bondade de editar o registo do concerto "live" acima tratado, cujo preço rondará os 6 ou 7 euros por cd (a integral do ballet serão dois ou três cd's pois trata-se de uma obra que dura cerca de três horas), com a grande qualidade sonora a que estas edições nos habituaram, aproveito para sugerir a audição de excertos das suites que Prokofiev extraiu daquela obra, numa interpretação de outro grande chefe de orquestra russo à frente da mesma orquestra.

Com uma técnica de 32 bit, as edições da RPO oferecem-nos excertos das duas suites sob direcção de Yuri Simonov. No mesmo cd é-nos oferecida uma interpretação da sinfonia número um, que o compositor apelidou de "clássica", aqui dotada de uma interpretação que muito valoriza uma obra de interesse e escrita discutíveis. Também lá vem a Suite Sinfónica op 60, "Lieutenant Kijé", do mesmo Prokofiev, que é uma composição tão idiota que nem uma interpretação de nível superior, como esta, a consegue elevar do estado de idiotia.

Mas voltemos ao Romeu e Julieta. Logo de início, em Montagues and Capulets, Simonov extrai da orquestra um efeito sonoro impresssionante dando o mote para uma interpretação que me permito considerar "paradigmática". Da mesma maneira, no final, em Romeo at the Grave of Juliet, o maestro extrai da orquestra sonoridades magníficas dotadas de uma força imensa que desliza de maneira surpreendente para o silêncio-limite que a morte dos amantes impõe. O trabalho contrastante entre "cenas" absolutamente distintas é de uma inteligência rara, conseguindo dar-nos a ilusão de uma perfeita continuidade entre as ditas cenas, coisa que não acontece uma vez que são excertos escolhidos a partir das duas suites que são elas mesmas a "síntese" de uma obra de grande duração e grandes rasgos.
Evidentemente que Simonov contou com as sonoridades luxuoriantes desta orquestra fantástica que, nas mãos de maestros de excepção como ele e Gennadi Rozhdestvensky, é capaz de autênticos "monumentos" à genialidade que a "condição humana" também é capaz de produzir. Para além do resto... AST















EUGENE ONEGIN

A ópera de Pyotr II'yich Tchaikovsky, baseada na novela de Alexander Sergeyevich Pushkin, teve ontem, dia 16, mais uma récita, na ROH em Londres. Poder-se-ia tratar de mais uma entre muitas outras da presente temporada da ROH, mas de facto, temos de reconhecer, foi um acontecimento. Seria previsível. Com Amanda Roocroft no papel de Tatyana, Yvonne Howard no de Madame Larina, Nino Surguladze como Olga, Eric Halfvarson como Prince Gremin... Mas sobretudo, notem bem, com milagres da natureza como Rolando Villazon, no papel de Lensky, e Dmitri Hvorostovsky no de Onegin! As arias de Villazon foram momentos de suspense, de musicalidade, de talento. A leitura de Hvorostovsky um paradigma. Paradigma sem exagero.

Mas um acontecimento dificilmente seriam dois cantores, ainda que geniais, a abrirem a goela. Evidentemente que houve um maestro. Um maestro que dirigiu a quase totalidade da obra sem olhar para a partitura, um maestro que dava sinais ao virtuoso tenor para arrebatar a plateia com o seu timbre maravilhoso, ou para se conter num recato quase metafisico. Um maestro que extraiu da orquestra da ROH, que frequentemente tem performances irregulares, assunto que extravasa o tema que aqui estamos a tratar, o seu melhor. Timbres soprados, de arrepiar, nas cordas; metais limpidos, perfeitamente sob controle; madeiras ora quentes ora dilaceradas conforme os momentos; timbales e outros instrumentos do naipe, perfeitos. O grupo coral esteve fabuloso. Houve pequenos e muito pontuais desacertos mas coisa irrelevante. A batuta esteve sob o punho de um maestro excepcional: Philippe Jordan de seu nome. A cenografia foi convencional e mediocre mas pouco importa. Os figurinos, roupas da moda russa daquele tempo, tiveram algum interesse. Bravo Philippe! Bravo Villazon e Hvorostovsky! Bravo orquestra e coral! Livios Pereyra















2006/03/14

EMOCIONANTE WOZZECK NA ROYAL OPERA

Esta opera de Alban Berg, sendo um trabalho de genialidade incomparavel, de grande e inteligente conceito estrutural, possuindo um impressionante trabalho instrumental, assente num igualmente genial e eficaz libreto, feito pelo compositor e inspirado na obra de Georg Buchner, teve, sob batuta de Daniel Harding, uma leitura deslumbrante e potente, dia 13, na casa londrina, conhecida, no estrangeiro, por Convent Garden, devido ao mercado ao lado onde afluem milhares de turistas todos os dias, passando a casa de opera relativamente despercebida, excepto para aqueles que a procuram expressamente. Mas deixemo-nos de "palha"...

O libreto, por si mesmo, tem um impacto incomum pois trata-se de um "conto" que reflete uma realidade social e psiquica. Um conto que se poderia passar ao nosso lado. Bom... esperemos que nunca mais se possa passar ao nosso lado, mesmo em paises mais atrasados. Ou "mais tradicionalistas" se preferirem... Mas a musica de Alban Berg! A genial, inspirada, emotiva e impactante musica de Alban Berg, transforma um conto, que de resto nunca seria banal porque escrito por Berg e inspirado em Buchner, numa obra prima. Num "chef-d'oeuvre" universal, de genialidade suprema, seja musical seja dramaticamente.

Claro que uma orquestra mediana nunca poderia restituir-nos esta obra imensa. Mas a orquestra (e o coro) da ROH, sob controle de um Harding inspirado, deram-nos um Wozzeck que foi um acontecimento. Um grande acontecimento. Entre os ouvintes muitos foram incapazes de conter o choro, ouvindo-se e vendo-se alguns a assoarem-se, discreta mas repetidamente... Um acontecimento de grandissimo impacto emocional e interpretativo.

Claro que ouve cantores que, igualmente inspirados, permitiram que mais uma opera na ROH se transformasse num acontecimento de primeirissimo plano mundial. Johan Reuter, na pele de um perturbador e perturbado Wozzeck, com uma voz profunda, potente e perfeitamente colocada. Capaz de uma estonteante performance teatral foi um Wozzeck de facto impressionante, sendo o cantor-actor mais ovacionado da noite. Susan Bullock, no papel de Maria, com um voz de grande intensidade, grande dramatismo e capacidade ser ora luminosa ora sombria, teve igualmente uma performance de nivel superior. Graham Clark, no papel de oficial (captain), correspondeu perfeitamente a uma caricatura que o cantor-actor deve dar deste personagem de espirito curto mas capaz de rasgos e tiradas "para-filosoficas". Como de resto(quase) todos os imbecis... Kurt Rydl foi um alucinado doutor, extasiado com a possibilidade de fazer historia, que o fazia entrar em delirio argumentativo, sendo o parceiro ideal para o caricato oficial. Diferentes mas basicamente iguais... Finalmente Peter Bronder e Claire Powell foram respectivamente Andres e Margret, contribuindo, dentro do limite imposto pelo seu papel nesta obra, para a grande performance de todo o conjunto de musicos, cantores e chefe-de-orquestra. A cenografia de Keith Warner foi francamente eficaz. Dividindo o palco em duas partes (totalmente opostas devido aos materiais utilizados, cores e ambientes) permitiu-nos ver Wozzeck no seu trabalho, os seus comportamentos, enquanto os acontecimentos que ditariam todo o fio do drama se desenrolavam com Maria na casa de ambos. Sem margens para grandes disputas, esta cenografia, "post-moderna" e inteligente, serviu a obra de Alban Berg, acentuando o dramatismo e o ambiente terrificante que vai em crescendo do principio ao fim desta obra musical impar. Ouve aspectos menos conseguidos como, por exemplo, o painel em forma de triangulo invertido que desceu duas ou tres vezes sobre o ambiente de trabalho de Wozzeck... Ninguem percebeu o que o encenador pretendeu com aquilo uma vez que funcionou como um acessorio gratuito que dividiu o mesmo ambiente sem o transfigurar realmente. Mas excluindo este aspecto negativo o trabalho de Warner optimizou o dramatismo e serviu eficazmente o "espirito da obra". As luzes, de Rick Fisher, foram uma muito grande mais valia para a cenografia. Livios Pereyra














Attention les députés ! un juge ne brigue pas un mandat électoral, il applique des lois. Et la pathologie des sentiments n'a rien à voir dans leur exécution.
Ils ont osé voir en lui un gamin, sans même reconnaître l'adulte qu'ils ont formé.
Fabrice, remets-toi, je suis là et je ne demanderai aucun privilège quand moi aussi, et à cause de ce que j'ai fait de toi, tu me jugeras. Charles Melman in www.freud-lacan.com (22/02/2006)














QUARTETOS DE SHOSTAKOVICH PELOS EMERSON STRING QUARTET

Durante os concertos desta integral, que aconteceu entre os dias 5 e 11, o Queen Elizabeth Hall esteve sempre cheio e os ouvintes ovacionaram de forma sincera e ruidosa o agrupamento, que no final do concerto do dia 8 atendeu grandes filas de pessoas interessadas em que os artistas lhes assinassem os cd's.

A qualidade sonora do Emerson e a sua leitura inteligente e musical, demonstrou, ao longo destes recitais, que estamos perante artistas de elevada superioridade musical e interpretativa. O facto de tocarem levantados (exceptuando obviamente o violoncelista), contrariando o que quase todos os agrupamentos similares fazem, longe de ser uma bizantinice qualquer, permite-lhes maior espacialidade na gestualidade que se traduz numa maior expressividade e num controle absoluto da sonoridade.

De facto, os Emerson ofereceram-nos uma integral que pode ser comparada unicamente ao que os Borodin fizeram enquanto eram constituidos por todos os artistas fundadores, quase sempre sob os conselhos de Shostakovich com quem trabalhavam regularmente. Eventualmente com as performances da Quarteto Beethoven que trabalhou igualmente sob "batuta" do compositor, ainda que coloquemos todas as reservas uma vez que nunca ouvimos este agrupamento em concerto.

Na realidade, os Emerson oferecem-nos do melhor que alguma vez foi feito com as obras para quarteto de cordas do compositor russo. A suprema qualidade sonora do agrupamento, a sua forte unidade (os violinos desempenhavam igualmente primeiro e segundo, trocando de obra para obra), a capacidade de fazerem uma leitura expressiva e absolutamente refinada, tornou esta integral num dos acontecimentos mundiais mais significativos do corrente ano 2006. Livios Pereyra















GEWANDHAUS CONQUISTA LONDRES COM MAHLER

A Gewandhaus Orchestra Leipzig, com Riccardo Chailly a dirigir, tocou, dia 10, de maneira fabulosa, a Sinfonia no. 7 de Mahler, numa sala (Barbican - London) na qual se podiam ver muitos lugares por preencher.

Quando se trata de um grande concerto torna-se pouco relevante falar ou escrever sobre o facto. No entanto, como isso acontece frequentemente (falar-se sobre o que se esquiva a ser dito), deve ser escrito que quando se juntam um inspirado maestro e uma orquestra inspirada resulta algo de importante.

Os metais estiveram simplesmente imaculados, nomeadamente a trompa wagneriana(*) que desempenha um papel solista repetidamente. Igualmente as madeiras demonstraram uma sonoridade espectacular. O timbaleiro recebeu um aplauso quase igual ao do trompa pois conseguiu um controle das sonoridades e das intensidades vital para o resultado global. Os naipes das cordas, como seria de esperar, tiveram um desempenho de muito grande categoria.

Foi um concerto marcado pela profundidade da leitura, pela familiaridade com a obra de Gustav Mahler, em que as nuances de timbres, de intensidades e da massa sonora, aconteceram para servir a genial escrita daquele que foi, dificil evitar escrever isto, o maior sinfonista de sempre. LP

(*) Pode igualmente ser chamada tuba wagneriana, dada a sua forma. A sua sonoridade aparenta-se mais ao timbre das trompas sendo por isso incluida neste naipe.















KISSIN INTERPRETA BEETHOVEN E CHOPIN

Evgeny Kissin, depois de dar voltas ao mundo apresentando o mesmo programa em salas menos importantes, veio a London (dia 7) tocar a sonata op 2 no 3 e a op 81a, "les adieux", de van Beethoven, na primeira parte de um recital de casa a abarrotar, ao ponto de terem de colocar muitas filas de cadeiras no palco.

Para evitar arrastar ao pormenor vamos directos ao "osso". O Allegro da op 2 caracterizou-se pela superficialidade da abordagem, que de resto parece ser a grande caracteristica de Kissin em Beethoven. Fraseado pouco claro e superficialidade neste andamento. O Adagio, que Kissin tornou longo e chato como a espada de D. Afonso Henriques (aprendi esta com uma velhinha portuguesa) e que o pianista tentou contornar com truques de intensidades (pp/f e sff), revestiu-se de um caracter artificial, caracterizado pela falta de densidade e pelo melodramatismo. O Allegro foi bem atacado e teve uma leitura viva, mas a superficialidade versus falta de densidade, continuou a pontuar.

Kissin iniciou "Les adieux" com um Adagio arrastado e lamechas (quase que parecia os velhos pianistas de outros tempos) com um bom ataque do Allegro, dentro do mesmo andamento, ataque que depressa perdeu o efeito com os "sff", que Kissin deve pensar serem uma mais valia, a soarem a falso e com os "sttacatos" exagerados a fazerem-nos pensar que o pianista estaria a pensar que era outro o compositor que estava a interpretar. Fiquemos por aqui. Depois de meses e meses a tocar o mesmo programa...

Na segunda parte foram os quatro Scherzos de Chopin. Muito bem. Obras que o pianista toca desde a barriga da progenitora. Temos um cd genial com Kissin a tocar isto com 16 anos. O tempo passa. Alguns tornam-se geniais e fazem a historia. Outros ficam-se pela vulgaridade. Kissin mostrou conseguir ir mais longe que isto. O primeiro Scherzo foi mal mas o segundo arrebatou os ouvintes das cadeiras. Foi justo porque foi muito bom. As sonoridades de Kissin foram bem conseguidas. Kissin aqui revelou estar inspirado. Sempre tocou isto? Seguramente. Mas continua a tocar de forma que vale a pena ouvi-lo. Deve ser dito que este segundo Scherzo de Chopin foi bom. Muito bom. Tecnicamente, Kissin talvez esteja no limiar do perfeito. Mas tocar genialmente uma obra tem que ver com outras coisas. Todos o sabemos. Mas, verdade verdadinha, tecnicamente tem de se estar num patamar supremo para aceder a isso (genialidade...). Kissin encontra-se nesse patamar. Mas o que lhe sobra tecnicamente falta-lhe algures. Muitas vezes Kissin parece um artista de poucos rasgos. O Scherzo 3, em que o pianista igualmente conseguiu uma abordagem inspirada, deixou-nos um estranho sabor de termos ouvido isto, ou parecido, por outro pianista. Quanto ao quarto, tratando-se de uma obra que parece uma colagem, Kissin fez o melhor que se pode fazer nesta obra: um fraseado perfeito e um trabalho de intensidade inteligente.

Curiosamente no primeiro dos encores (os ouvintes gritaram, mandaram flores e ofereceram presentes), uma obra de Karol Zymanowski, Kissin entrou de facto no patamar da grande genialidade que continuou, noutros aspectos, com o estudo para a esquerda de Chopin. Tocou-o a grande velocidade, com um arrebato ardor: algo muito fora do comum e sem nada de vulgar. Mas logo voltou a uma postura, que lhe parece natural, a de show man, para arrebatar toda a sala ao fazer uma abordagem superficial de uma obra superficial: a Rapsodia Hungara 10 de Liszt. Com esta obra, os ouvintes ficaram satisfeitos e foram-se embora sem aplaudir muito mais. Era por isto mesmo que esperavam para finalizarem a noite em grande. LP















Quantos povos indígenas vivem no Brasil? Onde moram? Quantas línguas falam? O que querem? O que sonham? Em busca dessas e muitas outras respostas, os jornalistas Railda Herrero e Mario de Freitas empunharam os microfones da emissora Internacional da Holanda, a Rádio Nederland, e foram a campo. Milhares de quilômetros depois - de avião, ônibus, caminhonete, catraia, barco e outros meios de transporte, voltaram aos pântanos holandeses com centenas de depoimentos para o trabalho de estúdio. Estas peças formaram um imenso mosaico a ser montado, para ajudar a desvendar um pouco a realidade vivida pelos povos indígenas no Brasil.
Os primeiros resultados dessas gravações estão nestes dez programas. Foram concedidas, com muita atenção, pelos representantes dos 235 povos originários, que sobrevivem no Brasil, e feitas graças ao carinho e dedicação de dezenas de trabalhadores solidários com esta causa. Os programas são desenvolvidos por temas como diversidade cultural e lingüística, terra, educação, organização, direitos e diálogo, entre outros.
Muitas histórias não couberam no formato definido por programadores de rádio e esperam por novos resgates. Esta série é apenas um começo. Mas é também um complemento a uma tarefa que vem sendo cumprida por muitos, e, felizmente, agora pelos próprios indígenas. Com este trabalho, esperamos ter contribuído com parte da tarefa de abrir o microfone para as Vozes Indígenas no Brasil. Este programa recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos em 2005. www.parceria.nl in http://indios.blogspot.com














Um a um, com ironia e humor, são desmontados os vários argumentos que sustentam a superioridade performativa de certas "práticas", designadamente as terapias cognitivo-comportamentais, relativamente à psicanálise.
E sobretudo, fica-se com a sensação, depois de ler os diversos artigos, que não está em causa simplesmente a oposição entre dois tipos de práticas "terapêuticas", mas, acima de tudo, de dois "conceitos" incompatíveis do ser humano.
A escolha é de cada um enquanto o mal (não) é de todos!
http://naoseiquediga.blogspot.com (7.3.06)















O Mal

Em 1998 a Gallimard publicou um conjunto de textos sob o título genérico "Le Mal" que podem ser adquiridos, em formato de bolso, na colecção folio-essais.

Sendo todos eles interessantes o primeiro e o penúltimo chamaram a minha atenção. O primeiro, um belo texto de Michel de M' Uzan, coloca-nos face ao "mal quase puro", a reter o "quase": o "matador de ratos" ganhava, dessa maneira, a sua subsistência e a possibilidade de se instalar como relojoeiro, profissão afastada de toda e qualquer explosão libidinal. Uzan questiona, e bem, até que ponto a euforia e o prazer do jogo de vida e morte que levava a cabo com os ratos teria alguma coisa de libidinal. Lacan responderia, talvez, que se trata do "puro" gozo. E depois do gozo a tranquilidade...

O último, de uma só página, da autoria de Claude Lanzmann, representa a estupefacção da vítima, o silêncio de quem sofreu sem conseguir encontrar uma explicação, uma lógica, uma conexão.

André Green, no penúltimo texto, talvez o mais importante da colectânea, interroga-se sobre o "porquê" do mal.
Parafraseando Angelus Silesius, estaria tentado a dizer que o mal não tem "porquê", diz-nos Green para logo de seguida referir a conexão, "clássica", entre doença e mal. O autor pretende trabalhar as duas teorias: uma que vê o "mal" como uma doença, outra que acha que não tem explicação, sendo esta última uma teoria próxima do niilismo: se o mal não tem explicação, se é estrutural e inerente à "condição humana", então só poderá conduzir à "grande catástrofe", final, definitiva e liminar.

O que me parece é que mesmo partindo-se desta "teoria" fica sempre pendente o desenvolvimento de uma hipotética explicação do porquê do mal ser algo "natural" e portanto sem explicação. Sendo a segunda teoria uma "não teoria", resta-nos, em qualquer dos casos, tentar perceber o que move o "fazedor do mal".

Parece-me evidente que um suposto "masoquismo original" é uma ideia tanto peregrina quanto circunstâncial, uma vez que não explica fundamentalmente nada, ficando nós, de novo, na posição heidegeriana de que a atrocidade faz parte da "humanidade do homem". Grande descoberta enunciada numa altura em que se gaseavam seres humanos, limitando-se o seu inventor a contemplar a atrocidade e a comentar que "faz parte" do "ser que também se desvela na história"...

Segundo Green, Freud, em "Metapsicologia", postula um desenvolvimento do "eu" sob o domínio do "princípio do prazer". Mais abaixo, num registo kleiniano, estabelece uma co-relação entre ódio e o afecto que acompanha o "objecto mau", no fundo para invalidar a teoria kleiniana devido a que este fenómeno será sempre posterior à diferenciação entre o "eu" e o "objecto", não podendo portanto ser uma "sentimento originário". Um pouco mais abaixo passa-se à análise da obra "A Negação", também de Freud, que estabeleceu a diferenciação entre o incorporado e o excorporado que se materializa no "estrangeiro", no "diferente" que é "mau", sendo este "avanço" correlativo da diferenciação eu - objecto. A ideia, sendo interessante, parece-me inconclusiva: "estranho" é frequentemente o "neutro", aquele que não toma partido nas guerras fraticidas familiares. Aquele que é poupado exatamente por não fazer parte. Georg Simmel, um dos fundadores da "sociologia urbana", trabalhou bem a temática de "o estrangeiro". E não só no célebre texto com aquele título.

A primeira associação entre "prática do mal" e "doença" produziu e continua a produzir os seus frutos e variantes, servindo permanentemente de base à jurisprudência, frequentemente numa base ridiculamente superficial, onde se esgrimem máximas, apresentadas como "científicas", que parecem extraidas dos livrinhos de psicologia de bolso... No entanto, parece-me que foi partindo desse suposto (mal = doença), que faz sorrir os perversos, que se foram produzindo elaborações mais "interessantes" que atingiram a sua forma mais complexa e "produtiva" na ideia de um "gozo perverso" desenvolvida pelo "primeiro Freud" e trabalhada em termos de "estrutura" por Jacques Lacan. Não é este o local para desenvolver uma teoria... No entanto devo dizer que tentar compreender "a natureza do mal" passa inevitavelmente pela teorização lacaniana de "gozo" integrada com o estudo das facetas múltiplas em que a estrutura da perversão se metamorfoseia, estudo esse que foi iniciado por Lacan. Freud e Lacan são portanto os pensadores fundamentais que nos permitirão compreender, ou fazer uma abordagem "produtiva", do porquê de um assassinato sem "porquê", levado a cabo por um grupo de adolescentes portugueses, "inocentes e desprotegidos", contra alguém muito mais desprotegido (a) que eles, doente, solitário (a), que nada tinha para lhes oferecer para além da sua miséria radical. O seu corpo, a sua frágil materialidade, serviu-lhes simplesmente como suporte de um gozo perverso: o gozo de o (a) fustigarem até à morte. AST



Nota: Portugal está doente. Muito doente. Desde a violência sobre as mulheres, até à violência sobre os idosos, tudo isto, agora que parece ter acabado o "longo reino do silêncio", que é o "reino do terror total" em que as vítimas nem ousam falar, é o "pão nosso de cada dia": relatos de violência contínua e "sustentada".
No entanto, outro fenómeno, muito estranho, tem vindo a adquirir um relevo inaudito: a violência sobre bebés ou crianças muito jovens. Violência dotada de uma perversidade inacreditável: desde a introdução de objectos nos orifícios anais até queimaduras com pontas de cigarros, tudo isto faz parte do imenso rol de sevícias praticadas por jovens adultos sobre os seus filhos. É dificil de equacionar, mesmo tratando-se de pessoas que são, como a generalidade dos "alfabetizados" em Portugal, analfabetos funcionais. É dificil de problematizar mesmo tendo em conta que podem ser filhos indesejados, frutos da ignorância de gente que, apesar de ter frequentado a escola, não adquiriu as competências básicas para utilizar correctamente os meios anti-concepcionais. Ou que nem sequer compreendeu bem, dado o seu aparato cognitivo "restrito", que se não os utilizar nascem bébes... Seja como fôr a violência inerente, a "desumanidade" implícita, transcende toda e qualquer justificação "sociológica".
Hoje mesmo, dia 4 de Março de 2006, nos jornais diários nacionais portugueses, o relato de um caso mais. Mais um, no meio de uma lista que estará decerto (muito) incompleta...














Le pervers se distingue par un renoncement au désir auquel il substitue une volonté de jouissance. Deux positions incompatibles, car en effet, il faut que la jouissance soit refusée, comme le dit Lacan, pour être atteinte en quelque manière sur "l'échelle renversée du désir". Le désir suppose d'en passer par les signifiants du désir de l'Autre, soit la demande, dont le pervers prétend absolument se passer, pressé d'atteindre la jouissance auquel lui donnent droit, de son point de vue, une maîtrise et un savoir non négociables. Seulement, la volonté dont il use n'est pas celle d'une subjectivité arbitraire et individuelle ; exactement comme chez Kant, elle place le sujet face à un impératif catégorique comme principe rationnel de l'action, auquel il ne peut que se soumettre. Le pervers obéit à un impératif de jouissance qui le dépasse, d'autant que ce n'est pas sa jouissance qui est jeu, mais celle de l'Autre (comme le désir du névrosé, c'est d'abord de soutenir le désir de l'Autre). Dépourvue de tout mobile empirique, la volonté perverse n'est pas davantage égocentrée : elle est déterminée par un principe qui lui donne sa forme de Loi, la Jouissance incarnée ici par l'objet 'a', en position de cause. Ainsi mise en place, la volonté va engendrer une division caractéristique en l'Autre, précisément entre un $ et S, soit respectivement entre ce que Lacan appelle ici le sujet de la raison pratique et le sujet pathologique (lié au plaisir, ou singulièrement, à la douleur). http://www.etudes-lacaniennes.net (Perversions)














O QUE É TERCEIRO-MUNDISMO? (Parte II)

É, por exemplo, o governador do banco central de um paízinho como Portugal ganhar mais que aquilo que o ex-líder do banco central dos Eua, Alan Greenspan, ganhava quando exercia aquelas funções. Números comparativos em DiaD, 30/01/2006, pag 4



Educar, governar e psicanalisar eram, para Freud, três nomes do impossível.
Há quem diga que Portugal é ingovernável, que não é educável nem mesmo psicanalisável, apesar das tentativas de fazer a psicanálise mítica (Eduardo Lourenço) do destino português. Filipe Pereirinha in http://naoseiquediga.blogspot.com (21.2.06)



A ser assim, a integração nacional das grandes redes europeias ferroviárias será proventura uma segunda prioridade, mas em qualquer caso, a geografia indica que o caminho mais directo para França é pelo corredor Salamanca-Burgos-Hendaye e não por Madrid. José Rodrigues da Costa in Diário Económico, 01 de Março 2006, pag 38



Na verdade tivemos vinte anos no condomínio de luxo para nos prepararmos e vinte anos é muito tempo...
O país continua a olhar para a "Europa" como se estivesse fora dela para todos os assuntos salvo para um: o fontanário de onde pinga dinheiro. Mário Melo Rocha in Diário Económico, 02 de Março de 2006, pag 2















2006/03/06

CONCERTOS PARA OBOÉ E ORQUESTRA DE CORDAS DE ALBINONI

Em 2005 a Stuttgart Chamber Orchestra, dirigida por Nicol Matt, fez um interessante registo dos concertos para oboé e cordas de Tomaso Albinoni para a chancela Brilliant Classics. Stefan Schilli, no oboé, dá-nos uma belíssima leitura onde explora as restritas dinâmicas do instrumento e as nuances tímbricas, revelando grande musicalidade servida por uma técnica excelente.

A Stuttgart Chamber Orchestra é um agrupamento coeso e dotado de uma bela sonoridade. Sob direcção de Matt mostrou-se o "partenaire" ideal para acompanhar o oboísta num registo de grande nível.

Infelizmente não poderemos dizer o mesmo do terceiro cd, dedicado aos concertos para violino e orquestra de cordas do mesmo Tomaso. Se Tanja Becker-Bender, a solista, nos oferece uma linda e expressiva sonoridade com uma afinação impecável, o mesmo não poderemos dizer da European Chamber Solists, cuja afinação é fraca e a conclusão dos fraseados, sobretudo nos registos agudos, agressiva, sendo a sonoridade global pobre. No entanto existem alguns momentos belos, como partes em duo da solista com a concertino e com o primeiro violetista.

Vale a pena comprar o conjunto nomeadamente pelos dois cd's dedicados aos concertos para oboé. O preço é nove euros. AST















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