CRITICA MUSICAL / MUSICAL CRITIC

Um blog de Álvaro Sílvio Teixeira

2006/05/28

MOZART PELA SWEDISH CHAMBER ORCHESTRA E GALLOIS

É uma gravação de 2002, se não estou em erro. O que interessa é que apesar de ser uma interpretação em instrumentos "modernos", esta interpretação dos concertos para flauta um e dois e do concerto para flauta e harpa, de Amadée Mozart (Mozart deixou de assinar Amadeus para assinar Amadée), pode muito bem ser considerada uma das referências mais importantes para estas obras.

Patrick Gallois é um flautista "quase histórico". Mas a interpretação dos clássicos nem sempre é evidente por parte de alguns "históricos". Evidentemente que Gallois viveu todo o periodo áureo da "nova interpretação" da "música antiga", o que o dotou de conhecimentos que acrescem à sua mais valia como grande intérprete. Mas o decisivo é mesmo a sua interpretação imbuída de um genuíno espírito mozartiano, a sua sonoridade espantosa e os seus fraseados com colorações de espontaneidade, particularidade não mensurável, pouco definível, mas indispensável à interpretação do genial austríaco.

No entanto mais espantoso ainda, neste disco, é a prestação da orquestra sueca que tem Katarina Andreasson como líder. Esta orquestra parece ter sido talhada para a genialidade mozartiana. Claro que uma orquestra destas poderá fazer seja o que seja de maneira assombrosa, mas no que toca a Mozart será difícil conceber uma interpretação mais bela, mais inspirada e mais perfeita.

Como curiosidade posso dizer que este cd "ganhou" um "award" da Gramophone no ano passado (2005). O que não posso deixar de dizer é que é uma edição da Naxos e que custa seis euros. AST















DÉBORA HALÁSZ INTERPRETA CARLOS SEIXAS

Se pensam que as criações para teclado do português Seixas ficam muito aquém da obra para tecla do italiano Domenico Scarlatti, seu contemporâneo, que nasceu muito antes mas morreu bastante depois do falecimento do português, desenganem-se.

Apesar de uma vida injustamente curta, Carlos Seixas é um paradigma da música para teclado da sua época. Se dúvidas tiverem, adquiram o cd que tratamos, gravado em 2003 e lançado para o mercado no corrente ano, e, após uma audição atenta, ficarão devidamente elucidadas.

É claro que a interpretação de Débora Halász, cuja técnica, inspiração e inteligência ao nível dos fraseados e escolhas de registação, são notáveis, é uma mais valia. Uma mais valia tremenda. Mas a discussão é velha e desnecessária. O intérprete cimenta a sua excepcionalidade interpretativa sobre obras de génio. Não há criação mediocre que seja elevada à genialidade unicamente por obra e inspiração do intérprete, por mais espectacular e fenomenal que este último possa ser.

Temos portanto o primeiro cd de uma série que fará história. A história é feita de felizes conjunções, alguém disse. Também pode ser feita de encontros infelizes, sabêmo-lo demasiado bem. O relevante é que, neste caso, a história já começou e já teria um desfecho feliz mesmo que só tivesse sido editado o primeiro cd. Uma história de um compositor genial, por acaso português, de uma cravista (também pianista) inspirada, por acaso brasileira e, os intermediários por vezes podem ser relevantes, de um instrumento (cópia de um outro de 1734) com uma sonoridade fabulosa. Evidentemente tudo possivel pelo impulso, muito oportuno, de uma editora, chamada Naxos, que contou com o apoio de uma empresa e de uma rádio alemãs. O cd pode ser adquirido por 6 euros, em Lisboa, na Companhia Nacional de Música, que fica na Rua Nova do Almada. Esta publicidade não foi solicitada e não tem qualquer contrapartida (pago todos os cd's sobre os quais escrevo* e não aceito "prendas", sejam dos estabelecimentos, sejam das editoras ou distribuidoras). Trata-se simplesmente do local onde, em Lisboa, os leitores poderão adquirir os cd's da Naxos ao melhor preço. AST


* Posso disfrutar de preços vantajosos em algumas distribuidoras. No entanto, desde há muito que não utilizo esta possibilidade uma vez que adquiro os cd's, por preços ainda mais reduzidos, nas promoções que acontecem permanentemente em alguns países onde, episodicamente, me desloco.
Também recebo, muito esporadicamente, discos enviados directamente pelos artistas. Só escrevi, nestes casos, uma única vez. Infelizmente a editora ainda não se decidiu a lançar o cd, que é um brilhante registo de música contemporânea com Pedro Carneiro nas percussões.
















ARTUR PIZARRO INTERPRETA DEBUSSY E RAVEL

Decorreu no Teatro Municipal de São Luiz, em Lisboa, capital de Portugal, uma integral dos dois grandes compositores franceses, pelo pianista Artur Pizarro.

Devido a estar ausente de Lisboa só pude assistir aos últimos três recitais de uma série de seis.

No quarto recital, dia 25 de Maio, Pizarro revelou algumas debilidades na mão esquerda, falhando várias notas. No entanto, a sua leitura global do primeiro livro dos Preludes de Debussy foi "aristocrática". Pizarro trabalhou de forma inteligente tanto o jogo de sonoridades como a transparência rítmica, coisa que não foi evidente na primeira das Valses Nobles et Sentimentales, de Maurice Ravel, onde a sua interpretação padeceu de clareza. No entanto ultrapassou o mau começo, terminando estas "valses" de forma convincente.

Voltando aos Preludes de Claude Debussy (o segundo livro foi interpretado no recital de 26 de Maio), Artur Pizarro demonstrou uma boa compreensão da escrita "debussysta", compreensão essa que se reflectiu numa leitura bem sustentada nomeadamente ao nível do trabalho de dinâmicas e da aplicação do pedal, factores fundamentais quando se fala de Debussy (e Ravel), onde a "grande técnica" é somente o factor básico para uma interpretação que mereça ser escutada.

A interpretação do segundo livro de Preludes ficou bastante aquém daquilo que Artur nos ofereceu no dia anterior. No global a transparência foi aquilo que mais se perdeu. Mas também o leque dinâmico foi restringido e menos subtilmente trabalhado (em Feux d'artifice mas também ao longo da interpretação de todo o segundo livro). Os ostinatos perderam a uniformidade acentuando-se notas ou acordes quando era suposto existir um efeito de esbatimento na uniformidade modulada dinâmicamente em linhas amplas (por exemplo em Les tierces alternées). De facto existem dias menos bons e este quinto recital, dia 26 de Maio, foi disso exemplar.

Os 12 Études de Claude Debussy são, em meu entender, o obra mais importante do século XX para piano. Eles contêm o germe de toda a "contemporaneidade", além de fazerem uma interessante síntese com o passado. Se tivesse de escolher três obras, entre toda a literatura pianística, estes estudos estariam lá, ao lado dos estudos de Chopin e da última sonata de Beethoven. É raro poderemos escutar os dozes estudos de Debussy ser em concerto. Por isto o último recital de Artur Pizarro revestiu para mim um interesse muito particular. Não fui lá nem com muitas nem com poucas expectativas: o Artur é um grande pianista e potêncialmente poderia oferecer-nos algo de muito excepcional. Por outro lado estes estudos não se compadecem com falhas como as que assinalei em relação ao dia anterior.

O que aconteceu é que Artur, tal como quando nos tocou o primeiro livro dos prelúdios, se apresentou na sua melhor forma, brindando-nos interpretações fabulosas, inteligentes, musicais e requintadas, destas doze peças de genialidade máxima. O seu controle das sonoridades foi paradigmático, a sua dedilhação exemplar e o resultado final foi simplesmente magia sonora. La Valse de Maurice Ravel concluiu o recital (houve mais um encore...) de forma virtuosística, arrancando o público das cadeiras. AST















2006/05/20

INTERPRETAR MÚSICA CONTEMPORÂNEA É FUNDAMENTAL

Daniel Hope, reconhecido violinista com carreira mundial, interpretou o concerto de Schumann, para violino e orquestra, acompanhado pela London Philharmonic Orchestra, em dois concertos que se realizaram no QEH, em Londres. Conversamos com ele no final do concerto de 17 de Maio.

AST Acabou de interpretar um concerto que não é muito tocado... Você gosta desta obra?

Daniel Hope Sim. Gosto muito deste concerto. Mas você tem razão: não é tocado muito frequentemente. É muito dificil para orquestra. E mesmo para o violinista... Mas é uma obra com muito charme, com sonoridades calorosas, com visão, com muita paixão. Em todo caso é Schumann e eu adoro Schumann. Pensei que é uma pena que a obra não seja muito tocada e então procuro sempre uma possibilidade para a interpretar. Mas é muito raro que as orquestras me peçam para a tocar, por isso estou muito contente por estar aqui em Londres e poder fazer este concerto.

AST Nasceu onde?

DH Sou inglês. Nasci na África do Sul mas sou inglês. Actualmente vivo em Amesterdam.

AST Faz muitos concertos na Holanda?

DH Sim, mas sou convidado para tocar em todo o mundo. Toco muito nos Estados Unidos e também na Ásia, no Japão, e em todo o mundo. Estou constantemente a viajar.

AST Também toca música antiga?

DH Sim, muito. Acabei de gravar um novo disco com os concertos de Bach com a Orquestra de Câmara da Europa. Dirigi a orquestra a partir do violino. O registo estará disponivel em Setembro. Também trabalho muito com grupos que utilizam instrumentos antigos como o Concerto Koln e com muitos músicos que fazem música barroca. Adoro trabalhar com eles.

AST Quando faz música barroca utiliza o seu arco habitual ou muda para um barroco?

DH Toquei com um arco barroco e também com cordas de tripa. Também já utilizei um violino barroco mas devo-lhe dizer que prefiro adaptar o meu, que é de 1769 e prefiro então adaptar-lo pondo-lhe cordas de tripa. Toco tanto nele que para mim é dificil mudar de instrumento. Além de que não encontro uma boa razão para mudar de instrumento quando faço música antiga. É verdade que os violinos sofreram transformações, mas 1769 é quase o tempo de Bach e eu adoro a sonoridade do meu violino.

AST Qual é o seu instrumento?

DH É um Galliano. Genaro Galliano de Napoli. Foi o violino de Yehudi Menuhin...

AST Toca com o instrumento do Menuhin?!

DH É um violino que ele usou quando era jovem. Não é o Stradi ou o Guaneri que ele utilizou depois. É um instrumento da infância de Menuhin. Gosto muito deste violino e estou muito contente por ter tido a possibilidade de o adquirir. Espero que a música antiga funcione bem com este tipo de prespectiva.

AST Sente muitas diferenças de ordem técnica quando toca com um arco barroco?

DH Sim. É completamente diferente porque o peso é completamente diferente. Tem de se aprender a tocar com ele, quando se utiliza um arco barroco pela primeira vez.

AST E mesmo a forma de o segurar é completamente diferente...

DH Absolutamente diferente e as técnicas de o utilizar também. Para mim coloca-se sempre como vou utilizar o arco barroco nesta ou naquela obra pois para mim o normal é tocar com um Picazzi, que é um arco de 1850, portanto do tempo de Schumann. É uma coisa totalmente diferente pois os arcos barrocos são muito mais leves. É sempre muito interessante de trabalhar a maneira de encontrar o equilibrio. O som é o resultado do equilibrio entre as duas mãos e, em todos os casos, da maneira como se faz a abordagem das cordas com o arco. Tem de se descobrir a maneira de se exprimir utilizando um arco barroco.

AT Faz música barroca utilizando a técnica barroca, mas eu sei que toca igualmente música contemporânea...

DH É a música do nosso tempo. É a música de hoje! É muito, muito importante, para nós, experimentar e conhecer esta música, porque é o idioma de hoje. Deve-se escutar e viver o nosso tempo. Eu estou muito, muito interessado, em trabalhar com os compositores. Sobretudo os compositores jovens. Pedir-lhes sempre uma pequena peça nova. É muito excitante para mim de ter a possibilidade de estrear novas obras.

AST Faz isso frequentemente?

DH Muito. Encomendo sempre muitas obras aos novos compositores. Além de que existem muitas obras já escritas para o violino.

AST Esta é uma pergunta chata: quais são as orquestras com quem gosta mais de trabalhar?

(risos)

DH São muitas... São muitas... Eu tenho uma página na web onde estão todas as orquestras com quem tenho tocado.

(risos)

AST Foi um prazer.

DH Obrigado, igualmente.















METAMORFOSES DE TAFELMUSIK

É lindo escutar-se a leitura de textos inspirados na mitologia antiga (textos de Ovídio e um poema de Yeats) acompanhados por música da época barroca. Sobretudo se os intérpretes forem um agrupamento como o TafelMusik - Baroque Orchestra. Aconteceu dia 23 de Maio no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, Portugal.

Foi de facto muito agradável. No entanto este género de programa parece-me bem mais indicado para divulgação do barroco ás crianças que para preencher uma "soiré" com um grupo, um excelente grupo de "música antiga", que se não estou em erro actuou pela primeira vez em Portugal.

Para mim foi um desperdício. Poderiamos ter tido oportunidade de ouvir um grande concerto, "a sério", e assim ficamo-nos por excertos de obras, numa colagem que não sendo tonta padece da arbitrariedade de qualquer colagem.

Ainda para cúmulo o grupo trouxe uma óptima "violinista barroca", Elizabeth Wallfisch, artista capaz de leituras excelentes e inteligentes, que aqui veio interpretar uma peça artificiosa, sem dúvida, mas superficial e pouco interessante como o concerto "Eco" de Antonio Vivaldi, na primeira parte, e na segunda o allegro do concerto "Grosso Mogul" do mesmo Vivaldi... Também foram interpretados, nesta segunda parte, dois andamentos (...) do concerto para oboé em lá menor de Alessandro Marcello, em que foi solista um dos oboístas do agrupamento. O intérprete demonstrou uma boa técnica mas, infelizmente, a sua sonoridade padece de falta de charme e é ríspida. A interpretação foi abstrusamente plana ao nível conceptual (apesar do oboísta possuir uma paleta dinâmica muito razoável para um instrumento como o oboé) e (muito) pouco calorosa. AST















ENO APRESENTA THE MAKROPULOS CASE DE LEOS JANÁCEK

Estreou, dia 18 de Maio, a penúltima ópera de Janácek, na versão em língua inglesa, produzida e apresentada na English National Opera, em Londres.

Charles Mackerras, que dirigiu pela primeira vez a versão inglesa desta obra em 1964, nesta mesma ENO, foi quem dirigiu esta reposição, desta vez com encenação de Christopher Alden. É interessante o carinho que o público londrino dedica a Mackerras, que é provavelmente o mais fundamental entre os "intérpretes-referência" das óperas de Janácek: cada vez que Charles, como o tratam carinhosamente nos bastidores, subia ao "púlpito", o público começava imediatamente a aplaudir e a gritar bravos.

De facto Mackerras deu-nos uma interpretação fabulosa, empolgante e transparente desta ópera impressionante. Sem dúvida que a figura de Mackerras inspirou a orquestra da ENO: um "melómano", ao meu lado, dizia-me que com Charles à frente a orquestra toca ainda melhor. Não tenho dúvidas disso, mas já noutras ocasiões, com outros directores, pude testemunhar que o agrupamento instrumental da ENO é dotado de um elevado nível de excelência. Seguramente que Mackerras, que foi director musical da WNO, entre 1987 e 1992, contribuiu para este estado de excelência.

Claro que a outra figura mais apludida da noite seria Cheryl Barker que, no papel de Emília e encarnando todas as metamorfoses da "quase imortal", teve um desempenho exuberante. Barker esteve bem acompanhada pelas outras vozes, nomeadamente com Neal Davies como Dr Kolenaty, Robert Brubaker interpretando Gregor, John Graham-Hall como Vitek, Elena Xanthoudakis no papel de Kristina, John Wenger como Baron Jaroslav Prus e Thomas Walker na figura de Janek. Basicamente trata-se de uma fantástica produção e de um grande acontecimento mundial que está a ser registado (serão registadas quatro récitas, entre as quais a estreia de que tratamos) para ser editado em cd. AST

















ELLSWORTH KELLY NA SERPENTINE GALLERY

No livrinho oferecido nesta mostra de trabalhos produzidos pelo artista desde 2002, pode ler-se que Ellsworth "is among the greatest living artists".

A Serpentine Gallery situa-se no Hyde Park, perto do conhecido Royal Albert Hall, em Londres. Nesta como noutras mostras temos entrada livre e um pequeno livrinho incluido na oferta.

Se tivesse de escolher cinco artistas, vivos, Ellsworth talvez nao constasse. No entanto, devo dizer que o seu trabalho deve ser visto e contemplado. O trabalho de Ellsworth tem "relevo".

Torna-se um pouco dificil falar sobre o "minimalista-abstracto" Ellsworth Kelly que se faz representar nos principais museus e grandes coleccionadores de todo o mundo. A sua mensagem, ou ausencia dela, liga-se ao trabalho com cores frias que contrastam no imediato, verificando-se a inexistencia de um trabalho de gradualismos na feitura e tempero dos cromatismos, trabalho esse que existe noutros "minimalistas".

Temos, por exemplo, verde, azul e branco, absolutamente demarcados, sem existirem nuances ou movimento de fronteiras.

Mas tambem poderemos ter branco sobre branco, preferindo Kelly, neste caso, trabalhar o relevo que nuancear o cromatismo. Teremos nesse caso um quadro branco sobre outro quadro branco.

Mas o melhor sera descolar-se e ver, podendo-o ainda fazer ate amanha, 21 de Mayo. Pilar Villa



Red Green Blue is the first exhibition to focus on a pivotal body of work by Ellsworth Kelly (born 1923) from the years 1958 to 1965, when he established his reputation as one of the most important American abstract artists of the postwar period. Showcasing 14 major paintings and 36 related drawings, collages, and photographs, Red Green Blue illuminates the processes by which Kelly distills his lines, forms, and colors from real-world sources.
The exhibition examines a selection of grand "figure/ground" paintings—rectangular canvases consisting of simple forms in one or two colors against a third "ground" color. The heart of the project is a group of large-scale paintings, widely acknowledged as masterpieces, that use precisely balanced shapes as well as the harmonies and dissonances between the colors red, green, and blue to create a bold and dynamic compositional balance. With these virtuoso works, Kelly defined the interests and approaches that still drive his work today. in www.mfah.org (Red Green Blue, April 27 - July 27, 2003 at the Audrey Jones Beck Building)















2006/05/03

MOZART NO FEMININO

Na "grande música" não há "cotas": há trabalho exaustivo mas inteligente, muita inspiração e técnica perfeita. Depois vem a singularização que é aquilo que torna única determinada interpretação. Hilary Hann é um dos zénites da interpretação violinística na actualidade. Acompanhada pela pianista Natalie Zhu ofereceu-nos, numa gravação de 2004 lançada para o mercado em 2005, uma das mais geniais interpretações de sonatas de Mozart para violino e piano. O registo está disponível ao "preço forte", mas é possivel adquiri-lo, por cerca de oito euros, nas promoções que se fazem com regularidade em alguns países da Europa. Hann e Zhu dão-os fantásticas interpretações das sonatas k 301, k 376 e k 526 de Amadeus. Um registo para a história.
O outro "caso" é o da violista Midori Seiler. Acompanhada por Jos Van Immerseel ao pianoforte, ambos utilizando instrumentos da época (*), oferece-nos uma belíssima leitura, despojada de vibratos, onde a sensibilidade e grande musicalidade tocam profundamente. Para tal contribuiu, evidentemente, o desempenho de Immerseel, "especialista" em música antiga, também ele um grande artista. Aqui são-nos oferecidas interpretações, inesquecíveis, das sonatas k 379, k 454 e k 526. Este registo foi re-editado muito recentemente, ao preço de 3,99 euros, numa promoção de três jornais europeus, entre os quais o El Pais (Espanha) e o Diário de Notícias (Portugal). AST

(*) Os instrumentos dos grandes violinistas são, geralmente, da "época", isto é, de célebres construtores que imprimiram a sua marca pelo timbre excelente e particular de que o instrumento é dotado. Mais do que o instrumento são outros factores que interessam na execução ao "estilo da época": o tipo de "respiração" (que condiciona a construção do fraseado), a colocação do arco (na música antiga substitui-se o vibrato pela aproximação do arco ao cavalete, técnica que produz diferentes colorações tímbricas), o arco (a curvatura de um arco antigo é em forma de U invertido) e a forma como se segura o dito (que condiciona igualmente a forma de trabalhar o fraseado). Há, evidentemente, o material das cordas, que é tripa (actualmente sintética) quando se executa ao "estilo da época". Neste "estilo" o instrumentista segura o instrumento sem recorrer ao auxílio de suportes.
















INAUDÍVEL

Uma editora chamada "Andrómeda" trouxe ás estantes, numa re-edição de 2005, um duplo cd de Sviatoslav Richter, pianista que tive o privilégio de escutar duas vezes em recital a solo. No primeiro cd traz-nos obras de Bach, com as sempre elevadas acutilância e sensibilidade características deste grande pianista, sendo a última dispensável, não pelo desempenho de Richter, mas pelo da orquestra que o acompanha no concerto bwv 1052, dirigida, sublinhe-se, por um grande director: eram outros tempos e aquele género de leitura, actualmente, é considerada má. Se neste primeiro cd a qualidade do som é muito aceitável, já no segundo é vergonhosa, tornando incomprensíveis as geniais interpretações, ao vivo, dos Quadros de uma Exposição de Mussorgsky, as sonatas 2 e 6 de Scriabin, assim como os doze prelúdios op 11 do mesmo compositor. Nos tempos que correm isto é inadmissivel e a etiqueta deveria ser impedida que continuar a vender gato por lebre, até porque pratica preços muito superiores aos da Brilliant Classics, por exemplo (infelizmente não se pode afirmar que se possam dar "montes" de exemplos...), que consegue uma boa qualidade sonora nas re-edições que oferece ao preço de 3 euros por cd (em Portugal é mais mas existe sempre a possibilidade dos leitores encomendarem pela net). Para não falarmos em re-edições com fraca qualidade sonora, como as desta "Andrómeda", onde dez cd's são vendidos por sete euros... AST

Nota: Em Lisboa, Portugal, na Companhia Nacional de Música, na Rua Nova do Almada, podem-se adquirir cd's da Brilliant Classics a menos de 3 euros cada.















DIE ZAUBERFLOTE

Recentemente foi posta à disposição do público uma gravação de Die Zauberflöte, de Mozart, sob direcção de Claudio Abbado à frente da Mahler Chamber Orchestra e do Arnold Schoenberg Chor, com René Pape no papel de Sarasto e Erika Miklósa no de Rainha da Noite.

Trata-se evidentemente de um elenco de luxo mas devo avisar os desprevenidos, que antes de decidirem adquirir ouvem um pouco do início e vão gostar, do facto de parte substâncial da Flauta Mágica serem diálogos em alemão. A abertura sob batuta de Abbado é fora-de-série, mas a mesma abertura sob direcção de Nikolaus Harnoncourt não fica nada a dever a esta leitura recentíssima, gravada ao vivo em 2005, de Claudio Abbado, se bem que, neste caso, uma interpretação não se possa substituir à outra. Apesar das evidentes alusões franco-maçónicas (*), Die Zauberflöte é uma criação dentro da tradição vienense do singspiel: uma opereta com muitos diálogos. Mesmo em dvd, com visualização da encenação, A Flauta Mágica é uma obra que se torna aborrecida devido exatamente ao excesso de diálogos. Ao vivo quase que adormeci, apesar da qualidade dos intérpretes. Em cd é absolutamente dispensável. Quem faça questão de conhecer os melhores momentos desta obra pode adquirir um cd que contenha alguns excertos, como a referida abertura e uma ou outra ária, nomeadamente a celebérrima ária da rainha da noite. De resto, a Flauta Mágica não é, na sua consistência como um todo e apesar da elevada conceptualidade numérico-simbólica, uma das óperas onde o génio mozartiano se revele no seu explendor máximo. Existe um cd em que Harnoncourt dirige aberturas de óperas de Mozart que inclui a abertura de A Flauta Mágica. Cd esse que foi re-editado há anos entre os "100 Best" da Warner Classics, a preço reduzido, e que é uma preciosidade.

Actualmente um diário português vende cd's de Mozart a preços convenientes, cd's esses que podem ser adquiridos separados do jornal. Apesar de algumas, poucas, dessas ofertas serem duvidosas uma vez que existem como re-edições a preços iguais ou até inferiores aos propostos (3,99 euros por cd), com a vantagem, grande, de não terem a publicidade do banco que patrocina a iniciativa, outras podem ser excelentes aquisições. Se comparadas com as "ofertas" de música clássica feitas no passado por um "semanário-referência" português, que eram, na generalidade, interpretações mediocres sem qualquer interesse ou valor artístico, podemos dizer que as re-edições que o diário oferece na actualidade são propostas honestas. Pelo que pûde ver são interpretações de grandes artistas e algumas são gravações relativamente recentes das quais não existem, ainda, alternativas a baixo custo. De resto, o preço da generalidade das re-edições pode ser mais elevado que o proposto pelo referido diário. Eis portanto uma alternativa credível para quem se pretenda iniciar no génio de Amadeus. AST

(*) Parte do ritual maçônico é o emprego de um bater rítmicos três vezes sucessivas. Esta é a parte central da cerimônia, sendo repetida diversas vezes - como o tema em A Flauta Mágica. Segundo Philippe A. Autexier, que editou um livro sobre Mozart e A Flauta Mágica, nas Lojas vienenese do Século XVIII, o ritual empregado nessa época de Mozart continha ritmos característicos para cada grau:

- U - para o Aprendiz
U - - para o Companheiro
U U - para o Mestre

Portanto, os repetitivos acordes três-vezes-três se refeream ao Companheiro ou Segundo Grau. À medida que a ópera se desenrolava, os maçons da platéia deviam ficar estupefatos: um símbolo atrás do outro advinha da Confraria.
...
O número simbólico três domina toda a obra: três bemóis na clave principal (Mi bemol maior), trêsmeninos, três senhoras. Tamino é obviamente apresentado como um "profano" (ou seja, um não maçom), em seguida como um neófito (observem sua conversa com o orador, I ato, Cena 15: o orador lhe pergunta: "Wo willst du kühner Fremdling, hin? Was suchst du hier im Heiligthum" (Onde quéres ir, intrépido estrangeiro? Que procuras neste lugar sacro?), depois como um jovem maçom com o grau de Aprendiz (com sua cerimônica de viagem e voto de silêncio) e mais tarde, no segundo grau, como Companheiro (com o voto de jejum), e por fim o terceiro grau, Mestre (II Ato, Cena 21) A passagem simbólica da escuridão para a luz, parte integram da cerimônia de São João, ocorre com um brilhante efeito em A Flauta Mágica, sendo claramente indicada na ilustração do libreto de 1791. Porém Mozart e Schikaneder pretendiam mostrar mais do que a Maçonaria na cerimônia de São João, representado também os graus mais altos (os chamados Graus Escoceses). Na cena 28 do II Ato a cortina se abre, mostrando dois homens vestidos com armaduras negras e em seguida Tamino e Pamina. É o início das famosas provas de fogo e água, que nos conduzem a um poutro mundo maçônico: o soberano Grau Rosa-Cruz, o décimo oitavo no "Rito Escocês Antigo e Aceito 33º". O libreto original de 1791 observa discretamente que "eles (os homens armados) lêem para ele (Tamino) a escrita transparente que está gravada numa pirâmide". Ao som das palavras "fogo, água, ar e terra" o tetragrama sagrado JHVH talvez aparecesse por ser a parte central deste Grau Rosa-Cruz. A 30ª cena no II Ato em que Monostatos, o criado africano, junto com a Rainha da Noite e seu cortejo, tentam invadir e destruir o templo de Sarastro é um simbolismo do 30º grau do Rito Escocês, o "Grau da Vingança", enquanto que o final da ópera, II Ato, Cena 33, quando a escuridão (a Rainha da Noite) foi vencida e a luz (Sarastro, Tamino/Pamina, Papageno/Papagena) triunfa é representado pelo grau final (33º) do rito escocês - no triângulo cujo significado é "sabedoria, beleza e força" (Weisheit, Schönheit, Stärke), como no libreto. O lema do 33º é Ordo ab Chao (ordem advinda do caos) ou da escuridão para a luz. Para sublinhar a parte musical desta importante cena da Cruz Soberana com os homens armados, Mozart escolheu um tipo de prelúdio coral, empregando a antiga melodia luterana de 1524 "Ach Gott, von Himmel sieh darein" (ele havia escrito estas palavras num contexto diverso como um estudo contrapotístico para sua aluna Barbara Ployer ou no livro manuscrito de outra pessoa em 1784). A solenidade desta parte da ópera é assim diferente de qualquer experiência austríaca ou católica. É uma solenidade bíblica e com isso quero dizer, derivada da Bíblia. Ver Isaías 43:2:

Quando passares pelas águas eu estarei contigo: quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti.

"Caso você, leitor, passe a encarar todo este simbolismo numerológico com ceticismo, com certeza devo acrescentar que a introdução orquestral desta cena contém dezoito grupos de notas. Sarastro, o Sumo Sacerdote (ou seja, Venerável Mestre da Loja) aparece pela primeira vez no I Ato, na cena 18. No começo do II Ato, Sarastro e seus sacerdotes entram: em cena estão (como o libreto de 1791 faz questão de especificar) precisamente dezoito sacerdotes e dezoito cadeiras e a primeira parte do coro que eles cantam, O Isis und Osiris, tem a duração de dezoito compassos. Quando Papageno interroga a monstruosa velha, que se tornará Papagena, quantos anos tem, ela responde: Dezoito (provocando sempre hilariedade na platéia). E quando os três meninos aparecem suspensos no palco em uma máquina (o libreto de 1791 enfatiza) ela está "coberta de rosas" . Porém abandonando esta fascinação hipnótica com o 18º (Rosa-Cruz) devemos lembrar que dezoito é formado por seis vezes três, e três na verdade é o número simbólico crucial e básico da ópera." (Enquanto o Rito Escocês sempre fora uma organização de elite, o ritual mais comum de São João seria o mais familiar para os maçons vienenses que assistiram à primeira representação de A Flauta Mágica.)

in http://www.geocities.com/crdpldl21/index.html















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