2007/01/19

DO TRANSCENDENTE

A Radio-Symphonieorchester Wien, dirigida por Bertrand de Billy, fez uma miraculosa leitura da maravilhosa quinta sinfonia de Gustav Malher na Grande Sala do Wiener Konzerthaus. Ainda que a minha sinfonia preferida seja outra, esta trata-se de uma obra genial e impressionante, de pura veia malheriana. De Billy*, se por um lado apostou na clareza, como fazem todos os artistas inteligentes, por outro, investiu na grandiosidade dos tuttis em fff que deixam qualquer mortal estarrecido. Se por um lado enfatizou, e bem, as sonoridades que o trabalho orquestral de Mahler criam, por outro extraiu a maior delicadeza da orquestra no Adagietto, conseguindo um balanceamento que tocou fundo na alma dos presentes. Se os ouvintes, que enchiam completamente a Grande Sala, durante o concerto choraram e no final gritaram bravos durante dezenas de minutos, foi porque sentiram que tiveram acesso ao transcendente. A orquestra esteve suprema. Podia falar detalhadamente, por exemplo, dos metais, que foram excelentes, mas para isso teria de falar em todos os naipes, pois todos demonstraram uma performance superior, musical e inspirada.

Na primeira parte foi-nos oferecida uma luxuoriante leitura do belo concerto para violino e orquestra que Sofia Gubaidulina criou em 1980. Benjamin Schmid, o violinista, foi fabuloso e amplamente aplaudido. Pena que no encore tocasse um excerto de uma partita de Bach. O habitual... O concerto, chamado Offertorium, porque se inicia com o trabalho orquestral de Webern sobre o tema da Oferenda Musical de Bach, revela um brilhante conceito orquestral. No entanto, em meu entender, as partes tonais da obra abaixam a qualidade do trabalho de Gubaidulina que poderia manter uma linguagem atonal consistente e motivante sem cair na monotonia, como acontece com muitas obras atonais e com a generalidade das pos-seriais. A atonalidade pode-se revestir de infinitas formas e estruturas, e pode mesmo utilizar momentos tonais. Mas, ao criarem-se momentos de tonalidade, deve-se ser menos evidente que o foi Gubaidulina no coral dos metais na parte final da obra, por exemplo. Quando a compositora desconstruiu novamente a tonalidade para voltar ao universo atonal, sentiu-se um forcing: partiu de acordes demasiado simples que se instalaram nos nossos ouvidos. O mesmo diria da parte lenta do concerto, muito belo mas onde se experimenta um certo "deja-vu". No entanto trata-se de uma grande e criativa obra que mereceu ser apresentada na primeira parte de um concerto como este. AST

* Se um intérprete comete um erro, nota-se imediatamente. Se um condutor é nulo mas aparenta marcar bem os tempos, demonstra boa gestualidade e a orquestra toca bem, todos ficamos a pensar que ele é pelo menos bom. As orquestras de Viena são todas orquestras de topo. A orquestra da Wiener Staatsoper não necessita de trabalhar as obras antes de as apresentar. Podem não acreditar, mas esta orquestra vai para as récitas sem ensaiar. Claro que interpretou dezenas, centenas de vezes, as obras que normalmente apresenta (não fazem obras contemporâneas e apresentam poucas obras modernas, o que é mau), mas é por serem artistas do mais alto nível que dispensam ensaios e tocam sempre bem, apesar de cada dia apresentarem uma produção diferente (a Wiener Staatsoper encerra um dia por mês, e fecha dois meses durante o Verão. Claro que a orquestra se divide em duas). Com uma companhia destas ou o condutor tem "carisma" e consegue extrair da orquestra o que pretende, ou possui menos ou nenhum carisma, e consegue uma "singularidade fraca" ou nula. Em qualquer dos casos tem de ter um tempo seguro e capacidade para coordenar os solistas com a orquestra. Sem isto seria o caos generalizado. Torna-se mais difícil, em concerto, distinguir o bom do fraco condutor, se a orquestra tiver um desempenho excelente. Quando acontece termos um condutor que se limita a acompanhar a orquestra, e a fazer teatro, estamos perante o condutor-bluff. Numa récita na Staatsoper, encontrei uma artista da RSO Wien, que interpretou a quinta de Mahler que acima tratei: contou-me que nunca trabalhou com um condutor tão superficial, inseguro e desinteressante, como Bertrand de Billy. No entanto, uma membro da orquestra da Staatsoper que tem trabalhado com este condutor, disse-me que o considera bom.















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