2007/12/10


Karlheinz Stockhausen

22 Agosto 1928 - 5 Dezembro 2007


Desde que, em 1951, conheceu Mode de valeurs et d' intensitées de Olivier Messiaen, nos cursos de Darmstadt, Stockhausen iniciou um peculiar percurso criativo. No ano seguinte, 1952, foi para Paris estudar com Messiaen e com Pierre Shaeffer. Foi por esta altura que escreveu Spiel und Punkt e Kontra-Punkt. Em 1953 regressou a Koln onde, em 1956, escreveu Gesang der Jünglinge. Neste ano de 1956 escreveu igualmente Klavierstuck XI, onde o executante escolhe a ordem dos acontecimentos. Foi por esta altura que completou Gruppen, para 3 orquestras que rodeavam os ouvintes. Kontakte foi escrito entre 1958 e 1960 e Moment entre 1962 e 64. A partir de 1970 Stockhausen voltou a utilizar a pauta musical convencional*, o que nada tem de mal, mas entrou numa fase que culminou no ciclo Licht, no qual uma esquizofrenia grandiloquente "para-wagneriana" vai de par com uma pobreza de ideias e uma falta de musicalidade que parecem provir de um ser diferente de aquele que, com Pierre Boulez e Luigi Nono, entre outros, estabeleceu um mundo musical radicalmente diferente de aquilo que o "post-romantismo" nos legou (sem nos esquecermos de figuras tutelares da primeira metade do século XX como Arnold Schönberg, Alban Berg - onde o "post-romantismo" atinge o seu limite** - Anton Webern e Edgar Varèse***). György Ligeti é provavelmente o mais interessante representante do "outro lado" da música da segunda metade do século vinte. Ligeti, um húgaro nascido na Roménia, dado o isolamento face às "novidades" produzidas em Darmstadt****, desenvolveu sistemas composicionais pessoais e inovadores - existindo, aparentemente, influências de Edgar Varèse no tratamento das massas sonoras em algumas obras - sendo as suas estéticas, muito diferenciadas entre si, altamente singularizadas e dotadas de grande inspiração.

* Boulez nunca deixou de a utilizar mas deve-se compreender que Pierre Boulez nunca se interessou realmente pela música electro-acústica com a qual a notação convencional não se compagina. Boulez "saltou" a fase electro-acústica passando directamente para a electrónica em tempo-real, inventada no IRCAM no periodo em que ele o presidiu, sendo o programa MAX, que é permanentemente actualizado, o resultado mais conhecido e relevante desse periodo (algumas obras musicais utilizando o MAX são o resultado mais interessante...). Como normalmente a electrónica em tempo real acontece a partir de notas musicais (transformadas no momento, por isso se diz em tempo-real), funciona perfeitamente com a partitura convencional. Enquanto na electro-acústica a criação dos sons era a essência, no "tempo-real" funciona como uma espécie de "coloratura" complexificada sendo a partitura musical o fundamento da obra.

** igualmente sem nos esquecermos de Richard Strauss, Stravinsky e Bela Bartok que exploraram a linguagem tonal no limite do que seria ainda inovador. Strauss no aspecto orquestral, Stravinsky e Bartok principalmente no ritmo. Costuma dizer-se que Berg adaptou o sistema serial, inventado por Schoenberg que foi seu professor, a uma estética "ultra-romântica" sem abandonar verdadeiramente a tonalidade. A dissolução desta na verdade estava anunciada desde as últimas obras para piano de Liszt mas foi Gustav Malher quem, na sinfonia 7 e no adagio da 10, desconstruiu definitivamente a tonalidade partindo do seu interior. Depois temos Debussy que criou um universo sonoro diferente de tudo o que tinha sido feito, influenciado pela música oriental e eventualmente pelas últimas obras para piano de Liszt. Na conjunção do serialismo de Schoenberg com o fabuloso mundo de Debussy (Ravel igualmente genial e com uma estética próxima de Debussy revela uma vertente mais clássica) aparece Olivier Messiaen...

*** Edgard Varèse, originalmente Edgar Varèse (1883 - 1965)

Compositor francês nascido em Paris, importantíssimo e pioneiro das composições da música eletro-acústica. Estudou na Schola Cantorum (1903-1905) e no Paris Conservatoire (1905-1907), e mudou-se para Berlin, onde encontrou Strauss e Busoni. Retornou para Paris (1913) e dois anos depois emigrou para New York (1915). Durante estes anos europeus foi aluno de Vincent d'Indy, Albert Roussel e Charles Widor e foi incentivado por Romain Rolland e Claude Debussy. Nos Estados Unidos fundou em Nova York (1921), a International Guild of Composers e, cinco anos depois, a Pan-American Association of Composers, entidades responsáveis pela apresentação de obras de compositores como Béla Bartók, Ravel, Webern e Poulenc. Com Amérique (1921), obra para sopros, cordas e percussão, rompeu com as influências do passado. Depois compôs, entre outras, Hyperprism (1923), Octandre (1923) e Arcana (1926). Esteve por alguns anos em Paris (1928-1933), período em que compôs a percussão para orquestra, Ionisation (1931). Após o surgimento das fitas magnéticas (1950), concentrou-se na música eletrônica e compôs Déserts (1950-1954), primeira obra em que se combinam sons naturais e organizados do mundo industrial. Depois apresentou, na Exposição Universal de Bruxelas, seu Poème électronique (1958), que utilizava 425 alto-falantes. Morreu em Nova York. in www.dec.ufcg.edu.br/biografias/EdgaVare.html

**** Sobre a música na segunda metade do século vinte:
www.geocities.com/franciscomonteir/musicanova.html






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