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2009/10/17

Paredes meias

Aqui está um documentário na competição portuguesa do doclisboa 2009 revelando deficiências técnicas pouco aceitáveis nos tempos que correm. No entanto a temática de Paredes meias vale por si, e é paradigmática do que habitualmente acontece em Portugal*: um projecto de habitação social, no centro da cidade, acaba nas mãos dos "filhos do papá", como diz uma moradora da "primeira fase".

Trata-se do Bairro da Bouça, no Porto, desenhado por Álvaro Siza. O projecto data dos anos 70 e ficou a meio. Quando foi elaborado foi discutido e modificado de acordo com a opinião dos interessados. Passados 30 anos foi finalizada a "segunda fase" e, claro, como é no centro da cidade e tem a assinatura Álvaro Siza, logo apareceram os tais "filhos" que compraram as casas a "preços de saldo", dado serem subsidiadas pelo Estado. Os mesmos "filhos" que provavelmente estudaram nas universidades públicas, subsidiadas pelo mesmo Estado, e que agora são arquitectos, engenheiros e "doutores". Enfim, uns filhos da sorte...

Depois há a outra problemática: o projecto foi discutido e alterado de acordo com a opinião de quem dele ia usufruir, mas passados 30 ou mais anos as críticas são mais que muitas. Este aspecto é interessante pois revela como a percepção de qualidade de vida se vai modificando enquanto a obra arquitectónica fica congelada no tempo (o complexo foi finalizado 30 anos depois da conclusão da "primeira fase", seguindo o projecto original que foi discutido e aprovado democraticamente).

Há também uma situação interessante, em que o muro exterior é totalmente "grafitado", e Álvaro Siza aparece a observar a "obra" e dizendo em tom de aceitação que "é assim por todo o lado".

No fim surge Álvaro Siza afirmando que ter uma habitação se não elimina as desigualdades sociais pelo menos melhora a vida das pessoas e o direito à habitação deveria estar consagrado entre os direitos elementares (de facto até está na Constituição...). Mas, uma vez mais, foram os menos necessitados que compraram as casas a preços controlados (um eufemismo para dizer "subsidiadas pelo Estado").

A democracia portuguesa, nesta sua fase "avançada" (não é para rir), não está a funcionar nada bem...

* quem tem vivido em Lisboa lembra-se bem daqueles apartamentos fabulosos, com vista para a Praça do Camões, que foram remodelados ao abrigo do programa Recria. Constava que foram todos atribuídos (por concurso muito público evidentemente) a gente da freguesia, como por exemplo o filho do presidente da Junta (e outros familiares e amigos, segundo se dizia). Residir na dita freguesia era a condição indispensável para se poder concorrer áqueles apartamentos. Um dia mais tarde, depois da polémica esfriar, vi que um desses apartamentos estava para venda (revenda para sermos mais precisos) e do outro lado o número muito bem redondo foi: "400 mil".


Triologia Kenedi

Só vi excertos de dois filmes da triologia mas fiquei elucidado: agora compreendo porque Portugal é o país que melhor acolhe os imigrantes.

O que eu deixou-me aterrado: famílias avisadas de um dia para o outro que iam ser deportadas porque já não eram considerados refugiados. Verem todos os bens e dinheiro ser "apreendido" pelo "SEF" alemão antes de serem repatriadas. Cheguei a pensar que aquilo era uma ficção baseada nas deportações do periodo nazi. Mas não: era a Alemanha do século XXI. Senti-me chocado e defraudado.

Kenedi goes back home, Kenedi lost and found e Kenedi is getting married (este último não vi de todo) são uma triologia muito "pedagógica", a não perder. No doclisboa.

2009/10/16

Com que voz

Se pensa conhecer Amália Rodrigues mas desconhece o nome Alain Oulman, esqueça. Não conhece a Amália. Se pensa conhecer o "novo fado" e não sabe quem é Alain Oulman, não sabe nada do chamado "novo fado".

Com que voz é um longo trabalho documental realizado por Nicholas Oulman e é um filme tão indispensável para se compreender o "novo fado" como para se compreender a segunda metade do século vinte português. Está em competição na secção de longas metragens do doclisboa 2009, mas por mim a escolha está feita. Este filme é imprescindível. Volta a passar dia 19 pelas 23h no cinema Londres, em Lisboa.


MGM Sarajevo: Man, God, Monster

Qual é a natureza do Mal? Muitos pensadores debruçaram-se sobre esta questão. O psicanalista André Green organizou uma compilação de textos de vários autores muito interessante sob o nome "Le Mal". Jacques Lacan tentou escalpelizar a "natureza do mal" e parte dos "post-lacanianos" continuam a reflectir sobre o tema.

Este documentário é fundamental para quem ainda se interroga sobre a "natureza do mal". A natureza do mal é a própria "humanidade do homem", disse-o Heidegger na "Carta sobre o Humanismo", mas só quando nos confrontamos com o resultado desta natureza é que a perplexidade toma o lugar da reflexão. A perplexidade é a única possibilidade face à "presencialidade" do Mal enquanto parte da humana natureza e da ilimitada reprodução que ele é capaz de engendrar. E como o Mal é intrínseco à nossa humanidade, em vez de nos limitarmos a assistir à sua revelação enquanto "desvelamento do Ser" (o Heidegger não foi um simples observador das atrocidades dos nazis como pretendeu posteriormente), temos de, com a força do próprio Mal transfigurado em Bem - se isso nos fizer sentir melhor - analisá-lo e impedir a sua disseminação. Como Karl Popper dizia, há que defender as "sociedades abertas" com os meios adequados. MGM Sarajevo: Man, God, Monster é um filme-documento duro de se ver, que volta a ser projectado dia 19 pelas 10:45h, na sala pequena da Culturgest.

2008/05/19

Menções Honrosas da Monstra

Como os filmes que receberam "menções honrosas" na Monstra 2008 não foram apresentados nas sessões dos premiados e nem sequer tiveram direito à exibição de excertos na sessão de encerramento (excepto o de Konstantin Bronzit porque foi um dos escolhidos do pseudo-prémio "onda curta"*), passo a citá-los:

Júri da Competição Oficial

Lavatory-Lovestory - Konstantin Bronzit (Rússia)

Lapsus - Juan Pablo Zaramella (Argentina)

Leftovers - Igor Coric (Sérvia)


Júri Prémio Jovem Cineasta Estudante

Moving Still - Santiago Caicedo (França)

Twenty Questions - Nuno Costa (Portugal)

Weiss - Florian Grolig (Alemanha)

* segundo foi dito na própria sessão de encerramento, este ano o "prémio onda curta" foi levado a cabo por escolha unipessoal! A decisão unipessoal de um prémio (neste caso foram escolhidos 5 filmes) promovido por uma estação pública de televisão é uma aberração e dá conta do estado em que se encontra Portugal (não nos esqueçamos dos directores, mandantes unipessoais, que o governo pretende impôr nas escolas públicas...). Também foi dito, pelo responsável da Monstra, que a RTP tinha a gentileza de pagar pelos filmes escolhidos para o "prémio onda curta" acima daquilo que eles valem. Aqui está uma afirmação abstrusa e indecente, que tiveram o cuidado de não traduzir para inglês (não fosse o diabo tecê-las). A RTP não premeia os filmes aos quais atribui o pseudo-prémio "onda curta". Compra-os. E fica detentora de todos os direitos sobre os mesmos. No fundo pode ser uma boa negociata para a RTP, que provavelmente os emite e depois os empresta a canais de outros países em troca de outros, mantendo assim o bom fluxo de filmes no programa que dá o nome ao "prémio", a custos mínimos. Provavelmente o maior encargo será mesmo com os honorários do apresentador... Não digo que a compra dos filmes pela RTP seja mau para os artistas que estão em início de carreira (os outros não lhe vendem os filmes que trazem a concurso... ou se vendem é pelo "preço certo"...). Mas não é um prémio. É uma compra. Agora, virem dizer que a RTP paga acima daquilo que valem os trabalhos é alvitante. Só mesmo num país estúpido é que tal afirmação poderia ter sido produzida sem que a assistência começasse a patear o autor do dislate.


Índios da Amazónia

Várias etnias da bacia do Amazonas vão estar hoje, no Nordeste, na maior manifestação dos últimos vinte anos contra projectos hidroeléctricos...

... interrupção imediata da construção de barragens hidroeléctricas no Parque Nacional Xingu, uma das maiores reservas do Brasil. in Meia Hora, 19 de Maio, pag' s 1 e 6


Desvaloriza, desvaloriza...

Portugal recebeu menos investimento em 2007 e também investiu menos lá fora. Os dados do Eurostat revelam uma tendência contrária à generalidade da UE. O ministro da Economia desvaloriza estes números.

O investimento directo estrangeiro (IDE) em Portugal originário de outros países da União Europeia desceu 56,25%, para os 2,8 mil milhões de euros. Também em 2007, o IDE originário de países fora dos 27 caiu 51,8%, para os 1,3 mil milhões de euros. Alexandre Brito, RTP, 2008-05-19, 15:37:38

"não nos podemos resignar e não podemos desistir”, disse Cavaco Silva. idem (onde é que já ouvimos isto?)

2008/05/18

Um final à portuguesa

Na sessão de encerramento da Monstra 2008, antes de ser projectado o filme que ganhou o Grande Prémio Monstra 2008 / RTP 2, Franz Kafka's - a country doctor, um trabalho genial de Koji Yamamura, foi-nos dito "agora vamos ver uma antevisão do futuro". Subiu ao palco um sujeito que já lá tinha estado porque foi membro de um dos júris e falou, falou (muito) sobre o seu novo filme, para rematar paternalmente "depois iremos ver o filme premiado que é para isso que aqui estamos". Que simpático... Exacto, foi para isso que lá fomos, só que antes do filme que nos interessava tivemos que gramar o documentário do trablho que o sujeito está a produzir (com dinheiros públicos claro), que é um cliché sobre as famílias portuguesas-concerteza que num passeio domingueiro (acho que o filme se chama exactamente "Passeio de Domingo") desrespeitam as regras de trânsito para delírio das criancinhas que assim, desde pequeninas, são educadas no "espírito português autêntico". O filme não revela qualquer espírito crítico em relação a estes portugueses comportamentos e, como é um filme feito para ter piada, lá será apresentado às crianças portuguesas que assim poderão ver os comportamentos dos pais elevados a "obra de arte". O staff do sujeito, gritou e assobiou de cada vez que ele subia ao palco, fazendo dele o herói da noite, em vez de Koji Yamamura que ganhou o "grande prémio" e se limitou, como todos os premiados, a "duas palavras". Foi portuguesmente patético, até porque não passaram excertos dos filmes aos quais foram atribuídas menções honrosas pelo júri do Prémio Cineasta Estudante, que foi ganho pelo húngaro Tomek Ducki com o filme Life Line. Em relação ao "Passeio de Domingo" (ou Passeio Domingueiro, ou lá o que aquilo é), que nos foi apresentado como sendo uma "antevisão do futuro", só se fôr mesmo uma antevisão do futuro em Portugal... Dentro do estilo (que nada tem de inovador muito antes pelo contrário), vale um milhão de vezes mais Hare the Servant, da russa Elena Chernova, que ganhou simultaneamente o prémio do Público e o prémio Melhor Série para TV e que foi feito com meios incrivelmente mais reduzidos. Ou mesmo "O Guisado de Galinha", da Joana Toste, que ganhou o prémio Tóbis, que é para ser atribuído a uma realização portuguesa. E não foi preciso, para Hare the Servant e para "O Guisado", andarem a filmar em França e na Bélgica, ao contrário do "Passeio" que assim se transformou numa grande passeata. Quando há (muito) dinheiro do Estado pode-se filmar até na Lua...


Ian Curtis

Ian Curtis, um ícone da música urbano-depressiva morreu faz hoje 28 anos.

Curtis merece ser lembrado pela extraordinária música que deixou. Aos Joy Division sucederam-se os New Order com os mesmos elementos. in rupturavizela.blogs.sapo.pt (18 de Maio de 2008)

2008/05/15

Mostra da Monstra

Devem estar a brincar... Mas não. Não estão. Aquilo é a sério... Há gente que se ri a bandeiras despregadas, os estrangeiros, há outros, os tugas, os amigos e colegas de trabalho que enchem a sala, que apaudem. E votam. Outros devem pensar que num festival internacional tudo o que é aceite em competição deve ser bom ou pelo menos sofrível... É patético. Não é que os estrangeiros sejam todos bons. Antes pelo contrário. O problema é com os portugueses, que parecem todos maus e muito maus. Felizmente não vieram os dos Palop, e outros falantes da língua portuguesa... Não vale a pena criticar o que não tem "ponta por onde se lhe pegue". Vão trabalhar na agricultura, é a única coisa que me ocorre dizer a muitos "artistas" portugueses-concerteza, desprovidos de criatividade inteligente e "substância", que andam para aí a desbaratar os subsídios que conseguem do Estado para produzirem ridicularias que (eles) acreditam ser geniais. Há uns piores do que os outros. A média é assustadora.

Em competição, até agora, vi dois filmes que merecem "constar": The Tale Of How dos The Blackheart Gang, e Tongue Of The Hidden de David Anderson. Já não é mau...

2008/05/13

Notícias da Monstra

Ontem fui ver o Yellow Submarine, de George Dunning e percebi porque é unanimemente considerado percursor e genial. Simultaneamente incarna o "espírito da época"... É de facto um trabalho fantástico com base na música dos Beatles.

Antes tinha estado a ver o filme premiado na edição de 2007, One Night in One City, de Jan Balej, e devo dizer que é uma criação genial, com um impacto tremendo, que ironiza re-criando um certo ambiente soturno de fácil reconhecimento para quem viajou frequentemente no chamado "leste" europeu.

Mas a Monstra deste ano é dedicada à animação inglesa e então é obrigatório referenciar as obras impressionantemente corrosivas de Phil Mulloy (que em grande parte delas utiliza música composta por Alex Balanescu), o experimentalismo inteligente de Paul Bush, e os universos surrealistas de David Anderson que tem um filme em competição. Assim se vê a força da animação britânica e o porquê de ser uma referência incontornável para todos os artistas.

2008/05/11

Quay Brothers na Monstra 2008

Foram-nos apresentados como sendo uns dos "mais geniais" criadores do cinema de animação da actualidade...

Ontem, no Teatro Maria Matos, em Lisboa, pude ver The Cabinet of Jan Svankmajer (1984), Are we Still Married? (Still Nacht II), de 1991, This Unnameable Little Broom e Can't Go Wrong Without You (Still Nacht IV), ambos de 1993, e Street of Crocodiles de 1986. O comentário é: sim, são geniais.

A Monstra continua.

2008/05/05

Brand Upon the Brain

É o filme por nós (mim) escolhido como o mais interessante e inovador apresentado no ciclo Director's Cut do Indie Lisboa'08. Já aqui falamos de outro trabalho de Guy Maddin que reafirma, e consolida, o seu estilo muito peculiar. Considero que este criador re-actualiza a linguagem do cinema mudo de forma inovadora e inteligente, re-actualizando simultaneamente a "estética surreal" de maneira nova e diferente de tudo o que até agora tinha sido feito. Maddin, em Brand Upon the Brain (2006), utiliza um granulado grande, a preto e branco, que cria um efeito "antigo". Simultaneamente dá-nos flashes do passado e das memórias passadas, em milionésimos de segundos, a cores, invertendo o clássico cores->presente / p/b->passado. O seu estilo narrativo - neste filme pela voz de Isabella Rossellini - é inconfundível, e Maddin criou uma linguagem cinematográfica própria. Para nós (mim) foi o realizador mais interessante que passou pelo Indie Lisboa'08 e a grande revelação desta edição do festival.

2008/05/02

My Winnipeg

Suposta ficção-documental de 2007, realizada por Guy Maddin, que nos passeia pelas ruas e pela história de Winnipeg, cidade onde nasceu no norte do Canadá. Tratam-se na generalidade de foto e cine-montagens, em que uma voz off vai narrando as curiosidades (para utilizar uma terminologia soft) da cidade, ficando nós sempre no limiar da dúvida (só pode ser ficção!), pois o universo escuro e cinzento em que tudo acontece assemelha-se a uma composição surreal reforçada pela tonalidade monótona da voz do narrador (será o próprio?).

O texto que nos chega, de Maddin ele mesmo, reforça toda a surrealidade imanente:

"Há algo de estranho e ao mesmo tempo onírico a acontecer aqui, onde as pessoas preferem usar as ruelas secundárias em vez das ruas principais, onde os sem abrigo se escondem nos terraços dos prédios abandonados e onde existe uma caricata lei cívica que obriga os actuais proprietários das casas a dar abrigo, por uma noite, ao primeiro habitante ou proprietário da casa."

Basicamente uma criação entre as mais "curiosas" que foram apresentadas neste Indie.

2008/05/01

INDIE LISBOA' 08

Apesar de não ter pedido a credêncial dentro do prazo "legal" (quando a solicitei o festival já ia no segundo dia) a organização, ultrapassando as dificuldades informáticas uma vez que os "livre-trânsitos" possuem códigos de barras, lá conseguiu arranjar-me o dito "passe". O Indie é já um conhecido festival de cinema internacional. Este ano dedicou uma retrospectiva a Johnnie To, que esteve presente na apresentação do seu último trabalho Sparrow (2008). Este filme, em meu entender, está aquém do resto das criações de To, não deixando por isso de ter (algum) interesse. A meu ver surpreendente, está a ser mostra do novo cinema Romeno. São tantos os trabalhos que considero interessantes que me abstenho de lançar nomes e títulos, pelo menos por agora. Como não tenho ido às sessões dos filmes em competição, a expectativa está evidentemente no último dia, quando os filmes escolhidos pelo júri forem apresentados. Devo no entanto dizer que esta opção de agora ver os "consagrados" (dos "emergentes" só fui à tal mostra do novo cinema romeno) é uma "má política": muitos bons filmes ficam pelo caminho e desta maneira arrisco-me a nunca mais os poder ver.


(in) segurança versus (in) sucesso escolar

Consta que a Polícia Judiciária está a perder, a olhos vistos, capacidade operacional, para além de ter perdido, ultimamente, efectivos. O número de detenções está a diminuir acentuadamente e alguns dos crimes mais graves continuam por resolver. Como notou um leitor do Público, num comentário feito à notícia, este panorama pode ser lido, todavia, à luz da doutrina que está a guiar o «combate» aos chumbos nas escolas. Assim, podemos dizer: há menos detenções porque há mais segurança. Não se prendem corruptos porque não há corrupção. Logo, não são precisos tantos inspectores e quanto menos gente se apanhar maior a eficiência da política governativa. Cada vez tenho mais admiração por Alberto Costa. in averomundo-jcm.blogspot.com (Postado por JCM em 17:24, 1 de Maio)

2007/09/09

Sublime atrocidade

Imprint (2006), de Miike Takashi, foi uma encomenda para o final da primeira época de Masters of Horror (que foram transmitidos na televisão via circuíto fechado), séries cujo produtor executivo é o realizador Mick Garris. Imprint seria o 13º episódio da primeira série que acabou só com 12. Apesar de ir passar via cabo, tal não chegou a acontecer por ter sido considerado "demasiado forte". O próprio Mick Garris definiu-o como sendo o filme "mais perturbador" que jamais tinha visto. Não podemos deixar de estabelecer um (virtual) paralelo com o (virtual) "La fin absolue du monde", em Cigarette Burns (2005) de John Carpenter, que também foi uma encomenda de Garris para MOH.

Mas que há em Imprint, que foi exibido em Lisboa integrado no primeiro Festival Internacional de Cinema de Terror, que aconteceu de 5 a 9 de Setembro? Primero gostaria de expressar que, ao contrário da influência que Takashi reivindica (Tarantino), considero que os tempos plasmados das sequências, que são um dos aspectos essenciais deste filme, que têm paralelo no discurso teatralizado das personagens, elemento-chave da dramatização, não é nem a Tarantino, nem à América, que Takashi os deve. A violência em Imprint nada tem a ver com a dos filmes do referido Tarantino. A violência de Miike Takashi também está longe da que vemos em Hostel 2, de Eli Roth, que não é nem banal nem gratuíta, e que tem como antecessor não o seu primeiro Hostel, ou os filmes de quem o produziu (Tarantino again...), mas Saló ou os Cem Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini (que foi assassinado pouco depois de terminar o filme...). Estas obras, em vez de serem rotuladas como "pornografia", deveriam conduzir a uma reflexão, a uma indagação, sobre se tudo aquilo que lá aparece é mera ficção. A outra indagação, no caso de termos concluído que toda a ficção tem sólidos alicerces na(s) realidade(s), seria o porquê, a motivação "profunda", "essencial", de tal perversão que assume inquietante realidade nos snuff *. Heidegger escreveu, na "Carta sobre o Humanismo", que a atrocidade faz parte da humanidade do homem. Muitos dizem que para justificar a sua complacência com o nazismo. E não fará a atrocidade, de facto, parte da "humanidade" dos humanos? Que nos diz isto? Não será esta afirmação uma tentativa de reduzir a compreensão do síntoma à simples constatação da sua existência? Não será o limite de uma visão de superfície que procura impedir a análise da(s) "essência(s)"? Não implicará esta constatação, feita com uma curiosa dose de cândura, uma teoria de impotência militante? Do outro lado temos um Karl Popper proclamando que aos inimigos das "sociedades abertas" é necessário opôr toda a força necessária para impedir que eles as destruam. Sociedades abertas que, teoricamente, são constituídas por indivíduos capazes de intuir onde se encontram os limites da sua liberdade individual. A "pedagogia" serve para isso. Se não o conseguir é uma farsa e não passa de uma burla. Ao Estado compete proteger os indivíduos das perversões daqueles que não conseguiram estabelecer fronteiras interiores e criar limites "automáticos" e "naturais" nos seus comportamentos face ao "outro". Na verdade, para os perversos, o "outro" não existe enquanto pessoa: o perverso reduz os outros a meros objectos que ele utiliza para o seu gozo peculiar. Ao Estado compete utilizar a força e metodologias adequadas para proteger os neuróticos e histéricos, que são basicamente sãos, dos perversos e dos "psicopatas".

Quem acontece afinal em Imprint? Nesta obra acontece, simplesmente, que a atrocidade, a "atrocidade limite", para ir buscar uma pertinente definição de Jaspers, é elevada à categoria de sublime. Não no sentido, idiota, com que Stockhausen classificou o ataque às torres gémeas, mas na medida em que, apesar de termos de apertar as mãos, e uma ou duas vezes fechar os olhos, estarmos perante uma obra acabada, onde o monstruoso é, consistentemente, manipulado e colocado ao dispôr de um projecto, plenamente conseguido, de estetização. Imprint não é de todo um "filme de terror" e este festival teve, pelo menos, o mérito de nos permitir visionar esta obra, no mínimo "interessante", da criação contemporânea. AST

* muitos pretendidos snuff (a generalidade dos que se podem ver na net) são encenados. Parte dos verdadeiros são, muito provavelmente, encomendados e inacessíveis a quem esteja fora desse circuito. A discussão seria se existe um gozo, por parte do autor moral (quem faz a encomenda), "meramente" na posição de voyeur, ou se este passa ao acto por interposta pessoa (tal como Zizec refere em um dos capítulos da compilação de textos traduzida para português com o título "A Subjectividade por Vir"). Isto importa unicamente como curiosidade pois tratam-se, ambos os tipos, de criminosos (assim como os "realizadores" e outros colaboradores). No fundo todos os criminosos são perversos.












2007/07/01

IVANOVO DETSVO

A Infância de Ivan, de 1962, é o segundo filme de Andrei Tarkovsky. Trata-se de uma obra onde a estética peculiar do grande artista se afirma desde o primeiro instante. O filme trata a heroicidade de um orfão, adolescente, que se sacrifica no combate contra o exército nazi, mas é sobretudo uma obra de cariz "esteticizante", onde a plasmação da imagem em prolongadas sequências estabelece, consistentemente, a semiologia e a sensibilidade de Tarkovski que, anos depois, irá realizar o seu terceiro filme, que é uma obra prima essencial do cinema e da arte: Andrei Rubliov (1966). É "curioso" que o protagonista do grande "quadro" final de Andrei Rubliov, a fundição do grande sino, é igualmente um adolescente, orfão, que assume um empreendimento que a ser mal sucedido lhe custaria a vida. É "curiosa" a persistência da água que pinga em ambientes degradados, criando-se aqui o paradoxo do símbolo decaído da purificação, que vai atravessar toda a criação tarkovskiana. As cenas com cavalos, símbolo da virilidade e da mudança, em A Infância de Ivan, são uma sequência onírica trespassada por uma positividade que não permanecerá nos filmes seguintes, onde os cavalos surgem associados à guerra e, numa sequência de um outro filme, aparecem caídos. As cenas oníricas, em A Infância de Ivan, são "momentos chave" que pontuam, suspendendo e subvertendo, o tempo da narrativa. Muito sintomática a auto-interrogação do camponês com quem Ivan se cruza na sua fuga à tranquilidade e segurança que lhe querem impôr: quando é que isto terá um fim? É uma interrogação enigmática pois não sabemos se o "isto" é aquela guerra específica, ou é aquela guerra como mais um episódio de uma história sangrenta. A cena é toda ela surrealista, finalizando com o idoso a trancar a porta de uma casa completamente destruída e sem paredes... Não teremos aqui uma súbtil metáfora da Rússia? O péssimismo e a angustia gerada pela história russa, aqui, em meu entender, apenas aflorados, serão o "leit-motiv" de todos os filmes de Tarkovski. O grande cineasta não chegou a conhecer a Rússia actual, que é muito pior que aquilo que se poderia deduzir da negatividade que paira na sua ficção esteticizada. A Cinemateca Portuguesa fez a primeira projecção em Portugal de A Infância de Ivan, no dia 30 de Junho de 2007. Deveria re-apresentar com maior regularidade as obras do grande génio, prematuramente desaparecido, que são oito criações incontornáveis da história do cinema e da arte. Tratam-se de paradigmas de uma determinada maneira de pensar, e sentir, os actos de filmar e montar, paradigmas que são vitais para a formação de todos os artistas e para a educação da sensibilidade de todos os cidadãos. AST




Terror na Rússia

O senhor (Putin) comprovou ser tão bárbaro e desumano como os seus críticos mais ferozes o descrevem. Alexander Litvinenko, Londres, 21 de Novembro de 2006 in Terror na Rússia, Porto Editora, 2007

Desde então, várias pessoas que nos tinham ajudado foram mortas. Yuri Felshtinsky, idem




Putin

In July he (Alexander Litvinenko) claimed...that the President (Vladimir Putin) was a habitual pedophile...also contented that Putin had been on the take from Mafia groups for years... in Time-Europe, December 18, 2006, pag 26





Bestas nazis

É que os nazis roubaram e destruiram tanto no Ocidente como nos países de Leste, como no caso da Rússia, onde terão destruído e saqueado mais de 300 mil peças. É gigantesco. Às vezes, quando estava a fazer investigação, tudo isto me parecia ficção científica. Héctor Feliciano, autor de "O Museu Desaparecido", in Focus, 4 de Julho de 2007, destacável, pag 75





Corrupção

A corrupção (em Portugal) existe e está a agravar-se. João Cravinho in Focus - Portugal, nº 402, pag 20




Little country - big deals

A Polícia Judiciária (PJ) está a investigar o rasto de cerca de 24 milhões de euros que o consórcio alemão GSC, com o qual o Estado português contratualizou a compra de dois submarinos em 2004, transferiu para a Escom UK, empresa do Grupo Espírito Santo (GES) sedeada no Reino Unido. O inquérito procura apurar se existe alguma relação entre o destino final desse dinheiro e o resultado do controverso concurso público dos navios de guerra submergíveis. Este foi ganho pelos alemães do "Germain Submarine Consortium", que propuseram a venda dos dois submarinos por 845 milhões de euros e comprometeram- -se a proporcionar negócios para empresas portuguesas no valor de 1,2 mil milhões de euros (as chamadas contrapartidas).

A investigação foi despoletado por conversas telefónicas, alegadamente interceptadas pela PJ, entre o ex-ministro da Defesa Nacional, Paulo Portas, e o ex-director financeiro do CDS-PP, Abel Pinheiro, no âmbito do inquérito-crime "Portucale". O Ministério Público ordenou a separação processual, abrindo então um novo inquérito para os submarinos.

Fonte ligada ao processo disse que a Escom do Reino Unido (o GES tem outras empresas com o mesmo nome sedeadas nas Ilhas Virgens Britânicas e em Portugal) poderá ter transferido parte dos 24 milhões de euros para escritórios de advogados, empresas ligadas a tecnologias de ponta e à investigação, ao ramo automóvel e ao sector da construção civil.

A transferência das verbas para estas empresas é justificada com a prestação de serviços ligados ao contrato de fornecimento dos submarinos, mas, em vários casos, a PJ suspeita de que isso não corresponderá à verdade. Procura apurar, por isso, se se trata de serviços simulados e se, na realidade, aquelas transferências de verbas não estarão relacionadas com a vitória do GSC, em 2003, no referido concurso público internacional. in http://jn.sapo.pt (2007/07/08/nacional)














2005/10/15

LE PROMENEUR DU CHAMPS DE MARS

Um filme sobre uma morte. Singular como todas as mortes. Um filme sobre um homem face à sua morte. Sobre o olhar dos outros face a uma morte que antecipada implica, neste caso, um ajuste. Que de alguma maneira ele tenta iludir...
Um filme que também é um documentário. Onde a ficção se fixa num dos personagens porque a outra é pública. Demasiado pública.
Uma meditação, tranquila, sobre o homem quando se plasma na história.
Sobre a morte de um que não é um qualquer. Tal como ele o disse.
Um dos momentos interessantes da Festa do Cinema Francês. Realização de Robert Guédiguian com argumento baseado no romance Le dernier Mitterand de Georges-Marc Benamou. AST















JOYEUX NOEL

Um trabalho sem pretensões, em formato clássico, melodramático, que não inova nem pretende inovar, que não é genial nem o pretende ser. Assim o cremos.

É um filme que nos fala da absurdidade da guerra e do íntimo crápula, que extravasa demasiado, dos seus decisores. É uma obra que confronta a realidade de quem combate com o discurso esquizofrénico de quem decide. Trata-se de um filme baseiado em factos reais que aconteceram na noite de natal de 1914. Factos que foram escondidos porque os "decisores" os consideraram "alta traição". Alta traição é, por exemplo, festejar a noite natalícia com o "inimigo". Inimigo que o discurso oficial, o discurso da igreja "de cima", apresenta como herege. Uma espécie de não-gente que é necessário eliminar. Matar sem refletir investidos de um espírito de cruzada onde "nós" somos o bem e o "inimigo" o mal.

Um filme despretencioso que faz pensar, onde a música une os "inimigos" e onde a bela voz de Natalie Dessay, "à capella", os deslumbra. Aos "inimigos". E a nós também. Um filme de Christian Carion com argumento do próprio, com Diane Krueger e Guillaume Canet. Entre outros. AST















GABRIELLE DE CHÉREAU

Patrice Chéreau ficou verdadeiramente famoso depois de encenar o Anel dos Nibelungos no Festival de Beireuth sob direcção de Pierre Boulez. Tratou-se de uma ruptura histórica com as velhas encenações wagnerianas. As ninfas do Reno, na encenação de Chéreau, eram prostitutas. Finalmente punha-se uma pedra num romantismo imbecil que entrou século XX adentro. Aconteceu no coração da decadência: Beireuth. Talvez por isso fosse tão histórico.

Na semana que passou França assistiu à estreia mundial de Gabrielle e a Festa do Cinema Francês trouxe-o a Portugal na semana que agora acaba. Mais uma ante-estreia, entre muitas. Que poderia (e mereceria) passar despercebida se não tivesse colado o nome de Chéreau.

De que se trata afinal em Gabrielle? Que pretende Chéreau transmitir-nos? Será que pretende de facto transmitir qualquer coisa ou trata-se simplesmente de um exercício de estetização visual "à la Oliveira? Que, claro, quer sempre transmitir algo por mais banal que seja. "Interessantes" as legendas, em grande plano, que antecipam algumas frases. Oliveira repete textualmente as sequências em alguns filmes. Para o ouvinte-espectador as fixar bem...
É interessante o 380º a partir do piano, com as personagens imóveis. Nada que ver com Oliveira...
É curioso o branco/preto exterior, que coincide com a voz interior do protagonista que rememora o passado-presente e no final a fuga/morte em contraste com as cores do interior que coincide com o presente/acção. A câmara, bem mais nervosa que a placidez-contemplativa (...) da câmara de Oliveira, marca alguma diferenciação em relação ao trabalho do português.

Mas o nome Chéreau não salva Gabrielle, que não mais não é que um filme teatralizado sobre os bons e civilizados costumes da burguesia parisiense do final do século XIX; sobre o casamento que não foi de conveniência mas passou a sê-lo; sobre a monotonia da ausência de paixão e sobre a tranquilidade que o lar rico e burguês oferece, que tantas mulheres e homens escolhem e outras(os) procuram porque é cómodo. Um filme vulgar onde nada de novo se aprende, nada de novo se mostra, onde tudo é morno, de um morno que nem a vertigem da câmara ao som de um qualquer pós-serialismo consegue quebrar. Soa a artifício. Talvez o facto do burguês-homem, ao contrário daquilo que ele próprio imaginava, não dispensar o amor... Está claro que nem isto é novo. Chéreau deveria voltar-se de novo para a ópera. AST