2006/02/18

A ORQUESTRA NACIONAL DO PORTO É MUITO BOA E PODE FICAR AINDA MELHOR

Quem o diz é Martin André, o maestro britânico que dirigiu a orquestra num programa "grandioso", apresentado na Casa da Música, no Porto, onde constou, nomeadamente, a 11ª Sinfonia de Shostakovich. Foi hoje, dia 17. Conversámos com ele exatamente antes do início concerto. O maestro esperava-nos com as partituras abertas, repletas de sublinhados e anotações.

Álvaro Teixeira: Trabalhou muito essas partituras?

Martin André: Conhece esta Carmen (o maestro refere-se à Suite Carmen, de Rodion Shchedrin, apresentada na primeira parte do concerto)?

AST: Essa partitura não é a do Shostakovich...

Martin André: Não é aquela! Esta é a da primeira parte. Eu escolhi isto porque ele foi aluno do Shostakovich. Está a foto dele na partitura. É este!

AST: Pode dizer o nome dele por favor?

Martin André: Shchedrin. É russo como Shostakovich. E era um bom amigo dele. Escolhi a sua peça porque tem muito humor, está bem orquestrada e é também uma homenagem a Bizet. Um pouco o contrário desta sinfonia (11ª de Shostakovich), que é muito grande, muito severa, é como a história da revolução... A peça que escolhi para a primeira parte é o oposto. A boa comédia... São duas obras diferentes e interessantes. Você fica para o concerto?

AST: Só para a primeira parte...

Martin André: É uma pena. Tem outra coisa para fazer?

AST: Não. Parto para Vila Real que é para lá das montanhas.

Martin André: Sei muito bem onde fica. Vive lá?

AST: Não. Mas como estou aqui perto e os meu pais estão lá...

Martin André: Também gosto muito de Lisboa.

AST: Mas o Porto tem uma magia especial. Talvez um pouco escuro...

Martin André: Não! Não! É muito belo. Eu e a minha família gostamos muito de estar cá. As pessoas...

AST: Sim, sim! As pessoas cá no Porto são muito simpáticas. Também gosto muito delas.

Martin André: Gosto muito da cidade, das pessoas e dos músicos: são muito concentrados no seu trabalho.

AST: No seu entender a ONP tem um grande nível?

Martin André: Sim tem. Muito especialmente a possibilidade de o elevar. Isso depende dos programas, dos chefes de orquestra e todas as outras coisas...

AST: Que coisas?

Martin André: As coisas políticas, mas quando eu estou aqui sómente por uma semana, nós fazemos estritamente e sómente música. Nós esquecemos esse género de coisas e trabalhamos totalmente na música. É muito bom e muito saudável!

AST: Acha que em Portugal há demasiada política a atrapalhar a criatividade?

Martin André: Sim! Porquê? É sempre assim?

AST: É uma pergunta?

Martin André: Sim.

AST: Não sei. Interessa-me pouco. Cada vez menos.

Martin André: Você vive cá... mas para mim é uma pena...

AST: Pois...

Martin André: Há sempre política em todos os lugares. É normal...

AST: Acha que em Portugal existem mais interferências e bloqueios que nos outros países?

Martin André: Penso que sim. É pena porque vocês têm bons músicos, têm uma grande casa como esta (Casa da Música), em Lisboa vocês têm várias salas boas como a do Teatro São Carlos e as do Centro Cultural de Belém, que vos permitem fazer coisas boas, não sómente de música mas também na dança, no ballet, na ópera, no teatro, no jazz, etc, mas... a política de cá... isso não consigo compreender.

AST: Acha que os políticos portugueses são mediocres?

Martin André: Não. Não posso afirmar isso porque é perigoso.

(risos)

Martin André: Mas é uma pena! A energia é muito positiva mas de tempos a tempo passa-se algo mau que estraga tudo. Mas a vida continua e temos que manter um espírito positivo.

AST: Costuma vir aqui regularmente trabalhar com esta orquestra?

Martin André: Temos de facto uma relação muito estreita. Somos amigos, profissionais e continuaremos esta colaboração. Estou muito contente por trabalhar com esta orquestra.

AST: Portanto pensa que esta orquestra tem potencialidades para ser ainda melhor. Uma orquestra de grande nível.

Martin André: Sim. Sim. No futuro. A sala é nova...

AST: E com uma acústica horrível...

Martin André: Tem que se alterar isso. O tecto não está bem. Tem de ser melhor trabalhado.

AST: E os materiais utilizados em toda a sala?

Martin André: Também, também...

AST: E a forma rectangular da sala?

Martin André: Isso depende onde está sentado. No meio ouve-se bem. Mais ao fundo não é lá muito bom...

AST: E chama-se a isso uma sala de concertos? Cuja audição varia de lugar para lugar? Uma boa sala tem de permitir uma boa audição em todos os lugares.

Martin André: Sim, sim. Isso é verdade. É necessário falar-se ao nível da direcção, pensar-se e ver o que se pode fazer para melhorar um pouco a acústica.

AST: Eu penso que é necessário optimizar-se a acústica. Se é que é realístico face áquilo que se construiu...

Martin André: É necessário fazer-se qualquer coisa. Futuramente...

(risos)

AST: O que significa para si Shostakovich? Que por acaso é um compositor cuja obra conheço bem...

Martin André: Hã sim?

AST: Olhe: já escuto os Borodin a tocarem os quartetos de Shostakovich há cerca de vinte anos! Por exemplo... Acha que Shostkovich tem a envergadura de um Mozart?

Martin André: Hum... É difícil de responder. Tempos diferentes, países diferentes... Mas... ele escreveu quinze sinfonias...

AST: Quinze quartetos de cordas...

Martin André: Exacto. E eu creio que por exemplo esta sinfonia (11ª) é uma grande história da revolução. Depois há as sinfonias 7, 8, que são contra as regras vingentes... Ele viveu a sua vida no século vinte e a sua música vem do coração, sendo uma música para todo o público e não sómente para intelectuais. Ele cria diferentes energias, repare: esta (11ª) começa com "largo" e "pianissimo" com as surdinas. No final o som, as dinâmicas, são incrivelmente fortes. Muito interessante. Para tocar e para escutar: isso é o que me agrada muito. A sua música não é só para os músicos mas para os músicos e para o público.

AST: Eu penso que o nível da criação de Shostakovich é desigual. Tem obras extraordinárias e outras que nem por isso. Que lhe parece?

Martin André: Hum...

AST: Isto passa-se com todos os compositores. Até com um Beethoven... Mas com Shostakovich parece-me demasiado notório. Ele tem sinfonias geniais e outras que foram menos conseguidas.

Martin André: Não estou muito de acordo. A primeira por exemplo... ele era muito jovem quando a escreveu...

AST: Mas essa é excelente!

Martin André: Exatamente!

AST: E a segunda é fantástica.

Martin André: Para mim essa não é tão importante.

AST: Talvez porque seja mais experimental... Mas muitíssimo bem escrita! Aí Shostakovich foi inovador e levou logo com as críticas do partido comunista. A partir daí abandonou radicalmente o estilo que iniciou com a segunda sinfonia. O que não o livrou de críticas futuras...

Martin André: Sim, sim. É verdade!

AST: Para aquela época a segunda sinfonia foi absolutamente inovadora. E aí os comunistas, os dirigentes, encarregaram-se de pôr-lhe um freio...

Martin André: Na verdade para responder com um conhecimento muito aprofundado à sua questão teria de ter dirigido todas as sinfonias dele e isso não aconteceu ainda. O que lhe posso dizer é que não há uma única sinfonia de Shostakovich que eu não queira fazer. Quero dirigir todas as quinze.

2006/02/13

JOSHEP MALLORD WILLIAM TURNER

The finest creator of mystery in the whole of art, Claude Debussy, referindo-se a J.M.W. Turner

Quando se fala de Turner, estamos a tratar, nada mais nada menos, que do "inventor" do abstraccionismo e do grande percussor do impressionismo. A forma como Turner trabalhou a luminosidade foi totalmente inovadora e foi um passo, somente um passo, para, de um trabalho absolutamente novo a partir da pintura das luminosidades, entrar no campo da fuga das formas figurativas.

Entre 1840 e 1845, Turner deixou inacabadas algumas obras. Era normal que o pintor terminasse as obras quando se encontravam expostas para os membros da academia, poucos dias antes das portas serem abertas ao publico em geral. O resultado foi que muitas obras ficaram por acabar, outras nem chegando a ser expostas. No entanto se olharmos bem para Landscape with Water ou para Seascape with Storm coming On, concluiremos com facilidade que, em muitos casos, o pintor deixou as obras "inacabadas" porque, pode-se afirmar com alguma certeza, achou que estavam "acabadas de facto". Porque arrisco este juizo pouco convencional? Comparando com obras consideradas "acabadas" como Norham Castle - Sunrise, igualmente de 1845, verifica-se que existe uma continuidade estilistica que se projecta para um abstracionismo crescente. As similaridades conduzem-nos a Sunrise with a Boat between Headlands, obra inacabada que nos leva, olhando para Norham Castle, a questionar se grande parte das obras inacabadas deste periodo teriam sido deixadas assim deliberadamente. Claro, existem pormenores que nos levam, numas mais que noutras, a afirmar que se encontram inacabadas. Algumas, com toda a clareza, ficaram inacabadas. O problema coloca-se se houve vontade expressa do criador ao "abandona-las" nesse estado, nomeadamente aquelas referidas, que poderiam muito bem, utilizando uma metodologia comparativa, ficar exatamente como acabaram por ficar, podendo serem consideradas "acabadas". Nessa fase, como foi dito, toda a obra de Turner se direccionava para um abstracionismo crescente que ele trabalhou no limite, que foi o limite do seu tempo e daquilo que ainda poderia ser compreendido como "arte". Mas o interessante tem a ver com o "limite" que foi muito mais alargado que aquilo seria de esperar em meados do sec XIX. No seu tempo, Turner colocou a Inglaterra muito adiante no que toca a esta forma de arte. Voltarei a Turner que pode ser visto, gratuitamente, na Britain Tate. Pilar Villa















CASAQUISTÃO

Haviam histórias, no passado, em que as famílias para se verem livres de um herdeiro indesejado o declaravam senil, internando-o num hospício. Histórias que oscilavam entre a irrealidade pouco sustentável e a surrealidade que todas as realidades comportam. Nos regimes totalitários esta era a via "ligth", normalmente quando o "politicamente incorrecto" era de "boas famílias". Em vez de ser fisicamente eliminado, a via preferida dos fascistas e outros totalitários, era declarado "insane" e colocado num asilo, para contentamento de todos.
Afinal esta última via parece ainda funcionar em regimes aparentemente democráticos, na prática (muito) pouco democráticos, que se encontram sob "vigilância", sob o olhar dos "outros", neste caso da "comunidade internacional"...
Infelizmente, e isto é muito sintomático do "carácter" de um país, em Portugal, ninguém parece dar muita importância ao facto de na Madeira, uma ilha que consta ser portuguesa, o chefe aparentemente vitalício do governo regional, com o apoio unânime, claro está, do partido a que pertence, impôs uma peritagem psiquiátrica a um deputado da oposição que acusa o regime de anti-democrático e corrupto, coisa que não parece ser novidade para ninguém do exterior, só que dito na ilha tem as consequências que tem num regime de cariz totalitário que não aceita a crítica.
Se tal se passasse no Casaquistão, seria considerado "normal", mas talvez os jornais portugueses o referissem. Agora, na Madeira, uma ilha que consta ser portuguesa, parece que o politicamente correcto dita que os jornais, excepto um, os partidos e o "governo da nação", ignorem o assunto. Trata-se afinal de um "caso médico"... País maravilhoso! AST

Nota: perdoem-me os do Casaquistão onde talvez um caso assim não aconteça.

Nota2: passados poucos dias após o "caso médico" acima comentado, um jornal foi "saqueado" sob ordem judicial. Em Portugal, em vez de se impedirem as fugas de informação nos tribunais, processam-se judicialmente os jornais e os jornalistas que publicam as ditas "fugas", cuja responsabilidade é de agentes do mesmo aparelho judicial que seguidamente os processa. País Maravilhoso, bis!














En un libro que se llama “Argentina rumbo al colapso energético” y que puede bajarse de Internet en la página correspondiente a la Universidad del Salvador, Ricardo Andrés de Dicco, nos anticipa que como resultado de la actual política de explotación irracional de los recursos, nuestras reservas tanto de gas como de petróleo, estarían agotadas en menos de una década. Lo que viene según él, inexorablemente en la Argentina, seria una gravísima situación de colapso energético a la vez que una importante dependencia nuestra en esa materia de Bolivia y de Venezuela, con la consecuencia de graves distorsiones en la competitividad del aparato productivo nacional. Según los diagnósticos de de Dicco, hacia el 2020 el suministro eléctrico del país deberá cubrirse en un 62% por centrales nucleares, 36% por centrales hidráulicas y 2% restante por granjas eólicas y ello implicaría la construcción antes de esa fecha de once nuevas centrales nucleares, dos represas hidroeléctricas internacionales, la de Garaví y la de Corpus Christi, además del desarrollo de granjas eólicas y plantas de producción de biocombustibles para uso local y de la agricultura. www.ellibertadorenlinea.com.ar RECURSOS NATURALES Y SER HUMANO (13/02/2006)














Aquecimento é global e o maior nos últimos 100 anos, diz estudo
...
Pesquisadores fizeram medições para descobrir temperaturas máximas através do tempo
Por mais que alguns ainda tentem negar, a comunidade científica internacional se mostra cada vez mais de acordo sobre uma ligação entre o aquecimento global incomum e atividades humanas - como o uso do petróleo, por exemplo.
Uma nova pesquisa caminha nessa direção. Publicada na revista científica mais influente dos Estados Unidos, a Science (www.sciencemag.org), ela mostra que o Hemisfério Norte registrou no século 20 as ondas de calor mais freqüentes e mais influentes de pelo menos os últimos 1.200 anos. Em mais de mil anos, nunca houve uma flutuação tão intensa. www.segs.com.br (14/02/2006)















COMPRAR CD'S EM LONDRES

O editor do blog pediu-me para procurar alguns cd's da editora "Brilliant Classics" e respectivos valores em London. Todos os valores indicados foram encontrados no megastore da HMV em Oxford Circus, um dos melhores locais para estas compras. Tratam-se dos valores normais praticados nesta casa para estes discos e esta etiqueta. Existem saldos "loucos" nesta altura que permitem adquirir estojos e cd's de outras etiquetas que normalmente custam 3 ou 4 vezes mais. Deve-se procurar bem, nesta e em outras casas vizinhas, nomeadamente nas Virgin's, que por sistema praticam valores mais elevados mas onde por vezes se encontram saldos inesperados, como os nocturnos de Chopin por Pollini, dois cd's de 2005, por 10 pounds(£). LP

MAURICE RAVEL - Complete Orchestral Works (4 cd's)
ONF, E. Inbal
6,99(£)

CLAUDE DEBUSSY - Orchestral Works (4 cd's)
Orch. ORTT, Jean Martinon
6,99(£)


BEETHOVEN - Complete Symphonies (5 cd's)
Staatskepelle Dresden, Herbert Blomsted
8,99(£)

J.S.BACH - OrgelWerke (6 cd's)
Tom Koopman
9,99(£)

SCHUBERT - Complete Symphonies (4 cd's)
The Hanover Band, Roy Goodman
6,99(£)

MOZART - Piano Sonatas
Maria João Pires
8,99(£)

EVGENY KISSIN IN CONCERT (4 cd's)
6,99(£)


Outros cd's

HMV (Oxford Circus):

DMITRI SHOSTAKOVICH - Quartetos 1 - 13 (4 cd's)
Borodin Quartet (original members)
Chandos Historical
£9.99

MOZART - Violin Sonatas
Hilary Hann, Natalie Zhu
Deutsch Grammophon
£6.99

MARTHA ARGERICH AND FRIENDS (3 cd's)
EMI
£9.99

DVORAK - Tone Poems
Berliner Philharmoniker, Simon Rattle
Deutsch Grammophon
£9.99

Virgin (Oxford Street e Piccadily Circus):

MAHLER - Symphony 9
Berliner Philharmoniker, Claudio Abbado
Deutsch Grammophon
£8.99

Os cd's editados pela LSO custam £5.99 cada um mas muitas vezes podem ser comprados por £3.99

Os cd's da Penguin Classics podem ser adquiridos por £2.99!













"A defesa da liberdade de expressão é um principio sagrado" da democracia europeia, que "nada" pode pôr em causa, afirmou ontem à noite, em Washington, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.
...
"A liberdade de expressão é um elemento essencial da nossa democracia", frisou o presidente da Comissão Europeia.
"É precisamente esse princípio que permite que algumas vezes haja aquilo que alguns consideram excessos mas que permite também que se possa contestar essa situação por meios pacíficos, pelo debate e pelo diálogo", acrescentou Barroso www.publico.clix.pt (10.02.2006, 08h54, Lusa)














“Alto lá! Esta terra tem dono!”
Seguramente os indígenas representam hoje no Brasil o movimento social mais ativo e radicalizado em defesa dos seus direitos frente ao Estado. Estão diariamente em evidência por ocupações de prédios da FUNASA e FUNAI, retomadas dos territórios invadidos e, neste momento, as mobilização pelos 250 anos da morte de Sepé Tiaraju, no Sul do país. Os índios têm sido notícias também pela caótica situação da assistência à saúde ou quando a Polícia Federal, a mando da Justiça Brasileira, os expulsa de forma violenta das suas terras em favor de poderosas empresas ou fazendeiros. O que está acontecendo com os índios e por que tanta repressão? www.midiaindependente.org (07/02/2006 às 04:05)



Kito, 07 de febrero de 2006.- Los pueblos kichwas del Ecuador agrupados en Ecuarunari, condenamos enérgicamente la represión ejercida por el gobierno de Alfredo Palacio en la noche de ayer y esta madrugada contra los compañeros habitantes de Sucumbios y Orellana de nuestra Amazonia Ecuatoriana. http://florenciovaz.blog.uol.com.br















2006/02/09

JUNGLES IN PARIS

Pilar Villa

Foi sob este nome sugestivo que estiveram expostas na Modern Tate, entre 3 de Novembro de 2005 e 5 de Fevreiro de 2006, um conjunto muito importante de obras do HENRI ROUSSEAU.

Na verdade tratou-se de um acontecimento de primeiro plano pelo relevo e pelo investimento. Todos sabemos os gastos que se fazem cada vez que se trazem obras de todo o mundo para serem exibidas num mesmo local. Tal acontecimento permite-nos contactar com quadros que nunca tinhamos visto "ao vivo" e ter uma prespectiva fundamental de uma vida e de uma obra.

Logo na entrada deparava-se-nos Tiger in a Tropical Storm de 1891. Um tigre caricaturizado que mais parece uma deidade do budismo (lembremo-nos da Exposiçao Universal onde Rousseau e Debussy se passearam e se maravilharam) parece saltar numa selva irreal, atravessada por longas pinceladas de oleo sobre a tinta que parecem simular as rajadas de chuva tropical. Esta foi a primeira pintura de Rousseau sobre a selva.

Um pouco antes, em 1889, Rendez-vous in the Forest é uma pintura de conto de fadas, onde um cavalheiro transporta ao colo a sua dama ao longo de uma floresta de paz.

Mas foi em Carnival Evening de 1963 onde Rousseau conseguiu um ambiente de maior misteriosidade, onde o maravilhoso entronca com uma natureza que encobre e testemunha um irreal fabulado. Uma lua cheia encima uma paisagem de fim de dia, recortada por arbustos sem folhas, onde duas figuras de sonho a iluminam: Pierrot e Columbine. Simplesmente maravilhoso.

Em The Waterfall de 1910, em pleno "estilo da selva", uma selva conhecida a partir de livros e de jardins parisienses, Rousseau pinta uma cascata caricata, pois parece uma pequena fonte, onde se encontram figuras supostamente africanos. Um quadro kitsh.

Jungle with Setting Sun, também de 1910, trata-se de uma das raras pinturas onde aparecem humanos a serem atacados. Numa selva luxuoriante com um sol grande, redondo e muito vermelho a mostrar-se por entre as folhas, um leopardo ataca um humano.

Muitas seriam as obras que mereceriam ser referidas mas irei falar de uma mais que teria, em qualquer dos casos, de ser assinalada. Trata-se de War, um trabalho de 1894.
A presença influente das pinturas medievais onde a morte aparece a cavalo e com uma foice torna-se evidente. Aqui, uma menina de rosto selvagem galopa um monstruoso cavalo negro, empunhando uma longa espada. O cavalo salta sobre corpos inanimados sobrevoados por aves negras. O azul muito claro, estranhamente luminoso, no ocaso, contrasta com as tonalidades avermelhadas e estranhas da proximidade. Uma obra impressionante, monumental e carregada de simbolismo. De um terrivel simbolismo...















2006/02/07

QUARTETO BORODIN

É penível, quando se acompanhou ao longo de muitos anos a carreira de um agrupamento que foi dos melhores do mundo, ter de concluir que os agrupamentos não são eternos, porque quem os integra também não. Claro que quando uma orquestra passa a instituição mundial, como uma Berlin ou uma Wien Philharmonic, os estados encarregar-se-ão de perpétuar a sua existência, mantendo os elevados níveis, porque passaram como a "património cultural da humanidade" e prestigiam os países que as construiram e mantêm. Aliás as Filarmónicas, no início, foram obra de associações de "melómanos". Um quarteto de cordas não tem o impacto de uma orquestra filarmónica e são raros os casos em que os estados se "encarregam" deles. Muitos quartetos que fizeram história já não existem. O Quarteto Borodin é um dos poucos da "velha guarda" que ainda se mantém no activo por alma e obra de Valentin Berlinsky que é um dos músicos mais honestos do mundo (os músicos, salvo excepções, são dos seres mais honestos do mundo), para além do grande artista que sempre foi. Rostropovich retirou-se a tempo. Passou a dirigir orquestras, como outros grandes instrumentistas, sendo agora uma "estrela" da direcção orquestral. No violoncelo tocará seguramente. Mas em privado. Valentin Berlinky, que já tivémos a honra e a alegria de entrevistar, leva o seu projecto de vida até ao final. O problema é que, tal como sucedeu com outros génios da interpretação, a partir de determinada altura as falhas notam-se. Primeiro os outros músicos, depois os "críticos" com formação musical sólida e finalmente o público. Por duas vezes, no recital de ontem do Quarteto Borodin na Casa da Música do Porto, a desafinação foi notória numa frase repetida em duo pelo violoncelo e o viola. Uma acústica anormal transformou um mau momento numa tragédia pois numa sala sem reverberação uma desafinação é uma "drama" que impacta e choca. Claro que isto acontece, não é novo, mas vindo daquele que foi, para muitos, o melhor quarteto de cordas do mundo, é no mínimo constrangedor. Mas não foi só isso. No início do quarteto nº5 op18 de Beethoven, não se percebeu o que o agrupamento quis ao escolher colocarem os arcos junto aos cavaletes com as sonoridades características que se produzem. Pareceu não existir um conceito, uma "estética", por detrás deste gesto. Que nos lembremos isso não consta na partitura. E mesmo que constasse, tem de se perceber, na continuidade, que tem uma concepção composicional a suportá-lo. Beethoven é um dos compositores que nunca esboçou um gesto em vão. Se não consta e o agrupamento decide fazê-lo, tem de ficar claro, e ser percebido auditivamente, que se trata de uma leitura singularizada suportada por uma concepção estética absolutamente consistente. Não nos pareceu nenhum dos casos. Já o "andante cantabile" da mesma obra foi um momento grande deste recital. Grandes linhas, grandes respirações, grandes arcos dinâmicos, produziram uma leitura sentida e genial daquele andamento.

O quarteto nº14 de Shostakovich, de 1972, é mais uma daquelas obras do compositor que corresponde, em nosso entender, a um momento baixo de inspiração. Não se sente a necessidade do fluir dos acontecimentos que acontece noutros quartetos do compositor. Fica-se com a estranha sensação que poderia se assim mas também poderia ser "assado". O pior é que se calhar "assado" resultaria melhor... Teve fases, o grande compositor russo, que nunca teve a vida propriamente facilitada. Os Borodin fizeram o melhor que puderam num repertório que trabalharam directamente com o criador. Quanto ao quarteto nº16 op 135 de Beethoven, que preencheu toda a segunda parte, teve bons momentos mas globalmente ficou bem aquém daquilo que os Borodine já fizeram com esta mesma obra. Claro que uma outra acústica melhoraria tudo, mas desta vez, infelizmente, o problema não foi só da má acústica. Voltando ao princípio, provavelmente um quarteto não pode durar eternamente. AST














SURREALIZANTE

Construir-se um projecto de raiz, dedicado nomeadamente à música contemporânea que tem sido marcada por várias óperas, algumas das quais já são referências na história da música do século vinte e outras sê-lo-ão para o presente século, pressupunha, no mínimo, um fosso para orquestra. Mesmo sem cena e maquinaria, cuja inexistência nos parece igualmente um absurdo, os encenadores arranjariam formas eventualmente interessantes de contornar essa ausência. Quando qualquer teatro de "província" possui, hoje em dia, fosso para orquestra, é no mínimo estranho que a Casa da Música do Porto, um projecto que levou largos milhões, não o possua. Claro que agora ninguém é responsável. Alguém nos disse que foi o arquitecto que não quiz!!!
Mas como este facto incompreensível não bastasse só por si, temos um auditório principal rectangular, a pior configuração acústica, decorado com materiais não absorventes. Claro que a reverberação é enorme e claro que a audibilidade varia de zona para zona, dentro da sala.
Até o pequeno auditório, decorado com madeiras esburacadas altamente absorventes e contra-indicadas para espaços pequenos que já de si possuem pouca reverberação, se caracteriza por uma acústica insuportavelmente sêca. Exatamente o oposto da sala principal. É caso para dizer que não acertaram uma... Tirando estas " minudências técnicas", o mais fantástico, o mais surrealista, são as escadas! De largas e relativamente baixas passam, no lance seguinte, a altas e estreitas. Quem tenha pés grandes que se cuide: a queda pode ser fatal. São grandes lances (...) todos em metal bem durito... AST















2006/02/03

EMANUEL AX INTERPRETA MOZART, BEETHOVEN E CHOPIN

Na Casa da Música do Porto, em Portugal, o pianista polaco, que reside nos Eua, brindou o público presente com interpretações inspiradas da Sonata kv 211 de W.A.Mozart, da op2 nº2 de Beethoven e das quatro baladas de Chopin. Aconteceu dia 5 de Fevereiro.

Ax é dono de um fraseado claro revestido de uma espontaneidade que foi claramente prejudicado pela acústica reverberante de uma sala desprovida de texturas e sem painéis de transmutação acústica que permitam regular o valor da reverberação, cujo limite é o efeito de eco. Se estiver repleta de público, o mesmo funciona como absorvente e a "coisa" passa bem. A questão é que frequentemente a sala não enche e num recital de piano o excesso da dita reverberação é terrivelmente nocivo, sobretudo em obras onde se exige grande clareza de fraseados. No rondeau final da sonata de Amadeus ficou-se com a impressão de uma carência de nitidez. Esta sala revela um problema acústico. Um problema, que ao contrário da inexistência de fosso para orquestra que impede a apresentação de uma infinidade de óperas antigas, clássicas e sobretudo contemporâneas, pode ser resolvido com alguma facilidade (e muito dinheiro...).

Voltando a Emanuel Ax, que é um pianista que já escutamos noutras ocasiões em melhores condições acústicas, a sua interpretação de Beethoven foi menos prejudicada que a de Mozart. Aparentemente Ax reduziu o pedal direito, o que permitiu uma maior nitidez, que a par de um leque mais alargado de dinâmicas, tal como Beethoven exige, nos ofereceu uma interpretação mais consistente do ponto de vista estilistico e dotada de maior expressividade.

Depois do intervalo mudamos para um lugar mais centrado em relação ao piano e a condição acústica melhorou.
A interpretação das quatro baladas de Chopin são sempre um acontecimento que cria algum suspense. Tratam-se de obras centrais da literatura pianística, de criações dotadas de suprema inspiração, além de que se possuiu, frequentemente, registos destas obras por uma infinidade de intérpretes.

A verdade é que Ax nem sempre foi de uma clareza paradigmática, nomeadamente no início da balada nº2. No entanto, na mesma balada, conseguiu dar-nos uma leitura de grande folgo, de grandes gestos que modelaram os contrastes dinâmicos mantendo audíveis, no entrelaçado de harmonias e movimentos temáticos, as linhas condutoras fundamentais que sustentam a estrutura da balada.

Globalmente nas quatro baladas, Ax conseguiu um bom equilibrio entre expressão e clareza, o que nem sempre é evidente nas interpretações que se fazem do génio polaco. Ax demonstrou igualmente ter um conceito pessoal que singulariza as suas interpretações. Um conceito que assenta exatamente na mediação conceptual, sem no entanto se poder dizer que a sua interpretação é "racionalista", mediação esta que impede a arrebatação descontrolada em que muitos pianistas se deixam cair nas leituras que fazem das obras de Fryderyk Chopin. Descontrole que é muito mais fácil de acontecer que aquilo que se pode imaginar. A música de Chopin frequentemente induz num arrebatamento desmesurado. AST














RODELINDA

Il Complesso Barocco, dirigido por Alain Curtis, interpretou dia 1 de Fevreiro, no Barbican, a opera de George Frideric Haendel, Rodelinda, Queen of the Lombards.

Rodelinda teve uma leitura fabulosa pela soprano Emma Bell, que repetidamente recebeu bravos dos ouvintes sempre que terminava uma das muitas e belas arias desta opera.

Sonia Prina, alto, no papel de Bertarido, marido de Rodelinda, foi igualmente muito louvada pelo ouvintes que enchiam o Barbican, se bem que se vissem alguns lugares por preencher. Uma leitura convicta, uma voz bem colocada e bem projectada e um belo timbre redondo, justificam perfeitamente este entusiasmo dos ouvintes.

No papel do malvado Grimoaldo, Duque de Benevento, esteve Fillipo Adami que demonstrou possuir uma voz excelentemente colocada e um muito belo timbre claro e projectado. Igualmente Kobie van Rensburg, mezzo, esteve muito bem no papel de Eduige, assim como Hilary Summers, alto, no papel de Unolfo, conselheiro de Garibaldo mas aliado secreto de Bertarido. Finalmente Vito Priante, baritono, foi um Garibaldo eficaz.

Il Complesso Barocco esteve excelente, com muito poucos deslizes, inevitaveis em concertos ao vivo com instrumentos antigos. Alain Curtis, uma vez mais, mostrou ser um dos mais interessantes e criativos directores de obras antigas, na actualidade. Um espectaculo cinco estrelas. Livios Pereyra














CHRIST IN THE HOUSE OF HIS PARENTS

Um trabalho considerado conservador quando comparado com outras obras do artista.
Na realidade deve ler-se nas entrelinhas desse aparente e localizado conservadorismo de estilo nesta obra de John Everett Millais (1829-1896).
Falou-se no simbolismo da madeira, etc, etc (o quadro mostra a carpintaria do pai).
Mas o que impacta e choca trata-se do outro menino. Do servente, que parece levar um recipiente para o cristo que tem cara de mimado. Uma face onde se espelha medo no seu olhar de lado. Face ao suposto poder e trancendentalismo, ao menino normal resta a serventia e receio. Isto transparece claramente assim como a face da Maria. Uma face transviada de doente mental. Depois existe um rebanho, um rebanho muito caricato, que parece esperar que o "menino-deus" os conduza para qualquer lado. Millais nunca poderia ter pintado isto por acaso. Um quadro rotulado de conservador, e por isso detestado por Charles Dickens, possuiu muito mais que o aparente academismo de estilo.
Na mesma sala da British Tate encontram-se quadros "famosos" e "vanguardistas" do mesmo pintor, como o genial "Ophelia". Pilar Villa














AMEAÇAS E DESTRUIÇÃO

Assim reagem os fundamentalistas islâmicos a uma simples banda desenhada publicada num jornal dinamarquês.
Individuos que não aceitam a liberdade de expressão, que reagem utilizando a mesma violência fanática que nos seus países usam para suprimir toda e qualquer diferenciação, não podem continuar a ser aceites na Europa. A Europa é um espaço de liberdade e criação. A Europa que sofreu guerras desvastadoras não irá deixar-se subjugar por um bando de fanáticos que não hesitam em assassinar, como fizeram com Theo van Gogh.
Tony Blair, na Inglaterra, sofreu uma derrota, que irá custar-lhe a liderança dos liberais e projectá-lo para fora do poder, ao não conseguir aprovar uma lei ridícula que impunha limitações ao tratamento pelos "media" da temática religiosa. Blair em vez de defender a liberdade com a mesma convicção e determinação com que se atolou na guerra do Iraque, essa sim absurda, queria restringi-la afim de evitar situações que toquem as infinitas susceptibilidades dos fanáticos islâmicos, que parcem ser os únicos, na actualidade, que reagem violentamente quando as suas figuras "sagradas" são submetidas ao olhar irónico que parecem não compreender, ou não desejarem de todo compreender. Esta leitura será válida para qualquer outra forma religiosa que se pretenda absoluta ao ponto de querer suprimir a possibilidade de outros a lerem de fora, com ironia ou sem ela, com mais acidez ou mais cautelosamente. Em qualquer dos casos as "sociedades abertas" têm de se defender. Defender eficazmente! Quem o disse foi Karl Popper, que voltou à ordem do dia.
É claro que poderemos lançar um olhar analítico sobre este "caso", sobre esta agressividade transbordante que se manifestou a propósito de uns "cartons", como se poderia manifestar a propósito de outra coisa qualquer.
Então, veremos multidões que em sociedades masculinas, rígidas, fechadas e de cariz obecessivo, extravasam a sua "líbido" através desta violência pública, na forma de um discurso dirigido ao "outro", um "outro que goza" na versão do "outro que nos goza" (incarnada na visão delirante de um suposto desrespeito pela figura do "profeta", visão alucinada do "outro que nos está a gozar", que assume aqui uma radicalidade psicótica). Por outro lado, o semblante de um "profeta" hiper-poderoso, o "grande pai", conforta a miséria do dia a dia daquelas multidões que desta forma sublimam o seu real pela construção de uma realidade, a sua realidade, onde a supermacia psíquica está, para eles, garantida e a supermacia material é buscada, com toda a legitimidade da "verdade", nomeadamente através da procura do poderio nuclear. Tudo em nome do "profeta" cujos textos de alguma maneira convalidam estes delírios.
"Nós" comprendemos tudo isto muito bem e desejamos ajudar. Mas não permitiremos, em caso algum, que destruam as nossas sociedades, desiguais, injustas (umas mais que outras), mas passiveis de crítica, de auto-crítica e de transmutações radicais a partir delas mesmas. Umas mais que outras... AST






O ano passado este anúncio foi proibido em Milão. Na altura, a IAP, entidade que fiscaliza a publicidade em Itália, afirmou que a fé cristã não podia ser parodiada e que era ofensivo para uma parte significativa da população. E declarou mesmo que o facto de se ver o torso nu de um homem a ser abraçado por uma mulher tornava o cartaz publicitário particularmente ofensivo.
O cartaz foi inspirado no Código da Vinci, que sugere que, na pintura, a figura de João é Maria Madalena. O livro de Dan Brown, aliás, foi durante criticado pelo Vaticano, pela voz do cardeal Bertone que, entre outras coisas disse que: “O livro é um monte de mentiras contra a Igreja, contra a verdadeira história do Cristianismo e mesmo contra Cristo. Pediria ao autor deste livro e de outros semelhantes para terem mais respeito porque a liberdade de expressão tem limites quando não respeita os outros”. http://bichos-carpinteiros.blogspot.com (Sexta-feira, Fevereiro 03, 2006, 11:45)





Enquanto a multidão entoava cânticos e palavras de ordem como “Deus é grande”, "pelo nossa alma e nosso sangue, sacrificar-nos-emos pelo o profeta" ou “não nos calaremos”, alguns dos manifestantes substituíram a bandeira dinamarquesa por outra verde com a seguinte inscrição: “Não há outro deus senão Deus e Maomé é o seu profeta”.
De seguida, o edifício de três andares, onde estão também as embaixadas da Suécia e do Chile, foi incendiado. www.publico.clix.pt (4 de Fevereiro de 2006 - 16h35)





Embora o pacifismo de Ghandi pudesse ter feito sentido quando utilizado contra um oponente "civilizado" tal como O Império Britânico, como podemos nós admitir a hipótese de darmos a outra face a adversários que estão dispostos a cometer crimes do tipo Massacre de Munique, ou do 9/11... ou até, já agora, do Holocaustro? Avner, Prefácio à edição de 2005 de Munique - A Vingança, George Jonas, pag.XV (edição portuguesa Ulisseia)





One of the offending drawings shows Muhammad's turban as bomb with a lit fuse. In another he turns suicide bombers away from heaven because "We have run out of virgins".
...
Last November, Islamic extremists in Islamabad issued death threats against the authors of the cartoons. Newspaper offices are frequently attacked in Pakistan for perceived slights against Islam. www.timesonline.co.uk (February 03, 2006)





Le Syndicat national des journalistes (SNJ), majoritaire dans la profession, dénonce "les nouveaux inquisiteurs" et félicite ceux qui "défendent au quotidien ce droit démocratique" à la caricature.
"Dans une France qui fête en ce moment les cent ans de la loi de séparation des Eglises et de l'Etat, ce ne sont pas des religieux parfaitement respectables et encore moins des ultras qui dicteront aux journalistes ce qu'ils doivent écrire", souligne le SNJ. http://fr.news.yahoo.com (vendredi 3 février 2006, 18h13)





The IAEA resolution refers to Iran's breaches of the nuclear nonproliferation treaty and lack of confidence that it is not trying to make weapons.
It expresses "serious concerns about Iran's nuclear program." It recalls "Iran's many failures and breaches of its obligations" to the nonproliferation treaty, and it expresses "the absence of confidence that Iran's nuclear program is exclusively for peaceful purposes."
It requests IAEA Director General Mohamed ElBaradei to "report to the Security Council" steps Iran needs to take to dispel suspicions about its nuclear ambitions.
The resolution calls on Iran to:

_Reestablish a freeze on uranium enrichment and related activities.

_Consider whether to stop construction of a heavy water reactor that could be the source of plutonium for weapons.

_Formally ratify an agreement allowing the IAEA greater inspecting authority and continue honoring the agreement before it is ratified.

_Give the IAEA additional power in its investigation of Iran's nuclear program, including "access to individuals" for interviews and to documentation on its black-market nuclear purchases, equipment that could be used for nuclear and non-nuclear purposes and "certain military-owned workshops" where nuclear activities might be going on.

The draft also asks ElBaradei to "convey ... to the Security Council" his report to the next board session in March along with any resolution that meeting might approve.
Agreement on the final wording of the text was reached just hours before Saturday's meeting convened, after Washington compromised on Egypt's demand that the resolution include support for the creation of a nuclear weapons-free zone in the Middle East. Egypt and other Arab states have long linked the two issues of Iran's atomic ambitions and Israel's nuclear weapons status. http://news.yahoo.com/s/ap/20060204/ap_on_re_mi_ea/nuclear_agency_iran





"Nous ne voulons plus d'une immigration subie, nous voulons une immigration choisie, voilà le principe fondateur de la nouvelle politique de l'immigration que je préconise", dit-il.
"Je sais que ce principe se heurte à deux intégrismes", poursuit le ministre qui dénonce le premier: "l'immigration zéro défendue par (Jean-Marie) Le Pen (président du FN)".
Le second intégrisme est, ajoute-t-il, "celui de ceux qui estiment que tout contrôle de l'immigration porte en lui les germes d'une forme de racisme".
Défendant son "concept" d'immigration choisie, Nicolas Sarkozy souligne qu'il ne s'agit pas de prendre aux pays en voie de développement leurs "bacs +10 pour leur laisser les bacs -4".
Il propose la création d'une "carte spéciale" qui serait délivrée aux étudiants "les meilleurs" en contrepartie de "l'obligation de retourner chez eux afin qu'ils rendent à leur pays une partie du bénéfice de leur formation".
...
Le ministre insiste notamment sur l'apprentissage du français et l'égalité entre hommes et femmes. "Les préfets et les maires auront la charge de vérifier si le contrat d'accueil et d'intégration a été respecté avant de délivrer une carte de résident de 10 ans", souligne-t-il. http://fr.news.yahoo.com (samedi 4 février 2006, 21h33)















2006/02/01

GOLIJOV AT BARBICAN

Quando um compositor tem todo um concerto preenchido com obras suas cria grandes expectativas.

Fazer colagens que revelam "feeling" parece insuficiente se se trata de um concerto numa das salas mais importantes do mundo, como o Barbican.

Os trabalhos de Osvalvo Golijov ouvem-se bem mas encontram-se muito longe de serem grandes obras musicais. No entanto o compositor teve (ainda vai ter mais a estreia de uma opera) o seu "momento Barbican". Na realidade todos os compositores com algum talento o deveriam ter.

Falemos um pouco das obras. Ayre, a mais personalizada, revelou ser um infindavel aborrecimento, que um "dj" tentava animar de tempos a tempos, mas voltava tudo ao mesmo marasmo com Dawn Upshaw a cantar lindas melodias... Para esquecer, mas como existe o cd sempre podem tirar a prova, escutando-o. Para quem quiser gastar dinheiro...

Last Round foi muito bom. Mas trata-se do "estilo Piazolla". Mais vale escutar Piazolla, ele mesmo.

Tekyah teve impacto. Afinal trata-se de um trabalho em folclore hebraico, utilizando os tradicionais "shafars", feitos de corno de animal.

Ainalama (Arias and Ensembles), uma obra com grande impacto emocional. Melodias "tocantes" trabalhadas com textos radiodifundidos que retratam o fascismo espanhol, as suas atrocidades e bestialidades. Emocionante o trabalho sobre a figura de Garcia Lorca e o seu olhar sobre Mariana Pineda, materializada no monumento que Lorca via da janela do seu quarto. Esta obra, com alguma originalidade e muito impacto, valeu o concerto. Mas Golijov tem de mostrar que consegue fazer mais do que colagens eficazes e trabalhos inspirados noutros criadores e noutras formas musicais. Livios Pereyra
















2006/01/30

ROYAL CONCERTGEBOUW ORCHESTRA CONQUISTA LONDON

Com o Mariss Jansons, o maestro titular, a dirigir, a orquestra holandesa deu dois concertos no Barbican, seduzindo em absoluto os londrinos e afirmando Richard Strauss como um criador de primeiro plano.

O primeiro concerto, dia 28, foi preenchido com a 7a sinfonia de Shostakovich, chamada "Leninegrad". O segundo, dia 29, com Ein Heldenlenben de Richard Strauss, na segunda parte que foi precedida pela sinfonia No 94 de Haydn, na primeira parte.

A 7a Sinfonia de Shostakovich revela os dilacerantes dilemas do compositor sempre colocado entre a espada e a parede pelo regime stalinista e face, no exterior, aos nazis que pela altura desta obra tinham cercado Leninegrado. Trata-se de um trabalho de grande forma para grande orquestra que revela alguns problemas conceptuais e que fica longe do que seria de esperar depois da quinta e sexta sinfonias. Jansons fez arrastar demasiado os lentos (aqui sem a amplitude dos lentos de outras sinfonias e quartetos de cordas) tornando-os aborrecidos. Os ouvintes que enchiam completamente a sala aplaudiram fortemente.

Na obra de Strauss, como seria de esperar, a orquestra e o maestro tiveram uma performance de grande quilate correspondendo-se com a genialidade do trabalho orquestral e conceptual de Richard Strauss. Estranhamente, neste segundo concerto a sala mostrava-se pouco cheia...

No Haydn, com uma orquestra reduzida, tivemos uma boa leitura, com uma performace exemplar por parte da orquestra, que faria o compositor sorrir de felicidade.

Os bravos foram tantos, no final de Ein Heldenlenben, que o maestro acabou por convidar a orquestra a oferecer dois encores. Um Haydn um pouco caricato e uma genial leitura da abertura de O Cavaleiro da Rosa, do mesmo Richard Strauss. Podemos dizer que a Royal Concertgebouw e Richard Strauss conquistaram, definitivamente, London. Livios Pereyra














Hoje inicia-se o ano do cão

BOM ANO NOVO!















2006/01/28

DOZE MACACOS MAIS UM

Chris Ofili criou, em 2002, THE UPPER ROOM, usando acrilico, polyester, oleo e outros materiais, doze macacos nomeados pela cor que lhes deu. Doze macacos voltados para a figura central "mono oro", o macaco dourado. Trata-se de um trabalho importante, ao qual foi dado relevo, pois ocupa toda uma sala na Britain Tate.

Os macacos possuem um copo por cima do qual, sem o tocar, se encontra uma pedra trabalhada com os mesmos materiais. Por outro lado, o macaco dourado tem a pedra por cima da nuca. Podemos estar perante o cristo e os discipulos... Podemos estar perante os macacos sagrados de outras formas religiosas. Estamos sobretudo perante uma obra que permite uma multiplicidade de leituras. Uma obra que, pelas texturas, trabalha uma forma que tende para uma tridimensionalidade e que se repete de maneira produtiva, pela luz e pelas cores, com uma figura, acrescida, que centraliza toda a prespectiva. Pilar Villa














LUCRECIA BORGA REIGNS IN THE VATICAN IN THE ABSENCE OF POPE ALEXANDER VI

Um trabalho fabuloso, realizado entre 1908 e 1914 e apresentado na Royal Academy em 1914. Trabalho baseado na filha "ilegitima" do papa Alexander VI que em 1501 presidiu no Vaticano a uma assembleia dos cardeias.

Trata-se de um hiper-realismo de primeira qualidade onde os rostos dos cardeias foram copiados de quadros e gravuras com veracidade historica. A sala existe nos dias de hoje. O trono de Lucrecia, em estilo arte-nova, assim como a mesma Lucrecia, faz a roptura. O macaco que segura uma esfera, que tanto pode ser o mundo como o "fruto proibido", faz de simbolo.

Os cardeais parecem conformados. O mesmo acontece com os representatntes das outras, muitas, religiosidades. Um frade franciscano beija os pes de Lucrecia e um cardeal arranja-lhe a base do vestido.

Frank Cadogan Cowper, uma figura de segundo plano, merece, por este trabalho genial, mais notoriedade. Trata-se de um trabalho supremo. A ver na Britain Tate. Entrada gratuita. Pillar Villa















2006/01/26

BRITTEN SINFONIA COM TASMIN LITTLE

Uma maravilha poder-se escutar um Bach seguido de um Chostakovich no mesmo concerto se tivermos uma orquestra excelente.

Assim acontece com a Britten Sinfonia que executou o arranjo para cordas da sinfonia em C (do) menor do compositor russo, num arranjo de Barshai, sem director, como se fosse um (muito bom) quarteto de cordas. Estamos perante um agrupamento de primeira classe que conseguiu concentrar em absoluto o Queen Elizabeth Hall, que estava quase cheio (deve ter-se em conta que neste mesmo dia, nesta mesma hora, Vengerov e Rostropovich tocavam Chostakovich no Barbican, com a LSO).
O arranjo do russo para orquestra de cordas foi o momento mais conseguido deste concerto, que decorreu a 25 de Janeiro, onde a violinista Tasmin Little executou com beleza o concerto para violino em A (la) menor de Bach. Foi apresentada, na segunda parte, uma obra do compositor John Woolrich, que estava presente, e que arracou os bravos da sala. Uma obra com algum interesse este Ulisses Awakes de Woolrich...

O concerto acabou com a sinfonia concertante em E flat (mi sustenido) de Mozart com Tasmin no violino e o primeiro violetista da orquestra na violeta. Um excelente concerto onde coexistiram estilos muito diferentes todos trabalhados de forma exemplar. Sobretudo a Britten Sinfonia mostrou possuir a consistencia de um muito bom quarteto de cordas, pois Little Tasmin dirigiu unicamente as obras em que foi solista. A concertino da Britten Sinfonia mostrou ser um pilar fundamental assim como a primeiro violoncelo. Merecem, elas e a sua "sinfonia", cinco estrelas. Livios Pereyra















2006/01/25

EMBANKMENT

Rachel Whiteread criou, na Modern Tate, algo de grandioso.
Pelo visivel, pelo invisivel pelo suposto, pelo pressuposto Rachel inventou qualquer coisa que partindo de tudo e de nada, inova. Inova de maneira genial.

Quando se olha de longe parecem constructos em blocos de neve. Uma torre, que nos remete para os Mayas, se assim o lermos, domina. Domina imparcialmente porque tudo nasce de parcialidades. Tudo se constroi a partir do objecto elementar. Poder-se-ia remeter a uma cultura minimal. Sim, mas superada. Demasiado superada...

Tudo partiu dos recordos de uma caixa e da figura feminina desaparecida. Agora milhares de caixas translucidas que deixam perceber um interior habitado pelo vazio, erguem-se como uma cidade irreal, como ruinas de uma cultura antiga, ancestral e omipresente.

Embankment. Um lugar junto ao Tamisa. Da mesma maneira que blocos, impressionantes, esculpidos na natureza. Tudo isso. Tudo isso pode ser, tudo isso se reflete sem flectir nesta enormidade genial que Rachel inventou. Na Modern Tate. Pilar Villa















Isis Light

A arte pode servir como experiencia de jogo com os sentidos? Claro que sim sem que isso seja, por norma, o seu objecto principal. Mas pode, mesmo sem intencionalidade, tornar-se fundamentalmente nisso. Nada contra. Desde que haja genio...

Esse objectivo esteve presente em Anish Kapoor (nascida em 1954 na India mas trabalha em London), ao criar Ishis Light em 2003. Ela nem sequer esconde esse pressuposto, nem as influencias que colheu de outros criadores. Confrontados com a obra de Anish esses aspectos ficam desprovidos de peso, excepto talvez para os historiadores de arte.

Ishis mostra como partindo da ideia mais simples (uma casca de ovo gigante que pode ser invadida pelo espectador), utilizando a tecnologia simples (fibra de vidro), consegue o que artistas que utilizam grandes tecnologias informatizadas, fazem e caem, frequentemente, na vulgaridade, ao usarem ostentatoriamente uma suposta hiper-tecnologia, quase intimidante... Anish conseguiu uma obra genial com uma simplicidade franciscana.

Isis pode ser visitada (gratuitamente) no terceiro piso da Modern Tate. Obra simples e discreta que nos permite a experiencia de um resvalar para o "outro lado". Uma escultura-conceito-efeito de uma grande artista. Pilar Villa















Jugoslávia

É pena que José Saramago, que só se exprime em Português e Castelhano e que por isso o mundo, para ele, se reduz de certa maneira à Península Ibérica, fale do que não sabe ou então esconde o que sabe. A Jugoslávia (que na entrevista que deu ao La Vanguardia de Barcelona é referida como exemplo de um país que existiu e deixou de existir, tal como pode acontecer a Portugal) foi uma invenção de um sistema que Saramago apoiou. A Jugoslávia foi um pseudo-país criado pelo poder político-militar, que também inventou um idioma (o servo-croata) procurando-o impôr ás diferentes nações no sentido da perca de identidade com vista à uniformização, tão do agrado dos comunistas e dos fanáticos religiosos. Imposição que foi historicamente um fracasso, como não poderia deixar de o ser: hoje ninguém fala "servo-croata". A Jugoslávia desfez-se porque só existiu na cabeça de quem a inventou. No entanto foram liquidados milhares entre os que se opuseram áquela esquizofrenia...
O mais interessante é que o caso da Jugoslávia prova o inverso daquilo que Saramago pretende: o desaparecimento daquela "federação" demonstra que nações distintas nunca coexistem muito tempo num só estado se houver um lastro histórico adverso à integração. De resto a comparação com os países do Benelux é mais um delírio do escritor que salta do centro para o sul e deste para o norte da Europa como se existisse uma homogenia cultural, social e de mentalidades que permite fazer transposições deste calibre.
É pena que o escritor Saramago não tenha dito que a resolução do "problema" de Portugal passa por um ensino básico de disciplina e exigência (que não contrariam mas complementam uma pedagogia de abertura e criatividade) e se tenha centrado obcessivamente na ideia do integracionismo Ibérico. É pena que não tenha dito que a resolução do "problema" de Portugal passa por um ensino básico cujo alicerce fundamental seja o respeito pelo "outro" e o respeito pela diferença. Como Popper dizia: a liberdade do meu punho se movimentar acaba onde começa a ponta do teu nariz. E mesmo assim convenhamos que é um conceito de liberdade muito lato... Claro que "disciplina" é palavra tabu para alguns que indevidamente a associam a repressão. Chamemos-lhe então "civismo" que é um termo muito em moda e "politicamente correcto". Muito sintomaticamente, Sequeira Costa, que tal como Saramago mas por outros motivos foi um grande admirador da ex-URSS onde se deslocava frequentemente, que é outro nome português que se impôs ao mundo e que ao contrário de Saramago conheçe muito bem outros mundos para além do(s) "mundo(s) ibérico(s)" e "latinos", considera o ensino básico como a questão fundamental para Portugal. AST

No entanto, há que dizê-lo, Galiza e o norte de Portugal encontram-se muito mais próximos, cultural, económica e psicológicamente (e também geograficamente...), que o norte de Portugal e Lisboa ou o Algarve. Os galegos sempre foram "os galegos" para o resto de Espanha, da mesma maneira que o habitantes do norte de Portugal sempre foram "os do para lá do sol posto". Não acreditando na viabilidade do integracionismo em bloco de que fala Saramago, acreditamos em aproximações "naturais" entre algumas regiões de ambos os paises, que poderão desembocar numa nova geografia de "relacionamentos previligiados", no quadro de uma Europa federalizada, que poderá potênciar (e muito) regiões que foram, de uma forma ou outra, penalizadas, quer em Portugal, quer em Espanha. Nesse aspecto o futuro está totalmente em aberto. AST













Formar licenciados em excesso é prejudicial. Sem prespectivas, esses jovens poderão lançar-se em novos nacionalismos virulentos. Courrier Internacional, Edição Portuguesa, 20 de Janeiro de 2006, pag 12














LA PAZ (Reuters) - Evo Morales, que está prestes a se tornar o primeiro presidente indígena da Bolívia, fez o primeiro anúncio sobre seu gabinete-- ele descartou a criação de um ministério para cuidar da população indígena.
Morales disse que tal pasta seria uma forma de discriminação contra a maioria indígena do país.
"Aqui, os indígenas serão ministros", disse Morales, um índio Aymara, a jornalistas na quarta-feira. "Alguém disse que quando os Quechuas e os Aymaras chegassem ao governo teríamos um ministério para os brancos, mas não vamos discriminar."
Morales, que foi pastor de llamas nas montanhas bolivianas quando menino, prometeu batalhar pelos direitos dos índios quando chegasse ao poder. Ele será empossado no domingo. http://ultimosegundo.ig.com.br (Reuters 23:48 18/01)














Portugal é também o país onde existe menos intenção de poupar nos próximos 12 meses (3% da população), acompanhando a tendência dos países em análise, apenas contrariada pela Alemanha e pelo Reino Unido - países que registaram, respectivamente, a maior subida no moral e a menor inquietação quanto ao futuro próximo.
A taxa de utilização da rede Internet manteve-se em 47% em Portugal - sendo apenas superior à da Hungria (33%) -, enquanto a média dos 12 países europeus subiu três valores em 2005 para 54%.
Os portugueses ocupam também os piores lugares quando se trata de consultar a Internet para se informarem antes de comprar bens, como viagens e lazer em geral ou produtos financeiros, embora se encontrem nos primeiros lugares na compra de carros novos através da rede. http://diariodigital.sapo.pt (18-01-2006 16:18:00)

A maioria dos jovens condutores (em Portugal, nde) interpelados pelas duas brigadas da campanha 100% Cool estava sob o efeito do álcool. Números preocupantes, a rondar os 77 por cento, que vem confirmar o negro cenário de 2004, em que um milhar de jovens conduziu alcoolizados e alguns deles estiveram envolvidos em acidentes rodoviários, onde resultaram mortos e feridos, refere o CM. www.tvi.iol.pt (19:22 Qua 18 Jan 2006)

Saramago não tem a certeza de que Portugal exista dentro de 50 anos. Diz que vivemos num "lento processo de decadência"...
Os portugueses continuarão a "existir enquanto comunidade de gente que fala esta língua", mas "o Estado português pode desaparecer". Lembra, por exemplo, que há pouco desapareceu um país que se chamava Jugoslávia. Courrier Internacional, Edição Portuguesa, 20 de Janeiro de 2006, pag 9

Voltará Espanha, amanhã, a ser Hispânia? idem, pag 10















2006/01/23

CONCERTOS PARA ORGÃO DE HAENDEL

Numa gravação de 2004, a Brilliant Classics disponibiliza a integral de concertos para orgão de George Frideric Haendel, na interpretação do organista Christian Schmitt e da Stuttgart Chamber Orchesta, sob direcção de Nicol Matt.

O estojo de cinco cd's, cujo preço varia entre os quinze e os dezoito euros, inclui a versão do concerto hwv 294 para harpa, com interpretação da harpista Charlotte Balzereit.

Trata-se também da primeira integral destes concertos a partir de leituras da Breitkopf Urtext Edition.

Por um preço muito razoável temos a possibilidade de adquirir este importante acontecimento editorial, em interpretações de um jovem grande organista, acompanhado por uma das mais antigas orquestras de câmara do mundo que é simultâneamente uma das de maior excelência técnico-interpretativa.

A utilização de instrumentos modernos, aqui, favorece claramente a percepção das linhas musicais. A diversidade tímbrica que caracteriza os agrupamentos que utilizam instrumentos históricos, se utilizada com o orgão de tubos que é um instrumento muito rico em harmónicos e parciais, pode saturar a percepção e prejudicar a clareza daquilo que se ouve. Por isso recomendamos, sem rodeios, esta edição ainda fresca, que será para todos uma aquisição de grande valor. AST














LISBOA (Reuters) - El candidato de centro-derecha Anibal Cavaco Silva ganó el domingo las elecciones presidenciales en Portugal, asestando un duro golpe al gobernante Partido Socialista, muy desgastado por el estancamiento económico.
Cavaco Silva, un ex primer ministro que se comprometió durante la campaña a ayudar al país más pobre de Europa Occidental a mejorar su economía, obtenía el 50,59 por ciento de los votos cuando ya se habían escrutado casi todas las urnas, según informó la comisión electoral.
El izquierdista Manuel Alegre tenía el 20,72 por ciento de los votos, mientras que el veterano socialista Mario Soares, de 81 años, alcanzaba el 14,34 por ciento. http://es.news.yahoo.com (23 de enero de 2006, 7h27)















2006/01/16

OBRAS PARA PIANO DE KAROL SZYMANOWSKI

Szymanowski é um dos compositores mais fascinantes da viragem do século XIX para o XX. Polaco como Chopin. Se os seus Prelúdios op 1 "soam" a Scriabin (outro genial da mesma época, "herdeiro" de Chopin, que partindo do idioma do mestre das pequenas formas vai aportar numa linguagem de abstração máxima plasmada nas "grandes formas"), já Masques op 34 denotam a influência dos franceses Debussy e Ravel, o mesmo acontecendo com Mythes op 30 para violino e piano. Em contrapartida os Études op 33 revelam uma impressionante linguagem pessoal onde o maravilhoso coexiste com o enigmático. Se em Concert Ouverture op 12 de 1904, revista em 1912, a influência dos alemães, nomeadamente de Richard Strauss, é mais que evidente, na sua Terceira Sinfonia op 27, escrita entre 1914 e 1916, o compositor já possui um interessante idioma que o singulariza num mundo que começa a ser o das heterogeneidades estético-estilísticas.
Em 2005, a Emi na sua colecção Gemini (duplos cd's), re-editou algumas obras para piano deste fantástico criador interpretadas por outro fantástico artista que é o pianista Mikhail Rudy que nos oferece fabulosas leituras dos já referidos doze estudos, da maravilhosa Métopes op 29, de Masques, assim como de algumas súbteis mas impactantes Mazurkas dos opus 50 e 62.
O segundo cd traz-nos, pelo violinista Ulf Hoelscher acompanhado do pianista Michel Béroff, os já referênciados Mythes e várias outras peças para os dois instrumentos, ficando bem patente a heterogeneidade estilística que coexistiu neste compositor fundamental, fruto da viragem de séculos e marco em toda a história da cultura, infelizmente pouco conhecido por parte de muitos públicos. O duplo cd ronda os dez euros. AST
















2006/01/10

MOZART PIANO QUARTETS

A chancela Columns Classics gravou, em Setembro de 1998 na Igreja Maria Minor em Utrecht, os quartetos com piano de W. A. Mozart K 478 e K 493 por um grupo de conhecidos intérpretes no domínio da chamada "música antiga". O resultado foram umas interpretações assombrosas em que os músicos, para além de uma elevada coesão interpretativa e técnica, conseguem uma leitura revestida de uma "poiesis" singularizada pela grande inspiração e elevada compreensão dos textos mozartianos. As cordas abstêm-se de utilizar vibratos que como se sabe é um efeito expressivo típico do romantismo que serve, concomitantemente, para corrigir a afinação. A expressividade tem portanto de ser trabalhada ao nível do fraseado e das dinâmicas e a afinação tem de ser naturalmente perfeita. Daí a interpretação da "música antiga" ter de ser um terreno só para intérpretes excepcionais uma vez que as imprecisões, nomeadamente de afinação, se tornam muito mais evidentes e dificilmente camufláveis.

No registo que nos ocupa temos precisamente uma interpretação-referência onde o lado técnico, que é perfeito, serve uma elevada expressividade fundada numa re-leitura inteligente dos textos do compositor. Trata-se de uma ilustre desconhecida "interpretação-paradigma" realizada por reconhecidos intérpretes da prestigiada escola holandesa, a saber: Bart van Oort no pianoforte (já falamos dele a propósito da sua interpretação dos nocturnos de Chopin e John Field em instrumentos da época), a violinista Tjamke Roelofs, na viola Bernadette Verhagen e finalmente Jaap ter Linden que é o primeiro violoncelista da célebre orquestra do século dezoito.

Para além da excelência interpretativa é interessante ouvir-se esta música do punho fluído e sem rasuras de Amadeus, ver-se até que ponto o piano é um instrumento solista ao contrário de uma ideia peregrina que o considera um instrumento de acompanhamento quando utilizado em música de câmara. Se isso pode ter alguma realidade no romantismo, no classicismo - Beethoven incluído ainda que seja um compositor de charneira onde se pode encontrar de quase tudo ao nível de instrumentação e de estruturação - é absolutamente falso. Mas o importante é escutar-se esta música genial materializada pelos dedos conduzidos pela inteligência e pela inspiração daqueles intérpretes de nível máximo. Já agora: o cd custa cerca de três euros. AST















2006/01/07

DUAS LEITURAS DE UM STABAT MATER

O Stabat Mater de Giovanni Battista Pergolesi tem vindo a ser alvo de re-leituras sucessivas, algumas registadas em disco.

Vamos analisar duas interpretações, ambas disponíveis em cd a preços económicos. Uma premiada e "famosa", outra relativamente desconhecida ainda que os seus intérpretes sejam músicos reconhecidos mundialmente.

A primeira é a do Concerto Italiano dirigido por Rinaldo Alessandrini, com a soprano Gemma Bertagnolli e a contralto Sara Mingardo que pode ser adquirida, juntamente com o catálogo da etiqueta Naïve, por cerca de oito euros.

A segunda é uma edição Classic Collection, com um preço que ronda os quatro euros. A interpretação é da soprano Angharad Gruffydd Jones e do contratenor Lawrence Zazzo nas vozes, com Julia Bishop e Joanna Parker nos violinos, Peter Whiskin na viola, Joanna Levine no violoncelo e Mark Levy no violone. A direcção a partir do orgão é de Timothy Brown.

No que diz respeito à interpretação de Alessandrini à frente do Concerto Italiano é de imediato evidente uma prespectivação operística da leitura cujo "paradigma" é o desempenho de Gemma Bertagnolli que é exageradamente teatral, utiliza uma técnica romântica na produção dos crescendos sempre modulados por um vibrato despropositado e não demonstra o controle da projecção vocal indispensável na interpretação da "música antiga" (na realidade indispensável na interpretação de todo o tipo de música) . Ouça-se a "dolorosa", que dolorosamente se arrasta entre dinâmicas artificialmente contrastantes, e compreender-se-á que esta leitura poderia vir da batuta de um "velho" director romântico. O mesmo se dirá dos "stacattos" que Alessandrini utiliza: deliberadamente exagerados e produzindo um efeito teatralizado totalmente desadequado a este tipo de música. No final, "Quando corpos morietur", o "largo assai" é transformado num "grave" e o "presto assai" em "prestíssimo", procurando-se pelo efeito de contraste suprir o que estilística e musicalmente se deixou escapar. No entanto esta foi uma das comercializações mais louvadas a pretexto de um tal "movimento" da nova interpretação da música italiana por grupos italianos, muitos deles caracterizados exatamente por este "forcing" contrastante que pelo efeito surpresa procura colmatar aspectos da "essência" das obras escamoteados na interpretação.

O segundo registo é genericamente equilibrado sem despeito de um bom trabalho ao nível de contrastes que no entanto respeitam as características estilístico-históricas da obra. A soprano possui um belo timbre cristalino e evita o uso do vibrato. Já Zazzo utiliza um vibrato moderado conseguindo elevada consistência tanto tímbrica quanto expressiva. Os contastes dentro dos andamentos são mais restritos e a paleta dinâmica mais reduzida, tal como era costume na época do compositor. Verificam-se no entanto repetidas desafinações nos violinos, ainda que relativamente suportáveis, o que prejudica a "avaliação final" de uma interpretação que é mais musical e estilisticamente consistente que a dos italianos. AST















Morreu esta manhã a pianista Helena Sá e Costa. Tinha 92 anos e toda uma vida dedicada à música. Não resistiu aos efeitos de uma queda ocorrida ontem em sua casa.
Helena Sá e Costa nasceu no Porto e a ela se deve um contributo cultural notável. Até há pouco tempo era ainda um alto expoente na formação de sucessivas gerações de artistas. http://sic.sapo.pt (09-01-2006 13:56)















O desejo é esse grande atormentador que não deixa descansar, obriga a trabalhar, a correr, a deslocar... Em suma, a viver. Quanto ao conforto, ele é partidário da sedação, da imobilidade, da imutabilidade e substitui a verticalidade... Charles Melman in O Homem sem Gravidade, Companhia de Freud, Rio de Janeiro, pag.60















2006/01/04

IL BARBIERE DI SIVIGLIA ON THE ROYAL OPERA

Nada como começar o ano ouvindo e vendo uma comédia bem elaborada, como é o caso da ópera cómica em dois actos do italiano Gioachino Rossini que foi representada na Royal Opera House (London) no primeiro dia de 2006. A direcção musical foi de Mark Elder e a encenação de Moshe Leiser e Patrice Caurrier.

Tirando alguns desacertos nos trios do início do segundo acto, tratou-se de uma produção de bom nível com uma orquestra coesa e uma direcção eficiente. A encenação foi particularmente bem conseguida e o jogo de luzes de Christophe Forey uma mais valia preciosa.

No que toca a cantores, Robert Gleadow deu um débil Fiorello enquanto Joyce Di Donato foi uma Rosina de grande intensidade e projecção vocal, do melhor que esta produção nos ofereceu. Toby Spence na pele de Almaviva, dotado de um timbre volumoso e redondo, foi persuasivo enquanto um possante Don Basílio foi encarnado por Raymond Aceto. Um Figaro de grande luminosidade foi representado por George Petean em contraposição a um Doctor Bartolo que, representado por Bruno Praticò, soube incarnar o ridículo perfil que o libretista Cesare Sterbini, baseado na obra de Pierre-Augustin de Beaumarchais, lhe destinou.

O baixo continuo deu aos recitativos uma coloração mozartiana que nos permitiu perceber com nitidez a influência exercida pelo comemorado austríaco sobre o compositor italiano.

Globalmente foi um bom espectáculo que deixou todo o mundo contente para iniciar um ano que promete boa música. Lívios Pereyra















2005/12/22

PHILHARMONIA ORCHESTRA INTERPRETA BARTÓK E DVOŘÁK

Deveria ser András Schiff a dirigir este concerto que aconteceu no dia 20 de Dezembro, mas um mal estar impossibilitou-o, tendo sido substituído por Uri Segal. No entanto o pianista tocou o concerto para piano de Dvořák, como estava previsto para a segunda parte.

Antes de Bartók interpretaram um Haydn correcto no fraseado e no jogo de intensidades. Mas foi o Divertimento para cordas de Béla Bartók que marcou pontos na primeira parte, fazendo-nos olvildar os desafinos dos primeiros violinos em Haydn. E voltaram a repetir o desatino na segunda parte (no primeiro andamento do concerto) que apesar disso foi igualmente boa.

O Divertimento é um trabalho brilhante do compositor húngaro e a Philharmonia, sob batuta de Segal, deu-nos um panorama claro e intenso daquela obra. A jovem concertino demonstrou ser excelente nas difíceis partes que Bartók escreveu para quem desempenhe aquela responsabilidade. O primeiro violoncelista também demonstrou ser um artista de grande nível.

Com um Schiff inspirado quanto baste, o público constipado e céptico que enchia o Queen Elizabeth Hall no South Bank Centre (London) teve uma segunda parte bem acima do seu comportamento, caracterizado por tosses de muitos timbres e intensidades que pontuaram entre todos os andamentos das obras.

O nocturno de Chopin, dado como extra por Schiff, foi um trabalho de subtilidades que merecia mais aplausos. Lívios Pereyra















2005/12/17

ESCOLHAS 2005



Edição discográfica

Christine Schornsheim gravou para etiqueta austríaca Capriccio, que contou para esta produção com o apoio da WDR 3, a integral das obras para teclado de Joseph Haydn, designadas genéricamente como sonatas ou variações, utilizando instrumentos históricos que vão desde o cravo de dois teclados ao pianoforte, passando pelo clavicórdio. Importa salientar que esta intérprete é uma artista que consegue dar-nos leituras fabulosas das obras para teclado de Haydn, leituras essas onde a contextualização histórica vai de par com a grande inspiração.
Trata-se, para nós, do grande acontecimento editorial do ano 2005, consistindo em 13 cd's (mais um com a gravação de uma longa conversa - em alemão - entre a intérprete e um musicólogo), que vêm acompanhados de um muito interessante e instrutivo pequeno livro em alemão, inglês e françês, conjunto este que pode ser adquirido a preços variando entre os 35 e os 40 euros.




Re-edição discográfica

Já falamos sobre esta escolha: integral das sonatas para piano de Mozart, acompanhadas de outras obras para o instrumento, em interpretações da pianista Maria João Pires realizadas em 1974. Uma re-edição da Brilliant Classics que é, em nosso entender, "a referência" para estas criações utilizando um instrumento moderno.







Acontecimento musical

Integral da obra para piano de Jorge Peixinho por Francisco José Monteiro cuja primeira parte aconteceu na "box" do CCB em Lisboa a 18 de Dezembro e a segunda acontecerá no mesmo local em 29 de Janeiro de 2006.

Francisco Monteiro é um excelente pianista português que estudou na Universidade de Viena e que trabalhou directamente com o compositor português, que é uma das figuras centrais da cultura lusa do século passado.

O pianista, nesta integral, oferece-nos obras que não foram incluídas por outro pianista, Miguel Borges Coelho, no registo que fez, este mesmo ano de 2005, das obras para piano do compositor. Nestes dois recitais Francisco Monteiro possibilita-nos uma visão da transformação estética operada pelo criador desde as Cinco Pequenas Peças, escritas em 1959 e com influências nítidas da linguagem dodecafónica inventada por Schoenberg, até obras como Glosa, escrita em 1989/90, onde Peixinho afirma uma estética pessoal dotada do lirismo que caracterizou a sua fase "pós-experimental".















2005/12/12

SINFONIAS DE EDUARD TUBIN POR NEEME JÄRVI

Se a terceira sinfonia do compositor estoniano é um trabalho dentro dos parâmetros de um neo-classicismo onde a tonalidade é utilizada estruturalmente de forma inteligente, musical e singular, a oitava sinfonia é uma criação que transcende a escrita tonal e reforça a personalização de um idioma, denotando grandes rasgos e grande inspiração.

Trata-se de uma obra onde as tensões se densificam e equilibram de maneira extraordinária, uma obra que acaba num estranho e impressionante suspense que só um ser genial é capaz de conceber.

Esta oitava sinfonia, escrita numa linguagem atonal-temática, é mais uma criação que passará a ser fundamental entre toda a literatura musical do século vinte, dada a sua espiritualidade intrínseca, o grande talento que presidiu à sua concepção assim como a singularização alcançada no uso de uma linguagem que à época (1966) não era nova.

O também estoniano Neeme Järvi, que já tinha dirigido interpretações paradigmáticas das sinfonias de Shostakovich, entre outros, revela aqui, uma vez mais, ser alguém dotado de uma visão especial e única na interpretação da música do século passado. Um grande maestro e um imenso músico que nos oferece, à frente da Swedish Radio Symphony Orchestra, uma "interpretação-chave" desta obra de grande génio. A etiqueta Bis re-editou o cd com aquelas fantásticas sinfonias, ambas dirigidas por Järvi, que pode ser adquirido a um preço "suave" variando entre os sete e os nove euros. AST


SÃO CARLOS COM O MESMO ORÇAMENTO QUE A GULBENKIAN?!

Há cerca de meio ano, mais precisamente no dia 13 de Abril de 2005, colocamos online um "post" que se mantém actual e por isso o re-editamos com algumas alterações

Pode ler-se em bajja.blogspot.com no artigo "O cancelamento de parte da temporada em São Carlos":

"O S. Carlos leva a cabo 4 ou 5 produções por ano, com 4 ou 5 récitas de cada uma. Não existe qualquer itinerância ou mesmo récitas populares (coliseu, etc.) que levariam as suas produções a um auditório muito alargado. Assim, o seu orçamento, só equivalente ao do serviço de música da Gulbenkian (e compare-se a actividade...) ou ao total do orçamento do IA, para todas as áreas!!! (teatro, música, dança), embora proveniente das contribuições de todos os cidadãos, é gasto num plano de actividades de uma irrelevância incontornável, já que a acção do Teatro apenas afecta uns 2000 portugueses. É muito, muito grave e começa a ser altura de alguém dizer que o rei vai nu."


Em conversa com o ex-ministro da cultura, Pedro Roseta, este demostrou-nos o seu cepticismo em relação à veracidade da informação acima veículada e informou-nos que uma parte do orçamento da ministério da cultura é cativo, isto é, só pode ser disponibilizado pelo ministro das finanças, coisa que de resto é sabida. Sugeriu também que o suposto orçamento da Gulbenkian não incluiria as despesas com a orquestra e o ballet.

Numa curta conversa tida com o presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, no dia 30 de Junho por ocasião de um evento onde casualmente nos cruzamos, soubemos que as despesas com a orquestra e o ballet estavam de facto incluídas no orçamento do serviço de música. "Excepto as despesas de cena", que estão orçamentadas nas despesas centrais uma vez que os auditórios servem para várias actividades para além das relacionadas com o serviço de música.
Paradoxalmente esta conversa aconteceu um par de dias antes de vir a público a notícia da extinção do Ballet Gulbenkian. Talvez por isso Rui Vilar nada mais especificou, aconselhando-nos a falar com a "Drª Teresa", coisa que tentamos, inutilmente, nos dois dias que se seguiram... Depois "caiu" a notícia do fim do Ballet Gulbenkian.

No que diz respeito à descentralização, tema abordado na conversa com o ex-ministro da cultura durante uma qualquer exposição, ficou bem claro que existem por todo o país salas com fosso de orquestra que possibilitam a produção de óperas. Que de facto têm acontecido, interpretadas por companhias espanholas e do "ex-leste da europa", que são obrigadas a fazerem digressões para ganharem "o pão nosso de cada dia", sendo portanto estranho que o Teatro Nacional de São Carlos (Lisboa-Portugal), instituição suportada com os dinheiros públicos e nacionais (a contribuição do "mecenas", que dá um milhão e deve gastar outro tanto a publicitar o que dá, representa 1/15 do seu orçamento), não desenvolva uma política sistemática de itinerâncias pelo país que o paga.


É claro que o montante de ambos os orçamentos (que são semelhantes se incluídas as despesas com o extinto Ballet Gulbenkian e excluídas as quantias oferecidas pelos "mecenas") não passa de pinhões se fôr comparado com o custo da via em que vai circular o TGV. Será que fizeram bem as contas à ocupação média necessária do dito e aos preços dos bilhetes para que o re-dito não se venha a transformar num buraco de prejuízos absurdos a serem suportados no futuro integralmente pelos impostos a pagar pelos portugueses? Ou estão a pensar que o nível de vida destes vai subir tanto que lhes vai possibilitar viajar regularmente entre Lisboa e Porto no famoso Tê-gê-Vê? E na ligação a Madrid quais são exatamente os números para os prejuízos não virem a assumir proporções desastrosas?
E a OTA? Um aeroporto que sairá muito caro e é um investimento em contraciclo com a política generalizada de criação de aeroportos de taxas baixas para as "low-cost" que marcam o ritmo do mercado do transporte aéreo de passageiros?!
Ainda todo o mundo comenta "aquela" dos 10 (ou nove?) estádios de futebol...
Para não falarmos dos dois submarinos e respectivos torpedos que são virtualmente importantes para o controle e vigilância das águas territoriais, mas que custaram substancialmente mais que os 10 (ou nove ou onze) estádios...

Como a UE vai continuar a abrir a torneira do "combustível" (a um ritmo de mais de 8 milhões de euros por dia) a barcaça lusa vai-se aguentar.

Seria fantástico que deste incrível maná a UE destinasse, explicitamente (se não a "coisa" esvai-se...), uma parte visando combater a escandalosa miséria que grassa no Portugal de hoje, nomeadamente para a construção de residências para os sem abrigo, para assistência aos idosos que vivem na penúria e para outros não bafejados minimamente pelo sopro de riqueza que sempre atravessa os países terceiro-mundistas - versus em vias de desenvolvimento - e alguns "desenvolvidos", como Portugal. AST




Todos os anos Portugal entrega 1/6 do seu orçamento às Forças Armadas. Metro, 16 de Dezembro 2005, pag 16, in "Cartas ao Director"




BARCELONA E COPENHAGA SÃO OS CENTROS NEVRÁLGICOS DO JAZZ NA EUROPA


Michel Camilo veio a Lisboa lançar o seu novo cd onde fez uma curta apresentação, ao piano, de alguns temas. No final conversámos com ele


Álvaro Teixeira: Disse há pouco que ao mesmo tempo que, em New York, tocava jazz, seguia uma formação clássica. Mas as suas influências mais fortes são as jazísticas, não é?

Michel Camilo: Bem... Sim e não. A minha carreira nasce a partir do jazz mas a minha formação é totalmente clássica porque estudei clássico desde os nove até aos dezoito anos. Graduei-me no Conservatório Nacional de música, na República Dominicana e depois fi para New York. Claro que o jazz é mais importante pois tenho 14 discos de jazz e, até agora, só dois clássicos.

AT: Já tocou repertório mais clássico como Beethoven e Brahms, por exemplo?

MC: Sim, sim. Este mesmo ano toquei no Festival de Pererada, em Santander, em Espanha, com o maestro Jesus Lopez Cobos, o concerto em fá maior de Ravel, por exemplo, e o Gershwin que para mim é um clássico. O que se passa é que é um clássico moderno. O concerto em fá, tocava-o muito também.

AT: Falando dos clássicos modernos: nunca tocou Schoenberg, por exemplo?

MC: Gosto mais dos clássicos melódicos ainda que conheça muito bem a música de Schoenberg . Mas toquei vários compositores modernos americanos e toquei com a filarmónica de New York no festival de música moderna com o nome de Novos Horizontes.

AT: As influências da música do Caribe são muito nítidas...

MC: Sim. Nunca se pode negar as raízes. Eu penso que é muito importante saber-se de onde se vem para se saber para onde se vai. Eu venho do Caribe que tem uma tradição afro-americana. É muito importante conservar as raízes.

AT: Costuma ir tocar frequentemente aos países do Caribe?

MC: Também mas não tanto como desejava pois tenho compromissos em todo o mundo. Vou pelo menos uma vez por ano a uma grande gala de beneficiência, no meu país, destinada a ajudar as crianças pobres que sofrem de cancro. Vou ajudar a angariar fundos para essas causas nobres que são muito importantes.

AT: De que gosta mais nos Eua?

MC: New York é o centro do jazz. Não há outro lgar no mundo onde hajam tantos clubes de jazz e concertos todas as noites. Ali pode-se escutar o futuro. Também no clássico. New York é como um microcosmos onde estão representadas todas as tendências e culturas do mundo. Onde não há discriminações. New York é muito diferente do resto dos Eua. New York é um centro de cultura mundial onde um pode expressar a sua singularidade e ser aceite, ou ser negado, mas pelo menos um pode exprimir-se e expôr públicamente o seu trabalho. Há sempre um lugar para qualquer um se expôr.

AT: New York é a Paris dos novos tempos?

MC: Depende em que nível.

AT: Paris foi o centro das artes...

MC: Isso foi nos anos vinte... Isso foi na "bel-époque". Já passou. De resto o Stravinsky imigrou para os Eua.

AT: Isso é verdade...

MC: Copland também... e outros.

AT: Pois é...

MC: Mesmo o Boulez foi para o Lincoln Center pelo menos seis anos...

AT: O Boulez é só uma pequena faceta da música europeia do século passado....

MC: Pois sim mas todos os contemporâneos europeus, incluindo Bério, foram para New York... O facto de se estar em New York é muito importante porque qualquer coisa que se faça em New York tem repercussão no resto do mundo.

AT: Pensa que se vivesse na Europa não teria o sucesso e a projecção mundial que tem?

MC: Depende de onde. Este meu disco saiu primeiro em Europa e só depois nos Eua.

AT: Mas a iniciativa veio dos Eua. A Telarc é uma etiqueta americana...

MC: Não, não. A Telarc foi a última instância. Os meus discos sairam inicialmente numa companhia japonesa chamada King Records que foi a primeira que me editou. De Tókio vieram para a Alemanha. De lá para Paris e de Paris para o resto da Europa. E só depois para os Eua. É curioso, não? Mas no meu caso foi assim. Depois de King Records foi a Sony, depois a Universal e só depois a Telarc. Agora gravo para as duas. Para a Universal e para a Telarc. Gravo a música clássica para a Decca que é da Universal. Para a Telarc gravo música jazz. Mas este último cd que foi lançado primeiramente em Portugal e Espanha, com música de Gerswin, é da Telarc. Gravado com a sinfónica de Barcelona.

AT: Que tal as orquestra espanholas?

MC: Maravilhosas! Sobretudo a de Barcelona que tem uma visão muito aberta e o auditório de Barcelona é maravilhoso: tem uma acústica perfeita, igual que o Palau de la Música em Barcelona. Não há igual. E Barcelona tem uma coisa muito importante que é, na actualidade, uma das capitais mundiais do jazz. Tem um festival de jazz que este ano teve 45 concertos! Muito poucos festivais de jazz no mundo têm esta quantidade de concertos. E não sómente jazz norte-americano. Muito jazz europeu também. Antes era Paris e Copenhagen agora é Barcelona e Copenhagen. Curioso...

AT: Sim...

MC: E Paris... Tenho ido muito a Paris também... tenho tocado no festival de jazz de Paris e nos Champs Elisés e por todo o lado em França... Mas últimamente a visão contemporanêa está em Barcelona e em Copenhagen. Não sei porquê... Um mistério...

AT: Foi um prazer conhecê-lo e ter esta curta conversa.

MC: O prazer foi meu.

AT: Muito obrigado e até à próxima.




"BELÉM - Cerca de 700 hectares de florestas foram invadidos e desmatados por fazendeiros na Terra Indígena (TI) Kayapó, próximo ao município de São Félix do Xingu, no extremo norte da reserva, entre as aldeias Kikretum e Kokraimoro. As primeiras denúncias da Fundação Nacional do Índio (Funai) à Polícia Federal e ao IBAMA foram feitas há três meses, mas as invasões, além de não combatidas, se intensificaram. Com a ausência de providência por parte das autoridades os índios ameaçam usar a força para garantir a integridade de seu território. Desde a semana passada, uma comissão da Funai está no local para fazer um levantamento detalhado do estrago provocado pelos fazendeiros e acalmar os índios que ameaçam expulsar os invasores. Imagens de satélite analisadas pelos técnicos da organização não-governamental Conservação Internacional comprovam a existência de áreas desmatadas na TI Kayapó." http://indios.blogspot.com (Dezembro 12, 2005)

2005/12/09

OBRAS SINFÓNICAS DE PROKOFIEV

Depois de serem tecidas considerações pouco edificantes em relação a algumas obras deste criador, o mínimo que se pode fazer é fornecer algumas referências aos leitores no sentido de as escutarem em "interpretações-paradigmáticas".

A colecção The Royal Philharmonic Orchestra registaram a primeira sinfonia. A fabulosa orquestra inglesa sob direcção do grande maestro Yuri Simonov traz-nos a leitura possivel desta obra pouco empolgante. Mas o mesmo cd inclui excertos das suites Romeu e Julieta, numa interpretação espantosa, talvez a mais impactante, de uma obra inspirada, depositária de uma escrita orquestral exímia.
Já a Symphonic Suite op 60, intitulada Liutenant Kijé, que também está incluída neste cd dotado de uma qualidade sonora suprema e com um preço que ronda os cinco euros, se fica pelos lugares comuns que o compositor insistiu em revisitar ao longo de toda a sua vida.

A colecção Russian Legacy, por um preço semelhante, traz-nos a integral da Suite nº2 da mesma obra Romeu e Julieta, numa interpretação do histórico Evgeny Mravinsky à frente da Leningrad Philharmonic Orchestra. A quinta sinfonia, que também vem neste cd, é interpretada sob direcção de Yuri Temirkanov que recentemente tivémos oportunidade de escutar em Portugal exatamente à frente da mesma orquestra. Dois registos "live", gravados em 1981 e 1988, respectivamente, que também nos oferecem um Prokofiev no mais elevado estilo.

Dos concertos para violino e orquestra já falámos mais abaixo. Quanto aos concertos para piano a "referência-absoluta" são, evidentemente, as interpretações de Martha Argerich. Infelizmente não existe, nem se prevê que venha a existir brevemente, uma re-edição económica daquelas interpretações geniais. AST

















IDA HAENDEL INTERPRETA SIBELIUS

Ida Haendel foi uma das grandes violinistas do século passado. Estranhamente, talvez porque fosse uma mulher num mundo de homens ou porque tivesse casa e filhos para cuidar(...), os seus registos são uma raridade. De facto só me recordo de dois registos desta intérprete de excepção.

Um deles encontra-se disponível na série encore da Emi, com um custo que varia entre os 5 e os 6,5 euros, no qual Ida interpreta obras de Sibelius, entre as quais o célebre concerto para violino.

Trata-se de uma gravação de 1975 em que a volinista é acompanhada pela Bournemouth Symphony Orchestra dirigida por Paavo Berglung.

Ao Concerto para Violino op 47 seguem-se as Serenatas 1 e 2, op 69a e 69b, respectivamente, e a Humoreske nº5, op 89 nº3.

Ida Haendel é uma artista dotada de uma enorme sensibilidade que, conjugada com uma técnica excepcional, nos oferece "interpretações-paradigma" destas obras, apesar da qualidade sonora do registo ser a melhor possivel nos anos 70, fraca se comparada com o que se consegue nos dias de hoje, mas suficentemente nítida para se poder disfrutar das interpretações de uma das maiores violinistas de todos os tempos acompanhada por um grande chefe-de-orquestra que se apresenta à cabeça de um agrupamento de excelência AST
















2005/12/06

QUARTO CONCERTO PARA PIANO DE GEIRR TVEITT

Um compositor desconhecido. Uma etiqueta "low-cost". Um cd que fará história. Se ouvirmos só as variações Hardanger que precedem o concerto, ficaremos, talvez, sem motivação para escutar outras obras de Geirr Tveitt (1908-1981). Como o concerto está no mesmo disco, continuamos a audição e somos imediatamente surpreendidos.

Trata-se de um "novo" neo-classicismo que terá de passar a figurar nos tratados de história da música do século vinte ao lado de um Shostakovich*. Mas já lá iremos. O quarto concerto do pianista-compositor foi escrito em 1947. Rachmaninov tinha falecido em 43. Maurice Ravel em 37. Prokofiev ainda estava vivo. Assim como Stravinsky, que se não fazia parte dos criadores preferidos de Geirr, estava em Paris, onde o norueguês teve sempre um estrondoso sucesso tanto como pianista como na condição de compositor. Se as suas influências em Tveitt são pontuais, são igualmente notórias. Assim como, muito principalmente, as de um Maurice Ravel. Claro que há o Grieg, conterrâneo que Tveitt admirava, interpretava e analisava... No que diz respeito a Prokofiev, cuja obra o norueguês seguramente conheceria, para além das influências, foi o fundador, com os seus primeiro e terceiro concertos para piano e o primeiro concerto para violino, da linhagem estética em que inseriremos Tveitt: uma música dotada de um carácter maravilhoso e "onírico", que ainda se movimenta no quadro das funcionalidades tonais - no extremo oposto ao "neo-realismo" dilacerado de Shostakovich que nos surge na linhagem do grande Gustav Mahler - e que Tveiit, neste concerto intitulado Aurora Borealis, leva ás últimas consequências. Depois desta obra seria dificil continuar a produzir, criativamente, dentro do estilo. Nem vale a pena falar das aproximações na actualidade pois o que importa reter é que se Shostakovich deu um novo folgo à linguagem tonal - sobretudo depois das críticas de Stalin ás suas primeiras obras, nomeadamente à impressionante segunda sinfonia em um só andamento que teve um estrondoso sucesso mas foi considerada "incompreensível para o povo", no seguimento da censura à ópera Lady Macbeth of the Mtsensk District (Op 29) que alguém, provavelmente Stalin, criticou duramente no Pravda como "veiculando uma ideologia pequeno-burguesa"- Tveitt esgotou essa linguagem, exauriu-a, e depois deste concerto nada mais há a dizer que seja "interessante" e "produtivo" nesta linguagem.

Vale muito a pena adquirir o cd editado pela Naxos, que pode ser comprado a preços que variam entre os cinco e os sete euros, e escutar esta música surpreendente que nos oferece um mundo de míriades luminosas e de ritmos da natureza. AST


* Torna-se necessário clarificar esta afirmação. Shostakovich produziu uma obra imensa que ao nível sinfónico só pode ser comparada à de um Gustav Mahler e ao nível da música de câmara, nomeadamente no que diz respeito aos quartetos de cordas, à de um Beethoven.
Portanto aquela afirmação, para não se tornar insane, necessita de ser esclarecida. Shostakovich foi o último "grande" a utilizar a linguagem tonal numa vertente funcional. Depois de Shostakovich toda a utilização da tonalidade tem sido anedótica ou reduz-se a um mero exercício de estilo. Tveitt, no seu quarto concerto, explora ao limite a escrita modal, que já tinha sido genialmente trabalhada por Debussy, nomeadamente os modos pentatónicos, reduzindo também ao anedótico os trabalhos dos "novos neo-modalistas".



Nota: Já recebemos e-mail's a criticar a nossa escrita. Já recebemos e-mail's a protestar contra críticas aqui formuladas. Até já recebemos um e-mail com uma lista de palavras supostamente escritas de maneira incorrecta, atenção que agradecemos...
No entanto, sem surpresas, o e-mail que seria relevante não chegou: o 4º Concerto de Geirr Tveitt não está escrito tonalmente. Ali, de forma inteligente e inspirada, Tveitt utiliza uma linguagem modal, como se torna evidente logo após os primeiros compassos. Tveitt em 1947 não exauriu o que já estava exaurido e se é verdade que Shostakovich continuou a escrever até 1975, data do seu falecimento, na base da tonalidade, há que ter em consideração que o compositor russo criou um idioma próprio. Diz-se de algo escrito daquela maneira que "é" Shostakovich. Tal como acontece com Debussy que se houvesse uma "tabela de estilos" estaria no extremo oposto daquele onde colocariamos Shostakovich. Já Prokofiev, nalgumas obras "tonalmente funcionais", denota alguma pobreza de linguagem, nomeadamente na sua quinta sinfonia (a primeira é um trabalho de estilo "a la Haydn" e as outras não são praticamente tocadas). Também faltou dizer-se que a qualidade sonora do registo do concerto de Tveitt é excepcional. AST