2005/06/28

ORÇAMENTOS


Poderá parecer inacreditável se se disser que o Teatro Nacional de São Carlos possuiu um orçamento base superior ao do serviço de música da Fundação Calouste Gulbenkian cuja actividade é conhecida de todos.

É de facto inacreditável porque a Gulbenkian não só tem uma Orquestra residente que faz o que a orquestra daquele Teatro Nacional não faz ou seja concertos regulares fora de Lisboa, como tem uma companhia de dança que também tem uma actividade descentralizadora.
Como todos sabemos a "essência" da programação da Gulbenkian é a temporada de convidados que vão desde solistas de primeiro plano mundial até ao ciclo das grandes orquestras que nos tem possibilitado escutar em Portugal os melhores agrupamentos sinfónicos da actualidade, para já não falar das "divas" do canto que não vão actuar ao São Carlos mas fazem recitais ao longo das temporadas da Gulbenkian. Portanto entre uma e outra instituição não há comparação possivel.

Mas há! Ao nível dos orçamentos... O TNSC tem um orçamento de 15 milhões de euros, um dos quais dado pelo seu mecenas. O serviço de música da Gulbenkian no presente ano deve ter cerca de 14 milhões (que tenderão a diminuir nos próximos anos). Mas na realidade a Gulbenkian conta com substancialmente mais porque há mecenas que a apoiam com milhões de euros? Sem dúvida. A Gulbenkian que conta com rendimentos próprios que lhe permitiriam garantir sem outros apoios toda a temporada preocupa-se em encontrar mecenas que lhe dão muito mais que o milhão que o TNSC consegue. Porque será...

O grande problema é que 14 dos 15 milhões do orçamento do TNSC saem direitinhos do bolso de todos os contribuintes portugueses que não recebem nada em troca. O problema é que o TNSC em termos internacionais é e vai continuar a ser um teatro de ópera de quinta categoria. O problema é que o TNSC apresenta como "grande compositor internacional" um Azio Corghi (que pela terceira vez é convidado a apresentar óperas suas todas baseadas em libretos criados a partir de obras de Saramago) que só o é para alguns italianos e para o director do TNSC. Corghi não é de todo um compositor de primeiro plano na cena mundial. Poderíamos citar dez nomes reconhecidos como compositores históricamente relevantes que Corghi não entraria sequer num grupo alargado a vinte.

Se compararmos, por exemplo, o trabalho e o interesse público das actividades desenvolvidas pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, que conta com uma excelente academia de música, com a actividade e o interesse público da temporada do TNSC concluiriamos, sem ter de recorrer a números, que a OML é imensamente mais importante para o país que o TNSC. Poderiamos também referir como exemplo a Sinfonietta de Lisboa que recebe do estado uma quantia ridícula e que não faz menos concertos que a Orquestra Sinfónica Portuguesa (que na prática é orquestra do TNSC o que é uma anacronia pois esta orquestra deveria andar a fazer concertos por todo o país em vez de estar adstrita à programação do S. Carlos).

Interessante seria compararmos o montante total que o Instituto das Artes tem para apoios aos agrupamentos musicais, de dança e teatro de todo o país com os gastos fixos do TNSC (pois se comparado com o orçamento total seria não só escandaloso como indecente). Interessante também seria discriminar-se o que é gasto com ordenados e ajudas de custo aos directores e outros funcionários, daquilo que é gasto com os ordenados dos músicos da OSP que são várias dezenas e que são os protagonistas fundamentais deste "enredo" (ainda que toquem pouco: uma orquestra profissional em qualquer parte do mundo faz pelo menos um concerto por semana. Mas o problema da OSP é o TNSC). Para se arranjarem bons gestores, directores e relações públicas basta ir às universidades portuguesas e fazer uma selecção entre os finalistas que cada ano concluem as respectivas licenciaturas. Os músicos da orquestra foram admitidos por concurso internacional. É bom que isto fique bem explicitado pois são os únicos na Fundação São Carlos que passaram por essa triagem. Deveria especificar-se, por exemplo, quanto se gasta com o côro que práticamente só actua quando há óperas que o necessitem (há várias que não necessitam de côro). Na realidade nunca se percebeu o porquê do côro do TNSC nunca ter passado a semi-profissional (como é o caso do da Gulbenkian que funciona muito bem). O Editor


Nota: Na revista Visão de 30 de Junho 2005 são postos a público os salários, ajudas de custo e prémios anuais de alguns dos gestores públicos portugueses. Após um rápido visionamento é fácil concluir-se que tanto o orçamento do S. Carlos como as regalias dos políticos que Sócrates acaba de modificar são uma muito pequenina ponta de um iceberg com colorações terceiro-mundistas. Ao governo impõe-se agora regular estes casos tendo como referência o ordenado do Presidente da República. Num estudo internacional realizado há algum tempo ficou patente que o grosso dos gestores portugueses para além de serem desprovidos de uma visão de longo prazo e de uma dinâmica laboral de grupo, disfrutam de regalias muito além do seu valor e da sua produtividade. Seria interessante que, tal como acontece com os músicos das orquestras nacionais, estes cargos fossem preenchidos por concurso internacional, seleccionados igualmente por um júri internacional. OE










O mais velho antifascista, o maquis da lendária resistência francesa, o amigo de Humberto Delgado, o fundador da LUAR, o presidente temporário do PPD, o apoiante do PS , após uma vida estendida por três séculos, partiu, ontem, aos 105 anos, para o "Oriente Eterno", como os seus irmãos maçons designam a morte. Emídio Guerreiro foi "uma mistura de Dom Quixote e de Che Guevara", na expressão do advogado conimbricense, fundador do PS e grão-mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL), António Arnaut.
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Contestatário do Golpe do 28 de Maio, não só seria um dos participantes da Revolta do 7 de Fevereiro de 1927, que podia ter acabado com a recente ditadura militar - se as guarnições de Lisboa se tivessem sublevado, não deixando os sediciosos do Porto isolados -, Emídio Guerreiro nem sequer ligou ao seu estatuto de assistente de Matemática na Faculdade de Ciências e, aquando da visita de Carmona à Invicta, em 1932, imprimiu um panfleto a exortar a população a receber o Presidente da ditadura com "merda, muita merda, merda às mãos-cheias".
Preso e torturado, acabaria por fugir do Aljube e exilar-se em Espanha, onde se envolveria, com o grupo dos "Budas de Madrid" (Jaime Cortesão, Moura Pinto e Jaime de Morais), na fracassada "revolução dos tanques", conforme relatou ao seu biógrafo Encarnação Viegas. Vivendo em Santiago de Compostela, seria surpreendido pelo golpe militar franquista em Vigo, onde se deslocou a pedido do alcaide, ali assistindo, impotente, ao fuzilamento do autarca. Um seu aluno, embora adepto dos falangistas, protegeu o professor, conseguindo-lhe um contacto com o cônsul inglês, que, perante as dificuldades de um irmão maçon, lhe garantiu o embarque num cargueiro para Gibraltar, de onde o português partiria para França.
Logo a seguir, retornava a Espanha, para se bater ao lado dos republicanos contra os falangistas, voltando a passar a mesma fronteira na "leva" dos derrotados. Adoeceu no campo de refugiados, mas conseguiu evadir-se dali, acabando por entrar na clandestinidade e aderir à resistência contra a ocupação nazi. O "capitão Hélio", seu nome de código, foi reconhecido como herói gaulês no fim da II Guerra Mundial, sendo integrado na forças armadas francesas com o posto de capitão e condecorado com a Cruz de Combatente Voluntário na Segunda Guerra Mundial. Desde essa época e até ao fim do Estado Novo, fixou-se em França, onde seria um dos professores que introduziram as matemáticas modernas no ensino liceal.
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Regressado a Portugal, foi um dos fundadores do PPD, assumindo mesmo a liderança, em 1975, quando Sá Carneiro se afastou para, depois, regressar em triunfo ao partido - de onde sairia Emídio Guerreiro, que, anos volvidos, dava o seu apoio ao PS. Quando alguém lhe dizia que tinha sido do PSD, lembrava ao DN Vasco Lourenço, nome da Revolução dos Cravos e membro da maçónica Loja 25 de Abril onde ambos pisavam o mesmo "pavimento em mosaico", o velho oposicionista sublinhava "Nunca fui do PSD; fui do PPD." in http://dn.sapo.pt (2005/06/30)











Os bispos portugueses querem as escolas com uma educação sexual controlada. Em nota, a Conferência Episcopal defende o direito de os pais intervirem na definição dos programas e na selecção dos professores que leccionem a disciplina, insurgindo-se contra as metodologias pedagógicas "que excitam a imaginação e exploram sensações de forma manipulatória". http://dn.sapo.pt/2005/06/29/sociedade/educacao_sexual_mais_controlada.html


Este tipo de discurso leva-nos a imaginar o que se poderá passar no interior da "igreja" e dos seminários...
E que pais é que a igreja quer que controlem os professores? Os mesmos que insultam nas estradas portuguesas? Os que cospem no chão? Os que se demitem da função de educadores? Ou aqueles que molestam as próprios filhos e que a maior parte das vezes é a "escola" quem descobre e denúncia um crime que na generalidade dos casos se prolonga anos?
Tirando estas "minudências"(...) as questões que se levantam face à intervenção da igreja são: quanto acabam de vez as interferências absurdas e inaceitáveis da igreja no ensino do estado que é laico? Que aberração é essa de ainda existir uma disciplina de "religião e moral católicas" numa Europa de diferenciação religiosa? Quando é que o Estado assume o dever de definitivamente separar as águas? OE














2005/06/27

A CASA DE BERNARDA ALVA NO TEATRO SÃO LUIZ

A Casa de Bernarda Alba, uma peça de teatro a partir da obra de Frederico Garcia Lorca, foi transformada numa obra de dança por Benvindo Fonseca, que criou uma estética interessante, com os bailarinos, no início, dispostos em plano diagonal, envergando figurinos originais, vestidos compridos, pretos, com um corte simples e com uma armação redonda na base, que os bailarinos manuseiam, criando movimentos interessantes, mas que poderiam ser mais explorados.

O facto de ser um bailado criado a partir de uma peça de teatro dá-lhe uma base rica e concreta, uma narrativa intensa; tinha tudo para resultar numa grande obra, se não fosse a incapacidade de gerir o tempo das "cenas", que são demasiado longas e que por isso esgotam o conteúdo a explorar; o público já não tolera isso no teatro, os encenadores têm de gerir muito bem o tempo das cenas para não entediar o público. Já Noverre, no século XVII, e Fokine, no início do século XX, com as suas ideias renovadoras (e reformadoras), abordam esta questão, e os coreógrafos devem estar atentos a ela; talvez nem todos se preocupem ou nem sequer se questionem se o que estão a criar pode saturar o público, pois talvez a sua subvenção não dependa directamente dele; o ponto de vista do espectador é essencial - colocar-se "na pele" do espectador.

Todo o aparato do cenário montado e desmontado pelos próprios bailarinos era desnecessário, um palco vazio teria tido maior impacto, e evitar-se-iam as interrupções geradas. O teatro experimental tem sabido criar ambientes subjectivos, espaços materialmente vazios, mas cativando o público pelo imaginário. Para os teatros experimentais e amadores foi inicialmente uma imposição devido à falta de meios financeiros e técnicos para criar grandes cenários, mas que resulta muito bem. Por vezes quando se tem todos os meios financeiros, o esforço criativo e a auto-exigência diminuem.

Existem momentos em que os bailarinos dançam em simultâneo, ou em cânone: os movimentos de simultaneidade não foram bem conseguidos, não existe rigor e exactidão onde supostamente as bailarinas deveriam fazer gestos iguais e ao mesmo tempo. O grupo que dança atrás, ao fundo do palco, composto por três bailarinos e uma bailarina, foram tecnicamente muito mais rigorosos. Mas é de salientar toda a parte interpretativa, em que os bailarinos conseguem transmitir emoções fortes, sentindo realmente o que dançam. Destaque para a bailarina que interpreta a Criada mais nova, com uma técnica excelente, e para o par de bailarinos que desempenham os amantes, que fazem um "pas de deux" muito interessante. Sofia Meireles














2005/06/25

SINFONIETTA APRESENTA NEO-CLÁSSICOS NA SOCIEDADE DE GEOGRAFIA


A Sinfonietta de Lisboa apresentou-se dia 24 de Junho na fabulosa sala da Sociedade de Geografia (também em Lisboa) sob direcção do seu maestro titular, Vasco Pearce de Azevedo.
Do repertório constaram Cinco Peças de Carácter de Eurico Carrapatoso para corne inglês e orquestra de cordas. O solista foi Pedro Ribeiro que teve uma prestação notável.
O concerto começou com Pelimannit-Fiddlers de Einojuhani Rautavaara que é uma peça com algum interesse.
A segunda parte iniciou-se com uma peça aborrecida e desinteressante: Six Préludes de Jean Français onde o contrabaixista Panta Nunes executou um difícil solo, demonstrando ser um intérprete excelente dotado de uma sólida técnica.
Também Dowland Suite de John Ireland, que finalizou o concerto, carece de rasgos criativos e fica-se por lugares comuns. Nesta peça a Sinfonietta demonstrou maior consistência interpretativa. É um trabalho que utiliza muito as tessituras médias e graves ficando patente que esta orquestra se move melhor nestas zonas que nas agudas e sobre-agudas.
Uma orquestra de cordas necessita de ter uma afinação perfeita, para além de uma sonoridade "cheia" e "redonda" em todas as tessituras. Como "base". Por isso este agrupamento tem ainda um caminho, que seguramente irá trilhar, até conseguir afirmar-se como um conjunto de excelência. Quanto à escolha do repertório considero absolutamente fundamental que haja uma maior variedade estético-estilística e que em cada concerto seja interpretada pelo menos uma obra contemporânea "referência", sob risco de desmotivação dos músicos e do público. Ast





Democrática, espontânea, próxima das emoções do homem moderno, a dança contemporânea entusiasma os russos. Arte experimental, colmata a impossibilidade de dizer por palavras aquilo que não podemos calar. in Courrier Internacional nº12, pag.38














2005/06/20

COMPAGNIE LINGA APRESENTA UN TRAIN

Un Train peut toujours en cacher un autre (Um Comboio pode sempre esconder um outro) apresentado no Centro Cultural Olga Cadaval, em 18 de Junho, é inspirado em Le Train Bleu (O Comboio azul, 1924) de Bronislava Nijinska, Companhia Ballets Russes, considerado não uma bailado mas uma comédia musical, um espectáculo muito inovador para a década de 1920, misturando a linguagem do ballet clássico com elementos de ginástica acrobática e vários tipos de desport (Nijinska dançava, atrevidamente, passos de ballet com uma raquete de ténis na mão).
A Companhia Linga reproduz algumas imagens alusórias à obra de Nijinska, como homens na praia que mostram os seus músculos em port-de-bras desportivos; a mesma imagem de uma praia imaginária, onde as pessoas chegam num comboio…azul (que em 1924 simplesmente não aparece, porque já partiu, a alta velocidade, e que a companhia suiça agora em 2005, realça, pela inclusão de cadeiras dispostas em filas, dentro do próprio palco, onde sentam parte do público, o que dá a ideia de um comboio parado).
Os dois pares de namorados encontram-se, descem do comboio para a praia, a praia espera por eles…
Duas raparigas e dois rapazes: elas não como rivais, mas sim como amigas, conversam sobre banalidades do quotidiano, fazendo gestos e movimentos independentes da conversa que estão a ter, como se o corpo e a fala estivessem desligados. Eles, por seu lado, observam-nas, dentro de um “comboio de pensamento-movimento”. A homossexualidade, ou a bissexualidade, demonstradas abertamente (elemento ausente no bailado original), os dois homens com vestidos compridos dançam juntos, de forma romântica e dramática.
Os movimentos são mais agressivos, mais sentidos, mais vividos, mais expressivos que os do bailado de Nijinska. Os dois homens são como que atingidos por algo que faz os seus corpos pender para trás. Linguagens que se repetem, “Le Train Bleu” como um passado, pois agora junta-se um outro comboio, com mais impulsos e novas histórias.
Cenas delimitadas, como se estivessem dentro de diferentes vagões, sempre ligados por algum movimento ou linha condutora.
Uma sociedade onde os interesses já são outros, diferentes dos interesses dos anos vinte, onde a vida parece mais rápida… a temática é semelhante ao bailado de 1924, que também reflecte uma nova época e uma nova velocidade, um novo estilo de vida, relativamente ao século XIX.
A temática da infidelidade surge novamente, tal como em 1924: a imagem de um elevador cheio de pessoas que impedem o relacionamento entre um homem e uma mulher apaixonados que tentam beijar-se mas há sempre alguém que interfere e os separa. Elas correm com o peito nu, já não sobre a praia como as pintava Picasso, mas sim continuando com a procura da liberdade. Sofia Meireles e Lib Pitalúa










Giulini deixa tanto entre nós: aquele D. Giovanni impossivelmente belo e perturbante; o Stabat Mater do Rossini; a sem dúvida mais diferente de todas as outras versões da "Incompleta" de Schubert; o meu Falstaff favorito; pessoalíssimas versões das sinfonias de Beethoven; e o Requiem de Verdi que, finalmente, se cumpriu, na versão de Carlo Maria: um requiem para os vivos e não para os mortos, como o queria Verdi. (in bajja.blogspot.com)











"C'est la seule chose qui importe vraiment pour les Etats-Unis : l'accès de la Turquie à l'Europe." (Walter Russell Mead, du Council on Foreign Relations in lemonde.fr - 20.06.05, 13:07h)


Em conferência de imprensa para analisar a actual situação na Europa, Durão Barroso apelou ainda aos 25 para não ignorarem as preocupações das opiniões públicas de diversos Estados-membros sobre a Turquia. (15:54 / 22 de Junho 05) in tsf.sapo.pt/online/internacional


Note-se que o Reino Unido apoiou este figurino de orçamento até 2013 no acordo agrícola de 2002 e apenas protestou a quatro dias da cimeira, justamente quando o seu cheque britânico foi posto em causa.
Diário Económico (23 de Junho 2005, pag. 42)


"Jean-Claude Juncker precisa ser colocado na galeria das grandes personalidades européias", avaliou Schulz.
Juncker, que foi aplaudido várias vezes durante um discurso cheio de entusiasmo e muito crítico aos colegas do Conselho que mantêm posturas inflexíveis, disse que "a crise" que a Europa vive "é profunda", mostrando que "não está madura, mas ainda em fase de crescimento".
...
Em relação ao "cheque britânico", disse que "não é verdade dizer" que "tenha pretendido eliminá-lo", mas sim quis dar "um aspecto mais solidário".
A última oferta da presidência foi de um "cheque britânico" de 5,5 bilhões de euros por ano, frente aos 4,7 bilhões da primeira proposta.
Caso esta primeira proposta tivesse sido mantida, seria possível ter amenizado a carga excessiva sobre alemães, suecos e holandeses.
"A Holanda sabia que eu queria diminuir sua contribuição em um bilhão por ano, mas não foi possível porque Londres não quis renunciar a seu cheque. Por isso a Alemanha teve de pagar esse um bilhão, mas já havia cedido bastante", disse.
Juncker também lamentou que Londres tenha rejeitado uma proposta de última hora para considerar uma nova divisão do orçamento que entraria em vigor em 2009, ou a "reflexão sobre todos os aspectos do orçamento", incluindo a Política Agrícola Comum (PAC).
Em relação à PAC, Juncker disse que sua última proposta era uma redução periódica, como os britânicos queriam, de 17% em 2013, mas não foi possível.
br.news.yahoo.com (Qua, 22 Jun, 17h47)














2005/06/17

DEBUSSY E LISZT POR JEAN-YVES THIBAUDET

Na folha que serve de programa no Festival de Sintra lê-se: "Pianista de extraordinária sensibilidade musical... conhecido mundialmente pela sua técnica sofisticada e elegante".
Até pode ter sido o próprio a ter escrito aquilo como muitas vezes sucede. O que nos importa é que é pura verdade. Jean-Yves Thibaudet surprendeu-me. Surprendeu-me porque já assisti a alguns "bluf's" mundialmente promovidos pelas editoras e revistas francesas. A verdade é que também já assisti à apresentação de grandes pianistas trazidos a público pela poderosa "indústria musical" francesa. O caso de Thibaudet é relevante. Apresentando-se logo na primeira parte com o segundo caderno dos Prelúdios de Debussy e deixando para a segunda a espectacularidade lisztiana à qual por vezes parece faltar um pouco de "essência", Jean-Yves fez uma opção inteligente. Após a virtuosidade lisztiana, Debussy poderia surgir ao público muito específico do Festival de Sintra como técnicamente menos exigente, o que não é verdade dado que se tratam de técnicas diferentes. Mas vamos à música que é o que nos interessa.
Os Prelúdios de Debussy tiveram em Jean-Yves uma espécie de mago dos sons. Uma espécie de feiticeiro que trabalhando dinâmicas, colorações e intensidades com a sua técnica que é sem margem para dúvidas "elegante e sofisticada", ofereceu-nos momentos especiais em que a magia da música do compositor francês adquiriu o seu poder máximo. É impressionante escutar Debussy em recital. Mas se e só se fôr por um pianista especial que não só tenha uma técnica exímia como tenha uma intuição e uma inteligência que faça dele um intérprete capaz de se fundir com o peculiar universo debussyano. O absoluto e inteligente controle dinâmico de Thibaudet aliado à depuração sonora, pois ele utilizou muito criteriosamente os pedais, deu-nos um Debussy límpido e cristalino onde tudo foi magia interpretativa. Sem "truques" ou misturas de sonoridades para "baralhar e tornar a dar". Thibaudet será um dos grandes paradigmas da interpretação debussyana.

Na segunda parte, toda dedicada a Liszt, começámos com os "Jeux d'eau de la Villa d'Este" do terceiro livro dos Anos de Peregrinação onde de novo o artista revelou a sua capacidade de criar cores e paisagens sonoras.
Na Balada nº2 pequenas imprecisões não impediram um grande leitura de uma obra virtuosística que denota alguma inconsistência formal, pequenas imprecisões que também aconteceram com a Paráfrase de concerto do Rigoletto que é uma das obras mais defíceis algum dia escritas para o instrumento e onde o pianista conseguiu uma leitura electrificante, deixando para segundo plano as já referidas imprecisões que se manifestaram sobretudo ao nível de quebras dinâmicas nos fraseados em oitavas que aconteciam no meio de intrincados arpejos. Com esta peça terminou em apoteose o memorável recital ao qual acrescentou como extra um nocturno de Chopin e uma deliciosa peça de Monpou: "La jeune fille aux jardins". Mas o melhor da segunda parte foi, em meu entender mas sem grande margem para dúvidas, a interpretação da trancrição que Liszt fez da Morte de Isolda da ópera de Wagner. Já na interpretação da trancrição de "O du mein holde Abendstern" do Tannhäuser, Jean-Yves se tinha mostrado profundo e meditativo. Mas na interpretação daquele excerto de Tristão e Isolda o artista mostrou uma capacidade "genética" no desenvolvimento da tensão dramática com base em crescendos geniais e num fraseado dotado de um balanceamento digno de um grande mestre. Foi para mim, depois do ciclo de Debussy, o melhor momento do pianista neste recital e um grande momento de música sublime. Houve uma só nota errada que face à perfeição interpretativa e à forma arrebatada e consistente da leitura causou um certo sobressalto. Coisas que só acontecem mesmo ao melhores. Bravo Jean-Yves! Ast










En 2003, les trois premiers contributeurs nets étaient les Pays-Bas (0,43% de leur PIB), l'Allemagne et la Suède (0,36%). La France était un faible contributeur net (0,12%) parce qu'elle touchait 23% des dépenses agricoles.
Le Royaume-Uni n'était contributeur qu'à hauteur de 0,16% car il bénéficie d'une ristourne équivalente aux deux-tiers de sa contribution nette et payée par les autres Etats. C'est le seul à avoir ce privilège, attribué en 1984 parce qu'il bénéficiait notamment peu des dépenses agricoles.
Inversement, les plus grands bénéficiaires nets étaient en 2003 le Portugal (2,66% de son PIB), devant la Grèce, l'Irlande et l'Espagne, les pays les plus "en retard" de l'UE à 15.
...
Avec la hausse des dépenses liées à l'élargissement à 25, le rabais britannique va passé à une moyenne annuelle de 7,1 milliards d'euros et sera également financé par les "nouveaux venus pauvres" de l'Est.
Sans modification du système actuel, le Royaume-Uni serait le plus faible des dix contributeurs nets (avec 0,25% du PIB), les Etats baltes et la Pologne devenant les premiers bénéficiaires (avec 4% de leur PIB)
Les Pays-Bas, l'Allemagne et la Suède resteraient de loin les trois premiers contributeurs nets. La présidence luxembourgeoise propose une réduction de leur charge financée par la remise en cause du rabais britannique.
Sans rabais, le Royaume-Uni devient le plus important contributeur net de l'UE (0,62%), ce qui, souligne la Commission européenne, ne ferait que correspondre à son statut de pays le plus riche parmi les contributeurs nets.
(AFP 15.06.2005-13:13h)



"En France, le débat pourra continuer (...) C'est le début d'un débat très honnête", a prédit, confiant malgré tout, M. Barroso, alors que des milliers de manifestants à Paris persistaient et signaient dans leur rejet de la Constitution.
Décalage entre rêve européen et réalité? Alors que les pays membres reportent en cascade leurs référendums, M. Barroso a admis la faiblesse majeure du "plan D": "quel sera le résultat? On ne peut évidemment en préjuger".
(AFP 17.06.2005-13:22h)














2005/06/14

MORREU EUGÉNIO DE ANDRADE


O grande poeta português que marcou toda a segunda metade do século vinte faleceu dia 13 de junho no Porto. Eugénio de Andrade é o poeta português mais traduzido em todo o mundo após Fernando Pessoa. Nasceu em 19 de Janeiro de 1923 na aldeia de Atalaia no Fundão e em 1939 publicou o primeiro poema: Narciso. O seu nome "real" é José Fontinha. oe









GINEBRA, jun 16 (Reuters) - La responsable de Derechos Humanos de la ONU, Louise Arbour, elogió el jueves la decisión de la Corte Suprema de Argentina de anular dos leyes de amnistía que evitaban que los militares enfrentaran a la justicia por los crímenes de la última dictadura.
...
El martes, la Corte Suprema de Argentina anuló dos leyes del perdón que impedían que los oficiales fueran enjuiciados por causas relacionadas con violaciones de los derechos humanos.
La anulación de las leyes permitiría que cientos de militares sean juzgados por los secuestros, torturas y muertes de la dictadura de 1976-1983.
...
De acuerdo con un reporte del gobierno argentino, 11.000 personas murieron o desaparecieron durante la represión sistemática que llevaron a cabo los militares contra los grupos de izquierda. Los activistas de derechos humanos dicen que el número se aproxima a las 30.000 víctimas.
ar.news.yahoo.com (Jueves 16 de junio, 9:24 AM)




La situation est encore plus délicate avec le Royaume-Uni, qui veut absolument garder la compensation obtenue en 1984 et désormais jugée exorbitante par ses partenaires européens, puisqu'elle a atteint l'an dernier 5,3 milliards d'euros.
Si rien n'est fait, ce mécanisme prévu pour un des pays les plus pauvres de l'UE devenu entre temps l'un de ses membres les plus riches, dépassera bientôt les sept milliards d'euros, soit 50 milliards d'euros de 2007 à 2013.
fr.news.yahoo.com (jeudi 16 juin 2005, 15h58)


A posição de partida do Reino Unido é de não negociar o reembolso. Abrir-se-ia, no entanto, uma janela de oportunidade se a França aceitasse uma revisão do método aplicado para a distribuição dos subsídios agrícolas. Para Paris, trata-se de um cenário impossível, porque Jacques Chirac, com a sua reputação já de si afectada pelo "não" francês à Constituição, sabe que uma tal cedência provocaria uma autêntica tempestade política com o epicentro no influente segmento dos agricultores do país.
dn.sapo.pt/2005/06/16/tema/fracasso_anunciado_bruxelas.html




Os passageiros que utilizam o sistema de metrô de Londres estão sendo instruídos a "tomar uma ducha" para evitar odores desagradáveis no subsolo. Tim O'Toole, diretor-gerente do Metrô de Londres, pede que os usuários tenham consideração pelos companheiros de viagem. "Garanto a todos que só ando de metrô, e sempre tomo uma ducha", disse O'Toole a uma estação de rádio, segundo a TV CNN.
br.news.yahoo.com (Qui, 16 Jun - 14h30)














2005/06/11

A SIMPLES GENIALIDADE DO MOVIMENTO

O Ballet du Grand Théatre de Genéve abriu o 40º Festival de Sintra com a apresentação de três coreografias, respectivamente de Saburo Teshigawara, que utilizou uma colagem sonora de Willi Bopp, Andonis Foniadakis, que utilizou os corais das aberturas das paixões Segundo Sao Mateus e Segundo São João de Bach e por último uma coreografia de Sidi Larbi Cherkaoui que utilizou excertos das Mystery Sonatas de Biber.

Em Para-Dice, Teshigawra trabalhou duas cores (o negro e o amarelo) sobre um cenário negro. A conjunção som/movimento permitiu um fluir de construções dinâmicas contrastantes que potênciadas pela bipartição colorística produziram impactos visuais/auditivos espectaculares. Um trabalho memorável em que foram dispensados quaisquer acréscimos cenográficos para além do que acima foi dito. Básicamente um pano preto como cenário e figurinos negros para os homens e amarelos para as mulheres.

Selon Désir de Foniadakis começou com um tratamento electroacústico de excertos dos corais que depois foram ouvidos na totalidade. Esta introdução sonora criou um efeito de expectativa aproveitado por formas extáticas ao nível coreográfico que entraram numa dinâmica de formações figurativas ao longo de toda a obra sob a potente emocionalidade produzida ao nível sonoro pelos coros das paixões de Bach. A cenografia aproveitou o mesmo fundo negro desta vez com um figurino colorido de roupas comuns que davam ao movimento uma paleta colorística que não assentava aparentemente numa estruturação fixista. Uma obra de impacto visual, dinâmico, sonoro e emocional máximo.

Loin de Sidi Larbi é uma longa peça de teatro-dança onde se ironiza com os conceitos estéticos eurocentristas e onde se assiste a construções dinâmicas impressionantes. No entanto a peça peca, em meu entender, pela falta de consistência formal que investiu as anteriores o que deixa uma sensação de insuficiência. Trata-se no entanto de um interessante trabalho "coreográfico-dramático".

O 40º Festival de Sintra começou da melhor maneira e esperamos que assim continue.Ast


O programa pode ser visto em festivaldesintra.blogspot.com














2005/06/09

ÓPERA DOS TRÊS VINTÉNS NO TEATRO ABERTO

Estreou dia 8 de Junho a conhecida opereta de Kurt Weill naquele teatro em Lisboa.
Uma interessante produção sob direcção musical de João Paulo Santos a quem louvamos a iniciativa de ter abandonado a tutela do côro do Teatro Nacional de S. Carlos para colaborar na constituição de um teatro de ópera alternativo que se está a tornar num paradigma do que pode ser a produção operística em Portugal.
Aqui não há divas a ganharem milhões por vezes com desempenhos que deixam a desejar. Aqui não há supostos "maestros vedeta" alguns dos quais parece só terem mesmo o nome e a imagem. Aqui há trabalho sério onde as pessoas dão o seu melhor e com uma infíma parte do orçamento do S. Carlos conseguem pôr em cena produções "totalmente portuguesas" (excepto neste caso a obra musical cujo texto de resto foi traduzido para português) de interesse maior. Por isso convidamos os leitores a disfrutarem desta muito interessante produção de uma obra datada mas que é um incontornável da "ópera ligeira" de todos os tempos. Parabéns a todos os que com afinco e dedicação ergueram mais um espectáculo que merece o nosso aplauso e incentivo. Ficamos à espera dos próximos. Ast










Lisbonne a reçu des milliards d'euros en aide au développement de Bruxelles depuis son adhésion à l'Union européenne en 1986. in fr.news.yahoo.com (jeudi 9 juin 2005, 10h45)

E quem é que beneficiou com estes milhões de milhões que entraram no país? Onde está a indústria "de ponta", a formação, a educação e a grande competitividade internacional de Portugal?





"Nous ne pouvons pas accepter une réduction quelle qu'elle soit des aides directes à nos paysans", a déclaré M. Chirac. (AFP 09.06.2005 - 15:49)

A Europa da PAC não faz sentido. A PAC enriquece os já ricos agricultores europeus e invalida qualquer competividade por parte das exportações agricolas dos países "em vias de desenvolvimento". É uma aberração e uma imoralidade. A PAC leva 45% do orçamento total da UE e a França é a principal beneficiária.
Cada vez mais o problema, para além dos "nãos" à constituição, parece ser a fixação dos estados em posições irredutíveis no que concerne às políticas financeiras, como por exemplo a Inglaterra que não aceita (supostamente porque a França não quer renegociar a PAC) revêr as compensações que continua a receber como se de um país em dificuldades se tratasse e que a não serem congeladas, como o pretendem todos os outros estados europeus, atingirão níveis absurdos até 2013. Há que (re)lembrar que os holandeses são quem mais contribui "per capita" para os cofres da UE. OE





Samedi dernier, le numéro deux du gouvernement et président de l'UMP, Nicolas Sarkozy, a rappelé son opposition à l'adhésion d'Ankara. "Est-il raisonnable d'ouvrir des négociations avec la Turquie puisqu'il s'agit d'une grande nation d'Asie mineure, pas d'Europe ?" a-t-il demandé lors d'une réunion de son parti.
...
Dominique de Villepin a également estimé que le vote du 29 mai avait posé la question du modèle économique et social européen. "L'Europe est-elle d'inspiration purement libérale, comme le craignent certains ? Doit-elle renforcer sa dimension sociale ? En France comme en Europe, je crois que la vérité est plutôt dans le dépassement de ce clivage, dans la fidélité à un héritage universaliste et humaniste", a-t-il dit.
in fr.news.yahoo.com (mercredi 15 juin 2005, 17h32)


BERLIN (Reuters) - Angela Merkel, chef de file de la CDU allemande et donnée future chancelière fédérale par les sondages, juge qu'il serait "irresponsable" que l'Union européenne ouvre des négociations d'adhésion avec la Turquie.
in fr.news.yahoo.com (jeudi 16 juin 2005, 14h01)




"Las instituciones europeas están a punto de lograr un acuerdo para fijar en 7 000 euros el salario mensual de todos los eurodiputados, independientemente de su nacionalidad, para acabar con el régimen actual en el que los sueldos oscilan desde los 11 779 euros de los italianos a los 800 de los húngaros, pasando por los 2 540 euros de los españoles o los 3 448 euros de los portugueses."
es.news.yahoo.com (7 de junio de 2005, 9h55)














2005/05/27

ABERTURA PARA ORQUESTRA DE JOÃO DOMINGOS BOMTEMPO


Dia 26 a Orquestra Gulbenkian interpretou a Abertura para Orquestra em Dó menor do compositor português. Uma obra de grande talento e inteligente organicidade. Uma criação maior que demonstra que o português foi um compositor inspirado. Bem mais interessante e com mais "veia musical" que outros mais tocados e conhecidos. A orquestra parece ter preparado mal esta obra revelando sucessivas desafinações por parte dos primeiros violinos, "fenómeno" que não é de espantar nesta orquestra...
Seguiu-se o Concerto para violino op. 61 de Beethoven magnificamente interpretado pela célebre Viktoria Mullova que arrebatou a sala. É de facto uma imensa violinista e detentora de uma têmpera de grande artista. A prestação da orquestra foi razoável apesar das descoordenações no último andamento.
O programa acabou com as Danças Eslavas op.46 de Dvorák que não são, para mim, "grande música" mas tiveram uma boa interpretação por parte do agrupamento da Gulbenkian. Lawrence Foster, o maestro titular, foi eficaz. Ast




Um e-mail que vale a pena publicar

É de facto uma obra extraordinária. Sabe que Bomtempo não lhe chamou "Abertura"? O nome original é "Sinfonia para Huma Grande Orchestra". Sendo verdade que, no século XIX, era possível usar ambos os termos indistintamente, não vejo razões para não utilizar a designação original. Conhecendo bem o manuscrito original, acredito estarmos em presença do 1º andamento de uma das cinco sinfonias de Bomtempo que se perderam (!!!) já no século XX. (Ernesto Vieira afirma em 1901 existirem sete sinfonias; como só conhecemos duas...). Seria assim a "incompleta" de Bomtempo...
Há realmente duas passagens terrivelmente difíceis, tanto para os primeiros como para os segundos violinos (que nesta obra não podem fazer cera, têm mesmo de trabalhar tanto como os primeiros). Um abraço, e continue o seu bom trabalho de crítica inteligente e isenta. César Viana














Serviço público: Um taxista agrediu o proprietário de um conhecido bar na capital portuguesa de que resultou a morte da pessoa. Parece que em Portugal se está a fazer passar potênciais criminosos por "profissionais", o que é muito grave quando estão a desempenhar um serviço público e/ou ao público. Tudo questões de (não) educação e (não) formação básica. Que nos levam a questionar para que serve o ensino básico, universal, gratuíto e obrigatório em Portugal. Ou pelo menos a forma como funciona a dita educação básica e elementar que o estado disponibiliza gratuitamente para todos os que a sabem aproveitar mas também para aqueles que não a querendo disfrutar de forma positiva e criativa a "abandalham" e impedem os colegas de se desenvolverem plenamente. O editor.















2005/05/21

ANTÓNIO PAPPANO DIRIGE A ORQUESTRA SINFÓNICA DE LONDRES

Actual titular do Convent Garden, Pappano teve uma actuação fantástica à frente da justamente célebre sinfónica inglesa que nos trouxe obras de Bernstein, Chostakovitch e Rachmaninov. Pappano revelou-se um dos principais e mais prometedores chefes de orquestra da actualidade, onde a absoluta precisão se alia a uma grande inteligência e musicalidade.
On the Waterfront é uma espantosa Suite Sinfónia de Leonard Bernstein que teve nestes intérpretes uma leitura deslumbrante que hipnotisou a grande sala do Coliseu de Lisboa onde se viam algumas clareiras na plateia.
O Concerto para Violoncelo e Orquestra nº1 de Dimitri Chostakovitch, do qual falamos recentemente, teve como protagonista a jovem Ha-na Chang, Coreana, 22 anos, que levantou o público das cadeiras. A sua técnica suprema e a sua intuição musical fazem dela uma grande artista mundial da qual muito há a esperar.
Finalmente a Sinfonia nº2 de Sergei Rachmaninov, que é uma obra longa e formalmente pouco consistente, teve nesta formação uma leitura grandiosa que conseguiu "encher as medidas" de toda a sala. Apesar da obra...
Um concerto de primeiríssimo plano que foi um dos grandes acontecimentos da temporada que agora acaba. Ast















OUÇAM A SOMA DOS SONS QUE SOOAM


É este o título da obra de Jorge Peixinho interpretada pelo Remix Ensemble na Gulbenkian.

Foi um momento em que de alguma maneira se homenageou o compositor prematuramente falecido e também um momento em que podemos uma vez mais compreender aspectos da estética musical de Peixinho. Ele tinha uma capacidade interessante em lidar com a grande forma. A peça com cerca de 15 minutos em um único andamento, onde não existem roturas temáticas substânciais, atesta-o.

Basta comparar com todas as outras obras apresentadas onde ou havia movimentos claramente demarcados ou existiam cortes temáticos evidentes que introduziam a variação e o contraste. A metamorfose em Peixinho acontece dentro e partir do mesmo, o que gera uma consistência elevada mas também é um risco que a não ser bem gerido pode criar uma sensação de monotonia. Tal não acontece pois o compositor era mestre na gestão da tensão. Esta obra é só uma amostra do talento e capacidade de um criador que trabalhou pouco ao nível sinfónico graças a um país que não o soube estimar.

O espectáculo acabou com o Concerto para Clarinete de Elliott Carter, que é uma interessante obra onde o contraste e as oposições solista/agrupamento ou naipes são concebidas de maneira inteligente e eficaz, resultando numa criação de interesse máximo. Ast















SINFONIA 14 DE CHOSTAKOVITCH COM BORIS MARTINOVICH E MIHAELA KOMOVAR


A Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida por Brian Schembri, re-criou esta obra genial dia vinte na aula magna da universidade de Lisboa, tendo como solistas aqueles fabulosos cantores.

Martinovich demonstrou por que é considerado um dos melhores baixos-baritonos da actualidade. Com uma voz potente mas clara, bem colocada e expressiva, foi protagonista de alguns dos momentos mais emotivos deste concerto. Komocar, a surpresa, trata-se afinal de uma soprano grave capaz de performances do mais elevado nível, devendo-se a ela em grande parte a grandiosidade deste espectáculo.

Esta criação inteligentemente contrastante, densa e com elevada consistência formal, como todas as sinfonias do compositor, pode ser de alguma maneira comparada ao Canto da Terra de Mahler. Estilísticamente são bem diferentes, mas em termos conceptuais podem-se estabelecer parentescos evidentes. Esta sinfonia número catorze é uma impressionante obra lírico-sinfónica de grande impacto emocional. A leitura que nos foi oferecida (literalmente pois foi um concerto de entrada livre) foi inteligente, musical e fez juz a esta obra principal da arte musical.

A orquestra (cordas e percussões) entregou-se totalmente e o maestro foi eficaz e preciso, revelando ter estudado bem a obra, o seu estilo e o seu "espirito". Para resumir basta dizer que foi uma grande interpretação.

A primeira parte foi preenchida com o concerto número um para violoncelo e orquestra do compositor russo sendo Irene Lima a solista. Trata-se de uma obra de elevado grau de dificuldade para o violoncelo solo. Irene Lima revelou-se uma excelente artista. No entanto este concerto exige uma técnica mais apurada, sobretudo nas tessituras sobre-agudas. A orquestra esteve muito bem, com um naipe de madeiras que uma vez mais demonstrou ser excelente. A trompa cumpriu com honestidade e as cordas revelaram-se coesas.

O público presente ovacionou longamente (e justamente) os protagonistas deste grande concerto que nos deixa a pensar como as imagens e as virtualidades condicionam totalmente os comportamentos do público português. A sala que leva muitas centenas de espectadores, tinha apenas algumas dezenas. Perderam (e muito) os que faltaram. Não só perderam um grande concerto sinfónico no qual foi interpretada uma obra fantástica, como perderam o que para mim foi claramente o melhor concerto lírico-sinfónico da temporada e o melhor evento de toda a temporada lírica portuguesa. Agora que se agarrem ás suas imagens (e aos respectivs cd's). Ast















JORGE MOYANO INTERPRETA CHOPIN

Acompanhado pela Orquestra Gulbenkian o pianista interpretou no dia 19 o concerto nº2 de Chopin (que na realidade é o nº1).
Se no primeiro andamento o fraseado de Moyano foi pouco transparente e demasiado linear, já no segundo o intérprete deu-nos uma leitura do "larghetto" plena de poesia. Também no terceiro andamento Moyano teve uma boa performance conseguindo um contraste eficaz e um movimento ritmico convincente. Este concerto é particularmente bem orquestrado. Dizer, como se pôde ler nas notas do programa, que em Chopin "a orquestração é débil" e que nunca há "de facto" diálogo entre o piano e a orquestra é uma tonteria que até o ouvinte desprevenido compreende ser uma idioteira total. É esse o cliché do final do romantismo. Que Chopin não sabia ou não se interessava pela orquestração. Mas isso foi um cliché de há cem anos atrás! Nada mais absurdo e basta ouvir o primeiro movimento para perceber que as intervenções do fagote, do oboé e do clarinete são "diálogos" com o piano. A orquestração do segundo movimento é absolutamente espantosa: trata-se aí sim quase de puro acompanhamento, mas um acompanhamento que contribui decisivamente para todo o balanceamento estrutural do movimento. Só um idiota não compreende isso e pode dizer barbaridades como as que se lêm no programa do concerto. Também no terceiro movimento a orquestração é absolutamente eficaz contribuindo para o contraste dançante dos temas. Chopin esse demasiado inteligente para o caso de não ser necessário uma orquestra para os seus concertos de piano, prescindir dela, como o fez Schumann no seu concerto sem orquestra.
A Orquestra não esteve mal, apesar da não direcção de Scimone que está doente mas sempre dirigiu assim ou seja, incrivelmente mal, sem alma, batendo desacertadamente o tempos (nem sequer marca os compassos), arrastando-se atrás da orquestra que se não se segurar por ela própria entra em colapso e pára. Aliás espantou-me a boa performance no Idilio de Siegfried de Wagner que abriu o concerto pois as cordas estiveram excelentes numa obra em que os violinos, especialmente os primeiros, têm um papel fundamental.
Mas nada justifica a grosseria dos músicos da orquestra que foram incapazes de se levantar e oferecer uma cadeira ao maestro, nitidamente doente, depois deste ter pedido ao pianista um extra (para contentamento de uma sala repleta de público entusiasta) e ficou de pé, durante longos momentos, a escutá-lo num "encore" de Chopin (uma grande valsa) onde o intérprete demonstrou a sua profundidade de leitura e a sua grande intuição musical. Ast




"Quando pudermos ver nos ecrãs o equivalente à Vida de Brian, com Maomé como protagonista, realizado por um Theo van Gogh árabe, então teremos dado um grande passo." do livro De Maagdenkooi (A jaula das virgens) de Ayaan Hirsi Ali, citada no volume seis da edição portuguesa do Courrier Internacional














2005/05/06

SAKARI ORAMO DIRIGE SIBELIUS E MAHLER

À frente da Orquestra Gulbenkian o conhecido maestro finlandês apresentou-nos A Filha de Pohjola e Luonnotar de Jean Sibelius, esta última com a participação da soprano Anu Komsi, da mesma nacionalidade.

A primeira obra é uma criação onde a magia está presente no discurso musical e na fantástica orquestração do compositor finlandês que encontra neste director um intérprete que intui a "essência" do seu espírito musical e criativo. Uma obra maravilhosa onde o maestro arrancou a orquestra de um certo amorfismo e a ganhou para uma interpretação totalmente conseguida pese algumas falhas irrelevantes no conjunto.

Luonnotar é uma obra dotada de um certo dramatismo imbuído de mistério. Trata-se de um outro espírito distinto das "paisagens" mágicas da obra anterior. Luonnotar é uma obra "profunda" e na medida em que todos os cisnes são brancos até que nos apareça um negro, a "profundidade" costuma andar de mão dada com o drama sendo que o "mistério" pode coexistir tanto com o drama, como com a magia. A escrita da voz move-se nos registos agudos contrapostos às tonalidades "profundas" e graves da orquestra. Apesar de considerada "especialista" em Sibelius a voz de Komsi é, nos agudos, demasiado aberta e pouco timbrada não conseguindo transmitir-nos o mistério colorido de drama (a criação pode também ser um drama. Ou o início dele...) que suporta esta obra, também ela de alguma forma maravilhosa.

Depois do intervalo Oramo dirigiu a Quarta Sinfonia do maior sinfonista de todos os tempos: Gustav Mahler. Desde já devo realçar que este concerto foi talvez o momento alto da actuação da Orquestra Gulbenkian ao longo da temporada que está prestes a terminar. Como à partida isto não diz muito (pode-se talvez deduzir que devo ter gostado) vou tentar desenvolver.
Esta sinfonia é a de execução mais simples (isto é: menos problemática) e é a mais curta do ciclo das sinfonias de Mahler (é disso que se trata: deram-se conta que logo no primeiro andamento o trompete enunciou textualmente o primeiríssimo tema da quinta sinfonia). No entanto possui um poderoso adágio (Ruhevoll) em que as cordas garantem o fundamento e a continuidade discursiva. Um "cluster tonal" impressionante introduz-nos na coda que termina o andamento e nos conduz de imediato ao movimento final que o criador indica como "muito agradável" e que foi extraído do ciclo Des Knaben Wunderhorn.
A direcção de Oramo demonstrou-nos que este director é já um grande chefe de orquestra. Talvez por isso conseguiu deste agrupamento da Gulbenkian um prestação bem acima do habitual. A tranquilidade suspensiva que conseguiu no adágio que afinal aparece como um "tranquilo" foi notável. As respirações a que induziu a orquestra e que pontuavam um discurso de uma "tranquilidade profunda e sentida", surpreenderam-me. Quando este andamento estava para começar e os músicos estavam já de instrumento debaixo dos maxilares (concerto de quinta), o maestro sorrindo colocou as duas mãos sobre a estante da partitura obrigando-os a colocar os instrumentos em posição de "attente" pois quem dá a entrada é ele e não a pressa dos músicos, mostrando-lhes desta maneira que iam para um "tranquilo" reflexivo, como toda a música de Mahler. Sem essa compreensão não existe interpretação mahleriana. A Orquestra Gulbenkian teve sorte. Teve sorte em ter Oramo a dirigir Mahler. E teve sorte porque com um maestro qualquer de terceira categoria esta interpretação poderia não passar de uma amálgama sem espírito, sem "substância" e logo sem sentido. Assim o agrupamento da Gulbenkian aproxima-se do fim da presente temporada com a "cotação em alta".
Individualmente tenho de salientar todo a performance do oboísta Pedro Ribeiro. Com este intérprete a Gulbenkian tem garantida pela tabelagem mais elevada a continuidade do trabalho iniciado por Swinnerton. Pessoalmente gosto bastante mais do desempenho de Ribeiro que de Swinnerton. O primeiro fagote esteve muito bem, o mesmo se passando com o corne inglês e as flautas. O clarinete de Esther Georgie... nesta obra esteve bem. Pois. Numa obra em que o autor pede frequentemente um som aberto, rústico e com um toque de agressividade, a primeira clarinetista sai-se bem. Muito bem esteve o clarinete baixo. Jonathan Luxton o "número um" do naipe das trompas merece um bravo. Malher exige sempre um trabalho solista por parte do primeiro trompa e Luxton correspondeu. Todo o naipe das trompas, com uma única ressalva no concerto de quinta, esteve bastante bem. Os trompetes, como habitualmente, com o Stephen "à cabeça", estiveram excelentes. Igualmente para a harpa e para os percussionistas com Voss nos timbales. As violas e os contrabaixos estiveram bem. O naipe dos violoncelos no conjunto revela uma sonoridade pouco homogénea, pouco redonda e pouco consistente. Uma situação estranha dado que é um naipe constituído por bons músicos. Os violinos estiveram regulares conseguindo fraseados nos pianíssimos do terceiro andamento que muito contribuiram para a boa performance global. Não gostei do solo do concertino principal no início do segundo andamento: ríspido como deveria ser mas tenso e quadrado. Gostei bem mais do solo da concertino auxiliar que tem um fraseado mais flexível e com mais "alma", coisa que parece ter-se ausentado do concertino principal. Anu Komsi no andamento final esteve melhor que em Sibelius. Trata-se de um canto que se movimenta sobretudo nos registos médios onde a artista denota um timbre bem mais suportado e cheio.

O balanço final, como agora se deduz fácilmente, é francamente positivo e surpreendi-me de algum modo ao escutar esta orquestra a tocar Mahler bem acima daquilo que normalmente esperaria. Não se esqueçam de enviar ao maestro um ramo de flores gigante. Pode ser que ele volte.


Referências discográficas para esta obra? A preços simpáticos?

Sem hesitar uma "referência entre as referências": George Szell à frente da Cleveland Orchestra com a soprano Judith Raskin. Um deslumbramento. Este cd oferece como "bónus" os Lieder eines fahrenden Gesellen por Frederica von Stade numa interpretação inesquecível. Re-edição na colecção essential classics da sony (ou a que a substitua actualmente). Colecção esta onde também pode encontrar a sexta sinfonia de Malher pelo mesmo agrupamento e maestro numa interpretação considerada uma das "referências absolutas".

Porém... a minha interpretação favorita da 4ª sinfonia é a de Klaus Tennstedt à frente da Philharmonia Orchestra num duplo cd da emi (colecção double forte) a "preço simpático". Duplo cd este que também tem uma interessante interpretação da 3ª sinfonia. O único senão é a presença de Lucia Poop no andamento final da 4ª sinfonia... Quanto à 3ª, entre as versões que tenho, recomendo a de Armin Jordan à frente da Orquestra da Suisse Romande que inclui uma fabulosa interpretação da Sinfonia Lírica de Zemlinsky. Uma re-edição económica da Virgin Classics. Ast









2005/05/05

FELICITY LOTT EM LISBOA

A famosa "diva", acompanhada ao piano por Graham Johnson, ofereceu-nos o segundo melhor acontecimento da temporada lírica portuguesa (o primeiro já o referenciei um pouco mais acima). Foi dia 3 na Gulbenkian (para não variar) e a escolha do repertório denota a enorme inteligência destes dois intérpretes de referência na arte do "lied". Poder-se-ia dizer que foi uma colagem de canções, como fizeram outras "divas". Seguramente que o foi. A questão diferencial reside não só nas canções escolhidas mas também na sua sequenciação e na forma ininterrupta como foram apresentadas, evitando aplausos e tosses convulsas. Mas não só. Os Drei Lieder der Ophelia de R. Strauss tiveram aqui uma leitura só comparável a interpretações "míticas" de artistas já desaparecidas ou que já não actuam, como Elisabeth Schwarzkopf. Para isso muito contribuiu o piano de Johnson que na actualidade é talvez o melhor pianista acompanhador de "lied". Mas também nas canções de Wolf, Hughes, Bliss, Britten e Weill, Lott demonstrou estar muito para além do vedetismo fútil das divas vulgares que cobram milhões para entreterem o público das peles de marta que felizmente não é o "público típico" em portugal. Felicity Lott demonstrou estar na sua maturidade técnica e interpretativa e ser uma cantora dotada de inteligência e intuição musical. Qualidades que não são evidentes em grande parte dos cantores/as líricos/as do nosso tempo. Com isto não estou a promover Felicity Lott a "maior cantora da actualidade". Essa "elevação" guardo-a para outras duas: Karita Mattila e Magdalena Kozena. Ast











2005/05/03

XENIA ENSEMBLE E CHAMANISMO

Em tempos alertei para o bluff que poderia vir a ser um concerto que incluía "canto xamânico", apesar de o ter aconselhado. Posteriormente retirei o artigo em que fazia recomendações de concertos depois de constatar a mediania das interpretações de alguns dos artistas que tinha recomendado.

Na realidade este concerto do Xenia Ensemble foi um concerto bastante interessante que me fez lembrar as performances da minha falecida professora Constança Capedeville, injustamente esquecida do panorama musical português. A Constança tem obras bem mais conseguidas (Libera me e Amen para uma ausência, por exemplo) que as apresentadas no concerto deste ensemble. Algumas dessas obras foram alvo de uma edição em cd que actualmente não só é uma raridade com é uma preciosidade musical. Apesar de muitas vezes inspirada nos cânticos e recitativos dos monges budistas Constança Capedeville teve a ombridade de nunca relacionar as suas obras com budismo ou qualquer outra corrente "trancendental" bem em moda. A Constança era uma pessoa de grande desenvoltura espiritual e acreditava profundamente no que fazia como também em alguns aspectos das doutrinas orientais das quais nunca se serviu para "comercializar" a sua obra.

Depois desta "introdução" posso continuar a escrever um pouco mais sobre o concerto de 2 de Maio na Gulbenkian.
Cheguei atrasado. O que ouvi da obra de Franghiz Ali-Zadeh foi demasiado pouco e insuficientemente impactante para tecer quaisquer considerações sobre a peça Mugam Sajahi desta compositora. Compreendo bem a atitude de resistência face ao comunismo soviético que procurou esmagar todas as formas de religiosidade e que foi responsável pelo extremínio de parte da tradição chamânica siberiana assim como responsável pela contaminação radioactiva de parte da Taiga siberiana. Um acto de "ressuscitamento" só por si não é uma obra de arte. Mas, tal como acima escrevi, só assisti ao final da criação de Ali-Zadeh que nasceu em Baku (Azerbaijão, segundo as notas do programa).

Seguiram-se duas deliciosas peças de música tradicional chinesa interpretadas em pipa pela excelente Liu Fang. Uma artista dotada de grande técnica e subtileza que nos ofereceu momentos belíssimos entre as duas obras do "menú".

No que respeita à Ghost Opera de Tan Dun já foram referidos os aspectos performânticos "para além da música" que estiveram tão presentes em toda a obra de Constança Capedeville, investidos aqui de um simbolismo mais forte que na obra da minha falecida professora onde a performance por vezes era algo gratuíta e excedentária apesar de musicalmente as suas obras serem na generalidade mais interessantes, intensas e emotivas que esta Ghost Opera que obedeceu a um esquematismo gráfico-conceptual que em meu entender não garantiu suficientemente a consistência da obra. Obra que no entanto não deixou de ser um trabalho interessante e certamente gratificante para todos aqueles que se deslocaram à Gulbenkian. Finalizo com palavras do autor, extraídas do programa do concerto: "A tradição da ghost opera recua a milhares de anos: o actor da ghost opera entra em diálogo com a sua via passada e futura - um diálogo entre passado e futuro, espírito e natureza. Quando a Ghost Opera foi estreada em Beijing, 1500 pessoas na sala conheciam a canção popular e reconheceram a antiga tradição, mas não sabiam que um quarteto de cordas podia tocar rochas, juntamente com Bach e tocar papel, gongs, água e voz". Ast











2005/04/28

GOSTAVA DE FAZER MAIS TRABALHOS SINFÓNICOS

Peter Neumann esteve na Festa da Música a dirigir o Kölner Kammerchor e o Collegium Cartusianum que foram protagonistas dos melhores momentos desta festa. Como tinha decidido fazer uma só entrevista a escolha só poderia recair sobre este grande músico com o qual me cruzei por acaso num concerto de outro agrupamento.


Álvaro Teixeira: Ouvi-o a primeira vez em Bach. Já não me lembro o quê. Era um cd de uma editora alemã. Fiquei impressionado.

Peter Neumann: Talvez a Paixão Segundo São João...

AT: Exatamente! Gostei muito de facto.

PN: Obrigado. Muito obrigado.

AT: Finalmente encontro-o aqui em Lisboa e ontem escutei dirigidas por si uma maravilhosa, uma genial, leitura da oratória e da missa em dó de Beethoven. Mas... você faz frequentemente os clássicos como Beethoven?

PN: Beethoven não tanto. Fiz a Missa Solemnis, a Missa em Dó e a cantata para o Imperador. Fiz muito Mozart. A integral das missas para a emi.

AT: Prefere as obras com côro e cantores?

PN: Sim. Tenho um côro o Kölner Kammerchor e trabalho muito com eles. Normalmente estou ocupado com este género de repertório mas gostava de fazer mais trabalhos sinfónicos. Também fiz a segunda sinfonia de Beethoven.

AT: E com este grupo com quem tocou a missa e a oratória? Dirige-os frequentemente?

PN: Collegium Cartusianum.

AT: Exatamente. São geniais!

PN: Sim, sim. Normalmente os meus concertos são feitos com eles. Juntam-se nestas ocasiões.

AT: Nunca pensou, por exemplo, fazer a integral das sinfonias de Beethoven?

(risos)

PN: Ainda não, ainda não... Ainda não me solicitaram isso.

AT: É pena porque achei a sua direcção genial. Daquele fabuloso grupo que toca nos instrumentos antigos. Tudo perfeito. Os tempos, as dinâmicas, os ataques... Por isso espanta-me que não o convidem para fazer uma integral das sinfonias de Beethoven.

PN: Já existem muitas integrais dessas sinfonias.

AT: Seria mais uma de grande nível.

PN: Sim. Se me pedirem posso pensar no assunto.

AT: Você faz concertos sobretudo na Alemanha ou por todo o mundo?

PN: Sim. Na Alemanha. Também na Foule Journée em França e na Itália fizémos muitos, muitos concertos. Agora menos. Na Alemanha fiz muito Haendel, muitas oratórias. Gosto muito das oratórias de Haendel.

AT: Eu também. Quais são os seus projectos para o futuro próximo?

PN: Faremos a oratória de Haendel, Débora, em Novembro. Faremos a Paixão segundo São João em St. Peteresbourg e Moscou em dez dias. O próximo ano será um pouco mais calmo. Espero fazer Saúl de Haendel na Festa da Música. Também em Nantes e em Bilbao.

AT: Creio que não é suficientemente conhecido no mercado francês...

PN: Tivémos muito boas críticas em França para os oratórios de Haendel...

AT: Imagino...

PN: Sobretudo na "Réportoire". Gostaria muito de fazer as óperas de Mozart. Isso agradar-me-ia muito.

AT: Na actualidade há uma enorme onda de grupos que se dedicam a tocar nos instrumentos da época, supostamente ao estilo da época. Sobretudo na Europa, nos Eua não sei, mas que pensa desta explosão de músicos que buscam uma suposta autênticidade?

PN: Penso que é uma maneira de dar uma vida nova à música. Creio que é muito bom. No princípio era de cariz mais historicista mas agora há a maneira de tocar, as colorações, fazem-se interpretações modernas, de hoje.

AT: Conheço muitas orquestras alemãs que ouvi aqui e na Alemanha, sobretudo orquestras convencionais. Mas... todas as que ouvi são excelentes. As melhores entre as melhores!

(risos)

AT: Mas é verdade. Nem sequer falo na Berliner Philarmoniker... Há dois anos escutei a Orquestra Sinfónica de Berlim que acabou de falir. Que tem a dizer sobre isto?

PN: Certamente que é uma pena mas creio que vai haver uma mudança na construção e funcionamento das orquestras. Em trinta anos, não sei, haverá mais formações como a nossa que se juntam para um projecto concreto mas os músicos mantêm as suas actividades noutras orquestras, agrupamentos e no ensino. Haverá menos orquestras das cidades pagas pelo governo das cidades. Haverá mais orquestras de "mercado livre", constituídas por free-lancers.

AT: Ha!!! A sua orquestra é privada!

PN: Foi formada para um projecto. Os músicos tocam noutras orquestras.

AT: Acabou de me dizer que esta orquestra que dirigiu não tem um trabalho em permanência!

PN: Não. Não tem.

AT: Incrível!

PN: Sim. Mas tentamos sempre chamar os mesmos músicos para os diversos projectos. Desde que eles estejam disponíveis.

AT: Estou espantado. Eles revelam uma invulgar coesão de conjunto...

PN: Sim. É desta maneira.

AT: Isto é uma questão estranha mas... você ouve música contemporânea? Dos séculos vinte e vinte e um?

PN: Do século vinte escutei em Berlim e em Paris, escutei muitas obras da escola de Viena. Estudei também na classe de Messiaen. Durante um mês. E depois com Maderna e Boulez. Foi em 65/66. Toquei muito Messiaen no orgão também.

AT: Que pensa da construção europeia?

(risos)

AT: Ao nível cultural o que é que espera?

PN: É uma questão demasiado geral...

AT: Ao nível dos intercâmbios. Eu espero que você venha mais vezes a Portugal, por exemplo.

PN: Sim. Isso seria muito bem. Mas existem impostos que nos impedem. Impedem-nos de ir, por exemplo, a Itália onde se tem de pagar 30% de impostos. Muito mais que aquilo que pagamos ne Alemanha. E isto impede-nos de ir.

AT: Talvez uma Europa Federal com leis e impostos uniformes resolva isso...

PN: Pode ser, pode ser...

AT: Esta-me a dizer que em Itália paga 30% de impostos sobre o cachet que lhe pagam e aos músicos...

PN: Sim. Desta forma saímos demasiado caros ou então ganhamos demasiado pouco. Aqui e em Espanha não sei.

AT: Eu também não. De uma maneira geral o que pensa da actualidade musical não sómente ao nível da música antiga mas também ao nível das grandes orquestras românticas. Pensa que actualmente existem formações ainda melhores que há vinte anos?

PN: Sim. Eu penso que o nível técnico é verdadeiramente mais elevado. Mas ao nível da expressividade creio que se perdeu. Por vezes é somente a técnica. Mas também as gravações exigem que os concertos estejam ao nível dos registos.

AT: Acha que esqueci alguma pergunta? Quer dizer algo que ache importante?

PN: Não sei...

(risos)

AT: Gostou de estar nesta Festa?

PN: Muito. Gostei muito. Viémos aqui três vezes a Lisboa, quatro a Nantes e três a Bilbao e é verdadeiramente uma grande festa. Gostei muito.

AT: E para mim foi um grande prazer esta pequena conversa consigo que protagonizou os que foram para mim os melhores momentos desta Festa. Muito obrigado Peter Neumann.

2005/04/26

BEETHOVEN POR RUDOLF SERKIN


Pianista pouco conhecido entre nós e que no entanto é um dos "grandes absolutos" de todos os tempos, tem uma peculiar abordagem do compositor alemão caracterizada por uma depuração que muitos referiram como uma tentativa de anular a sua personalidade para que o resultado fosse "a música". Claro que da sua personalidade única faz parte essa modéstia e humildade extremas de alguém que procura de alguma maneira desaparecer para deixar a obra no "estado puro". Depois de uma Festa da Música com interpretações más ou medianas das sonatas para piano de Ludwig não poderia deixar de referir algumas gravações do grande Rudolf Serkin, todas a preços convenientes.

A aura-music tem editado um recital ao vivo de 1957 no qual é interpretada de uma forma miraculosa a sonata Apassionata. Contém peças de outros compositores. Uma preciosidade por cerca de sete euros em que se pode ter uma ideia da dimensão real deste imenso pianista.

A sony na colecção essential classics re-editou a sonata "patética" e a "hammerklavier" com leituras deslumbrantes do grande artista.

Foi também a sony que há anos colocou no mercado "The Unreleased Studio Recordins" onde nos três cd's, entre várias sonatas para piano, estão incluídas a primeira e as três últimas. Tratam-se de interpretações históricas e geniais.

Finalmente a telarc editou os concertos para piano onde Rudolf Serkin é acompanhado pela Boston Symphonic Orchestra dirigida por Seiji Ozawa. Estes registos receberam Awards 2004 da Gramophone além de um "galardão" da revista hi-fi pela qualidade sonora. O meu preferido é o cd que contém os concertos 1 e 3.

O outra grande referência (uma não exclui a outra, evidentemente) é o estojo de seis cd's de Emil Gilels, re-editados pela brilliant classics, que contém várias sonatas e a integral dos concertos para piano. O preço varia entre 18 e 22 euros. Sobre estas gravações já escrevi noutra ocasião.


A já referida aura-music também tem um cd ao vivo de Arturo Benedetti Michelangeli com três sonatas do compositor entre as quais a op.111. Por cerca de sete euros. A adquirir sem hesitações. Ast




Um e-mail que vale a pena publicar

Oláaa, Ast
Finalmente consegui ler o teu blog com calma.
Está muito bom (e é nº1 nos motores de busca da google e yahoo, UAU!!). Mesmo para leigos, como eu, está bastante interessante. Ajuda-nos a ter uma perspectiva um pouco diferente da música a seleccionar, o que poderemos ou não comprar. E também a não nos sentirmos uns 'babalus'. Dá vontade de ouvir música. Gostei muito. Parabéns. Beijinhos. Inês Portugal (Porto)


Aqui fica um e-mail que um tal "peão contemporaneo" me desafia a publicar. Se o PC só está a tentar "ajudar-me" a ultrapassar as minhas limitações porque é que faz tanta questão em ser publicado? Isto não é uma polémica e este espaço não é de todo um "fórum". Por isso o comentário da Inês à insinuação do "peão" não será publicado. Evidentemente que o "peão" não pode esperar vir a ser publicado novamente nesta página, independentemente dos argumentos mais ou menos artificiosos que esgrima. O editor.

Caro Sílvio,
Estou a escrever-lhe desinteressadamente e gostaria que publicasse este meu comentário do mesmo modo que publicou o da personagem "Inês Portugal", por favor.
Quero dizer-lhe que o seu blog me despertou algum interesse pelo facto do seu próprio autor fazer de tudo para que ele seja notado. Não posso deixar de lhe dizer que o seu esforço é realmente digno de nota. Consegue que (quase) toda a gente, pelo menos uma vez na vida, tenha consciência da sua existência. Porém, o teor da informação nem sempre é o mais interessante, a escrita é descuidada e revela uma certa iliteracia: uma grande quantidade de erros ortográficos, erros de sintaxe, erros de toda a espécie. Só com boa vontade se percebe o que quer dizer. Isto torna a leitura francamente desconfortável, aspecto que apenas poderia ser superado com a qualidade da informação (que neste caso é fraca, portanto não adianta nada). É visível o seu gosto pela escrita. Dado que descobriu essa sua inclinação, poderia tentar ler bons autores (romancistas, mesmo) e perceber por que motivo eles são bons autores. O que faz dum escritor um bom escritor? Tente aplicar as suas descobertas, depois, nos seus textinhos sobre música e músicos. Sinceramente, desaconselhava-o de tentar chamar a atenção para a sua pessoa. Um verdadeiro intelectual quer-se discreto. Não é fazer de tudo para ser notado e para imitar aqueles que o são que se chega a algum lado. Não inveje aqueles que têm algum protagonismo mesmo não o merecendo. Esse protagonismo será sujeito à triagem da história e, com ela, só os intelectuais elegantes e que deixam obra conseguem perpetuar. Também não é a segurar-se à muito antiga prática jornalística de pasquim (na publicação local a que o seu pai estava directamente ligado...) que conseguirá elevar-se aos olhos daqueles a quem pretende agradar (ou junto de quem pretende reconhecimento). Seja discreto. Escreva mais e publique muito menos. Pratique. Não tenha pressa. Seja homem e publique este meu comentário no seu blog. Mostre a sua disponibilidade para aceitar críticas construtivas. Se precisar de outros conselhos, não se acanhe. Os leitores servem para ajudar os críticos que estão a começar. Atentamente, PC









2005/04/24

TERCEIRO E ÚLTIMO DIA


Como já foi abaixo referido este domingo começou com a Heróica de Beethoven numa excelente interpretação da Sinfonia Varsóvia.
O Quarteto Prazák fez uma interpretação paradigmática do quarteto nº 11, 0p.95. Este quarteto possui um elevadíssimo nível e entre os quartetos de cordas presentes foi de longe o melhor. No outro extremo, o Quarteto Aviv deu-nos uma leitura mediocre da mesma obra. Má sonoridade, desafinações, brutalidade e falta de subtileza foi a "imagem de marca" deste agrupamento. Para esquecer.

Para relembrar foi a interpretação do concerto nº 5 do grande Ludwig tendo como solista Boris Berezovsky no piano, acompanhado pela Orquestra Filarmónica de Varsóvia dirigida por Antoni Wit. Berezovsky no seu estilo rápido e potente deu-nos uma leitura fulminantee desta obra grandiosa, acompanhado por uma boa orquestra dirigida por um grande maestro. As falhas do pianista foram irrelevantes num contexto de grande música.

A Festa da Música finalizou não como estava previsto com Variações Diabelli de Beethoven por Boris Berezovsky no piano mas com o trio op. 97 "Arquiduque" do compositor, numa fantástica interpretação de Dimitri Makhtin (violino), Alexander Kniazev (violoncelo) e o mesmo Berezovsky ao piano. Sobretudo no terceiro andamento a poesia fez música e os artistas ofereceram-nos momentos de genialidade. No entanto nas partes em que as cordas têm uma função de acompanhamento, continuaram a tocar como se tivessem a linha melódica condutora, escondendo as subtilezas melódicas que aconteciam no piano. Aconteceu sobretudo com o violoncelista que, diga-se de passagem, é um grande músico mas talvez tenha alguma dificuldade em fazer música de câmara onde todos os instrumentos têm os seus momentos de "brilho".



Excluindo como seria de prever a execução das sonatas para piano, pois pianistas de génio escassearam nesta festa, o balanço geral é positivo. As minhas escolhas pessoais estão feitas. São as mesmas que poderão ler mais abaixo. Quanto ás sinfonias de Beethoven, apesar da ausência de orquestras sinfónicas de primeiro plano, a Sinfonia Varsóvia (que não é um agrupamento sinfónico) teve um excelente desempenho. A Orquestra Filarmónica de Varsóvia também esteve bastante bem. Foi pena que agrupamentos como o Concerto Köln e o Colegium Cartusianum de Peter Neumann não tivessem sido solicitados para uma integral dessas sinfonias. Isso seria seguramente algo de muito especial.

Quanto ás futuras Festas da Música o governo tem de acautelar desde já uma descentralização progressiva dos concertos. Se é verdade que o público lisboeta acorreu em massa também é evidente que este acontecimento é pago por todos os portugueses que não fogem ao pagamento dos impostos. E que por consequência têm direito a participar deste evento. Ast










2005/04/23

GENIAL INTERPRETAÇÃO DA MISSA EM DÓ E DA ORATÓRIA OPUS 85


O Kölner Kammerchor e o Collegium Cartusianum dirigidos pelo fantástico Peter Neumann, tendo como solistas Simone Kermes, Franziska Orendi, Virgil Hartinger e Markus Lemke, ofereceram aos lisboetas no segundo dia da Festa da Música uma leitura assombrosa destas obras de Beethoven.

Tudo o que anteriormente foi escrito sobre o Concerto Köln aplica-se a este agrupamento que também utiliza instrumentos da época. Neste caso sob direcção de um maestro inspirado, com um côro deslumbrante e com solistas à altura. Simplesmente genial.

Genial foi igualmente a interpretação pela mesma orquestra e côro dirigidos pelo fantástico Neumann da oratória Cristo no Monte das Oliveiras, tendo como solistas Simone Kermes (soprano), Virgil Hartinger (tenor) e Markus Lemke (baixo). Para além dos aspectos já referidos noutro local foi impressionante a gestão das tensões por parte do chefe de orquestra que nos transmitiu uma leitura impressionante que comoveu o público que enchia totalmente o auditório principal do CCB. Destaque também para a grande técnica e expressividade dos solistas. A orquestra e o côro, tal como já foi escrito, são do melhor que existe no mundo não só para interpretações do periodo clássico como para um Beethoven da "segunda época" que já transcendeu o classicismo. A minha escolha antecipada, já o tinha dito na antena 2 da rdp que esteve totalmente entregue de corpo e máquinas à "festa", vai portanto para os dois agrupamentos alemães, para director Peter Neumann e para este fabuloso côro que nos trouxeram a Lisboa o que de melhor se pode fazer na interpretação do grande Ludwig (e também na interpretação dos amigos do van Beethoven).

A grande decepção foi a Missa Solemnis op 123, à volta da qual se geraram as maiores expectativas. O Concerto Köln que no dia anterior, sem maestro, foi genial demonstrou logo no início descordenação entre os naipes e até entre os instrumentistas do mesmo naipe. O grupo coral de renome (Rias-Kammerchor) surpreendeu pelo agudos gritados das sopranos sendo as cantoras solistas fracas. O maestro (Daniel Reuss) parecia nunca ter dirigido uma orquestra e foi ele quem provocou as descoordenações num agrupamento que é dos melhores do mundo em instrumentos da época. Malogro total. Ast








2005/04/22

SINFONIA VARSÓVIA, DUMAY E CONCERTO KÖLN


Se as Vinte e seis Variações sobre La Folia di Spagna de Salieri foram o "fait-divers" do concerto da Sinfonia Varsóvia não deixaram por isso de mostrar uma orquestra excelente e coesa com um óptimo concertino que desempenhou com falhas desprezíveis o dificil sólo que esta peça lhe reserva.
Mas foi na 5ª Sinfonia de Van Beethoven que a orquestra hipnotisou uma sala totalmeente cheia que aplaudiu estrondosamente no final. Impressionantes as duas trompas, o oboé e o clarinete. O fagote nem por isso mas as cordas são invejáveis. Os trombones foram emprestados: Hugo Assunção e companhia da orquestra Sinfónica Portuguesa desempenharam com valor o papel que lhes foi confiado. Um grande momento com pequenas falhas que no contexto global são irrelevantes. Peter Csaba, o maestro, foi eficaz.

A mesma orquestra com o mesmo director interpretaram o concerto para violino do mesmo compositor com o célebre Augustin Dumay como solista. No início descoordenados (devem ter tido um curto ensaio antes do concerto...) mas conseguiram entender-se e oferecer uma boa interpretação com desafinações muito pontuais do solista que no entanto é dono de uma sonoridade única. No terceiro andamento Dumay conseguiu momentos memoráveis apesar de quebras esporádicas.


No último dia da "festa" logo de manhã, este mesmo agrupamento interpretou a 3ª Sinfonia de Beethoven. Uma leitura muito boa onde a orquestra demonstrou a excelência de todos os naipes (os fagotes estiveram melhor) e Csaba mostrou ser pelo menos capaz de dirigir correctamente um agrupamento com um nível de excepção. Poderia ser diferente com outro chefe de orquestra mas o que nos foi oferecido foi de muito grande qualidade.


Em instrumentos da época e sem maestro o famoso Concerto Köln, no primeiro dia, interpretou três andamentos da sinfonia nº6 de Jan Willem Wilms (1772-1847) onde o impto romântico é uma evidência e que teve uma espectacular leitura por parte deste agrupamento que é talvez o melhor do mundo em instrumentos da época. Afinações perfeitas, controles dinâmicos impressionantes o que nem sempre é evidente nos instrumentos antigos e uma coordenação (sem director. Mas atenção que antes de Beethoven era o concertino ou o solista, no caso de concertos, que dirigia a orquestra) impressionante fazem-me eleger este concerto como o melhor deste 1º dia da Festa da Música. Foi também interpretado o Andante com moto da sinfonia op.33 de Anton Eberl, sendo a leitura igualmeente excelentee. Finalmente no primeiro andamento da 3ª de Beethoven (em meu entender foi uma interpretação excessivamente rápida. No entanto devo ressalvar que é este o andamento que Beethoven indica na partitura. Raramente os intérpretes optam por esta velocidade de leitura que pode impedir nuances expressivas) o concerto Köln mostrou porque é que durante anos e anos se tem mantido como uma das grandes referências nas interpretações "antigas". Ast








O DELÍRIO DO KITSCH

Pierre Henri. Um histórico. O inventor da música electroacústica. Trouxeram-no a Lisboa para inaugurar a Festa da Música com a sua "10ª Sinfonia". Evidentemente entre aspas. Inspirou-se, diz ele, em Beethoven. No Ludwig. Naquele que dá o mote à festa da música deste ano.

Que nos trouxe Henri? Colagens. Colagens de excertos de obras do Ludwig com uns ruidos muito identificáveis que ele gravou lá no seu laboratório em Paris. O problema foi evidente. A estas colagens faltou a cola. Tudo se sobrepôs, presentificando-se num mesmo presente, mas não fundiu. Não se trata já do velho preceito inventado pelo mesmo Henri que nos diz que todo o material concreto utilizado deve, na obra final, estar totalmente metamorfoseado e não ser identificável. Não se trata já disto. Tratam-se de elementares questões de bom gosto no que toca ás densidades e à gestão de tensões, à organização das polifonias, à concepção formal e a resultante perceptiva na audição, enfim à maneira como se cria uma obra.

Mas Henri conseguiu surpreender-nos a todos. De repente pôs uma batida dance-rasca que pôs o René Martin a abanar a cabeça como se estivesse numa disco. Só lhe faltava mesmo um copo de whisky na mão. Talvez um gin-tonic... Gente do público ria-se, o meu amigo "melómano" na fila de trás parecida algo estupefacto mantendo-se muito silêncioso. O maestro brasileiro e a esposa pareciam consternados. Afinal tratava-se de Pierre Henri, não de um qualquer dj a fazer de palhaço.
Isto é patético, pensei olhando para a histórica figura que dava saltinhos cada vez que manuseava os botões da mesa de mistura e movia o pé ao som da batida. Sentia-me comovido e nauseado pelo ridículo daquilo tudo.

Ouve-se uma cabra berrar. Uma, duas vezes. Foi o auge, pensei. Mas não. Passados momentos voltou a cabra berrando ainda mais alto, desta vez ao som de chocalhos. Isto é que é o verdadeiro espiríto da 6ª que esse bacamarte do Ludwig não captou.

Muito tempo depois ouve-se um relógio dar horas.

- Sim já são horas de fechar a loja, comentei eu.

E fechou mesmo. Um estrondoso ruído de uma porta (esqueceste-te dos nossos suspiros de alívio, Henri) fez-nos perceber que a loja tinha de facto fechado. O público saíu sem aplaudir. Ast





Um e-mail que vale a pena publicar


Boa tarde caro Álvaro Teixeira,

antes de mais quero agradecer-lhe o facto de me ter acompanhado a mim a ao Maestro Atalaya até à praça de táxis, depois do "memorável" espectaculo. Apresento as minhas humildes desculpas pelo modo como me ausentei ontem. Não tinha contado com a demora depois do "espectáculo" e os transportes públicos não são de muita confiança. Mas foi agradável a conversa através do jardim até aos Jerónimos. Agradeço que apresente as minhas desculpas à jovem que acabara de chegar e que me deve ter considerado " um bicho do mato".
Memorável espectáculo, bom gosto timbrico e chocálhico nas cordas de um 10ª à moda moderna. Remix de salão com ovelhas e cabra à mistura ( pareceu-me a mim ). Concordo plenamente consigo "aquilo" foi horrível, intragável e de mau gosto estético. Alguém não acreditou que o Henri suportava todo aquele tempo em pé. Perdeu a aposta. Impávido e não acreditando que aquilo demorasse tanto tempo, ele lá conseguiu suportar. Acto heróico concerteza.
Lembro-me de uma visita de estudo que efectuei ao museu da Gulbenkian, estava uma exposição de Picasso. Uma grande quantidade de pessoas aglomerava-se junto a um quadro, aproximei-me mas não consegui ver nada, tal era a quantidade de entendidos. Esperei que eles saíssem e fui investigar o que tanto entusiasmava aquele público. Olhei e juro que não consegui ver coisa alguma, uma enorme tela com uma pinta verde no canto superior esquerdo, mais nada. Fiquei ali a tentar entender o porquê de tanto interesse. Uma senhora idosa aproximou-se de mim e perguntou baixinho " fantástico, não acha?", olhei para ela e respondi "pois, mas o que é que está pintado?". Olhou para mim espantada e disse " meu jovem,não está a ver? Aquela pinta representa uma grande dor no artista, você é que não percebe nada". E afastou-se.
Pronto! Nós é que não percebemos nada do concerto de ontem. Tá explicado. Os melhores cumprimentos. Antonio Feio

Nota do editor: não se trata do actor homónimo.









2005/04/18

JIAN WANG INTERPRETA AS SUITES DE BACH


O violoncelista chines tocou as suites 1,5 e 3 de Johann Sebastian Bach na Gulbenkian na segunda-feira.
A sua leitura caracterizou-se por um virtuosismo inteligentemente manipulado e aparentemente trespassado por um conceito pessoal que se afasta tanto da leitura romantica quanto das mais recentes que se preocuparam essencialmente com uma suposta fidelidade ao "espirito da epoca". Trata-se portanto de um acontecimento em que esperamos podemos escutar, nas suites seguintes, Bach por um artista que revela uma autonomia interpretativa que pode fazer dele um marco contemporaneo na re-leitura destas suites para violoncelo solo.


Infelizmente na terça-feira Jian Wang nas suites 2,4 e 6, demonstrou não ser uma "terceira via" mas muito simplesmente uma repetição estafada das leituras românticas do passado mas muito abaixo de um Casals ou de um Fournier. De facto nas sonatas e partitas para violino do mesmo criador existem interpretações fabulosas em instrumentos modernos que se impuseram ao lado das leituras nos instrumentos da época (algumas para melhor) e que nada têm a ver com as "velhas" interpretações romantizadas. Era isto que esperávamos de Wang.

A "velha" leitura romântica só tem interesse devido aos "rasgos" daqueles grandes intérpretes pois no que diz respeito a aspectos como os fraseados, respirações, questões interpretativas relacionadas com o carácter de dança das várias partes das suites, esses eram pura e simplesmente escamoteados dando-se ênfase a uma individuação determinada por aspectos que não têm em conta a vertente estético-estilística destas composições, embora nas leituras de um artista genial como Casals se (pre) sinta uma "alma" muito peculiar que ainda hoje nos pode comover.

Na actualidade outros intérpretes de excepção tocaram estas suites em instrumentos da época (com cordas de tripa e um arco com curvatura contrária à dos arcos modernos que manipulado com posição diferente de prensão permite um fraseado muito ritmado e "dançante") que se tornaram as "grandes referências" contemporâneas. Primeiro foi Anner Bylsma que as gravou duas vezes, sendo a minha preferida a última tocada num grande Stradivarius com espigão (os instrumentos antigos são mantidos entre as pernas sem qualquer outro apoio o que permite outra ligação e manipulação do instrumento. Dado o tamanho do Stradivarius utilizado por Blysma esta posição não é praticável tornando-se indispensável o uso do espigão). Depois foi o seu aluno Pieter Wispelwey que as gravou para a Channel Classics e foi louvado em todo o mundo, continuando esta a ser para mim "a interpretação referência" para estas suites.

Leituras como a que Wang fez na terça-feira são maus produtos de uma concepção romântica que não consegue singularizar-se por falta de génio e incapacidade de inovação que é indispensável especialmente quando se está nos limites de uma concepção romantizada.
Não vou especificar mas genéricamente chocou-me a falta de "respiração" que é um aspecto essencial para delimitar os arcos discursivos. Chocou-me a falta de "balanceamento ritmíco". Chocou-me o fraseado monótono, consequência dos aspectos acima referidos. Chocou-me o ênfado e a falta de alma na Allemande e na Sarabande da 6ª suite em que intérprete soçobrou a um romântismo kitsch só capaz de provocar bocejos. Chocaram-me as desafinações consecutivas no prelúdio da mesma suite e na Giga que finaliza a obra, não aceitáveis num intérprete que nos é apresentado como sendo de "top mundial". Por acaso até tomei mais notas mas isto basta e sobra. O público que enchia o grande auditório da Gulbenkian aplaudiu de pé e com estrondosos "bravos". Assim é que é!

Procuram o sublime através destas suites? Então ouçam a interpretação de Peter Wispelwey.


Nota: não me sinto na obrigação de dar explicações mas como já fui repetidamente acusado de erros ortográficos ficam a saber que a primeira parte deste artigo foi escrito numa máquina sem acentos. Como não me apetece fazer a correcção aqui fica a informação. E a rima foi propositada.









2005/04/14

DAVID GRIMAL EM LISBOA

David Grimal, que é um dos expoentes interessantes do violino na actualidade, interpretou o concerto para violino e orquestra de Erich Korngold acompanhado por uma pateticamente mediana Orquestra Gulbenkian, dirigida por Daniel Nazareth. Do programa fez parte a abertura de Hänsel und Gretel de Engelbert Humperdinck e na segunda parte foi interpretada a terceira sinfonia de Robert Schumann. No final do concerto de quinta-feira, que repetiu sexta, conversámos com David Grimal.


Álvaro Teixeira: Há muitos anos escrevi num diário português que este concerto não passa de um pastiche ultra-romântico. Continuo a pensar exatamente o mesmo...

David Grimal: Eu penso que é uma música muito kitsch. É uma música muito hollywoodesca mas com as raizes vienesas. No parte central do segundo movimento há como uma recordação de Schoenberg. Mas tudo o resto está no modo de fá que será posteriormente, depois Korngold porque foi ele quem começou a escrever no modo de fá, vulgarizado. Agora temos John Williams e outros que escrevem nesse modo, o que é completamente kitsch.

AT: Mas mesmo essa melodia do segundo movimento está muito mas construída. Na minha opinião. Depois existem fortes dissonâncias absolutamente desintegradas do contexto, do discurso musical.

DG: Isso não sei. É bastante naif sobretudo, a melodia do segundo movimento. Eu penso que dentro do género que esta obra representa está é bastante conseguida. Mas... não podemos dizer que é música séria.

AT: Você que acabou de tocar uma peça muito interessante (um extra de Bela Bartók) pouque é que toca uma peça nula como este concerto de Korngold?

(muitos risos)

DG: Nem sempre escolhemos com quem e o que vamos tocar...
Mas isto faz parte da música também. Eu toco muito o concerto de Beethoven, o de Brahms, o de Bartók, o de Berg, ou os de Mozart mas também toco Paganini e Korngold que também fazem parte da vida. Pode-se ter um prazer diferente tocando-os e escutando-os. São coisas diferentes que existem e que eu acho que merecem ser tocadas.

AT: O problema é que para vocês violinistas não há muito repertório... Contráriamente ao piano por exemplo.

DG: Não é verdade. Eu tenho cinquenta peças no repertório e tenho de estudar mais cinquenta. É um repertório enorme. Não sei se toda a minha vida será suficiente para tocar todo o repertório. Pode-se tocar Pendereki, Lutoslawski, Britten, não sei que mais... o concerto de Schoenberg, toda a música francesa, os concertos menos conhecidos de Miklos Rosa...

AT: Rosa?

DG: Rosa é um húngaro que foi para hollywood também. Há muito para tocar e a descobrir. Mas grandes obras? Concertos de Beethoven há só um. Não existem cinco. De Mozart não existem trinta. De Brahms não há dois, não contando com o duplo concerto. Mas há também um concerto de Schumann, um de Elgar, dois concertos de Prokovief, dois concertos de Chostakovitch...

AT: Ao nível da música contemporânea existem muitas obras para violino solo?

DG: Não existem assim tantas. Há muito mais para violoncelo solo, de facto. No século vinte o violoncelo conseguiu um grande destaque porque pessoas como Rostropovitch fizeram muito trabalho com os compositores e os violinistas foram mais preguiçosos. De tal maneira que se para o violoncelo existem muitas obras, para o violino de facto não existe uma verdadeira sucessão para a sonata de Bartók. Eu procurei... Há uma sonata de Zimmermann que no meu entender não tem a mesma qualidade.

AT: Não conheço essa obra mas Zimmermann é um grande compositor.

DG: É um grande compositor mas essa peça para violino não está, na minha opinião, ao nível da sonata de Bartók. Falei de Zimmermann justamente porque é um grande compositor. Trabalhei com muitos compositores que escreveram...

AT: Pascal Dusapin não tem nada para violino sólo?

(silêncio)

AT: Não gosta de Dusapin...

DG: Não sei. Não conheço tudo de Dusapin. Ele escreveu uma pequena peça para violoncelo mas que não é uma coisa séria... Mas isso depende se falamos de coisas sérias ou se falamos de tudo. Fomos muito severos com Kornagold mas na música contemporânea há muito "Korngold" também. E estão vivos!

AT: Bom... eu conheço bem a obra de Dusapin e em meu entender é um muito grande compositor. Mas não conheço essa peça para violoncelo. Mas qual é para você o limite entre a música séria e a não séria?

DG: Para mim não é uma boa pergunta porque não existe música séria e música não séria. Existe sim a maneira séria de abordar a música ou a maneira não séria de o fazer. A maneira não séria não me interessa. Daí que mesmo a música de Korngold para mim também pode ser séria nos limites do "décor" e do seu enquadramento. Mas pode ser trabalha com seriedade também. É isto.

AT: Mas assim temos limites demasiado volúveis... Podemos dizer que o último andamento do concerto de Korngold é absolutamente kitsch. Estivemos de acordo: não é música séria. Não podemos dizer agora, passados poucos minutos, que afinal é música séria.

DG: Mas não é isso. O que pode ser sério é a maneira de a interpretar.

AT: A sua forma de a tocar.

DG: Exatamente. Eu não sou compositor. Não sou compositor, nem crítico, nem professor de reflexão estética. Eu sou simplesmente um intérprete. Quer dizer que devo tocar toda a música. A minha missão é tocar tudo. Mas cada coisa que abordo, abordo-a de acordo com o seu carácter, de acordo com o seu contexto mas com o respeito pelo trabalho do compositor que eu de todas as maneiras não sou capaz de fazer. Depois há a música que eu recuso tocar porque é desonesta. Mas para mim Korngold não é uma música desonesta. É uma música sincera. Kitsch mas sincera.

AT: Pode-me dar um exemplo de música desonesta?

DG: Música desonesta... Sim, vou-lhe dar um exemplo de música desonesta... Existem obras sim... Mas não vou falar delas diante de um microfone. Em frente de uma garrafa de vinho podemos discutir sobre música. Existem mesmo compositores muito respeitáveis e muito sérios... Em Chostakovitch, por exemplo, existem obras desonestas. Para mim. Ele tem obras extraordinárias mas também tem obras em que ele não é sincero. Eu sei que foi por causa do sistema que ele foi obrigado a escrever obras um pouco de propaganda.

AT: São casos particulares...

DG: São casos particulares eu sei mas há obras em Beethoven que são peças de circustância e mal conseguidas. Ele próprio viu isso. Podemos encontrar muitos situações entre os maioires que escreveram música porque foram obrigados. Daí que essa música não funciona. E podemos ao mesmo tempo ver em compositores menores como Korngold, que era no entanto um compositor dotado mas que começou a fazer merdas como este concerto, mas ele fez isto com humor. Daí que eu aceito isto. Eu prefiro isto, onde há apesar de tudo talento, a coisas mais escolares como a Sinfonia Espanhola de Lallo que é mais estúpida. Bem mais estúpida. Há obras de Saint-Sains que também são mais estúpidas.

AT: ...

DG: O Rondó-Caprichoso foi conseguido como peça de circunstância. Não é música séria mas foi bem concebido. Mas o primeiro concerto não o foi.

AT: Você vive em França ou no Estados Unidos?

DG: Eu vivo em Paris!

AT: Como começou a falar inglês... É que existem alguns músicos franceses que foram para os Eua... A Hélène Grimaud foi viver para lá...

DG: É verdade?!

AT: Sim, é. Porque acha que ela foi para lá?

DG: Não sei. Temos de lhe perguntar.

(muitos risos)

AT: Que tem a dizer da música francesa post-Boulez? Crê que agora há mais liberdade estética que quando Boulez controlava tudo?

DG: Não se pode dizer que estamos no post-Boulez porque Boulez é ainda o papa. Mas há bastantes correntes estéticas em França e a linguagem está em vias de se re-definir, já não há uma linguagem homogénea. É muito dificil saber, quando não há continuidade histórica do ponto de vista da linguagem, o que tem valor ou não. É dificil dizer o que é experimental e o que vai ficar porque é uma linguagem que vai ter continuidade. A actualidade, para mim, é um periodo de transição onde se vai encontrar uma continuidade histórica com o passado, seja com a música tonal seja com a música modal , seja com outros caminhos expressivos que em meu entender estão ou na modalidade ou na tonalidade porque em meu entender a música serial ficará sempre em estado experimental.

AT: Você crê que todo o post-serialismo, todas as técnicas de triagem serializadas ficarão sempre em estado experimental?

DG: Penso que a música serial não funciona nas grandes formas. Funciona para as pequenas formas como em Webern. E Berg é música tonal não é música serial. Daí que funciona muito bem, efectivamente. A música serial é muito interessante mas não funciona. Como a Ars Subtilior do XIII século que era a música contrapuntística pura, isto não funciona. Os monges faziam vinte e quatro cânones ao mesmo tempo... isto não funciona. A música tem necessidade de um centro. Isto é muito interessante no papel mas não funciona. Na música serial é o mesmo. Há muitos acontecimentos ao mesmo tempo sem uma continuidade orgânica e uma correlação de tensão e distensão. E a música é isso. A música modal está menos neste registo de tensão/distensão mas é muito descritiva através das colorações. Para mim a linguagem serial na forma da música clássica não funciona.

AT: Muito obrigado.