CRITICA MUSICAL / MUSICAL CRITIC

Um blog de Álvaro Sílvio Teixeira

2004/05/10

TUDO RESIDE NA FORMAÇÃO BÁSICA

Sequeira Costa não necessita de apresentações. Conversamos com ele no final da edição de 2001 do Concurso Internacional Vianna da Motta, do qual é o presidente e fundador. Entrevista trazida a público tardiamente, devido a contingências de Portugal e dos portugueses, mas que mantém uma actualidade pertinente e evidente.


Álvaro Teixeira - Acha sintomático termos um espanhol em terceiro lugar (nas classificaçöes finais do concurso) e nenhum português entre os sete primeiros?

Sequeira Costa - Entre os sete primeiros? Mas os portugueses foram logo eliminados na primeira eliminatória!

AT- É sensato perguntar-lhe se acha que Portugal algum dia estará culturalmente a par dos outros países da Europa? Ou será uma pergunta ridícula?

SC- Não é ridículo perguntar-me isso. No entanto é uma pergunta para a qual não tenho resposta. Já no tempo das legiães romanas, estas se referiam aos lusitanos como uma raça indomável. É um problema de mentalidade. Portugal não é a Alemanha nem a Rússia. Temos outras coisas boas. O sol, a praia, o tinto...
Segundo as estatísticas somos os primeiros em acidentes rodoviários, näo é verdade? E parece que na corrupção também... O dinheiro em Portugal não está bem dividido. Em vez de mandarem bolseiros para o estrangeiro deviam trazer meia dúzia de mestres para cá. Talvez então, dentro de dez anos, pudéssemos não estar tão longe... Ontem (na cerimónia da entrega dos prémios) falei no ensino básico! Tudo reside na formaçäo básica! É esta que permite o desenvolvimento de um povo. Depois há os oportunistas! Aqueles que só buscam subsídios...

AT- E da Espanha? Estamos muito longe?

SC- Sem dúvida. Os espanhóis revelaram-se sobretudo no domínio das vozes e são dos melhores. Talvez a melhor escola europeia...

AT- Acha que caso a direita volte ao poder, a cultura em Portugal vai ganhar?

SC- Os movimentos democráticos em Portugal, a seguir ao 25 de Abril, tiveram concepções válidas. A prova é que hoje existem muito mais concertos, festivais, etc. Se a direita voltar ao poder será igual ou parecido. O problema é a mentalidade e a falta de educacão básica. A educacão musical é fundamental e as criancas têm de ser obrigadas a estudar música com a mesma seriedade e disciplina com que estudam matemática e história para futuramente saberem distinguir entre Stockausen e Rameau. O que as velhas finas portuguesas conhecem é a sonata "pateta" do "Bitoven". Nada mais! Um dia estava em casa de uma dessas finórias e disse ela para a sobrinha: "ó querida toca lá a sonata pateta para o senhor professor te ouvir".

AT- Não acha que está tudo absurdamente concentrado em Lisboa?

SC- Totalmente de acordo. É a mentalidade! Esta Fundaçäo (estavamos na Gulbenkian) foi uma mina de Salomão que de repente apareceu aqui e as pessoas que a governam gostam é de aparecer nos concertos mas não se preocupam sériamente com a divulgação cultural. Não existe essa preocupação. Um artista vem cá, deveria dar 6 ou 7 recitais em cidades diferentes. Mas não: toca aqui na fundaçäo e vai-se embora. Fundamentalmente a maneira de organizar as coisas está incorreta. Não é com a vinda de grandes orquestras a Lisboa ás quais se pagam milhöes de contos todos os anos, que se educam culturalmente os portugueses...

AT- Nestes festivais de piano descuram-se as obras contemporâneas...

SC- Mentira! Os concorrentes eram obrigados a trazer uma peça de um compositor contemporâneo. Não esteve no concurso desde o início, pois não?

AT- Não.

SC- Pois foi uma pena!

AT- A divulgaçäo foi quase nula. Soube por acaso...

SC- É impressionante como a imprensa portuguesa boicota um acontecimento destes...

AT- Se eu lhe propusesse realizaria a próxima edição em Trás-os-Montes?

SC- Só o faria porque o meu avô é oriundo de Trás-os-Montes. Só por isso pois o Viana da Motta nasceu e deu aulas em Lisboa. No Porto já têm um concurso de piano, fui eu que o validei internacionalmente como membro da Federaçäo Mundial de Concursos de Piano. É um concurso sem grande projecção internacional... Nestas coisas Portugal ainda está na pré-história.

AT- Que conselhos daria ao ministro da Educação?

SC- Falei com ele ontem. Já lhe disse o que penso.

AT- Será que existe algo como uma "alma lusa" que impele os portugueses para o futebol, para o fado e para Fátima, ao mesmo tempo que os afasta da "grande cultura"?

SC- Não se esqueça que todos nós temos sangue árabe. O calor origina preguiça mental e física que diminui as nossas capacidades... As pessoas do Sul querem tudo rápido e fácil... Parece que a feira do livro deste ano teve poucas pessoas. Os portugueses não lêm. Também ganham muito pouco...

AT- Escolheu um júri relativamente jovem porque acredita poderem estarem mais imunes ás grandes pressões que se sabe existirem nestes concursos internacionais?

SC- Mais imunes... Diria menos corrompidos! São jovens e ainda não estão tão instalados como os velhos.

AT- A mim pareceu-me que o concorrente russo...

SC- Inteiramente de acordo! Noutro concurso não passaria da primeira eliminatória.

AT- Mas a mim pareceu-me possuir uma técnica sólida. Aquela sonata de Scriabin de ontem...

SC- Qual o pianista português que não faz um brilharete com as obras de Lopes Graca? Para os russos, tocar Scriabin já nasce com eles. Qualquer crianca de 9 anos tocaria como aquele concorrente.

AT- Que no entanto pareceu-me ter uma técnica mais sólida que a que ficou em 5° lugar...

SC- Näo diga isso! Ouviu-o tocar os estudos de Chopin? Não merecia ter passado da primeira eliminatória. Não lhe vou dar uma aula agora mas o "touché" da concorrente a que se refere não tem nada que ver com a falta dele que o concorrente russo revelou e que ficou em 6° lugar!

AT- Não o ouvi nos estudos de Chopin mas de facto no concerto para piano pareceu-me ter uma técnica demasiado percutiva para um compositor como Chopin que utiliza grandes linhas em "legatto".

SC- Esse concorrente pode fazer um brilharete com Stravinsky. Nunca com os clássicos.

AT- Stravinsky que é um grande compositor...

SC- Não. O grande compositor do século vinte, o que "abriu as portas" é Schoenberg!

AT- O Stravinsky também. Noutros aspectos...

SC- Para si! Agora vá-se embora que já estou na conversa consigo há muito tempo e estão ali á minha espera.















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