CRITICA MUSICAL / MUSICAL CRITIC

Um blog de Álvaro Sílvio Teixeira

2004/04/05

Os verdadeiros contemporâneos - José Blanc de Portugal


Sei que é impossível seguir passo a passo o que faz musicalmente a juventude portuguesa. No público da Fundação Calouste Gulbenkian, de Belém ou do Teatro Nacional de São Carlos haverá alguém que conheça o Grupo Lide, que deu o seu terceiro concerto na bela sala da biblioteca do Instituto Superior de Economia e Gestão?
...
Concertos-lição para os futuros doutores do ISEG, Álvaro Teixeira pode orgulhar-se do que já fez o seu grupo e não seria mau que os responsáveis oficiais e particulares pela nossa música estivessem atentos...

in Diário de Notícias, 4 de Abril, 1995
Não estiveram. Antes pelo contrário. Eu não me dava bem com o consultor... nem com o director... nem com o secretário de Estado... se calhar eram todos a mesma pessoa... Enfim, coisas à portuguesa concerteza. A minha homenagem a José Blanc de Portugal cuja obra transcende em muito a "mera" crítica musical.


Lied I & II (excerpt)


UM BOM CONCERTO EM CONDIÇÕES LAMENTÁVEIS

Por Álvaro Teixeira

... o director falava com a orquestra referindo-se a «escândalo» e preconizando legatos mais acentuados.

... uma interpretação mais «ligada» poderia minimizar a «secura» da sala.

Em conversa com David Shallon (o maestro) este esclareceu-me que o «escândalo» era a acústica horrível da Sala Júlio Verne do Teatro Camões...

«Escândalo» era também a péssima organização e o barulho que durante o ensaio fizeram a focar as luzes, acabando por ser os músicos da orquestra a mandar calar os funcionários. Este último episódio pude-o eu, estupefacto, presenciar enquanto Gavrilov, indiferente a tudo, fazia passagens do 3º Concerto para piano e orquestra de Rachmaninov.

in Diário de Notícias, 11 de Julho, 1998


Alguém com elevada responsabilidade nos eventos do Teatro Camões, durante a Expo98 (e que parece ter tido um "ataque de nervos" depois de ter lido esta crítica...), disse-me, à entrada para a estreia daquela coisa chamada White Raven (O corvo branco), pelo qual pagamos na época (consta) um milhão de contos (cerca de 5 milhões de euros!): "veja lá se não foi a última vez que escreveu para o DN" (não sei se esteve relacionado... mas a verdade é que não voltaram a publicar textos meus!)

Eu até fui muito "mansinho" no que escrevi, porque estava com mêdo que nem aquilo publicassem: os técnicos que andavam a colocar os focos fizeram o que nunca aqueles músicos (e eu próprio) tinham visto em parte alguma do mundo. Um gritava em altos berros: "Ó Zé! Manda a merda do cabo, pá!". O outro atirava o cabo que ficava a balançar em cima da cabeça dos músicos (que estavam a ensaiar) enquanto o primeiro ia de suporte em suporte (sempre por cima dos músicos) até atingir o cabo. Depois era (sempre aos berros): "Já tá pá?", "Não, mais para a direita", "E agora?", "Um nada para a esquerda". Portugueses no seu melhor...

David Shallon, quando os músicos espontaneamente pararam de tocar e começaram a mandar os técnicos calarem-se, saltou do palco e veio ter comigo (eu era a única pessoa que se encontrava na plateia) a gritar que "uma coisa assim nem em África", onde ele me contou (quando se acalmou depois de eu lhe ter explicado que não pertencia ao Teatro Camões e só ali estava para assistir ao ensaio-geral, que foi ensaio único) ter ido várias vezes para dirigir concertos. Estes acontecimentos ainda hoje devem correr o mundo pela boca dos oitenta e tais músicos da orquestra, mais a infinidade de pessoas que entretanto a escutaram...

Depois havia a questão da acústica, que não se devia falar dela: é que a sala era nova e ia estrear aquela "coisa", chamada de "O Corvo Branco", da qual o Estado português nem sequer ficou com os originais da partitura (só ficou com fotocópias!) e pela qual pagou uma pornográfica "pipa de massa". Simplesmente surreal!

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