2007/05/11

A discoteca ideal...

Mostraram-me um catálogo de uma multinacional intitulado "Discoteca Ideal - Música Clássica". Não li nem a introdução, de um musicólogo português, nem o que parece ser uma história da música resumida. Acredito que o público da "música clássica" é inteligente, e se quer saber mais, comprará histórias da música de autores reconhecidos internacionalmente, que já existem, pelo menos uma, traduzida para português, a preços aceitáveis, que até pode ser encontrada nas designadas "grandes superficies", a preços ainda mais "em conta". Quem deseja conhecer mais de "música clássica" não se deve deixar iludir pelas estratégias comerciais das casas que, face à quebra, que vai continuar, na venda de discos, tiveram que reduzir substancialmente os preços, e agora inventam estratégias para impingir às pessoas aquilo que lhes apresentam como sendo "indispensável", na tentativa de venderem os cd's e dvd's ao preço "normal", ou apenas com pequenas reduções.

Neste catálogo, a asneirada começa logo naquilo que nos é apresentado como "Os 50 indispensáveis". Infelizmente, numa discoteca de 50 cd's indispensáveis não há espaço para três de compositores portugueses. Há um (duplo cd) que merece constar e não o colocaram na "lista": trata-se de "La Giudita", obra genial de Francisco António de Almeida, numa interpretação fantástica sob direcção de René Jacobs. É uma edição da Harmonia Mundi e existe uma re-edição a preço económico.

No que diz respeito aos cinquenta indispensáveis, as asneiras são tantas que decidi nem entrar no "corpus" do livrinho. Por exemplo: "A Criação", de Haydn, dirigida pelo Karajan?! Compreendo que queiram e necessitem vender, mas esta proposta revela simplesmente uma ignorância ridícula. Karajan seria o último, ou um dos últimos, intérprete(s) numa escolha para esta obra, em que existem várias versões com instrumentos "históricos", e outras em instrumentos "modernos" dirigidas por "especialistas", talentosos, da música antiga e clássica. Desejam um registo do Karajan? PELLÉAS ET MÉLISANDE, de Claude Debussy, que deveria ter sido colocado entre os "50". As suites para violoncelo de Bach por Pablo Casals? Casals foi um grande artista e um grande músico, as "suas" suites são um documento histórico e musical importante, mas existem interpretações mais "interessantes" para serem aconselhadas às pessoas. Por exemplo a de Peter Wispelwey, executada num instrumento "histórico" e que foi aclamada em todo o mundo quando do seu aparecimento, que aconteceu há mais de dez anos. Não esquecendo a versão, histórica a todos os níveis, utilizando dois instrumentos "da época", do ex-professor de Wispelwey: Anner Bylsma. Variações Goldberg por Gould... E por Gustav Leonard, muito menos mediatizadas que as de Gould, na minha opinião mais poéticas e "metafísicas", além de serem interpretadas com maior "autenticidade" no que diz respeito a fraseados e ornamentos, para nem sequer entrarmos na polémica "piano ou cravo"? É demasiado óbvio Mahler por Boulez, mas se tivesse de escolher uma interpretação da sua 5ª Sinfonia não escolheria a de Boulez. Meter uma compilação de Callas entre os "50 indispensáveis" leva-nos a perguntar se não seria melhor fazerem uma lista de cinquenta compilações de 50 grandes cantoras (e cantores), só e unicamente para os amantes (muito amantes) do "bel-canto", coisa radicalmente diferente de meterem uma compilação da artista entre os "50", quando existem cantoras bem mais geniais, mas menos comercializáveis (claro!), que Maria Callas. Jogar pelo popular é escolher as "Quatro Estações" de Vivaldi na "versão Biondi". Não. Esta não é de todo "a referência". Foi a mais publicitada e a mais vendida mas "a referência" é a interpretação de Giuliano Carmignola, um violinista mais musical e tecnicamente mais perfeito que Fabio Biondi. Antes de Biondi escolheria as interpretações de Monica Huggett e Viktoria Mullova. Prelúdios de Chopin por Lugansky? E por Martha Argerich? E mesmo a leitura de Maria João Pires, que há semanas estava à venda por metade do preço? Gershwin? Já agora porque não Wynton Marsalis, que é mais interessante, é jazz "a sério", e Marsalis é um "racionalista" dentro do género? A "Carmen" de Bizet entre os "50"? Muita coisa será possivel, mas meter a "Carmen" nos "50" não o é. O mesmo em relação ao "Pedro e o Lobo". Necessitam vender o dvd? Anunciem-o na tvi! Pode ser que "cole". Porque tentarem metê-lo entre os "50 indispensáveis" não "cola". Arvo Pärt entre os "50"?! Sim, seguramente que sim: não exatamente entre os "50 indispensáveis" mas entre as 50 propostas mais idiotas alguma vez feitas. Não vale a pena continuar a perder tempo com uma aposta comercial demasiado mediocre. Uma coisa é certa: nem os cinquenta cd's escolhidos são "os 50 indispensáveis", nem as versões propostas para aquelas obras (excluindo umas poucas situações, que de resto não podem ser apresentadas como sendo "o paradigma" uma vez que existem mais alternativas com o mesmo nível) são as "paradigmáticas".

Mas há algo ainda mais grave neste volume: reparei, por acaso, naquilo que se apresenta como "Visão Cronológica da Música Clássica". Lendo só a parte "Música do século XX", verifiquei que as pessoas que elaboraram o livrinho consideram que a música "clássica", na segunda metade século vinte, foi determinada por compositores como Bernstein, Adams, Gorecki, Glass e o já referido Part. Aqui ou há ignorância e estupidez, em simultâneo, ou há descarada desonestidade e tentativa de manipular os conhecimentos dos leitores desprevenidos. Os compositores referidos podem ser os que vendem mais, nomeadamente os "minimalistas" no qual Gorecki pode, com algum favor, ser "metido", e Part que mistura de tudo um pouco e tempera com uns pós de misticismo, que é o que "está a dar", mas não podem ser considerados, de todo, "pontos-referência" na história da "música erudita". Se querem um nome para a "estética minimal", esse nome será Terry Ryley ou Steve Reich, ou os dois, mas jamais um de entre aqueles que lá aparecem. Toda a gente, com um pouco de cultura geral, sabe que os "grandes nomes" da segunda metade do século vinte foram Pierre Boulez, Luciano Berio e Gyorgy Ligeti, para só referir três que o "comum dos mortais", com um pouco de interesse pela "música clássica", imediatamente identifica. De Boulez, como compositor, pode-se gostar ou detestar, mas foi a figura mais marcante, para o bem e para o mal, da história da criação musical na segunda metade do século vinte. Ignorá-lo não passa de um exercício de pura má fé e de incomensurável desonestidade intelectual. De resto, uma obra como Pli selon Pli (que pode ser adquirida por pouco mais de 5 euros num duplo cd com obras de Boulez, da série "apex" da Warner Classics, que deveria estar entre os "50", assim como o duplo cd da mesma série dedicado a Edgar Varese, que para esta gente também não existiu na primeira metade do século vinte), é uma "obra-marco", um "ponto de chegada", que ficará para sempre na "grande história", uma obra genial e inspirada. Ignorar Pierre Boulez como compositor é somente o sintoma de uma estupidez demente. Não acredito que quem assinou a introdução não tenha dado pelos menos uma "vista de olhos" a esta "visão cronológica"... Gyorgy Ligeti, outro criador que "transcendeu os limites", que para muitos foi simplesmente o maior compositor de todo o século vinte, para a gente que elaborou este catálogo "da treta", não existe. Berio, que foi o compositor que mais se afirmou mundialmente com uma estética distante da de Pierre Boulez, que dominava a Europa Central (excluindo os países que faziam parte do Tratado de Varsóvia onde os criadores eram obrigados a seguir uma estética "neo-realista"), não tem qualquer importância para estes musicólogos e "especialistas". Luigi Nono é um dos "incontornáveis" da segunda metade do século vinte, pela sua grande inspiração, pela força da sua música, pela inteligência que revela na escrita, mas, obviamente, para estes"especialistas" também não existe. Aconselho, muito sinceramente, as pessoas a colocarem este livrinho, catálogo, ou lá o que lhe queiram chamar, no único lugar a verdadeiramente pertence: o caixote do lixo. AST

Nota: a imbecilidade prolonga-se quando assimilam contemporaneidade aos compositores que escolheram como representantes da segunda metade do século vinte. Para lhes dar umas "luzes", cito somente quatro grandes nomes da actualidade: Pascal Dusapin (que foi aluno de Iannis Xenakis, um nome grande da segunda metade do século vinte), Kaija Saariaho, Magnus Lindberg e Helmut Lachenmann, que estudou com Nono e Stockausen, vultos importantes da história da cultura do século vinte, conhecidos de todos mas ignorados pelo grupo de "especialistas" da multinacional, com o musicólogo, que também é "professor-doutor" e director-adjunto do serviço de música da Fundação Calouste Gulbenkian, em grande plano. Como disse Pierre Boulez, na entrevista, a actualidade é rica e variada.



















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