2006/05/28

MOZART PELA SWEDISH CHAMBER ORCHESTRA E GALLOIS

É uma gravação de 2002, se não estou em erro. O que interessa é que apesar de ser uma interpretação em instrumentos "modernos", esta interpretação dos concertos para flauta um e dois e do concerto para flauta e harpa, de Amadée Mozart (Mozart deixou de assinar Amadeus para assinar Amadée), pode muito bem ser considerada uma das referências mais importantes para estas obras.

Patrick Gallois é um flautista "quase histórico". Mas a interpretação dos clássicos nem sempre é evidente por parte de alguns "históricos". Evidentemente que Gallois viveu todo o periodo áureo da "nova interpretação" da "música antiga", o que o dotou de conhecimentos que acrescem à sua mais valia como grande intérprete. Mas o decisivo é mesmo a sua interpretação imbuída de um genuíno espírito mozartiano, a sua sonoridade espantosa e os seus fraseados com colorações de espontaneidade, particularidade não mensurável, pouco definível, mas indispensável à interpretação do genial austríaco.

No entanto mais espantoso ainda, neste disco, é a prestação da orquestra sueca que tem Katarina Andreasson como líder. Esta orquestra parece ter sido talhada para a genialidade mozartiana. Claro que uma orquestra destas poderá fazer seja o que seja de maneira assombrosa, mas no que toca a Mozart será difícil conceber uma interpretação mais bela, mais inspirada e mais perfeita.

Como curiosidade posso dizer que este cd "ganhou" um "award" da Gramophone no ano passado (2005). O que não posso deixar de dizer é que é uma edição da Naxos e que custa seis euros. AST















DÉBORA HALÁSZ INTERPRETA CARLOS SEIXAS

Se pensam que as criações para teclado do português Seixas ficam muito aquém da obra para tecla do italiano Domenico Scarlatti, seu contemporâneo, que nasceu muito antes mas morreu bastante depois do falecimento do português, desenganem-se.

Apesar de uma vida injustamente curta, Carlos Seixas é um paradigma da música para teclado da sua época. Se dúvidas tiverem, adquiram o cd que tratamos, gravado em 2003 e lançado para o mercado no corrente ano, e, após uma audição atenta, ficarão devidamente elucidadas.

É claro que a interpretação de Débora Halász, cuja técnica, inspiração e inteligência ao nível dos fraseados e escolhas de registação, são notáveis, é uma mais valia. Uma mais valia tremenda. Mas a discussão é velha e desnecessária. O intérprete cimenta a sua excepcionalidade interpretativa sobre obras de génio. Não há criação mediocre que seja elevada à genialidade unicamente por obra e inspiração do intérprete, por mais espectacular e fenomenal que este último possa ser.

Temos portanto o primeiro cd de uma série que fará história. A história é feita de felizes conjunções, alguém disse. Também pode ser feita de encontros infelizes, sabêmo-lo demasiado bem. O relevante é que, neste caso, a história já começou e já teria um desfecho feliz mesmo que só tivesse sido editado o primeiro cd. Uma história de um compositor genial, por acaso português, de uma cravista (também pianista) inspirada, por acaso brasileira e, os intermediários por vezes podem ser relevantes, de um instrumento (cópia de um outro de 1734) com uma sonoridade fabulosa. Evidentemente tudo possivel pelo impulso, muito oportuno, de uma editora, chamada Naxos, que contou com o apoio de uma empresa e de uma rádio alemãs. O cd pode ser adquirido por 6 euros, em Lisboa, na Companhia Nacional de Música, que fica na Rua Nova do Almada. Esta publicidade não foi solicitada e não tem qualquer contrapartida (pago todos os cd's sobre os quais escrevo* e não aceito "prendas", sejam dos estabelecimentos, sejam das editoras ou distribuidoras). Trata-se simplesmente do local onde, em Lisboa, os leitores poderão adquirir os cd's da Naxos ao melhor preço. AST


* Posso disfrutar de preços vantajosos em algumas distribuidoras. No entanto, desde há muito que não utilizo esta possibilidade uma vez que adquiro os cd's, por preços ainda mais reduzidos, nas promoções que acontecem permanentemente em alguns países onde, episodicamente, me desloco.
Também recebo, muito esporadicamente, discos enviados directamente pelos artistas. Só escrevi, nestes casos, uma única vez. Infelizmente a editora ainda não se decidiu a lançar o cd, que é um brilhante registo de música contemporânea com Pedro Carneiro nas percussões.
















ARTUR PIZARRO INTERPRETA DEBUSSY E RAVEL

Decorreu no Teatro Municipal de São Luiz, em Lisboa, capital de Portugal, uma integral dos dois grandes compositores franceses, pelo pianista Artur Pizarro.

Devido a estar ausente de Lisboa só pude assistir aos últimos três recitais de uma série de seis.

No quarto recital, dia 25 de Maio, Pizarro revelou algumas debilidades na mão esquerda, falhando várias notas. No entanto, a sua leitura global do primeiro livro dos Preludes de Debussy foi "aristocrática". Pizarro trabalhou de forma inteligente tanto o jogo de sonoridades como a transparência rítmica, coisa que não foi evidente na primeira das Valses Nobles et Sentimentales, de Maurice Ravel, onde a sua interpretação padeceu de clareza. No entanto ultrapassou o mau começo, terminando estas "valses" de forma convincente.

Voltando aos Preludes de Claude Debussy (o segundo livro foi interpretado no recital de 26 de Maio), Artur Pizarro demonstrou uma boa compreensão da escrita "debussysta", compreensão essa que se reflectiu numa leitura bem sustentada nomeadamente ao nível do trabalho de dinâmicas e da aplicação do pedal, factores fundamentais quando se fala de Debussy (e Ravel), onde a "grande técnica" é somente o factor básico para uma interpretação que mereça ser escutada.

A interpretação do segundo livro de Preludes ficou bastante aquém daquilo que Artur nos ofereceu no dia anterior. No global a transparência foi aquilo que mais se perdeu. Mas também o leque dinâmico foi restringido e menos subtilmente trabalhado (em Feux d'artifice mas também ao longo da interpretação de todo o segundo livro). Os ostinatos perderam a uniformidade acentuando-se notas ou acordes quando era suposto existir um efeito de esbatimento na uniformidade modulada dinâmicamente em linhas amplas (por exemplo em Les tierces alternées). De facto existem dias menos bons e este quinto recital, dia 26 de Maio, foi disso exemplar.

Os 12 Études de Claude Debussy são, em meu entender, o obra mais importante do século XX para piano. Eles contêm o germe de toda a "contemporaneidade", além de fazerem uma interessante síntese com o passado. Se tivesse de escolher três obras, entre toda a literatura pianística, estes estudos estariam lá, ao lado dos estudos de Chopin e da última sonata de Beethoven. É raro poderemos escutar os dozes estudos de Debussy ser em concerto. Por isto o último recital de Artur Pizarro revestiu para mim um interesse muito particular. Não fui lá nem com muitas nem com poucas expectativas: o Artur é um grande pianista e potêncialmente poderia oferecer-nos algo de muito excepcional. Por outro lado estes estudos não se compadecem com falhas como as que assinalei em relação ao dia anterior.

O que aconteceu é que Artur, tal como quando nos tocou o primeiro livro dos prelúdios, se apresentou na sua melhor forma, brindando-nos interpretações fabulosas, inteligentes, musicais e requintadas, destas doze peças de genialidade máxima. O seu controle das sonoridades foi paradigmático, a sua dedilhação exemplar e o resultado final foi simplesmente magia sonora. La Valse de Maurice Ravel concluiu o recital (houve mais um encore...) de forma virtuosística, arrancando o público das cadeiras. AST















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