CRITICA MUSICAL / MUSICAL CRITIC

Um blog de Álvaro Sílvio Teixeira

2004/08/20

ZAHKAR BRON: TENHO PRAZER EM ESCUTAR MÚSICA CONTEMPORÂNEA


Álvaro Sílvio Teixeira: Durante dias Lisboa transformou-se num viveiro de talentos, um pouco graças à sua figura. Eu sei que o senhor é um dos professores de violino mais procurados em todo o mundo. O que é que para si faz a diferença entre um bom violinista e um grande violinista?


Zahkar Bron: Não tenho uma resposta única.


AT: Pode dar uma ou algumas das respostas possiveis?


ZB: Vou tentar. Entre os meus alunos há já alguns que pertencem à elite musical. Eu não faria uma divisão entre entre o bom e o grande violinista.
O conceito de violinista como músico e como pessoa são indissoluveis. Nesse sentido podemos destacar alguns momentos. Além disso eu, especialmente nas condições dos concursos, tenho de declarar uma coisa que para mim é muito importante, ou seja: se o talento é verdadeiro é sempre único.
Falando num violinista comum, digamos que é uma pessoa que não tem um talento especial.
Segunda condição e esta é a condição indispensável para o meu trabalho como professor, é descobriri o talento com base num profissionalismo por parte do aluno. Um profissionalismo absolutamente incondicional.


AT: Mas eu conheço músicos que estudam oito horas ou mais por dia e dos quais duvido que venham a ser grandes intérpretes.


ZB: Oito horas não basta! É preciso é que haja uma faísca divina e é preciso ter uma orientação correcta no trabalho que se desenvolve. É absolutamente imprescindível uma boa orientação.
Repare: observamos crianças com talento. Avançando a nível etário verificamos que o numero de talentos vai diminuindo até que ficamos com um reduzido numero de estudantes com talento.
Voltando à pergunta inicial quero dizer que um grande violinista é aquele que tem um grande potencial e que sabe expressar esse potencial.


AT: Evidentemente.


ZB: É como em toda a arte. Um artista verdadeiro vê mais longe e mais profundamente.


AT: Estou habituado a seguir concursos de piano. Conheço muitas versões de cada obra e sei perfeitamente distinguir entre um bom pianista e um pianista de génio.


ZB: E com os violinistas não consegue isso?


AT: Claro que sim. Só que como estudei piano conheço exatamente o tipo de problemas que cada peça coloca ao intérprete.


ZB: O que eu queria dizer é que os instrumentos de cordas têm uma individualidade. Não quero ofender os pianistas mas só ouvindo uma nota consigo distinguir um intérprete de um outro.


AT: Sim. Mas o som nas cordas também depende do instrumento que o intérprete utiliza. Por vezes apesar de terem uma técnica excelente não têm um som especialmente bom. Tal como no piano a individualidade sonora do músico também depende do instrumento. Não estou totalmente de acordo consigo porque os pianistas também têm um estilo que os personaliza. Eu distingo perfeitamente a sonoridade do pianista A do pianista B.
Mas no violino é de facto o intérprete que faz o som...
Será que o violino é um instrumento ainda mais técnico que o piano?


ZB: São outros valores e aspectos. O piano como é um instrumento preparado não é capaz de ser a prolongação da voz humana.
No que diz respeito à mestria os pianistas também se aproximam mas é na natureza das cordas, da sua abordagem pelo instrumentista, que está a importância do som.
O instrumento de cordas contém mais personalidade, por isso...


AT: Bem... Eu discordo mas vamos passar à frente.


ZB: Vamos fazer uma experiência: vou pôr vários discos de grandes pianistas e vai dizer-me que tocam de um modo maravilhoso mas não me vai conseguir dizer quem são.


AT: Não é verdade!


ZB: Porque pelo som não vai conseguir dizer-me quem são os pianistas.


AT: Mas há o estilo! O fraseado! Toda a construção do edifício e da arquitectura da obra!


ZB: Isso passa-se em qualquer instrumento! Assm como fazemos a distinção entre um Carusso e um Lanza pelo timbre das suas vozes, também o fazemos entre violinistas.


AT: No pianos é igual. Eu distingo perfeitamente uma interpretação de Michelangelli de outra da mesma obra executada por Richter, por exemplo.


ZB: Naturalmente. Quando se sabe quem está a tocar!


AT: Não.


ZB: Mas tenho de reconhecer que em muitas coisas o violino cede ao piano. O violino não consegue a qualidade orquestral que o piano consegue.


AT: Claro que não.


ZB: Mas isso é compensado, repito uma vez mais, por aquela personalidade que qualquer instrumento de cordas possui.


AT: Diga-me uma coisa: o que acha das novas interpretações da música antiga em instrumentos da época?


ZB: É uma questão muito complicada e interessante.



ZB: É uma questão muito complicada e interessante. Há interpretações muito interessantes em instrumentos da época mas para essa arte são vitais duas questões: se acontece de facto nas condições de um museu (nota do editor: referir-se-á talvez a pequenas salas que reproduzem a acústica da época) e em segundo lugar a existência de um altíssimo nível artístico-interpretativo.
Infelizmente devo dizer que em muitos casos existem músicos que interpretam em instrumentos da época e que não dominam suficientemente bem os seus instrumentos. E acreditam que podem interpretar música antiga!
Mas quando temos verdadeiros mestres que interpretam este tipo de música nos instrumentos da época, temos música de grande qualidade.
Já ouvi concertos de Bach com instrumentos da época em salas grandes. Provavelmente tocavam muito bem mas passando à sétima fila já não se ouvia nada.
Mesmo que a interpretação seja magnífica as condições têm de ser adequadas.


AT: A mim parece-me que a interpretação em cordas de tripa (ne: os violinos antigos não tinham cordas de metal como os actuais) é substancialmente mais complicada que utilizando instrumentos com cordas de metal. Parece-me que os instrumentos antigos exigem maior técnica...


ZB: É uma pergunta?


AT: Sim. Está de acordo comigo


ZB: É necessário uma técnica especial. São sem dúvida necessários conhecimentos especiais.

AT: A interpetação dos russos, no que toca à música antiga e mesmo entre os pianistas, é sempre algo romantizada. O próprio Sokolov que para mim é o maior pianista vivo toca um Bach genial mas um pouco romantizado. Mas é muito bom. Sem dúvida muito bom...


ZB: ...


AT: Richter não romantiza a sua versão de "Cravo Bem Temperado" que continua uma referência.


ZB: Não é muito correcto falar de uma maneira tão generalizada sobre os intérpretes russos. Por exemplo Gillels tem uma interpretação menos romantizada que Richter.


AT: Mas o Richter não romantiza. Falo-lhe novamente do Cravo bem temperado, apesar de ser uma interpretação ao piano...


ZB: Diria entretanto que o que caracteriza a escola de interpretação Russa em termos muito gerais é a existência de uma espiritualidade muito particular. Uma boa técnica sim senhor mas penetrada por uma espiritualidade muito particular.


AT: Vou-lhe fazer uma pergunta difícil...


ZB: Faça lá.


AT: Dos seus ex-alunos famosos ...

(risos)

AT: Quais são so seus preferidos?


ZB: O senhor não é o primeiro que me faz esta pergunta e vou-lhe responder da mesma maneira que respondi a outras pessoas: o meu aluno preferido ainda está à minha espera.


(risos)


ZB: Não seria correcto comparar alunos. Nuns momentos sinto-me mais próximo de uns, noutros de outros mas no fundo amo-os a todos.


AT: O seu ex-aluno Maxim Vengerov é um violinista de génio?


ZB: É um excelente violinista. Um dos melhores desta geração. Quanto à genialidade é uma questão de gosto.
Para mim pessoalmente os êxitos mais assinaláveis são os o meu aluno Vadim Repin.
Entre os seus colegas acontece confundirem a genialidade com a popularidade. No caso de Maxim Vengerov temos um violinista que se presta ao show sendo portanto mais popular entre algum público. Mas claro que é um magnífico violinista...


AT: Eu prefito Repin. Já ouvi os dois várias vezes e prefiro Repin.


ZB: Eu também, eu também!


(risos)


AT: Diga-me uma coisa: na música contemporânea quais são os compositores que lhe parecem mais interessantes?


ZB: A música que eu toco talvez não seja a mais moderna mas é com muito prazer que ouço a música dos compositores contemporâneos. Gosto muito de Schnitke! Gosto também da música de Chostakovitch, Prokovief, Stravisnsky que naturalmente já não são contemporâneos. De Bártok também. Mas também não são assim tão antigos...
Há muitos compositores contemporâneos muito interessantes na Lituânia. Barkanski, por exemplo.
Mas há mais. Muitos. Não estou preparado para dar uma resposta imediata porque há muitos.


AT: Gostaria de dizer algo de especial aos leitores da minha página na internet?


(risos)



ZB: Para acrescentar ao que já disse devo confesar que estou muito contente pelo sucesso deste primeiro Festival de Música de Lisboa e pelo facto de se terem juntado nesta cidade grande numero de músicos talentosos.


AT: E eu estou muito contente por esta conversa inteligente e espero que possamos continuá-la ná próxima edição deste festival.


ZB: Estará tudo no seu site na internet?


AT: Tudo. Não faço cortes.



[Um agradecimento muito especial para Galina Mitrohovitch que fez a tradução em directo do Português para o Russo e vice-versa]


[Nota (esta nota não consta do volume "Conversas com Génios", registado em nome do autor das entrevistas, na SPA): o Festival de Violino Internacional de Lisboa não se voltou a concretizar uma vez que os "sponsors" portugueses não honraram os seus compromissos]

2004/08/12

Master Class com Mikail Voscrensky


De 18 a 20 de Agosto aconteceu no Conservatório Nacional de Música uma "master-class" com o mundialmente conceituado professor do Conservatório de Moscovo Mikail Voscrensky, com recitais diários oferecidos pelos excelentes alunos desta master-class. A pianista que ganhou o 2º prémio ( o 1º não foi atribuído...) do Concurso Vianna da Motta que aconteceu este ano é aluna deste grande pedagogo do piano. Ao qual escapou a inconfidência de dizer que a incontestável vencedora do importante concurso internacional não é a sua melhor aluna...



ALGUNS PIANISTAS DE (E DO) FUTURO E A ALMA RUSSA


O recital do dia 18 foi excelente com uma interpretação brilhante da "Valsa" de Ravel por AIKO YAJIMA , uma interessante interpretação da 2ª Sonata de Rachmaninov por ATSUKO IKUTA e umas impressionantes e portentosas "Variações Diabelli" de Beethoven por YUTSUKE KIKUCHI.


Dia 19 foi a vez da talentosa CHIE ISHIMOTO que é a minha preferida entre todos os participantes desta "master class" que, assinale-se de passagem, não revelam quaisquer problemas de vulto ao nível técnico, mesmo nas peças mais dificeis do repertório pianístico. As "coisas" colocam-se ao nível estético, de leitura e ao nível da personalização, com génio, da interpretação. ISHIMOTO é dona de um talento, de uma poesia e de uma intuição musical singular que se revelaram na maneira como abordou a sonata de K331 de Mozart e nas espantosas sonoridades criadas na Suite op. 14 de Bela Bartok. Em alguns anos será mais uma pianista inspirada na cena internacional. Entretanto conto com a continuação destas master classes em Portugal para a poder continuar a ouvir.

SAORI ZETSU que vem acompanhada pela sua professora (que é aluna do mestre Voscrensky e da qual já noticiei a participação num recital com violino), tem uma técnica excelente, revela talento e musicalidade mas necessita re-pensar a sua performance, especialmente nas partes lentas das peças que esta jovem talentosa torna excessivamente monótonas e expressivamente neutras. No entanto a pianista conseguiu uma interpretação interessante do espantoso estudo opus 25 nº11 de Chopin, assim como do virtuosístico estudo nº2 em mi bemol maior de Liszt sobre um tema de Paganini.

Neste dia a decepção veio da parte do "coqueluche" desta classe a quem todos já imaginam a dar a voltas ao mundo. Pessoalmente tenho dúvidas mas a verdade é que a cena internacional está repleta de intérpretes virtuosos (ás vezes nem isso...) cujo "saber" artístico aparentemente se reduz à técnica.
YATSUKE KIKUCHI, que no dia anterior me surpreendeu pela sua impressionante interpretação da "Variações Diabelli", revelou uma total falta de intuição musical na interpretação técnicamente perfeita mas totalmente desporvida de "rasgos" da "Wanderer-Fantasie" de Schubert. Com uma obra destas esperava algo de portentoso e musical como no dia anterior. Mas não. Grande técnica mas ausência de "felling". O pouco público delirou. Evidentemente: o fogo de artifício técnico arrasta as multidões que felizmente pouco ou nada têm a dizer sobre a projecção ou não de um artista para a história. Depois desta interpretação técnica e neutra nem a boa impressão que me deixou na execução do Prelúdio e Fuga de Schostakovich (extremamente técnica mas ainda assim interessante) que precedeu a fantasia de Schubert me impediu de escrever estas linhas. No entanto não posso predizer o futuro de um pianista por performance que não me agradou. Estamos perante alguém de recursos técnicos que transcendem a vulgaridade dos finalistas de qualquer conservatório superior de música que mereça esse nome. Este pianista seguramente que não ficará no anonimato e ainda bem. Por outro lado eu tenho consciência que todos estes pianistas começaram a tocar aos 3 ou 4 anos de idade. Por isso nem o delírio técnico nem os gritos histéricos do público me abalam. Muito menos intimidam. A história da música e da interpretação musical sempre foi feita de génio e talento. Não de técnica. E assim há-de continuar a ser.


Chegou o esperado dia 20, dia em que o "mestre" se apresentou. A minha expectativa era grande. Como o mestre disse, nem valia apena entrevistá-lo pois eu segui as classes que ele deu a estes alunos de excepção. Sem dúvida. Fui o único priveligiado deste país. Acho que o mestre gostou das "dicas" que eu dei face à execução dos pianistas que com ele trabalharam durante estes dias: nada de pedais em Bach (o mestre achou excêntrica esta ideia mas continuo a defendê-la como fundamento técnico primeiro: o pedal em Bach só deve ser utilizado numa prespectiva estético-estilística e jamais para fazer ligações entre notas para as quais se devem encontrar as dedilhações adequadas), poesia sem romântismo em Mozart, dinâmicas sob estrito controle em Beethoven, fluência e intensidade discursiva adequada à construção do "arco frásico" nos lentos, clareza em Debussy com amplo mas criterioso pedal. Evidentemente que o mestre faz uma coisa que eu não faço: "salta" para o piano e mostra como é. Seja em que peça fôr. Não há limite técnico para o mestre. Disse-me que foi um prazer trabalhar comigo: um elogio sem grande sentido. Eu aprendi. Aprendi muito. E espero que para o ano possamos ter a conversa "tipo entrevista" que não tivémos este ano.
Que esperam que vos diga das interpretações do mestre? Não estava escrito imprescindivel quando anunciei este recital? Era gratuíto!!! Como devem calcular não vou fazer uma crítica ao mestre.

Passando ás interpretações dos pianistas alunos do mestre nesta master classe (o mestre foi o último a tocar, evidentemente), vou referi-los por ordem de apresentação:

CHAN HO PARK, ofereceu-nos uam intensa Fantasia em fá menor op. 44 de Chopin. Grande técnica, grande sustentação no tema B ao qual deu um carácter quase meditativo, paleta dinâmica invejável. Algo técnico mas muito bom.

EUN-YOUNG SEO, uma das mais jovens do grupo. Grande técnica mas certa frialdade. Uma certa monotonia nos lentos mas uma pianista com potencial.

ROMI KATO, a mais jovem do grupo. Interessante na construção de sonoridades no Étude-Tableau em mi bemol maior op.33 nº6 (estava escrito o 5º... os programas continham sempre erros, excepto no dia em que eu dei uma ajuda!) de Rachmaninov.

A CHISAKI KARAKI (no programa estava Chikasi...) é uma amiga. Já lhe disse o que tinha a dizer. Poderei dizer que foi a única, neste dia, que arrancou "bravos" do público, coisa que para mim vale o que vale.

Todos estes pianistas são o sonho de qualquer professor. O futuro dirá quais os que vão fazer história. Não tenho ainda "dados" suficientes para fazer previsões. Talvez para o ano se esta fantástica master-class continuar em Portugal. AST



Iº FESTIVAL DE VIOLINO INTERNACIONAL DE LISBOA

ZAKHAR BRON, Director Artístico


Concurso Internacional de Violino

Classificação Final:

1º CHI UNG CHOI, Coreia.

2º CATHERINA LENDLE, Alemanha; JI WON KIM, Coreia; NADEZHDA ARTAMONOVA, Rússia.

3º ANDREY PROVOTOROV, Rússia; ERICA RAMALLO LUCINI, Espanha.


Concorrentes Eliminados convidados a realizar um recital na Sala dos Espelhos:


JI WON SONG, Coreia.


ALEXANDER PAVTCHINSKII, Portugal/Ucrânia.


Desejo saudar os excelentes músicos, quase todos da comunidade russa que integram as várias orquestras portuguesas com alguns portugueses à mistura que, com honorários simbólicos, se reuniram permitindo a constituição de uma orquestra de nivel superior, orquestra esta que acompanhou os concorrentes finalistas na prova com orquestra.

Quero também expressar o maior respeito pelo Maestro Vladimir SIMKIN (Director Residente da Orquestra Sinfónica de Moscovo) que gratuítamente (o maestro pagou mesmo do seu bolso o alojamento no hotel!) dirigiu esta orquestra. Inclusivé deu-se ao trabalho de trazer consigo as partituras que não estavam disponíveis por cá...

Finalmente è necessário dizer que se não fosse a decisão de Lilia Rakova de criar este festival, convidando os seus "amigos famosos" para o júri e para realizarem as master classes, este evento nunca teria acontecido.

Há evidentemente que assinalar as péssimas condições acústicas em que decorreram os recitais, com janelas abertas, portas a bater, ventoínhas a fazerem ruído e leques a abanar. O Palácio Foz pode ter condições para albergar concertos e recitais desta natureza. Se conseguir proporcionar o mínimo indispensável para a concentração dos intérpretes. E do público... AST


[Nota a posteriori: o Festival de Violino Internacional de Lisboa não se voltou a concretizar uma vez que os "sponsors" portugueses não honraram os seus compromissos]

2004/08/11

HOMENAGEM PÓSTUMA A UM PROFESSOR


CÉSAR MORAIS foi o meu primeiro professor de harmonia e contraponto. Um bonacheirão. Vivia a vida com alegria. Dispersava tolerância e optimismo. Não aspirava à história! Acho que naqueles tempos de contemporaneidade forçada, estava mesmo convencido que o seu nome seria esquecido mal desaparecesse o último dos seus alunos.

Anos depois eu era compositor. Da contemporaneidade! As minhas obras passavam regularmente em todos, ou quase todos, os programas musicais da TV2. As obras de César Morais não passavam. Na realidade nem eram tocadas. A sua estética era clássica e conservadora. Quando falávamos nele era com um misto de ironia e desconsideração. Os nossos "mestres" nem sequer o consideravam um compositor.
Nunca coloquei o nome dele no meu curriculum.

Hoje (16 de Agosto de 2004), por puro acaso do destino, veio-me parar ás mãos um cd. No topo em letras grandes e brancas lia-se "César Morais". Não relacionei. Pensei ser um novo "compositor contemporâneo" e decidi escutá-lo. Estranhei. Era lindo mas neo-clássico. O tal revivalismo, pensei.
Era uma interpretação belíssima da Orquestra Clássica do Porto sob direcção de Werner Stiefel com Martin Ostertag no violoncelo. Continuei a escutar, sempre convencido ser algo conservador mas actual e gostei, apesar da estética "caduca"...
Olhei para a contracapa e vi a foto de um busto familiar. Continuei sem relacionar. Talvez seja o maestro, pensei. Comecei a ler a biografia do compositor e ia tendo um "baque".

- Mas este foi meu professor! O meu primeiro professor de harmonia, exclamei muito alto espantando todos os que se encontravam na sala.


A história é interessante e implacável: alguns dos "mestres" que desprezavam César Morais estão mais ou menos esquecidos. Espero que alguns venham a ser devidamente "recuperados" e valorizados, pois foram compositores de talento. Eu, por contextos vários, abandonei desde há muitos anos o trabalho de criação e desfiz o grupo de música que fundei e dirigi. Alguns de nós (os "contemporâneos") que mantiveram a produção e se "encostaram" a "mestres" influentes, estão no "top" mas talvez a história lhes venha a passar uma rasteira. E também a alguns dos "mestres" que acreditam já ter o seu nome gravado na eternidade...


César Morais faleceu em Agosto de 1992 e eu não soube de nada.

É o único compositor português que figura no Dicionário de Biografias Internacionais publicado em Cambridge. AST






















UM PIANISTA PARA O SÉCULO XXI


Alexey KOURBATOV, nasceu em Moscovo em 1983 e estuda no Conservatório Tchaikovsky em Moscovo no 5º ano de piano. É um daqueles casos raros que não vai necessitar de ganhar concursos importantes para ganhar visibilidade mundial pois Alexey já fez recitais em todos os continentes e vai continuar a dar voltas ao mundo oferecendo a sua arte, a sua enorme técnica dominada por um talento e uma musicalidade pouco mensuráveis, a todos os que desejem viver momentos únicos no plano da grande interpretação artística.
No dia anterior tinham-me alertado para este recital e evidentemente não o perdi, novamente na sala dos espelhos do Palácio Foz, a convite do 1º Festival Internacional de Violino de Lisboa.

O repertório escolhido, tocado sem intervalo denota a inteligência, o gosto musical e a segurança do pianista.

Na Tocata em Ré menor de Bach, Alexey usou e abusou de uma interpretação romantizada, bem ao estilo da escola russa, que surte efeito quando sai das mãos e da sensibilidade de um artista de excepção. Caso contrário poderia ser um enorme "pastelão". Não foi. Antes pelo contrário. Da postura meditativa na introdução, à "caída" das partes fugadas em que tudo foi transparente mas trabalhado de forma a singularizar cada uma das partes - feito que poucos pianistas conseguem com eficácia - ás subtilezas dinâmicas que causavam surpresa e espanto, tudo revelou uma personalidade musical já claramente definida na sua singularidade de músico de grande técnica, génio e inteligência musical.

O "andante majestoso" da Suite Quebra Nozes de Tchaikosvsky, versão para piano de Pletenev, revelou uma enorme sustentação do discurso musical, um grande som ao serviço da expressão musical, uma impressionante paleta dinâmica e um controle técnico absoluto por parte do intérprete.


As mesmas qualidades emergiram na Poema de Fogo de Alexander Scriabin, obra fantástica e impressionante da última fase do genial compositor russo.


Claro está que a "prova de fogo" seria a Sonata em Si menor de Liszt, atacada a seguir à obra de Scriabin.

A já referida paleta dinâmica do pianista foi aqui totalmente explorada ao longo desta obra monumental. O tal auto-controle e controle técnico, servido por um enorme talento e sensibilidade, foram igualmente o "leit-motiv" desta interpretação.

O início em pianíssimo, com o ataque seco das últimas notas do 1º tema introduziram-nos numa atmosfera de um dramatismo intenso que iria explodir no desenvolvimento que deixou o público em estado de hipnose. Os legatos excelentes, os crescendos paradigmáticos, entre muitos e variadíssimos aspectos, revelam uma forte e inteligente personalidade musical, um conceito de obra e de interpretação totalmente pessoal, coisa que faz a diferença entre um bom pianista e um pianista de génio e excepcionalidade.
Esta interpretação da Sonata de Liszt foi um momento especialmente memorável deste festival que já nos ofereceu outros momentos de grande música e este pianista será (raramente a minha intuição se engana sobre os pianistas. Fui eu o primeiro a escrever que Sokolov é o maior pianista vivo, coisa que agora é práticamente consensual entre músicos, pianistas e "críticos" com inteligência e sensibilidade musical) um dos grandes pianistas deste século.

Parabéns de novo ao Festival, a todos os colaboradores voluntários que têm oferecido o seu tempo e a sua melhor dedicação a este grande e novo evento que honra Portugal, parabéns estes dirigidos muito especialmente à grande dinamizadora do evento Lilia Rakova que por acaso (ou não) vive em Portugal e é tia do famoso pianista russo Boris Berezovsky. Foi ela quem convidou pessoalmente todos os nomes grandes (e os grandes ainda sem nome grande) que têm brilhado e vão continuar a brilhar no Sala dos Espelhos, espelhos aqueles que agora brilham com mais intensidade. AST


















SACHIKO SGAWA E KOO-RYEONG PARK NO FESTIVAL INTERNACIONAL DE LISBOA



Apresentaram-se no dia 12, na belíssima Sala dos Espelhos do Palácio Foz, a violinista Segawa (estudou no Conservatório de Moscovo com Valery Klimov, em Paris com Regis Pasquier e em Berlim com Thomas Brandis. Recebeu vários prémios internacionais e apresentou-se como concertista com várias orquestras em todo o mundo) e a pianista Park (estudou em Tókio e em Moscovo com M. Voskressensky durante 8 anos. Ganhou o primeiro prémio do Concurso Internacional de Maria Canals em Barcelona e o primeiro prémio no Concurso Internacional Pontoise em França).

A escolha do repertório denotou logo à partida uma grande dose de inteligência: Beethoven, Sonata op.23 nº4; Brahms, Sonata op.100 nº2 e Szymarowski com a Sonata 0p.9 em Ré menor. Três sonatas de grande interesse e génio musical.


A leitura feita de Beethoven revelou imediatamente a excelente técnica e a perfeita afinação da violinista que nos ofereceu um som despojado com pouco vibrato, afastando-se das interpretações demasiado romantizadas do génio intemporal da história da música. O segundo andamento da sonata pareceu-me um pouco plano e pessoalmente teria optado por um maior "cantabile" no violino.
O piano foi súbtil e consistente com o violino.


Em Brahms, tal como tive oportunidade no final de manifestar à violinista, esperaria um maior arrebatamento pois nas sonatas para violino e piano deste compositor estamos no coração do romantismo. Seria necessário mais "vibratto" e maior contraste no desenvolvimento e na confrontação temática. A violinista revelou um som intenso no registo grave mas um som empobrecido nos registos médio e agudo.
No entanto no "andante tranquillo" mostrou ser uma intérprete inspirada e no movimento final(Allegretto grazioso) conseguiu um som redondo e profundo, sobretudo nos médios e graves.


O grande momento chegou depois do intervalo com a sonata do genial Szymarowski. Uma sonoridade intensa e um dramatismo sustentado conseguiu emocionar o público. No "Andantino tranquilo e dolce" a violinista ofereceu-nos uma leitura quase meditativa e um excelente contraste na apresentação do tema B. Aqui os agudos surgiram-nos com outro som, redondo e consistente como já tinhamos escutado nas outras tessituras. O andamento final foi simplesmente espectacular com uma total simbiose violino/piano.

Como encore foi-nos dado um nocturno op. póstumo de Chopin, belo e conseguido arranjo do grande violinista Nahtan Milstein que é o favorito de Segawa e um dos meus paradigmas da interpretação ao violino.
Para finalizar ofereceram-nos a pequena peça "Rosemarin" do também grande violinista Kreisler, que pelos vistos se aventurou na composição musical.

Um recital de elevadíssimo nivel artístico-(re)interpretivo.
Parabéns às intérpretes.
Parabéns ao novo Festival de Lisboa (sempre em Lisboa...). Que perdure!
Os concertos continuam diáriamente até 17. AST














ZAKHAR BRON NO PALÁCIO FOZ

O violinista que é o director artístico do Festival de Violino que decorre actualmente em Lisboa, apresentou-se acompanhado da violinista LATICA HONDA-ROSENBERG (Medalha de prata do Concurso Tchaikovsky, edição 1998, sendo a primeira violinista alemã a receber este galardão de importância mundial) e da pianista Irina Vinográdova.

Primeiramente foi-nos ofrecida a sonata para 2 violinos e teclado op2 nº7 de Haendel. Num mundo bem sortido de interpretações com instrumentos da época tangidos por músico geniais é algo estranho ouvir-se obras do barroco com violinos de cordas de metal acompanhados por um piano. A interpretação foi de há um século atrás. No entanto tenho de fazer justiça à sonoridade dos violinistas, ao sentimento da interpretação de Bron. O "arioso" foi belo, com uma "arcada frásica" (o termo é meu apesar de não o ter registado) convincente.

A "Suite in the old style" de Schnittke é um pastiche clássico feito no final do século vinte e não percebo porque intérpretes de qualidade não pensam em trabalhar obras contemporâneas "a sério" em vez de revivalismos patéticos.


Com a Suite op.10 de Chistian Sinding, Bron demonstrou-nos ser não simplesmente um virtuoso mas um músico de talento e musicalidade. Grande técnica, som "redondo" e "profundo", "timing" excelente é o que posso dizer para uma obra que é no mínimo interessante.


Foi com a sonata de Prokofieff para dois violinos que o recital atingiu o seu zénite, como seria de esperar. No entanto fiquei com a sensação que Honda-Rosenberg tem um som áspero nos agudos o que por vezes deixa uma impressão de agresividade. No entanto é sem dúvida uma violista poderosa.


"L'après-midi d'un faune" de Claude Debussy num arranjo de J.Heifetz, foi para mim o melhor momento do recital. Início como um sopro, um balanço frásico absolutamente conseguido, oitavas genialmente interpretadas por Bron e um piano que conseguiu produzir uma ambiência "impressionista" (passe o lugar comum), deram-nos uma interpretação algo paradigmática deste arranjo.


Na Fantasia em Dó Maior op13 de Schumann, num arranjo de Kreisler, Bron introduziu-nos no "grande romantismo" com uma interpretação que arrebatou o público e conduziu a 4 encores (arranjos e peças de Rachmaninov, Chopin, Chaminade e Massenet) em que os efeitos (pizzicatos, harmónicos, glissandos...) produzidos em obras de fácil audição fizeram o público delirar mas não impediram o emergir da musicalidade de Bron que tem sem dúvida um som belo e uma grande técnica se bem que muito pontualmente controle mal a afinação. Zakhar Bron: um dos últimos (o último?) românticos do violino. AST













2004/08/01

UM CONCURSO CINCO ESTRELAS


Por Álvaro Teixeira


No complexo mundo dos concursos internacionais de piano os importantes são, como os hotéis, aqueles que no respectivo guia internacional merecem cinco estrelas. É o caso do Concurso Internacional de Música Vianna da Motta.

Como em todos os concursos, talvez especialmente os cinco estrelas, nem sempre as decisões do júri são bem aceites.

Queria sómente realçar que no longínquo ano de 1971 foram concorrentes Emmanuel Ax, Cyprien Katsaris e Ingrid Berger.

Só o primeiro foi premiado! Com um terceiro prémio... Nesse ano também não foi atribuído o 1º prémio. Todos aqueles nomes são hoje pianistas reconhecidos mundialmente.

No concurso deste ano estou convencido que ninguém colocará em causa a pianista mais bem classificada: foi sem sombra de dúvidas a melhor concorrente. Também ninguém questionou o facto de não lhe ter sido atribuído o primeiro prémio se bem que não me horrorizava que tal tivesse acontecido uma vez que estamos perante uma pianista "feita", uma artista de talento com uma técnica sólida. Mas foi um critério do júri, decidido por unanimidade, que não vou questionar demasiado ainda que estranhe este facto num concurso em que são atribuídos por sistema dois prémios a pianistas menores (para não ser ainda mais antipático...).

A partir da 3ª classificada a atribuição dos lugares pareceu-me algo arbitrária. A candidata russa que foi classificada com o 5º prémio e o francês a quem foi atribuído o 7º foram, em meu entender, prejudicados em relação à candidata que conseguiu o 4º e em relação à candidata chinesa a quem o júri atribuíu o 6ºprémio se bem que esta última conseguiu preparar a prova final (que correu pessimamente)de um dia para o outro. No entanto o francês também me disse que nem sonhava passar à final o que me leva a crer que também preparou tudo no último momento.

O prémio para o melhor português é uma anacronia e um atestado de mediania (pelo menos): este ano só houve um concorrente português. Tocasse bem ou mal ser-lhe-ia atribuído aquele prémio e mesmo que tivessem havido mais candidatos e todos tocassem mal, um levaria o prémio! Não é por discriminações ridículas como esta que passa a elevação da qualidade musical dos portugueses.


Opinião parecida tenho em relação ao prémio para a melhor interpretação de um nocturno de Chopin que normalmente é atribuído a um concorrente eliminado da final. Soa a "toma lá um rebuçado" e tem um vertente preversa: fica-se a pensar que qualquer pianista de quinta ordem pode interpretar bem aquelas obras. Não é verdade! Então se o pianista é eliminado do grupo de finalistas e consegue este prémio que se poderá deduzir? Que escolheu um dos nocturnos mais fáceis e assim conseguiu uma interpretação que seduziu um júri que é idiota e que não percebeu o "truque"? Basicamente trata-se de uma absurdidade que talvez se explique pela política de satisfazer, de alguma forma, toda ou a maioria dos elementos do júri.

Sequeira Costa, na entrevista que lhe fiz há 3 anos (ver nos arquivos), disse-me que escolheu um júri jovem porque está menos instalado e corrompido (seguramente que se o júri fosse constituído exclusivamente por grandes músicos e pianistas, o que é quase impossivel, não haveria o problema da "corrupção").

O júri deste ano, excluindo a pianista Eliso Virsaladze e a pianista que ganhou o concurso de Munich, era um júri constituído por pessoas de pouca relevância internacional. Joaquin Soriano, que também fazia parte do júri, nunca foi um pianista de primeiro plano. O própio presidente, Sequeira Costa, tem mais importância pelo facto de ser o fundador e o responsável máximo deste concurso que pela relevância mundial enquanto pianista. Para além disso era um júri cuja média das idades seguramente ultrapassa os 50...
Portanto, este ano na escolha do júri, Sequeira Costa ou mudou de ideias ou os pianistas mais jovens e reconhecidos internacionalmente não aceitaram o seu convite.

Claro que não deve ser fácil arranjar músicos "famosos" para o júri. Os músicos "famosos" e sérios estão ocupados a estudar e a fazer recitais e concertos. No entanto alguns talvez aceitem, se forem convidados, e isso seria sem dúvida outro estímulo para os concorrentes. E para o público...











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