2004/08/20

ZAHKAR BRON: TENHO PRAZER EM ESCUTAR MÚSICA CONTEMPORÂNEA


Álvaro Sílvio Teixeira: Durante dias Lisboa transformou-se num viveiro de talentos, um pouco graças à sua figura. Eu sei que o senhor é um dos professores de violino mais procurados em todo o mundo. O que é que para si faz a diferença entre um bom violinista e um grande violinista?


Zahkar Bron: Não tenho uma resposta única.


AT: Pode dar uma ou algumas das respostas possiveis?


ZB: Vou tentar. Entre os meus alunos há já alguns que pertencem à elite musical. Eu não faria uma divisão entre entre o bom e o grande violinista.
O conceito de violinista como músico e como pessoa são indissoluveis. Nesse sentido podemos destacar alguns momentos. Além disso eu, especialmente nas condições dos concursos, tenho de declarar uma coisa que para mim é muito importante, ou seja: se o talento é verdadeiro é sempre único.
Falando num violinista comum, digamos que é uma pessoa que não tem um talento especial.
Segunda condição e esta é a condição indispensável para o meu trabalho como professor, é descobriri o talento com base num profissionalismo por parte do aluno. Um profissionalismo absolutamente incondicional.


AT: Mas eu conheço músicos que estudam oito horas ou mais por dia e dos quais duvido que venham a ser grandes intérpretes.


ZB: Oito horas não basta! É preciso é que haja uma faísca divina e é preciso ter uma orientação correcta no trabalho que se desenvolve. É absolutamente imprescindível uma boa orientação.
Repare: observamos crianças com talento. Avançando a nível etário verificamos que o numero de talentos vai diminuindo até que ficamos com um reduzido numero de estudantes com talento.
Voltando à pergunta inicial quero dizer que um grande violinista é aquele que tem um grande potencial e que sabe expressar esse potencial.


AT: Evidentemente.


ZB: É como em toda a arte. Um artista verdadeiro vê mais longe e mais profundamente.


AT: Estou habituado a seguir concursos de piano. Conheço muitas versões de cada obra e sei perfeitamente distinguir entre um bom pianista e um pianista de génio.


ZB: E com os violinistas não consegue isso?


AT: Claro que sim. Só que como estudei piano conheço exatamente o tipo de problemas que cada peça coloca ao intérprete.


ZB: O que eu queria dizer é que os instrumentos de cordas têm uma individualidade. Não quero ofender os pianistas mas só ouvindo uma nota consigo distinguir um intérprete de um outro.


AT: Sim. Mas o som nas cordas também depende do instrumento que o intérprete utiliza. Por vezes apesar de terem uma técnica excelente não têm um som especialmente bom. Tal como no piano a individualidade sonora do músico também depende do instrumento. Não estou totalmente de acordo consigo porque os pianistas também têm um estilo que os personaliza. Eu distingo perfeitamente a sonoridade do pianista A do pianista B.
Mas no violino é de facto o intérprete que faz o som...
Será que o violino é um instrumento ainda mais técnico que o piano?


ZB: São outros valores e aspectos. O piano como é um instrumento preparado não é capaz de ser a prolongação da voz humana.
No que diz respeito à mestria os pianistas também se aproximam mas é na natureza das cordas, da sua abordagem pelo instrumentista, que está a importância do som.
O instrumento de cordas contém mais personalidade, por isso...


AT: Bem... Eu discordo mas vamos passar à frente.


ZB: Vamos fazer uma experiência: vou pôr vários discos de grandes pianistas e vai dizer-me que tocam de um modo maravilhoso mas não me vai conseguir dizer quem são.


AT: Não é verdade!


ZB: Porque pelo som não vai conseguir dizer-me quem são os pianistas.


AT: Mas há o estilo! O fraseado! Toda a construção do edifício e da arquitectura da obra!


ZB: Isso passa-se em qualquer instrumento! Assm como fazemos a distinção entre um Carusso e um Lanza pelo timbre das suas vozes, também o fazemos entre violinistas.


AT: No pianos é igual. Eu distingo perfeitamente uma interpretação de Michelangelli de outra da mesma obra executada por Richter, por exemplo.


ZB: Naturalmente. Quando se sabe quem está a tocar!


AT: Não.


ZB: Mas tenho de reconhecer que em muitas coisas o violino cede ao piano. O violino não consegue a qualidade orquestral que o piano consegue.


AT: Claro que não.


ZB: Mas isso é compensado, repito uma vez mais, por aquela personalidade que qualquer instrumento de cordas possui.


AT: Diga-me uma coisa: o que acha das novas interpretações da música antiga em instrumentos da época?


ZB: É uma questão muito complicada e interessante.



ZB: É uma questão muito complicada e interessante. Há interpretações muito interessantes em instrumentos da época mas para essa arte são vitais duas questões: se acontece de facto nas condições de um museu (nota do editor: referir-se-á talvez a pequenas salas que reproduzem a acústica da época) e em segundo lugar a existência de um altíssimo nível artístico-interpretativo.
Infelizmente devo dizer que em muitos casos existem músicos que interpretam em instrumentos da época e que não dominam suficientemente bem os seus instrumentos. E acreditam que podem interpretar música antiga!
Mas quando temos verdadeiros mestres que interpretam este tipo de música nos instrumentos da época, temos música de grande qualidade.
Já ouvi concertos de Bach com instrumentos da época em salas grandes. Provavelmente tocavam muito bem mas passando à sétima fila já não se ouvia nada.
Mesmo que a interpretação seja magnífica as condições têm de ser adequadas.


AT: A mim parece-me que a interpretação em cordas de tripa (ne: os violinos antigos não tinham cordas de metal como os actuais) é substancialmente mais complicada que utilizando instrumentos com cordas de metal. Parece-me que os instrumentos antigos exigem maior técnica...


ZB: É uma pergunta?


AT: Sim. Está de acordo comigo


ZB: É necessário uma técnica especial. São sem dúvida necessários conhecimentos especiais.

AT: A interpetação dos russos, no que toca à música antiga e mesmo entre os pianistas, é sempre algo romantizada. O próprio Sokolov que para mim é o maior pianista vivo toca um Bach genial mas um pouco romantizado. Mas é muito bom. Sem dúvida muito bom...


ZB: ...


AT: Richter não romantiza a sua versão de "Cravo Bem Temperado" que continua uma referência.


ZB: Não é muito correcto falar de uma maneira tão generalizada sobre os intérpretes russos. Por exemplo Gillels tem uma interpretação menos romantizada que Richter.


AT: Mas o Richter não romantiza. Falo-lhe novamente do Cravo bem temperado, apesar de ser uma interpretação ao piano...


ZB: Diria entretanto que o que caracteriza a escola de interpretação Russa em termos muito gerais é a existência de uma espiritualidade muito particular. Uma boa técnica sim senhor mas penetrada por uma espiritualidade muito particular.


AT: Vou-lhe fazer uma pergunta difícil...


ZB: Faça lá.


AT: Dos seus ex-alunos famosos ...

(risos)

AT: Quais são so seus preferidos?


ZB: O senhor não é o primeiro que me faz esta pergunta e vou-lhe responder da mesma maneira que respondi a outras pessoas: o meu aluno preferido ainda está à minha espera.


(risos)


ZB: Não seria correcto comparar alunos. Nuns momentos sinto-me mais próximo de uns, noutros de outros mas no fundo amo-os a todos.


AT: O seu ex-aluno Maxim Vengerov é um violinista de génio?


ZB: É um excelente violinista. Um dos melhores desta geração. Quanto à genialidade é uma questão de gosto.
Para mim pessoalmente os êxitos mais assinaláveis são os o meu aluno Vadim Repin.
Entre os seus colegas acontece confundirem a genialidade com a popularidade. No caso de Maxim Vengerov temos um violinista que se presta ao show sendo portanto mais popular entre algum público. Mas claro que é um magnífico violinista...


AT: Eu prefito Repin. Já ouvi os dois várias vezes e prefiro Repin.


ZB: Eu também, eu também!


(risos)


AT: Diga-me uma coisa: na música contemporânea quais são os compositores que lhe parecem mais interessantes?


ZB: A música que eu toco talvez não seja a mais moderna mas é com muito prazer que ouço a música dos compositores contemporâneos. Gosto muito de Schnitke! Gosto também da música de Chostakovitch, Prokovief, Stravisnsky que naturalmente já não são contemporâneos. De Bártok também. Mas também não são assim tão antigos...
Há muitos compositores contemporâneos muito interessantes na Lituânia. Barkanski, por exemplo.
Mas há mais. Muitos. Não estou preparado para dar uma resposta imediata porque há muitos.


AT: Gostaria de dizer algo de especial aos leitores da minha página na internet?


(risos)



ZB: Para acrescentar ao que já disse devo confesar que estou muito contente pelo sucesso deste primeiro Festival de Música de Lisboa e pelo facto de se terem juntado nesta cidade grande numero de músicos talentosos.


AT: E eu estou muito contente por esta conversa inteligente e espero que possamos continuá-la ná próxima edição deste festival.


ZB: Estará tudo no seu site na internet?


AT: Tudo. Não faço cortes.



[Um agradecimento muito especial para Galina Mitrohovitch que fez a tradução em directo do Português para o Russo e vice-versa]


[Nota (esta nota não consta do volume "Conversas com Génios", registado em nome do autor das entrevistas, na SPA): o Festival de Violino Internacional de Lisboa não se voltou a concretizar uma vez que os "sponsors" portugueses não honraram os seus compromissos]

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