2006/08/21

GENIAL LEITURA DA SÉTIMA SINFONIA DE SHOSTAKOVICH

Esta sinfonia, escrita durante o cerco de Leninegrad em 1941, revela, talvez, um compositor dilacerado não só pelo dilema de servir como publicidade a um estado totalitário ou ser acusado de traidor, mas também pelo facto da cidade de Leninegrad estar a ser assediada pelas tropas nazis.

O segundo tema do primeiro movimento repete-se até à exaustão, num processo de aumento de densidades, como acontece no Bolero de Ravel, mas aqui o andamento não se conlui no auge desse processo. O tema é menos interessante e mais elementar que aquele utilizado por Ravel sendo, talvez, este aspecto que investe de uma ironia cáustica o primeiro movimento da sinfonia dominado pela ciclicidade obcessiva do referido tema.

Não é qualquer condutor ou qualquer orquestra que conseguem oferecer uma leitura interessante desta sinfonia, que pode transforma-se num imenso aborrecimento com muito som, muitos fortíssimos e, aparentemente, pouca complexidade estrutural. Trata-se afinal de uma obra que o povo pudesse compreender, tal como o regime exigia a Shostakovich...

Valery Gergiev, à frente da Mariinsky Theater Orchestra, conseguiu transformar uma obra potêncialmente desinteressante num "chef-d'oeuvre".

Primeiro há que dizer que esta orquestra é uma orquestra de primeiro plano, tecnicamente perfeita, com uma sonoridade grande e densa, com músicos dotados de grande versatilidade e talento. Depois há, para sermos justos, reconhecermos que Gergiev é um condutor genial, cujo carisma, em si mesmo, inspira os instrumentistas.

A maneira profunda e essencial como foi tocado o movimento lento deu-nos uma ideia da dimensão deste condutor e desta orquestra, mas a forma como foi trabalhado o primeiro movimento demonstrou, igualmente, isso mesmo. Deram-nos uma leitura orgânica, consistente e fantástica daquele andamento que pode ser difícil de "colar". Igualmente o "moderato" foi impactante e o "allegro non troppo" concluiu, com a grandiosidade pretendida (e exigida...), pelo regime dos sovietes, esta obra impressionante. AST

Curiosidade: por motivos de segurança parte dos instrumentos da orquestra ficaram retidos no aeroporto de Londres, tendo sido usados, neste concerto, instrumentos da orquestra da rádio sueca.














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