2009/03/26

Lógica da batata

"Os salários dos gestores portugueses não impedem que a nossa produtividade seja baixa. E se reduzirem os salários dos gestores portugueses a nossa produtividade não vai aumentar. O mais provável é que diminua e que eles emigrem para a Alemanha."

Vão para a Alemanha? Lavar pratos?! Porque suspeito que a Alemanha passa bem sem portugueses gestores a gerirem as suas empresas... Mas há algo curioso nesta frase de um "liberal" português (só podia): diminui-se-lhes os salários desproporcionados e absurdos num país pobre e atrasado como Portugal, e eles, os gestores portugueses, reduzem os resultados. O melhor mesmo é deixá-los ir para a Alemanha... Aqui vai um exemplo do tipo de gestão praticada pelos "brilhantes" gestores tugueses, perdão portugueses: a metáfora da maçâ podre e do pomar são...

Nota: depois da divulgação do conteúdo do vídeo de que todos falavam, que em Portugal não é prova mas constitui prova em Inglaterra e em muitos países desenvolvidos, Sócrates deve afastar-se do governo e dedicar-se a provar a sua inocência (já que insiste estar inocente). A sua permanência no governo como primeiro-ministro é vergonhosa para o país e coloca Portugal na situação de Estado pária com um chefe de governo sob a suspeita de ter praticado actos de corrupção, para além das polémicas da licenciatura, que muitos continuam a achar que foi forjada, e da sua antiga actividade como desenhador de casas com poucas preocupações estéticas e ambientais. O facto de Charles Smith vir dizer que nunca se referiu negativamente em relação a Sócrates depois de ouvirmos o contrário nas gravações só demonstra que algo lhe mete muito mêdo, coisa que não abona mesmo nada a favor de Sócrates. Há também uma história qualquer de abate de sobreiros e um empreendimento turístico, que começou no governo de PSD/PP mas acabou no governo de Sócrates... Já basta haver um conselheiro de Estado sob suspeitas várias, mas como não é um cargo executivo e não possui qualquer poder político efectivo (para além de estar completamente desacreditado e em risco de acabar na prisão quando perder a imunidade), a situação não é tão grave nem tem tanta visibilidade internacional. Curiosamente o conselheiro de Estado sob suspeita foi quem escreveu o prefácio a um livro que chamava Sócrates de menino de oiro...


No país do cinzentismo crónico

No editorial do Público de 26 de Março, chama-se "cobardes" aos que partiram uns vidros da casa de Fred Goodwin. Fred Goodwin é um terrorista económico que conduziu aos desemprego 20.000 pessoas, obrigou à nacionalização de um banco que vale 20% do PIB português, e garantiu para ele mesmo uma "reforma dourada" (mas ainda assim mais baixa que aquelas que alguns dos "brilhantes" gestores tugueses, perdão portugueses, garantiram para eles mesmos em instituições que não valem um "chavo" quando comparadas com o RBS). Num mundo justo, Goodwin e similares não andavam por aí à solta. Na verdade sujeitos como Goodwin podem causar tanto dano ao mundo e às pessoas como os terroristas tradicionais. Como é dito no mesmo editorial, um sindicalista francês suicidou-se ao compreender que não ia evitar o desemprego de 80 dos trabalhadores que representava. Esta vaga de desemprego foi causada pelos terroristas económicos que andaram a indexar os seus prémios de "produtividade" a ganhos trimestrais devidos a truques financeiros, que eles sabiam perfeitamente não terem correspondência na economia real. São uns chicos-espertos sem escrúpulos que nunca almejaram um crescimento consistente mas somente os ganhos de curtíssimo prazo que lhes garantiam prémios de dezenas de milhões, para além de honorários fixos milionários e outras mordomias. Num mundo justo esta gente não só não andaria à solta como já teriam contribuído para o amenizar da pobreza que causaram com a totalidade dos seus bens pessoais. Quando um editorialista de um suposto diário "referência" chama cobardes aos que tiveram a coragem de expressar com grande visibilidade mundial a indignação de milhões, estamos perante gente que ou faz o jogo dos terroristas que destruiram a economia mundial, ou assim escrevem porque são simplesmente portugueses correctos... Eu pessoalmente nunca me empenharia em atirar pedras a vidros, ou ao que quer que fosse. No entanto não posso deixar de reconhecer a coragem daqueles que expressando a indignação de milhões de pessoas que estão a sofrer os actos de terroristas como Fred Goodwin, arriscaram a sua liberdade num acto fútil mas simbólico (na Inglaterra partir vidros com intrusão numa propriedade privada pode resultar em prisão efectiva). Só a imprensa de um país cinzento, ultrapassado e em decadência, poderia chamar a esses "voluntaristas" de cobardes.


Jornalismo acinzentado

Lê-se no Público de 26 de Março, na página 26: "O jornal britânico The Daily Telegraph até já concedeu honras de primeira página a esta antiga apresentadora de televisão", referindo-se a Christine Kelly, provável futura ministra do governo Sarkozy.

O que aparece no diário britânico? Uma enorme foto da jornalista em biquini com os peitos bem delineados, encabeçada pelo título "Sarkozy's new minister". No texto por baixo da imagem diz-se que Kelly é bem conhecida por posar em biquini. Se Sarkozy é uma vez mais ridicularizado, nomeadamene quando diz que Kelly é não só atraente como está em contacto com o mundo actual (qualquer rapariguinha que pose em biquini e coloque as fotos no facebook também estará...), de Kelly fica a imagem de quem vai subindo na vida devido a outros dotes que não exactamente os intelectuais. No fundo é a França que é ridicularizada pois trata-se do presidente francês e de uma futura ministra. A isto a imprensa de um país cinzento e acrítico chama "honras de primeira página".

Muito pior foi quando outro jornal que se acredita uma "referência" no país cinzento, elevou a herói um bufo português que era pago pelos nazis para espiar as movimentações das embarcações dos aliados. A informação avançada como "história" pelo cinzento diário era falsa: aquilo que o bufo português não pôde transmitir aos nazis (porque entretanto foi preso pelos aliados) não só não foi fundamental, como se escreveu no cinzento jornal, como nem sequer foi muito relevante para a vitória dos aliados.

Nota: os ingleses podem gozar os franceses mas a verdade é que os islâmicos radicais estão em Inglaterra, têm nacionalidade britânica, estão cada vez mais radicais (apesar do governo britânico ter retirado o holocaustro dos curricula das escolas para não ferir as susceptibilidades islâmicas) e na primeira oportunidade farão explodir o Reino Unido. Os muçulmanos franceses são moderados (limitam-se por vezes a queimar uns carros, o que até dinamiza a indústria automóvel francesa...) e têm orgulho em serem franceses. O resto é conversa da treta à portuguesa com pitadas de humor inglês com pouca piada.


Sócrates: um rapazinho português *

Alan Perkins: O que desencadeou a acção da polícia? A queixa era sobre corrupção...

Charles Smith: O primeiro-ministro, o ministro do Ambiente é corrupto.

Alan Perkins: Quando tudo estava a ser construído qual era a posição dele?

Charles Smith: Este tipo, Sócrates, no final de Fevereiro, Março de 2002, estava no Governo. Era ministro do Ambiente. Ele é o tipo que aprovou este projecto. Ele aprovou na última semana do mandato, dos quatro anos. Em primeiro lugar, foi suspeito que ele o tenha aprovado no último dia do cargo... E não foi por dinheiro na altura, entende? Isto foi mesmo ser estúpido...

Alan Perkins: Quando foram feitos os pagamentos? Como estava em posição de receber pagamentos se aprovou o projecto no último dia do cargo?

Charles Smith: Foram feitos depois. Ele pediu dinheiro a dada altura, mas não...

Charles Smith: João, foi aprovado e os pagamentos foram posteriormente?

João Cabral: Certamente... Houve um acordo em Janeiro. Eles tinham um acordo com o homem do Sócrates, penso que é em Janeiro.

Charles Smith: Sean (Collidge) reuniu-se com o tipo. Sean reuniu-se com funcionários dele, percebe? Sean e Gary (Russel) reuniram-se com eles.

Alan Perkins: Houve um acordo para pagar?

Charles Smith: Para pagar uma contribuição para o partido deles.

Charles Smith: Nós fomos o correio. Apenas recebemos o dinheiro deles. Demos o dinheiro a um primo... a um homem...

Alan Perkins: Mas como o Freeport vos fez chegar esse dinheiro?

Charles Smith: Passou pelas nossas contas

Alan Perkins: Facturaram ao Freeport, ok?

Charles Smith: Ao abrigo deste contrato. Era originalmente para ser 500 mil aqui, desacelerámos, parámos a este nível, certo? Isso foi discutido na reunião, lembra-se? Ele disse: «Nós não queremos pagar». Se ler esse contrato, diz aí que recebemos três tranches de 50, 50, 50... Gary disse: «Enviamos o dinheiro para a conta da vossa empresa».

* para não confundir com o filósofo


Porque não se devem salvar os bancos

Criou-se uma espécie de consenso segundo o qual os bancos têm de ser salvos senão o mundo vai abaixo. Há que dizer que este mito foi inventado pelos conselheiros e assessores financeiros dos governantes. Quem são os conselheiros financeiros de Gordon Brown, que anda a dar a volta ao mundo tentando convencer o mundo a disponibilizar quantidades pornográficas de dinheiro para salvar o "sistema"? Um dos seus conselheiros mais proeminentes foi Fred Goodwin, o homem que destruiu o RBS mas que garantiu para si mesmo uma reforma dourada, que agora está a causar escândalo e indignação generalizada. Claro que com estes conselheiros e assessores a mensagem será sempre: o "sistema" tem de ser salvo custe o que custar. Com o dinheiro dos contribuintes, evidentemente.

No entanto o "sistema" não tem salvação: os valores que foram aplicados em derivativos (esse truque financeiro criado pelos bancos para conseguirem lucros grandes e rápidos) e "activos tóxicos" (empréstimos insolventes) excedem largamente a quantidade de dinheiro disponível em todo o mundo. Lançar dinheiro para salvar os bancos é lançar dinheiro num poço sem fundo. Paul Krugman, entre outros, já avisou que o pacote de triliões que Obama prepara não vai resultar. Tem razão. Dar dinheiro aos bancos é deitar o dinheiro fora, garantindo, claro, as reformas milionárias de quem destruiu o "sistema".

Dar dinheiro aos bancos é fazer duplamente de idiotas os contribuintes: 1º diz-se-lhes que sem essas injecções de dinheiro o sistema vai entrar em colapso, quando na verdade o sistema já está em colapso. 2º depois de os convencer que têm de pagar, subtrai-se dos cofres públicos quantias absolutamente inimagináveis de dinheiro que davam para pagar as dívidas de todos os que estão a ser postos na rua por falharem as prestações das casas e ainda sobrava dinheiro para distribuir aos que não têm casa própria para aquisição de habitação, aliviando-os de rendas frequentemente inflaccionadas, e às empresas, produtivas e viáveis no longo prazo, que estão em dificuldades, no sentido de estimular o consumo e fazer sentir às pessoas que o Estado existe em função delas e não dos banqueiros e "gestores". Quanto às apostas em derivativos é dinheiro perdido. Quem andou a apostar nesses produtos de lucro fácil e rápido, mas de elevado risco, sabia que podia perder tudo. O Estado não tem que lhes dar rigorosamente nada. Se salvar esses também tem de salvar os jogadores de casino e todos os jogadores que perderam dinheiro. É impensável, e ridículo, não é?

Há aqui algo de profundamente imoral pois está-se a tentar fazer pagar aos mesmos de sempre os erros dos que deles se têm aproveitado para que tudo volte ao "normal". Isso não pode acontecer. Isso não vai acontecer. O governador do banco de Inglaterra já disse que o país não tem mais dinheiro para salvar bancos. O encontro dos G20 vai ser um acto falhado porque ninguém, excepto os EUA (que têm os seus próprios timings e não andam a reboque da Inglaterra, antes pelo contrário...), vai considerar seriamente o "plano" de Brown. Por mais que custe aos grandes banqueiros que se andam a reunir com Gordon Brown, nada vai ficar como dantes. Na verdade, por bem menos já aconteceram guerras terríveis. É verdade que grande parte das populações estão embrutecidas por sistemas de ensino que as conduziu à ignorância, à estupidez e à total incapacidade reflexiva. É fácil convencer gente assim. Apesar das dificuldades continuam anestesiadas pelo futebol e pelos dramas das estrelas inventadas por televisões que trabalham no registo que corresponde exactamente ao nível intelectual (he, he, he) dessas populações. Mas será demasiado ingénuo pensar-se que, com o agudizar da situação económica a estádios nunca vividos anteriormente por gente habituada à relativa prosperidade do pós-guerra, esta gente continuará eternamente colada às televisões e a chorar as (verdadeiramente) suas estrelas (de) cadentes. Muitos já despertaram da letargia televisiva para o mal pois alguns sistemas de ensino transformaram-os em ignorantes que começam a manifestar sinais de racismo e nacionalismo. Há que pensar que a história da Europa foi sempre uma história de guerras e atrocidades. A paz na Europa é algo recente. Não é uma abstracção e muito menos um dado adquirido. É simplemente uma construção que figuras ilustres da história (que já não se estuda no ensino básico público em Inglaterra e é desleixada em países menores, felizmente poucos, que lhe seguem as pisadas) conseguiram com génio e brilhantismo.


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