2005/02/23

TOQUEI O CONCERTO DE LISZT NUM PIANO VERTICAL

Acompanhado pela Orquestra Gulbenkian que, sob direcção de Lawrence Foster, teve uma prestação mediana, o pianista Nelson Freire concretizou uma fantástica interpretação do segundo concerto para piano e orquestra de Brahms. No final conversámos com ele.


Álvaro Teixeira: Sei que teve muitos dos seus registos premiados em França nomeadamente com "diapasons d'or". Qual é a sua relação com o mercado e o público françês?

Nelson Freire: Actualmente sim porque eu estou morando lá. Morando é uma maneira de dizer pois eu considero que moro no Rio de Janeiro, mas quando estou viajando tenho o meu cantinho na França. Então com isso fiquei mais familiarizado com tudo o que respeita ao país, etc. Mas é sempre um grande prazer voltar a Portugal. Tenho muitas boas lembranças aqui. Me sinto muito bem aqui. Lembra um pouco o Brasil da minha infância um Brasil que hoje em dia não existe mas que aqui ainda se conserva e é um grande prazer estar aqui.

AT: Tanto quanto me lembro os últimos diapasons d'or que recebeu foram para registos de Schumman e Chopin...

NF: Exatamente. Foram os últimos dois que fiz mas recentemente fiz outro, um disco Chopin também, que há-de sair nos próximos meses. No final do ano devo fazer o primeiro concerto de Brahms com o Ricardo Chaily e a Orquestra de Leipziz.

AT: Tem portanto uma afinidade muito particular com estes compositores...

NF: Sem dúvida. São compositores que... temos relações desde a minha infância... É como se eu fosse da família.

(risos)

AT: Mas com compositores mais modernos... O Nelson é um pianista da "velha tradição romântica", não é? Aborda muito pouco a música do século vinte...

NF: Do século vinte não! Até que toco bastantes coisas... Muito Villa-Lobos, Prokovief, Bartok. Isso é século vinte mas não se pode dizer mais que é moderno, né?

(risos)

NF: Mas é natural que eu tenha feito uma opção. É difícil fazer tudo, né? Tem também certas coisas que para mim têm interioridade. Questão de afinidade, de gosto... de vontade... É isso.

AT: Tocou muito com a Marta Argerich e foi a partir daí que a sua figura ganhou dimensão mundial. Que recordações tem desse tempo?

NF: Recordações... Nós acabamos de fazer uma tournée no Brasil e na Argentina e daqui a um mês vamos estar a tocar nos estados unidos. Continuamos a tocar... Sei lá. É uma amizade velhíssima e muito profunda. Tocar com a Marta é uma...

AT: É uma grande pianista...

NF: Mais que isso, né?

AT: Mas ela agora praticamente não toca a solo.

NF: Pode ser que volte a tocar. Ela já tocou muito sózinha. É uma questão que ela não gosta de estar sózinha. Nem no palco nem fora dele. É uma opção que eu espero que seja momentânea.

AT: Mas que já dura há alguns anos...

NF: É. Já dura há alguns anos. Mas nada é impossível.

AT: Na Argentina disseram-me que lá ela fez um recital a solo há menos de meia dúzia de anos...

NF: Sei que ela tocou no Japão e também que em Nova York ela fez sózinha metade de um concerto. Tocou Bach, Chopin e Prokovief. Isso foi há três ou quatro anos.

AT: Quais são os chefes de orquestra com quem gosta mais de trabalhar?

NF: Ha tem muitos. Tem vários. Gostei de tocar com este (Lawrence Foster). Há muitos anos fizémos uma tournée juntos. Foi em 69. Era também com o Rudolfo Kempf que era um chefe que eu adorava e é talvez com quem eu tenho as melhores lembranças. Mas essa tournée foi Estados Unidos e no Canadá e tem uma experiência muito engraçada pois foi a primeira vez que eu toquei com orquestra com um piano de armário (parede). Um dos concertos foi nas ilhas Bahamas e lá só tinha um piano branco de armário... O concerto de Liszt imagine você! E foi o Lawrence que dirigiu. Não havia outro piano e acabei tocando.

(risos)

AT: Quando volta a Portugal para fazer um recital a solo?

NF: Olha espero que breve.

AT: Eu também.

(risos)











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