2004/09/26

A GRANDE MÚSICA NO FESTIVAL DE ORGÃO DE LISBOA



Domingo 26 foi a vez do brasileiro José Luis de Aquino fazer soar o orgão da Sé Patriarcal com um repertório de cariz virtuosístico.

Na Sonata nº2 de Gustaf Adolf Merkel, Aquino demonstrou grande inteligência e intuição na escolha dos registos, coisa que se verificou ao longo de todo o recital. As suas opções revelaram grande compreensão das obras que interpretou, oferendo ao ouvinte referências numa obra mal construída do ponto de vista formal como o longo Coral nº2 em Si menor de César Franck. Voltando à sonata de Merkel, os registos escolhidos permitiram um contraste interessante e uma transparência temática fácil de seguir na fuga do 3º andamento. Na "coda" da fuga é retomado a sonoridade imponente do "maestoso" (1º andamento) concluindo a obra com a sonoridade grandiosa do andamento inicial. Há que referir os excelentes "legatos" que evidenciam a excelência técnica do intérprete num teclado duro como o do orgão da Sé.


Seguiu-se o Prelúdio e Fuga sobre o nome BACH de Liszt. Esta criação de elevado virtuosismo é também um monumento ao instrumento, um monumento à música (começando pela referência ao Mestre) e um monumento à Forma. No Prelúdio, Aquino conseguiu uma sonoridade monumental e a entrada na Fuga foi impressionante pelo registo misterioso que introduziu o ouvinte noutra dimensão sonora pois estavamos ás portas da imponente construção que é esta fuga. Gradualmente o timbre foi metamorfoseando até chegar a um brilhantismo sonoro próximo da monumentalidade do Prelúdio com que fez a retoma do tema do tema A antes da coda. Inteligência, virtuosismo e intuição musical foi o que o músico revelou nesta possante e talentosa interpretação da criação de génio "Lisztiano".

Tu es Petra de Henri Mulet é uma aliança entre a grande técnica e a concepção de movimento sonoro que é desenvolvida por contemporâneos como Ligeti e Xenakis no âmbito de um outro universo sonoro, evidentemente. Obra interessantíssima que foi servida de novo como encore para um público que justamente reconheceu em Aquino um grande organista.


Tocata, Villancico y Fuga (sobre o nome BACH) é uma curiosa incursão atonal de Alberto Ginastera. Obra esta que merece voltar a ser apresentada numa futura edição deste festival.


Devo dizer que este recital é a minha escolha deste VII Festival de Orgão de Lisboa. Conto que Aquino nos volte a visitar na edição do próximo ano, sugerindo-lhe desde já a inclusão de Volumina de György Ligeti no programa a apresentar. AST














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