2004/12/11

ORQUESTRA SINFÓNICA PORTUGUESA INTERPRETA DIE WALKÜRE


Sob direcção de Zoltán Peskó foi interpretado o Acto I de A Valquíria de Richard Wagner pela Orquestra Sinfónica Portuguesa. Um acontecimento que me surpreendeu pois não imaginava que esta orquestra pudesse interpretar condignamente o compositor alemão. Não que eu tenha dúvidas da qualidade do corpo de músicos que foi recrutado por concurso internacional. Não tenho dúvidas é que não têm as condições mínimas para desenvolverem um bom trabalho. São mal pagos. Ao contrário das relações públicas e dos "burocratas" que podem ser recrutados entre os licenciados que engrossam as filas de servidores de hamburgueres os músicos, que para chegarem a esta orquestra investiram toda uma vida de trabalho e dedicação, ganham o mesmo que os professores do ensino secundário com a agravante de terem de adquirir eles mesmos o seu instrumento. Se pensarmos que um violino de "luthier", sem ser nada de extraordinário, vai custar 10 ou 15 mil euros... Esta orquestra ensaia num local longínquo e acústicamente asqueroso: o famigerado Teatro Camões que em vez de ter sido destruído ou reconvertido (para armazém...) depois da expo 98, lá continua a ostentar a incrível incompetência de alguns responsáveis portugueses.
Os músicos desta orquestra tocam mesmo quando estão doentes pois se faltam é-lhes descontado 60% do ordenado relativo aos dias de falta. Na Gulbenkian os músicos de "baixa" não só recebem a 100% como lhes é atribuído um subsídio de doença. Isto para não estarmos a fazer comparações salariais.
Estamos perante um caso de absoluta falta de condições e é bom que as pessoas saibam disto pois os "críticos" portugueses evitam "entrar" por dentro das instituições parecendo não perceber que são as instituições que possibilitam grandes orquestras ou pelo contrário as destroem. Alguns têm mêdo de serem afastados dos media em que colaboram e perderem não só uma fonte de rendimentos como o estatuto priviligiado que lhe é inerente. Isso já aconteceu. De resto é sempre mais fácil criticar os músicos que aqueles(as) que nos arranjam os convites... Portugal ainda é promíscuo, ainda favorece a mediania e penaliza quem põe em causa a mediocridade do "status quo" vingente.

Depois desta introdução sinto-me à vontade para falar do concerto em que foram solistas Elisabete Matos (Sieglinde), Robert Gambill (Siegmund) e Walter Fink (Hunding).
Estes três cantores tiveram um desempenho absolutamente assombroso: nunca tinha ouvido um Siegmund tão potente, tão expressivo e tão transparente. Nunca tinha ouvido um Hunding com uma voz tão profunda, com uma projecção vocal tão espantosa e com uns graves tão fortes. Sieglinde esteve à altura dos companheiros e não é por acaso que Elisabete Matos é a única cantora portuguesa de dimensão internacional.

A OSP conseguiu estar à altura e devo destacar a brilhante prestação dos primeiro oboé e clarinete assim como da generalidade das madeiras. Os metais não estiveram tão bem mas sei que o trompete baixo é uma lata e com uma lata fazer o que o instrumentista fez já é demais. Claro que isto não justifica as "gaffes" (pontuais) das trompas.
A primeira-violoncelista teve também uma muito boa performance. As cordas desta orquestra na generalidade têm pouca sonoridade e consistência. Mas como pode haver sonoridade boa quando se toca em instrumentos industriais feitos com materiais sintéticos? Com pouco mais do que mil euros mensais para viver que instrumento se pode adquirir? E porque é que a OSP não faz o que fazem a generalidade das orquestras do "mundo civilizado", isto é, adquire instrumentos decentes para os músicos e deduz-lhes no ordenado em "suaves prestações mensais", sem juros evidentemente?

Há aspectos a re-pensar no funcionamento desta orquestra e do Teatro Nacional de São Carlos que sofreu um enorme corte orçamental por parte de um governo dirigido pelo único primeiro-ministro do mundo que gosta dos concertos para violino de Chopin (talvez o corte seja devido ao facto da OSP ainda não ter interpretado esses concertos...). Uma coisa é certa: os únicos sujeitos indispensáveis são os músicos (para além de maestros à altura que os dirijam). Músicos estes que apesar de tudo nos conseguiram oferecer um espectáculo de muito grande nível. AST




Questão: Porque é que Portugal apesar de estar a receber apoios da UE há cerca de 30 anos é uma país de "essência" terceiro-mundista (agora diz-se "em vias de desenvolvimento"...)?

Muito simples: basta compararem-se os salários, regalias e possibilidades de aposentações douradas que auferem os gestores de empresas de capitais maioritáriamente públicos em Portugal que regra geral não passaram por qualquer tipo de concurso ou avaliação internacional, com as condições destes músicos seleccionados por concurso mundial (não me estou a referir concretamente aos administradores e directores do Teatro Nacional de S. Carlos que seguramente estão longe dos que recebem mais...).















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