2004/12/10

UMA QUESTÃO DE CONFIANÇA DE ERNST KRENEK


Krenek evidentemente foi um dos compositores considerados malditos pela besta nazi: judeu e seguidor de Schönberg. Felizmente conseguiu escapar-lhes e viver até 1991 com a bela idade de 91 anos.

O Teatro Aberto (Lisboa) teve a brilhante iniciativa de trazer à cena a sua ópera de câmara Uma questão de confiança com libreto do próprio compositor, ópera que foi precedida por um interessante ciclo de canções.

A linguagem de Krenek é sobejamente inspirada para que justifique esta iniciativa. Dodecafónico é por essência romântico e a simbiose entre uma impulsão de pendor romântico e um enquadramento estrutural de cariz serial é em meu entender tão interessante como em Alban Berg no qual o arrebatamento romântico é dificilmente sustido pela semiótica dodecafónica. Teremos oportunidade de escutar a genial ópera Wozzeck deste compositor ao longo da presente temporada no Teatro Nacional de São Carlos.

Portanto Krenek consegue desenvolver uma linguagem diferente de Berg ainda que sob o deslumbramento romântico do qual, tal como este último, nunca se libertou. Mas uma linguagem altamente consistente consigo mesma e com necessidades expressivas que em todas as linguagens estão na origem de "violações" da semiótica e em que a veia musical não é atrofiada por questões obecessivas de "coerência linguística".

Os intérpretes foram Catherine Rey, soprano; Luis Rodrigues, barítono; Carlos Guilherme, tenor; Ana Ester Neves, soprano, acompanhados ao piano por João Paulo Santos. A encenação é de João Lourenço. Tanto a interpretação quanto a encenação estiveram bem. AST

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