CRITICA MUSICAL / MUSICAL CRITIC

Um blog de Álvaro Sílvio Teixeira

2004/09/28

NOCTURNOS DE CHOPIN AO SOM DO SEU TEMPO



A já incontornável Brilliant Classics editou as peças referidas numa interpretação do pianista Bart van Oort que utiliza um piano Pleyel de 1837.


Trata-se de um registo de 2003 que figurará entre os eventos editoriais não só pelas sonoridades que uma interpretação num instrumento destes pode produzir mas essencialmente pela leitura que pianista nos dá. É uma visão que vai ao encontro daquilo que El-Bacha nos disse na entrevista que está algures nos arquivos desta página. O "rubato" é um rubato natural que não é facilmente remarcável. O pianista afasta-se da visão romantizada de muitos dos famosos intérpretes do século vinte e oferece-nos um Chopin transparente mas pleno do sentimento que subjaz a toda a obra do grande compositor polaco.



Interessante é o facto do estojo de 4 cd's conter os Nocturnos de Jonh Field interpretados num Brodwood de 1823, gravação esta que já tem alguns anos e outro cd com gravações de nocturnos compostos por vários outros contemporâneos de Chopin, o que nos dá uma visão panorâmica da música produzida na época. Na interpretação destas peças Oort utiliza um Erard de 1837.


O preço foi 12 euros mas este estojo aparentemente também não se encontra disponível em Lisboa. O que é uma pena.





Para as Baladas e alguns Estudos do genial e inspirado Chopin posso recomendar-vos uma interpretação fabulosa de Svjatoslav Richter editada pela etiqueta Praga/Le Chant du Monde. Esse cd contém também os Rondós op.51 e algumas das Bagatelas op. 136 de Beethoven. Não me lembro do preço mas creio que agora existe em edição económica. AST















2004/09/26

A GRANDE MÚSICA NO FESTIVAL DE ORGÃO DE LISBOA



Domingo 26 foi a vez do brasileiro José Luis de Aquino fazer soar o orgão da Sé Patriarcal com um repertório de cariz virtuosístico.

Na Sonata nº2 de Gustaf Adolf Merkel, Aquino demonstrou grande inteligência e intuição na escolha dos registos, coisa que se verificou ao longo de todo o recital. As suas opções revelaram grande compreensão das obras que interpretou, oferendo ao ouvinte referências numa obra mal construída do ponto de vista formal como o longo Coral nº2 em Si menor de César Franck. Voltando à sonata de Merkel, os registos escolhidos permitiram um contraste interessante e uma transparência temática fácil de seguir na fuga do 3º andamento. Na "coda" da fuga é retomado a sonoridade imponente do "maestoso" (1º andamento) concluindo a obra com a sonoridade grandiosa do andamento inicial. Há que referir os excelentes "legatos" que evidenciam a excelência técnica do intérprete num teclado duro como o do orgão da Sé.


Seguiu-se o Prelúdio e Fuga sobre o nome BACH de Liszt. Esta criação de elevado virtuosismo é também um monumento ao instrumento, um monumento à música (começando pela referência ao Mestre) e um monumento à Forma. No Prelúdio, Aquino conseguiu uma sonoridade monumental e a entrada na Fuga foi impressionante pelo registo misterioso que introduziu o ouvinte noutra dimensão sonora pois estavamos ás portas da imponente construção que é esta fuga. Gradualmente o timbre foi metamorfoseando até chegar a um brilhantismo sonoro próximo da monumentalidade do Prelúdio com que fez a retoma do tema do tema A antes da coda. Inteligência, virtuosismo e intuição musical foi o que o músico revelou nesta possante e talentosa interpretação da criação de génio "Lisztiano".

Tu es Petra de Henri Mulet é uma aliança entre a grande técnica e a concepção de movimento sonoro que é desenvolvida por contemporâneos como Ligeti e Xenakis no âmbito de um outro universo sonoro, evidentemente. Obra interessantíssima que foi servida de novo como encore para um público que justamente reconheceu em Aquino um grande organista.


Tocata, Villancico y Fuga (sobre o nome BACH) é uma curiosa incursão atonal de Alberto Ginastera. Obra esta que merece voltar a ser apresentada numa futura edição deste festival.


Devo dizer que este recital é a minha escolha deste VII Festival de Orgão de Lisboa. Conto que Aquino nos volte a visitar na edição do próximo ano, sugerindo-lhe desde já a inclusão de Volumina de György Ligeti no programa a apresentar. AST














* Nos arquivos encontrará mais textos e entrevistas.

2004/09/19

TAFELMUSIK DE TELEMANN SEGUNDO MUSICA AMPHION





Musica Amphion é um grupo recente que se dedica à interpretação da música antiga. Não é mais um grupo. É constituído por excelentes músicos que pertencem a agrupamentos paradigmáticos na interpretação das obras antigas nos instumentos da época, segundo as técnicas interpretativas da época em que são escritas, que procuram oferecer ao ouvinte um ambiente sonoro e uma leitura próxima daquela que se poderia escutar quando foram criadas. O grupo é dirigido pelo cravista e flautista Pieter-Jan Belder com Rémy Baudet como concertino, função que também exerce na célebre Orchestra of the Eighteenth Century dirigida por Frans Bruggen. Esta formação promete tornar-se num dos "agrupamentos-chave" na interpretação da música antiga para este século. Prova disso é a leitura que nos oferecem da "música de mesa" (Tafelmusik) de Georg Philipp Telemann (1681-1762), um compositor do "último barroco" que contrariando a severidade (genial) da música de Bach adoptou um estilo menos cerebral que abriu portas para a primeira escola vienense que teve o seu apogeu em Mozart, Haydn e Beethoven (se bem que este na última fase, que foi visionária, abandona totalmente o estilo e as formas do clássico).
Talvez por isso a designação de "música de mesa". Música para ser ouvida à mesa... Não pensem por isso que é algo fútil. Pelo contrário. Estas peças de Telemann são uma jóia do final do barroco pela enorme musicalidade aliada a uma brilhante técnica formal, harmónica e contrapontística e também pela diversidade estrutural e instrumental. Só intérpretes excelentes e inspirados conseguirão fazer justiça a este ciclo de composições. É isso que acontece na versão dos Musica Amphion. Destreza interpretativa, contraste, absoluto domínio técnico-instrumental, compreensão estilística e grande inspiração são os adjectivos que poderão definir uma interpretação que seguramente marcará as edições discográficas deste início de século. Uma gravação de 2003. A etiqueta é Brilliant Classics. O preço pelo estojo de 4 cd's? 12 euros! Comprei no Porto onde esta etiqueta se vende ao preço justo. Em Lisboa, como quase tudo nesta cidade, os cd's da Brilliant estão artificialmente inflacionados.

Nota: Como em Lisboa não se encontra este registo devo dizer que foi na fnac da Rua Santa Catarina no Porto que o adquiri, local onde as edições da Brilliant estão a preços mais baixos que aqueles que se praticam em Lisboa ou seja ao "preço justo".
Devo também aconselhar os leitores a não se deixarem deslumbrar pelos autocolantes vistosos e brilhantes que as edições francesas ostentam nos cd's. A indústria discográfica tradicional está em crise, crise esta que começa a afectar a pequenas e médias editoras francesas que pouco ou nada contribuiram para uma nova e mais justa política de preços ao consumidor. É função (...) das revistas que atribuem os "galardões" tentar salvá-las da mesma forma que é nosso dever fornecer aos leitores indicações no sentido de conseguirem adquirir grandes interpretações a preços "decentes". AST















2004/09/16

CD'S MARAVILHOSOS QUASE AO PREÇO DA CHUVA


Não poderia deixar de referir alguns registos excepcionais sobretudo (e especialmente) se estão desponíveis a preços indicutivelmente "interessantes".



Vou começar por anotar uma gravação fabulosa das Suites Inglesas para cravo de Bach. Trata-se de uma leitura do grande cravista Bob van Asperen realizada em Setembro de 1999.

Van Asperen é senhor de uma poesia única que se afirma absolutamente nesta impressionante e bela re-interpretação. A coisa mais acertada que posso aconselhar é a compra imediata do duplo cd que custa pouco mais de 8 (oito) euros. É uma re-edição da Brilliant Classics. Penso que confiam nas minhas indicações. No entanto posso dizer-vos que a esta interpretação extraordinária foram atribuídos o "Edison Prize", o "Prize der Deutschen Schallplattenkritik" e o "Cecilia Prize".




É também esta etiqueta que re-edita as Sonatas e Partitas do mesmo compositor para violino solo numa interpretação de Mark Lubotsky. É evidente que há uma infinidade de versões destas peças mas por muitas que já possuam esta é mais um caso particular. Trata-se de um violinista de talento que aqui as re-cria de maneira conseguida e pessoal. Também duplo cd pelo preço acima indicado. Uma gravação de Novembro de 1987.

Característica comum destes dois Bachs para além da etiqueta, do preço e da genialidade dos intérpretes? Foram ambos gravados na "Maria Minor Church" em Utrecht.



Uma boa surpresa vem-nos da Harmonia Mundi-eua. O seu catálogo mais recente é acompanhado da ópera Zaíde de Mozart numa interpretação de The Academy of Ancient Music com direcção de Paul Goodwin. Uma gravação fantástica com grandes solistas inspirados!




Não posso deixar de falar na ópera La Giuditta do português Francisco António de Almeida pelo Concerto Koln dirigido por René Jacobs. Uma preciosidade, agora em edição económica (que não é recente) da mesma Harmonia Mundi.







Beethoven: concertos para piano e orquestra e algumas sonatas. Emil Gilels foi um dos grandes pianistas de todos os tempos. Algumas das suas interpretações em Beethoven continuam a ser "a referência". 6 cd's da Brilliant Classics. Pouco mais de 20 euros mas o preço deveria ser 18 euros. Se se sentirem demasiado explorados podem tentar encomendar directamente em www.brilliantclassics.com

Também estão disponíveis as últimas sonatas do genial compositor pelo pianista mais carismático do século passado: Sviatoslav Richter. O estojo contém também sonatas de Schubert e a sonata para piano de Liszt. 5 cd's da mesma etiqueta. Cerca de 18 euros em Lisboa. No Porto está ao preço correcto: pouco mais de 15 euros.


Schumann: É verdade que se diz que Richter disse que a pianista Elio Varadaze é a maior intérprete de Schumann. Mas também é verdade que os registos do próprio Richter são de uma beleza e de uma poesia transcendentais. Por isso vou-os recomendar. Emi Classics, cerca de seis euros: Fantasia em C, Carnaval de Viena e Papillons. Deutsche Grammophon, colecção Dokumente: Cenas da Floresta, Fantasia op12, Marcha op76 nº2, Novellete op21 nº1, Tocata op 7 e Variações Abegg. Simplesmente maravilhoso.


Todos os cd's do pianista Rudolf Serkin que encontrem na colecção "essencial classics" da Sony, adquiram-nos. Trata-se de um grande pianista e tudo o que foi re-editado por esta série económica são registos fabulosos, nomeadamente as sonatas de Beethoven, os concertos para piano e orquestra de Mendelsson e o Concerto nº2 de Brahms. AST















VIAGEM AO SÉCULO VINTE




Vou indicar-vos alguns cd's de excepção (quase todos em edições económicas) de obras que determinaram a história da cultura do século XX e continuam a ser parte imprescindível do nosso presente.






A Brilliant Classics oferece-nos um estojo com 4 cd's que contém a gravação da obra integral de Ravel para orquestra. A direcção é do grande maestro Eliahu Inbal e a interpretação do Côro e Orquestra Nacional de França. Cerca de 15 (quinze) euros os 4 cd's.





Décima Sinfonia de Mahler, versão Deryck Cooke, pela Bournemouth Symphony Orchestra dirigida por Simon Rattle. Edição Hmv que em portugal suponho ser a Emi. Este cd custou-me cerca de 5 libras irlandesas (foi antes do euro...). Suponho que por cá se pode encontrar em re-edição económica da Emi, eventualmente a um preço mais "interessante". Uma obra impressionante sob a batuta de um director genial.
Genial também é a interpretação da 6ª Sinfonia pela Cleveland Orchestra dirigida por George Szell. Na "essential classics" da Sony por cerca de 6 euros. Nesta colecção existe também a 4ª dirigida pelo mesmo Szell. Atenção que esta colecção acabou e deu lugar a outra com as mesmas obras mas a preços substancialmente mais elevados!






De Scriabin as sonatas 2 e 5 pelo genial Sviatoslav Richter. O mesmo cd contém alguns estudos de Chopin, assim como alguns nocturnos e a Polonaise nº 7. Cerca de 8 euros. A etiqueta é Praga/Le Chant du Monde.






Karol Szymanowski por M. Wesolowski (piano). Masques op. 34 e 4 mazurkas op. 50. Oito euros numa edição da Pianovox/Agon. O compositor polaco até agora esquecido pelo ocidente é um pioneiro inspirado que se afasta da tradição tonal.





Concerto para violino de Alban Berg e concerto para piano de Schoenberg. O primeiro por Zvi Zeitlin no violino, o segundo com Brendel ao piano suportados pela Bavarian Radio Symponhy Orchestra dirigida por fabuloso Rafael Kubelik. Colecção Eloquence da Universal que agrupa a Deutsche Grammophon, a Decca e a Phillips. Comprei este cd por menos de 5 euros mas por cá será substancialmente mais caro.




Arnold Schoenberg: Verlarte Nacht e Pelléas et Mélisande numa impressionante leitura do prematuramente desaparecido Giuseppe Sinopoli, um dos grandes directores do século vinte. Com a Philharmonia Orchestra. A mesma colecção e o mesmo comentário ao preço.




Pelo mesmo Sinopoli à frente da Wiener Philharmoniker com Deborah Voigt (soprano) e Bryn Terfel (baritono), temos a Lyrische Symphonie de Alexander Zemlinsky. As cordas desta formação possuem uma luminosidade única no mundo que sob direcção deste maestro de génio e talento produziram uma gravação para a história. Infelizmente não creio que exista uma re-edição económica.



A 8ª Sinfonia de Dimitri Shostakovich é um monumento sinfónico da música do século passado e é uma obra indispensável em qualquer discoteca. Seguramente que já existe em re-edição económica na já referida colecção eloquence da Universal pois a Decca gravou-a sob batuta de George Solti e Bernard Haitink. Qualquer um deles nos dá uma visão grandiosa desta obra maior.



Prokofiev, concertos para piano e orquestra 1 e 3. Bela Bartók, concerto nº3. Um registo fabuloso destas obras fundamentais da literatura musical. A pianista é uma das maiores de sempre: a argentina Marta Argerich. O director é Charles Dutoit à frente da Orquestra Simfónica de Montreal. Creio não existir em edição económica.




A entrada na contemporaneidade fazêmo-la pela mão do genial Luigi Nono. "Como una ola de fuerza y luz", composta em 1971/2 para soprano, piano orquestra e banda magnética é uma impressionante e emotiva obra do grande criador. Slakva Taskova é a soprano, Mauricio Polini o pianista. Symphonie-Orchester des Bayerischen Rundfunks dirigida por Claudio Abbado.
"...sofferre onde serene..." de 1976 para piano e banda magnética com o mesmo Pollini no piano e "Cantrappunto dialettico alla mente" para banda magnética também estão no mesmo cd que é fundamental numa discoteca. Colecção 20th Century Classics da Deutsh Grammophon.





Um trabalho inteligente e talentoso com vozes foi feito por Luciano Berio em "A-Ronne" e "Cries of London". Colecção Enterprise da Decca.





Bernd Alois Zimmermann (1918-1970) na Hans Zender Edition (vol.10) da cpo (classic produktion osnabruck) é um registo elucidativo da obra deste compositor. Evidentemente o maestro é Hans Zender.






Études, Books I and II. Os fabulosos estudos para piano de Gyorgy Ligeti numa belíssima interpretação de Idil Biret. Edição Naxos a preço Naxos.






Jorge Peixinho. Um compositor que marcou toda a segunda metade do século vinte português e que não teve a projecção mundial que merecia. Sobreposições, Políptico e Sucessões Simétricas para orquestra. Uma interpretação da Orquestra Sinfónica de Budapeste sob batuta de András Ligeti. Três obras que nos revelam o génio de talento e musicalidade que foi este português. Uma edição da Portugalsom que se pode encontrar em promoções a um preço "muito em conta".






Constança Capdeville. Uma portuguesa que em "Libera me", "Amen para uma ausência" e "... in smno pacis (one for nothing)" revela uma sensibilidade e uma intuição só alcance de poucos criadores. A mesma etiqueta, o mesmo comentário ao preço.








De Wolfgang Rihm "Étude d'après Séraphin" é uma obra impressionante e paradoxal que foi editada pela Wergo, edition zkm.







Uma ópera contemporânea de enorme interesse: MedeaMaterial de Pascal Dusapin. Hilde Leiland, soprano. Orchestre de la Chapelle Royale dirigida por Phillippe Herreweghe. Uma ópera "contemporâneo-barroca", materializada pelos instrumentos antigos desta conhecida formação. Colecção Musique Française D'Aujoud'Hui, série Suite da Harmonia Mundi. AT
















2004/09/13

Um festival de contrastes


Música Viva 2004

Festival de Música Electrónica e Electroacústica


Por Álvaro Teixeira




Felizmente o Miguel Azeguime conseguiu manter e desenvolver este festival que veio de alguma forma suprir o vazio deixado pelo fim dos Encontros de Música Contemporânea da FCG.
Portanto deixo desde já bem clara minha posição de apoio à (boa) continuidade deste festival que tem um papel e um lugar importante na vida musical portuguesa.


Após esta nota introdutória passarei à análise de alguns concertos e à elaboração de algumas opiniões em relação aos futuros festivais Música Viva.


Antes de ser "crítico" fui compositor e director de um grupo de música contemporânea que no seu tempo fez história e foi convidado para todos os programas de música da então RTP2, que eram programas de indiscutível qualidade. Isto para vos dizer que quando analizo uma obra contemporânea, mesmo que desconheça o sistema concreto que lhe subjaz (se de facto subjaz...), sei de que tipo de problemática estético-técnica estou a tratar. Por isso não procurem colocar-me no papel do "crítico" que escreve porque tem de escrever, ás vezes para dizer qualquer coisa com pouco ou nenhum sentido, pois para além do que já foi dito só escrevo quando quero e sobre o que quero.


Um dia ouvi um "crítico" que, num qualquer encontro internacional, dizia existirem obras que não merecem que se perca tempo escrevendo sobre elas mesmo que seja para as desconstruir face ao ouvinte/expectador desprevenido.

Na altura reagi com algum cepticismo pois ainda acreditava que toda a obra, pelo menos em música, era fruto de um labor sério de alguém que procura afinar concepções quer expressivas quer de estrutura, de alguém que busca o seu interior profundo na expressão musical. Claro que era um delírio. Todos sabemos que não é assim. Na entrevista com o pianista El-Bacha que podem encontrar nos arquivos desta página, assumi o papel do "advogado do diabo" com a consciência que o pianista tinha toda a razão. Perdeu-a a partir do momento que meteu tudo no mesmo saco. Há génios de musicalidade, talento, de inteliência conduzida pela sensibilidade, na música do século vinte e na contemporânea. Há também porcarias como as há em todas as formas artísticas. Há obras que são meras construções teórico-construtivas e que têm um interesse indiscutível mas ás quais alguns recusam (e têm esse direito) o estatuto de obra musical.


Vou começar pelo mais célebre: Pierre Henri. Um dos princípios da música electrónica era trabalhar com sonoridades não passíveis de serem produzidas pelos instrumentos convencionais. Outro princípio era a não identificabilidade auditiva do som original do qual se partia. Além de que dever-se-ia ter o cuidado de evitar "efeitos anedóticos": aqueles que são imediatamente referênciáveis a situações da "realidade" (tipo arrotos, ambulâncias, aviões que passam, etc).

Pierre Henri em "Le livre des morts egyptien" oferece-nos um conjunto de quadros entre os quais não se sente uma unidade estrutural. Já em "Pierres Réfléchies" usa a electrónica para espacializar sons de instrumentos acústicos. Quanto à estrutura talvez vocês a tenham inteligido...

Emmanuel Nunes: Um nome de peso da música contemporânea serial (pós-serial se lhe agradar mais...). Grund para flauta e electrónica em 8 pistas. Espacialização localizada: a cada altifalante corresponde uma parte de flauta. O compositor pródigo na utilização do espaço em concerto reduz-se aqui à utilização da electrónica como mero instrumento espacializador. Estrutura, seguramente que a há dada a obcessão de estruturação de qualquer bom serial (pós-serial...). O ouvinte é que não a entende (e para quê?). Resultado: uma monotonia intragável de mais de meia-hora (que pareceram duas), quebrada no final por um cluster berrante que seguramente terá uma função estrutural. Ninguém percebe a função musical daquele cluster. Mas para quê se tem seguramente uma função importante a nivel de estruturação teórica da obra?!


Outra "sumidade": Trevor Wishart. Aquele que quebrou o ambiente austero da espera silênciosa ("Tira lá a cabeça da frente que quero quero ver o altifalente da direita", podia-se murmurar pois quando se falava mais alto olhavam-nos com má cara). Conversou com o público explicando-lhe o que iria ouvir de seguida e este agradeceu.
Três obras de interesse relativo. "Two Women" foi talvez a mais interessante. A difusão sonora foi do próprio Wishart.



A Orquestra Gulbenkian, muito curiosamente, apresentou obras de históricos como "entrada" a longas e aborrecidas obras de compositores secundários, ex-alunos de Emmanuel Nunes.
Assim o genial Ligeti foi prato de entrada para o quase só conhecido em Portugal e nos "circuítos seriais" Enrique Macias. E Tristan Murrail a entrada para João Rafael com uma obra (Ode) estruturalmente bem pensada, como todas as de João Rafael, mas onde a musicalidade dificilmente emerge. Quanto à obra de Macias alguém disse que já tinha ouvido algo muito parecido em Boulez o que não é de espantar. Quero prestar aqui uma muito sentida homenagem ao ser humano que conheci ao longo dos anos em que nos cruzamos nas master-classes e concertos do seu "mentor", ser humano esse que nos abandonou prematuramente. Macias era uma pessoa afável, modesta, sensível e transparente o que é raro entre criadores que acreditam (ainda que delirantemente) que estão a re-escrever a história da música e da cultura. A vida nem sempre é justa ao privar-nos da presença de seres como ele.



Voltando ao "nosso osso", um dos grandes problemas dos "pós-seriais", que na realidade são seriais, é a incapacidade de quebrarem a continua e desesperante monotonia sonora das suas produções, ainda que se esforcem de obra para obra em encontrar novos sistemas de serialização que lhes permitam adquirir uma singularidade criativa. São poucos os que o conseguem e os que chegam aí nem sempre o fazem com obras que "toquem" de facto os músicos, os "críticos" e o público. Um problema sem resolução à vista...




O Ensemble Pythagore abriu o concerto com uma interessante obra de Kaija Saariaho, Cendres de 1988. A obra seguinte Ligne Furieuse de Christophe Ruetsch foi uma das obras mais ovacionadas. E justamente pois para além de interessante é uma obra onde a musica se expressa. Dois compositores que fazem história desvinculando-se da atrofiante tradição serial.

O mesmo não poderia dizer da obra do português António Chagas Rosa cujo talento é espartilhado por uma concepção serializante para a qual utiliza processos básicos que dão ás suas obras uma sonoridade algo arcaica para os tempos que correm. Este compositor que parece não padecer de ausência de talento não necessita de ficar espartilhado por uma suposta tradição serial da música contemporânea portuguesa. Recomendo-lhe o afastamento total de qualquer processo de serialização. Há outras formas de compôr. Ele pode e deve inventar a sua maneira de compôr.

As obras apresentadas na segunda parte (Pascal Gaigne, Bertrand Dubedout e Pierre Jodolowski) demonstram o beco com poucas saídas da música serial: monótonas, fatigantes pela sensação de angústia suspensa, permanente e sem resolução.


Gostaria de refrir a obra da Isabel Soveral, Mémoires d'Automne/quadro III, como uma obra escrita dentro de um espirito serializador que com a conjunção da electrónica permite o fluir do talento e da musicalidade desta compositora portuguesa. Não lhe farei a mesma recomendação que a António Chagas Rosa pois a compositora parece saber percorrer um caminho pouco vinculado a uma estética serializadora da qual se serve como mera forma de estruturar as obras que produz.




Do último concerto, pelo Smith Quartet, tenho de começar por referir que não gosto da generalidade da música contemporânea norte-americana. Black Angels de George Crumb e Different Trains de Steve Reich só vieram confirmar o que acima escrevi. Parece-me uma música de efeitos carente de uma reflexão estético-musical.
No entanto a peça de Simon Emmerson, Fields of Attraction, revelou-se um bom trabalho para quarteto de cordas com electrónica.

Quanto à peça de António Pinho Vargas, Monodia-quasi un Requiem é uma peça que transpira musicalidade e que me fez recordar as últimas obras do grande Luigi Nono, ainda que Pinho Vargas consiga uma singularidade que o personaliza.


Quanto ás obras de "Vídeo-Música" e dado que são isso mesmo, gostei da Viagem ao Interior da 5ª Essência de Isabel Pires e Pedro Oliveira, de Lautomata de Pedro Rebelo e da Matrrrrr de Miguel Azeguime e Perseu Mandillo. Sobre To a Wordl Free from religions quero dizer que esperava outro trabalho do Pedro Rocha. Conheço o compositor e sei que adquiriu uma sólida formação. Não consigo entender como pôde apresentar uma "banda sonora" tão pobre. Tem de re-pensar os trabalhos que faz ao nível electrónico ou então dedicar-se à composição "a sério" para a qual adquiriu formação: acústica e electroacústica.


Sobre as peças electroacústicas que pretendem ser obras de música, tirando uma ou outra excepção não lhes darei esse estatuto. Algumas podem ser interessantes dada a inteligência com que são construídas. Outras não merecem sequer ser integradas num concerto público, sobretudo se é um concerto pago.




Qual o futuro da Música Viva?
Espero que seja brilhante.
Mas espero também que nos traga mais música acústica, mais obras mistas (acústica e electrónica) e que dê menos lugar a obras-lixo que qualquer um pode fabricar servindo-se das possibilidades actuais dos computadores e programas de produção sonora.
Ou que lhes seja dada essa possibilidade... em concertos não pagos. O público não deve ser induzido a pagar gato por lebre.













* Nos arquivos encontram-se entrevistas a grandes intérpretes, para além de outros textos.





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