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2008/08/31

Proms: New York Philharmonic, Lorin Maazel...

Lorin Maazel, um dos chefes-de-orquestra que (ainda) restam de uma imaginada "idade do ouro", conduziu a "sua" orquestra em dois grandes concertos integrados nos Proms 2008, que foram, em meu entender, dois dos eventos principais destes Proms.

Em 29 de Agosto foi interpretada, em estreia mundial, um obra de Steven Stucky, bem escrita e musicalmente interessante, que recebeu fortes aplausos de um Royal Albert Hall completamente cheio. Seguidamente Jean-Yves Thibaudet foi solista no concerto para piano de Gershwin. Thibaudet, frequentemente neutralizado pela orquestra nos "tuttis", conseguiu ser convincente e demonstrar que possui grande talento e musicalidade.

Mas o "prato forte" foi, evidentemente, The Rite of Spring, de Igor Stravinsky, onde a orquestra demonstrou estarmos perante um dos mais importantes agrupamentos musicais da actualidade e onde Maazel nos relembrou, uma vez mais, ser um dos grandes maestros de todos os tempos.

No dia seguinte esta imensa orquestra, dirigida por este infinito chefe-de-orquestra, ofereceu-nos uma bela leitura da suite Mother Goose, de Maurice Ravel, seguida de um alucinante e miraculoso Miraculous Mandarin, de Bela Bartok, acabando com uma potente, e sublime, Sinfonia no. 4 de Peter Tchaikovsky.

Portanto: em dois concertos que a NYPO trouxe a Londres somente a sinfonia de Tchaikovsky fugiu da "modernidade". E funcionou. Melhor: todos adoraram e pediram mais, ao ponto da Maazel se ver "obrigado", devido ao entusiasmo dos aplausos, a oferecer um total de cinco "encores" nos dois concertos. Claro! Com uma orquestra como a NYPO dirigida por este maestro...

Seria injusto ignorar o concerto do dia seguinte, 30 de Agosto, com a Oslo Philharmonic Orchestra, dirigida por Jukka-Pekka Saraste.

Primeiro, porque se trata de uma excelente orquestra dirigida por um excelente maestro. Segundo, porque interpretou um fantástico programa que acrescentou ainda mais luminosidade e genialidade a estes Proms: Seth die Sonne, de Magnus Lindberg; concerto para piano e orquestra no. 3, de Serguei Rachmaninov, onde foi solista Nikolai Lugansky; e a fabulosa sinfonia no. 1 de Jean Sibelius.

Magnus Lindberg, todos sabemos ser um dos mais criativos e mais relevantes compositores da actualidade. Possui uma escrita libre, recusa todas as ortodoxias e baseia-se frequentemente nos espectros sonoros a partir dos quais elabora uma macro-estrutura fundada nos elementos discretos que organiza a partir da análise de um determinado espectro sonoro. Esta obra, que foi apresentada pela primeira vez em Inglaterra, reflete a filosofia que preside ao trabalho deste criador: uma obra que recusa um "corpus homogeneous" subordinado a um pensamento circular. Uma obra que trata o impacto sonoro, o jogo de sonoridades e dos elementos que as constituem. Uma obra que comunica com os ouvintes e visa a musicalidade. Pekka Saraste entendeu, a orquestra compreendeu e o resultado fez levantar os ouvintes das cadeiras (os da arena estavam por natureza, e escolha, levantados...) para aplaudir e saudar o compositor que agradeceu poder ter uma maestro e uma orquestra de grande classe para interpretar a sua obra. E claro, uma casa como o Royal Albert Hall carregada com muitos milhares de ouvintes...

O concerto de Rachmaninov por Lugansky fez, como seria de esperar, ouvir milhares de "bravos" para um pianista que prescindiu de oferecer qualquer "encore" (se tivessem aplaudido um pouco mais ele acabaria por ceder...), muito compreensivelmente pois este concerto deixa exausto qualquer um...

Finalmente a genial primeira sinfonia de Sibelius. Esta sinfonia, todas as sinfonias de Sibelius, pertencem ao grande e mais eterno patrimonio da humanidade. Mas esta primeira sinfonia consegue comover-me mais que as outras, mais inovadoras e mesmo mais interessantes, que o grande Sibelius escreveu. Esta sinfonia noticia o ponto a que Sibelius iria levar a sua escrita em ruptura com um passado marcado por obras marcadas por um pensamento de cariz wagneriano, construindo o seu estilo pessoal, "conservador" porque totalmente desinteressado do pensamento da segunda escola de Wien. Claro que Wagner deixou marcas presentes na primeira sinfonia de Sibelius. A criatividade de Sibelius assumiu-as com naturalidade mas negou-lhes qualquer papel fundamental, e Sibelius surge, com todo explendor, como ele mesmo, Jean Sibelius, um dos maiores criadores musicais de todos os tempos, logo na sua primeira sinfonia.

Pekka Saraste demonstrou compreender o seu compatriota Jean Sibelius melhor que por vezes poderiamos imaginar e o resultado foi simplesmente deslumbrante, forte e comovente. Claro: devido ao excelente desempenho da orquestra. Evidentemente. Mas depois deste concerto creio que especialmente devido ao talento de Saraste que soube conduzir a orquestra a este ponto.

2007/11/13

Integral das sinfonias de Sibelius

Los Angeles Philharmonic, dirigida por Esa-Pekka Salonen, apresentou em quatro concertos no Barbican a integral das sinfonias de Sibelius. Salonen, esperadamente, fez uma leitura clara e imaginativa do seu contemporâneo mas foi a surpreendente excelência da orquestra americana o que mais impressionou. Salonen, no concerto de 1 de Novembro, apresentou a sua obra Wing on Wing e o meu conselho é que continue a ser um bom chefe de orquestra em vez de ser um mau compositor a vaguear por lugares desprovidos de originalidade e interesse. Já de Quatre Instants, para soprano e orquestra da compositora Kaija Saariaho, interpretada no concerto de 9 de Novembro, devo dizer que é uma obra inspirada e interessante na linha estética que a criadora tem vindo a desenvolver ao longo da sua carreira. Na voz tivemos uma fantástica Karita Mattila que soube investir toda a emoção que esta obra exige. A sala, esgotada, aplaudiu de pé. No concerto de 2 de Novembro tinha sido interpretada Radical Light, criação dotada de uma orquestração notável, do compositor Steven Stucky. Já que estamos a falar de obras contemporâneas devo referir o concerto de 27 de Outobro, no mesmo local, onde Anne-Sophie Mutter com a London Symphony Orchestra, dirigida por André Previn, interpretaram In tempus praesens (Violin Concerto No 2), de Sofia Gubaidulina, obra emotiva e forte que levantou das cadeiras o público que enchia a sala. Livios Pereyra


Mas que rico país...

Deputados vão gastar 18 mil euros por dia em deslocações. in Destak, 13 Novembro de 2007

Em época de contenção orçamental, e com a administração pública sujeita a restrições na aquisição de viaturas novas, por indicação do Decreto de Execução Orçamental para 2007, o ministro da Justiça acaba de comprar cinco automóveis topo de gama. O negócio, sem incluir o imposto automóvel (IA), de que as instituições públicas estão isentas, rondou um valor global de quase 176 mil euros (35 mil contos) e foi por ajuste directo, sem recurso a concurso público...

...um dos contemplados com um novo carro de alta cilindrada foi o presidente do IGFIEJ, com um Audi Limousine 2.0TDI, de 140 cavalos. Esta viatura, sem o IA, custou ao Estado 38 615,46 euros, com 2831 euros de equipamento opcional, nomeadamente caixa de 6 CD, computador de bordo a cores, sistema de navegação plus, sistema de ajuda ao parqueamento, alarme e pintura metalizada. Antes, João Manuel Pisco de Castro tinha ao seu dispor um outro Audi A6, com motorista de serviço, e um Peugeot 404, que conduzia pessoalmente. Estas viaturas tinham sido adquiridas em 2003. Mas também quatro Volkswagen Passat Limousine 2.0TDI - 34 257,40 cada -, foram para o Ministério: um para o gabinete de Alberto Costa, outro para o secretário de Estado João Tiago Silveira, outro para Conde Rodrigues, e o último para a secretaria geral.

O Ministério da Justiça, conforme foi explicado ao DN, recorre geralmente, para o seu serviço e inclusivamente para uso do ministro, a viaturas aprendidas, a maior parte oriunda do tráfico da droga. São, em geral, bons carros. Esta prática terá sido abandonada em época de contenção financeira. in http://dn.sapo.pt (2007/11/13)


E não é verdade?

Se os artistas se recusarem a pagar as sanções devem mesmo ser detidos, defendem os advogados. Os acusados foram autores de uma caricatura publicada como forma de satirizar o anúncio, por parte do Governo de José Luís Rodriguez, de que cada família iria receber 2500 euros de cada vez que tivessem um filho.

No cartoon aparece retratado Felipe e Letizia a terem relações sexuais, enquanto o príncipe diz: «Estás a ver? Se engravidares… isto vai ser o mais parecido a trabalhar que eu fiz na vida!». in http://sol.sapo.pt (3a-feira, 13 Novembro)









2007/06/16

Alfred Brendel contra a tosse

Talvez os "tossantes" não tenham percebido, mas a mensagem de Brendel ao levantar a mão era clara: ou se calam ou vou-me embora. Felizmente, entre os milhares que enchiam o renovado Royal Festival Hall, cuja sonoridade não melhorou sensivelmente, somente um ou dois exprimiram de novo a sua tosse, e com "surdina"... Apesar da brendeliana austeridade, as tosses foram menos que as notas erradas e esmagadas que Brendel deu ao longo do recital, para não falarmos da "passagem desaparecida" no primeiro movimento da sonata de Mozart. Acontece... O Haydn esteve mais ou menos bem. Anos-luz aquém daquilo que Brendel oferece nos discos... A op 110 de Beethoven foi tocada com muito cérebro e pouca emotividade. Não percebo porque é que um espectador, que estava ao meu lado a abanar-se e a mexer os dedos, como quisesse dizer "eu faria assim", se emocionou e chorou... O Schubert foi supremo. Brendel é um dos maiores shubertianos de sempre e isso ficou claro no "encore", que foi talvez o melhor de todo o recital. Os ouvintes ingleses são o que são... Depois de um "encore" fora de série, ovacionaram muito brevemente, levantaram-se e abandonaram a sala. Em contrapartida, fartaram-se de gritar bravos a uma sonata de Mozart cujo andamento central foi aborrecido e desprovido de veia... Livios Pereyra

2006/06/14

SHOSTAKOVICH PELA WIEN PHILHARMONIC

Dirigida por Bernard Haitink a orquestra vienese apresentou-se em Londres com uma primeira parte dedicada a Mozart, tendo na segunda sido interpretada a sinfonia 10 do compositor russo.

Vamos por partes, pois recentemente escutamos esta mesma sinfonia pela Orquestra do Concertgebouw, dirigida por Mariss Jansons, o seu titular actual.

O Mozart foi divino, como se costuma dizer. A sinfonia 32, em um andamento, foi interpretada de maneira deliciosa pelo genial agrupamento, na sua forma de orquestra reduzida, o mesmo se passando com o primeiro concerto para flauta que contou com o flautista Wolfgang Schulz, um flautista fabuloso e primeiro do naipe deste agrupamento.

Passemos agora a Shostakovich. A sinfonia 10 trata-se de uma das grandes obras do compositor, sendo simultaneamente uma obra fundamental daquilo que poderemos designar por estetica neo-classica. Trata-se de uma obra com uma estrutura bem mais consistente que aquilo que aparenta. Em termos de motivos deve ser dito que existe o motivo fundado no nome do compositor, recorrente nas suas obras, e existe um outro motivo formado de maneira encriptada sobre o nome de Elmira Nazirova, por quem Shostakovich nutria, no tempo em que criou esta sinfonia, especial afecto.
Diria que a forma como os dois motivos se confrontam a partir do terceiro movimento tem mais de afectos que de mensagem politica, se se pode falar em "mensagens" na obra do compositor. O motivo sobre o nome do compositor apresenta-se como corrosivo, explosivo, por vezes em pesados unissonos nas cordas, enquanto o motivo de Elmira se apresenta como temperado, apaziguador e aparece nas trompas. Este motivo, que surge no andamento lento (Allegretto) cria uma nova dialectica que domina a obra a partir do seu aparecimento, obra que vinha sendo determinada fundamentalmente pelo motivo do nome do compositor. Claro que outras coisas podem existir mas tentar a todo o custo querer ler mensagens subliminares na obra se Shostakovich pode nem ser uma metodologia que valha a pena continuar a explorar, limitando-nos a recepcionar novos dados objectivos, como cartas, notas escritas pelo criador, etc.
Creio que na altura escrevi que Jansons, "especialista" em repertorio da alemanha, seria um chefe-de-orquestra muito pouco consensual, se bem que na arte os consensos se possam dispensar, para dirigir Shostakovich. Depois de ouvir a Wien Philharmonic son batuta de Haitink, devo dizer que, definitivamente e sem colocar em causa a grande qualidade musical de Jansons, a leitura de Haitink foi milhares de vezes mais convincente, mais sentida, mais "profunda" e mais transparente. Claro que a Wien Philharmonic tem uma sonoridade singular mas, estou convicto, que foi a leitura do chefe-de-orquestra que mais contribuiu para esta antinomia na leituras desta mesma sinfonia.
Finalmente, mesmo a melhor orquestra do mundo pode ter falhas: no primeiro surgimento do motivo de Elmira o trompa a custo atacou directo a nota. Num resurgimento mais adiante o ataque delizou meio tom abaixo. Mas que foi isso tendo em conta a grande performance que o mesmo trompa garantiu ao longo de toda aquela genial leitura, feita pela Wien Philharmonic dirigida por Bernard Haitink, desta obra impressionante? Livios Pereyra