2005/03/10

DOIS PIANISTAS CONTRA A SOLIDÃO

A Associação Coração Amarelo que diz lutar contra a solidão dos idosos, promoveu um recital de dois pianistas para arrecadar fundos. Foi no Teatro São Luiz, dia 9 de Março. Fomos ao engano. Na realidade pensávamos que iamos a outro concerto. Depois de constatarmos o engano, fomos convidados a ficar.

Os intérpretes foram Domingos António e António Maria Cartaxo. Domingos António iniciou os estudos nos Eua onde nasceu há 29 anos e posteriormente fez o curso de piano no conservatório Tchaikovsky com o professor Dmitri Saharov, tendo-o concluído com a classificação de "excellent".
António Maria Cartaxo tem 17 anos e estuda em Bruxelas com Sergei Leschenko. Recentemente fez uma "master class" com Abdel Rahman El-Bacha (existe uma longa e interessante conversa nos nossos arquivos com este fabuloso pianista que no último festival de Sintra nos apresentou a integral das obras de Chopin).


Domingos António apresentou-nos um programa ambicioso: dele constavam a sonata número 28 de Beethoven e a "Sonata após uma leitura de Dante" de Liszt.
Começou com o momento musicalnúmero seis de Schubert onde revelou uma impressionante falta de compreensão dos fraseados e da melodia condutora da obra que por vezes se deixava de ouvir. Seguiu-se uma popular e banal "Avé-Maria" Schubert-Liszt da qual nada temos a dizer para além de que a banalidade da interpretação esteve a par da banalidade da peça.
Quanto à sonata de Beethoven temos de dizer uma coisa: não compreendemos como é possivel alguém que não controla o pedal misturando harmonias de forma grosseira e que é absolutamente incapaz de uma leitura musical e inteligente do grande compositor, acabe com "excellent" a graduação num conservatório que tem alguns alunos (e nós conhemos) que vão estar entre os grandes pianistas das próximas gerações.
Quanto á "Dante Sonata" obra de muitos artifícios mas pouca música, Domingos António conseguiu de alguma maneira recuperar do desastre que foi a primaira parte do seu recital. Este pianista defende-se bem nas oitavas e nas oitavas quebradas assim como nos trémulos de grande efeito sonoro que Liszt usa e abusa. Portanto o pianista conseguiu dar uma imagem de virtuoso que não é pois em muitos momentos ficaram bem patentes as suas debilidades técnicas. O público delirou com a "festa sonora" lisztiana e Domingos ofereceu-nos como bis um "romance" de Brahms cuja interpretação foi estranhamente má. Para acabar foi de novo Liszt, com uma rapsódia húngara onde ficaram patentes tanto as debilidades técnicas do pianista que tocou partes desta rapsódia a menos de metade do andamento perdendo-se o "fio melódico" mas que acabou em "pompa e circuntância", habilidade na qual mostrou ser mestre. E de novo o público se levantou aos bravos...

Vamos agora falar do jovem António Maria Cartaxo. Com os estudos opus 25 nº1 e opus 10 nº3 de Chopin o pianista revelou uma sensibilidade e uma musicalidade que nos fazem prever o advento de um grande pianista se continuar a ser bem orientado. El-Bacha é alguém que, nomeadamente em Chopin, o poderá aconselhar e dar orientações preciosas.
A técnica revelada nestes estudos é uma boa técnica que revela já consistência. No entanto o pianista necessita, em meu entender, de criar um som "maior" e abrir a "paleta dinâmica". Também me pareceu que a mão direita tem pouco "poder" o que levou ao esbatimento do argumento apresentado por esta mão na sessão B da Balada nº2. Os bons professores russos são mestres nisto mas necessitam do "tempero" de alguém como El-Bacha. Básicamente parece-me que ao nível de orientação António Maria está em boas mãos.
No início da já referida secção B da balada o argumento da mão direita foi "esborrachado" o que causou instabilidade na interpretação que o pianista conseguiu superar. Ouve outras "gaffes" mas ele conseguiu agarrar a sequência discursiva e manter o nível da interpretação o que é muito bom porque falhas acontecem sempre e há desde logo que saber superá-las.
Das Mazurkas opus 63, a nº 2 foi especialmente monótona mas a nº 3, que é bem mais "interessante"(neste caso bela), foi tocada com muita convicção e expressividade o que manteve o pianista dentro do elán expressivo que caracterizou toda a sua apresentação.
Com um professor russo não podia faltar o Scriabin grande e fabuloso compositor-pianista.
Os dois poemas opus 32 foram muito bem conseguidos por António Maria que no entanto no segundo poema não conseguiu ser absolutamente transparente. Há que ter cuidado pois a "transparência", a clareza dos fraseados mesmo nas partes de "muito som" é por vezes a ténue linha de demarcação entre o "bom mediano" que não deixará marcas e o excepcional. Agora que está prestes a acabar a formação secundária geral vai poder dedicar-se em tempo total ao piano. Por isso não esperamos dele menos que a excepcionalidade. Ast

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