2006/04/06

OBRAS ORQUESTRAIS DE MAGNUS LINDBERG

A editora finlandesa Ondine, para comemorar os vinte anos de existência, lançou um conjunto de re-edições a preços reduzidos que rondam os seis euros na Europa.
Numa dessas re-edições temos à disposição três obras de Magnus Lindberg, nascido em 1958, que é um incontornável do final do século vinte e também do panorama actual da criação musical mundial.
As obras abrangem o periodo criativo dos anos noventa. Feria de 1995 é uma obra de grande inspiração. Sensivelmente no meio, o som persistente de uma campaínha cria uma "tensão-ruptura" para pouco depois se escutar uma referência a Funeral Music for Queen Mary, de Purcell. A orquestração é prodigiosa, tanto nesta como nas outras duas obras incluídas no cd. Também em Corrente II, de 1991, se escutam referências à música setecentista. O trabalho harmónico denota a técnica de análise espectral. Lindberg foi um dos primeiros, senão o primeiro, a utilizá-la como ponto de partida semiológico-estrutural. Há no entanto uma "essência melódica" que é transversal ás suas obras. Os motivos são facilmente identificáveis e muitas vezes trabalhados ritmicamente de forma repetitiva, abrindo, pela exaustão relativa, brechas para um acontecimento novo ou a passagem a outro quadro sonoro. Estamos muito longe da monotonia e falta de imaginação das obras minimal-repetitivas, se bem que episodicamente o compositor utilize repetições com pequenas nunces que criam um "élan" interessante e eficaz.
Arena, de 1994, foi encomendada para a primeira edição do International Sibelius Conductor's Competition. Lindberg procura nesta obra um desenvolvimento de panoramas sonoros e orquestrais contrastantes, mantendo, aqui também, os aspectos melódicos em primeiro plano e remetendo-nos para rememorações de Berg, Mahler e Lutoslawski, cuja terceira sinfonia começa com um unissono muito mais lento mas com um efeito muito idêntico ao bloco harmónico que conclui Feria.
Estas três obras podem ser consideradas entre as obras primas mais interessantes da música do final do século XX, pela inventividade, pela orquestração, pelo eclectismo, pela musicalidade e pela grande intuição inteligentemente trabalhada.
A interpretação, excelente e inspirada, é de Jukka-Pekka Saraste, à frente da Finnish Radio Symphony Orchestra. AST
















DO SUBLIME

Hoje em dia é fácil e barato aceder-se ao sublime. Começo assim para desde já compreenderem que não se trata de uma dissertação pró-académica, provavelmente tão inútil quanto pretenciosa.
Aqui trata-se do sublime audível, visível e ao alcance de todos. Isto parece um slogan e lembra qualquer coisa estranha...
Vamos directos ao assunto, como de habitude.
Há uma colecção de estojos, de dez cd's cada um, por cerca de doze euros cada conjunto, chamada Documents, onde aparece um dedicado a Arturo Benedetti Michelangeli. Pronto. Não vale a pena continuar pois já todos compreenderam. Mas, para chatear, não vou acabar já. Interessante ouvir como um pianista fabuloso, um artista genial, nos dá uma interpretação pobre do Carnaval de Viena de Schumann...
Mas do estojo que tratamos terei de dizer um pouco mais, apesar de que escrever sobre este pianista para fazer um (mau) reparo justificaria o "post", uma vez que o "normal" é ouvirem-se e lerem-se laudas e outras celebrações mais ou menos efusivas à sua, pouco discutível, genialidade.
O cd 6, que contém as Baladas op 10 de Brahms é, para retornarmos à "normalidade", transcendente. Transcendente é o único adjectivo possível pois, mesmo quem não goste daquele autríaco, vai reconhecer que sob os dedos de Arturo Benedetti as páginas escritas por Brahms se transformam em algo de indizível, inqualificável, maravilhoso.
A sonata dois de Chopin, que vem no mesmo cd, é miraculosa, ainda que eu prefira uma gravação mais antiga, também "ao vivo", realizada em Arezzo, com o mesmo Benedetti ao piano.
A op 111 de Beethoven, que vem no cd 10, possuiu uma força implacável e foi gravada, "ao vivo", no ano de 1988, em Bregenz. Seguem-se cinco Mazurkas de Chopin numa visão tanto singular quanto assombrosa. Finalmente, uma interpretação arrebatadora da Ballada número um do mesmo Chopin.
Não ouvi o concerto de Lizt que remata este último cd. Depois da Ballada não ouvi mais nada. Nem o resto dos cd's que tinham ficado por escutar. AST

Nota: o estojo (de dez cd's) contém outras preciosidades. Ouçam-as. Mesmo que a qualidade sonora não seja a desejável...















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