2006/06/18

NIXON IN CHINA

A English National Opera (ENO) está a apresentar esta ópera de John Adams com encenação de Peter Sellers.

Antes de mais devo dizer que não sou exatamente um fã do minimalismo em música. Depois desta nota à-priorística posso passar a comentar a récita a que assisti ontem, 17 de Junho.

Se o minimalismo na "música pura" resulta, invariavelmente, numa "trágica monotonia da repetição" (a expressão é de Freud referindo-se ás patologias), na ópera pode, caso haja intuição, funcionar bem. Só assisti a uma outra ópera minimalista, "O Corvo Negro", se bem me lembro (esta expressão também não é minha como todos sabemos), de Phillip Glass, que foi, para mim, um autêntico embuste. No entanto, não há qualquer pertinência, neste caso, em estabelecer comparações porque se uma foi um embuste, outra, a que trato aqui, é uma obra acabada e conseguida.

Adams conseguiu uma interessante gestão das tensões devido à estrita conexão entre acção e movimento sonoro. Quando me refiro, no minimalismo, a movimento, estou a falar da alteração do quadro, da "paisagem" sonora. E nesta ópera, Adams revelou-se um mestre, mesmo quando parecia que estavamos a resvalar para o "dejá-vu", como referências tangênciais a outras obras, feitas em contextos muito particulares.

Mas Adams teve golpes de genialidade: no encontro entre Nixon e Mao a dobragem das palavras de Mao pelas três secretárias teve um efeito fortíssimo, que remete para a metáfora do "grande mestre", cuja voz ressoa, e não é por acaso que, no acto final, Mao re-aparece a dizer "eu não sou um". Também a figura de Mao, neste encontro, foi tratada de forma genial por Peter Sellars: uma figura em colapso que dizia tratar de filosofia e não de política: "Isso fica aqui para o primeiro", ripostou quando Nixon tentou abordar questões de política internacional. O primeiro (ministro) era Chou En-Lai...

Na grande recepção, sem a presença de Mao, as luzes da sala acenderam-se, gradualmente, fazendo o público sentir-se participante daquele momento da história, em que, primeiro Chou En-Lai, depois Nixon, fizeram declarações de amizade e respeito mútuo. Nixon foi mais longe dizendo: vi a China como um inimigo, afinal enganei-me. Todos nós participamos, retroactivamente, dessa união da diferença, da mesma maneira que todos nós participamos, desta vez como espectadores uma vez que a acção voltou a confinar-se ao palco donde afinal nunca chegou a sair, da percepção de uma ilusão, pela queda e morte de Chou En-Lai e pelo quadro árido em que o último acto se transformou, transformando-se simultaneamente numa subliminar metáfora a toda a política. Aliás a libretista fez questão em realçar a aspiração de Nixon à história. O mesmo Nixon que comparou a sua viagem e estadia na China à ida à Lua... Na verdade foi uma viagem para o incógnito pois, o programa esclarece-nos, quando Nixon iniciou a viagem o encontro com Mao não estava garantido.

Paul Daniel, o condutor, soube compreender bem os "movimentos", a "direccionalidade", do trabalho sonoro de Adams. Em primeiro lugar, devido a ele, esta produção foi uma excelente reposição de uma obra datada mas incontornável da história da música do século XX.

A orquestra e côro da ENO esteveram excelentes, uma excelência a que já estou habituado. James Maddalena que foi Nixon quando a ópera estreou, voltou a sê-lo de novo. Adrian Thompson foi o incrível personagem Mao Tse-Tung, revelando-se não só um grande cantor como um grande actor. A figura dramática de Chou En-Lai, tentando conciliar o inconciliável, foi desempenhada por Mark Stone. Henry Kissinger teve igualmente um desempenho notável por Roland Wood, que também apareceu como o vilão (não por acaso...) no "ballet revolucionário" oferecido aos visitantes pela mulher de Mao, personagem terrível desempenhada por Judith Howarth. Finalmente Pat Nixon (a esposa de Nixon) foi desempenhada, com convicção, por Janis Kelly. Falta dizer que o inteligente libreto foi de Alice Goodman, que também escreveu um dos textos do programa, programa este que é dotado de um raro interesse histórico e artístico. O público que enchia o Coliseum de Londres, uma sala dotada de de uma acústica invejável, aplaudiu com vigor esta produção que é, no mínimo, de interesse máximo. AST














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