2005/01/24

NÃO ME OUÇO A MIM PRÓPRIA




Sob direcção de Yuri Termirkanov esta orquestra apresentou-se ao público lisboeta num memorável concerto em que a Sagração da Primavera de Igor Stravinsky teve uma fantástica e genial leitura onde a potência e a precisão rítmica foram a marca da noite. De facto poucas formações têm esta capacidade rítmico-dinâmica, a capacidade de fazer subtéis nuances numa escrita em que o ritmo é o principal factor estruturante. Esta capacidade só é possivel devido à excelência de todos os membros da orquestra e evidentemente à direcção precisa, segura e assente numa clara concepção da obra por parte do director.

Na primeira parte tivemos o concerto para piano e orquestra de Schumann numa paradigmática e inspirada interpretação da grande pianista Eliso Virsaladze com quem conversámos.

Álvaro Teixeira: Eu sei que Sviatoslav Richter disse que a senhora é a maior pianista viva na interpretação de Schumann...


Eliso Virsaladze: Ó meu deus! É sempre a mesma coisa...


AT: Eu estive a assistir ao ensaio e achei bastante... Qual era a sua relação com Richter?

(risos)


EV: Era boa.


AT: Como pianista o que acha de Richter?


EV: Essa pergunta não é original. Só um idiota poderá pôr em causa que Richter não foi um dos maiores pianistas do mundo. Um pianista genial e espectacular.


AT: Tanto quanto eu sei na Rússia existia uma clivagem entre os admiradores do Richter e os do Gilels que são os dois dos maiores pianistas de todos os tempos.


EV: Não é nada disso. São dois pianistas muito diferentes e ambos muito bons. Trata-se de uma questão de preferência e de estilo. São ambos grandes pianistas.


AT: Nunca ouvi o Gilels ao vivo. Tive a felicidade de escutar duas vezes o Richter já com oitenta anos. Muito bom. Profundo e genial. Mas tocava um Chopin com muitas notas erradas. Por vezes parecia Debussy... Não será que ele devia ter parado a carreira antes de entrar numa fase em tocava com demasiados erros?


EV: Para começar Chopin não era nem o compositor preferido do Richter nem o que ele melhor interpretava. Mas mesmo os últimos concertos do Richter aos quais assisti foram muitos bons. Só por azar é que lhe pediram para fazer um programa com Chopin. O ter-se enganado não quer dizer nada. Ele foi sempre muito bom.


AT: A escola russa de piano é uma das melhores do mundo. Talvez a melhor. Mas não acha que é um pouco conservadora? Não me lembro de ter escutado pianistas russos a fazerem repertório da segunda metade do século vinte e contemporâneo.


EV: Não é bem verdade. Há muitos pianistas a tocarem repertório da segunda metade do século vinte. O problema é que ainda não há compositores da segunda metade do século vinte tão bons como os anteriores e por isso são menos tocados. Além disso os pianistas que se especializaram nesse repertório são menos conhecidos. Se fossem convidados para tocar nas grandes salas provavelmente ficariam vazias. Não há compositores tão reconhecidos como Stravinsky e Prokofiev. De resto Shostakovitch e Schnitke são mais clássicos que modernos.



AT: Quais são os seus compositores preferidos dentro do repertório para piano?


EV: Não existem compositores preferidos. O repertório para piano é imenso. Essa é uma pergunta para fazer aos violinistas e violoncelistas que têm um repertório muito mais restrito. Não é uma pergunta para fazer aos pianistas que têm um repertório imenso à sua disposição. Prefiro o que toco em cada concerto.


AT: Há pianistas que tocam mais Chopin. Outros preferem Liszt. Outros Schumman...


EV: Eu toco todos.


AT: Para si houve uma grande mudança, em termos do ensino e vida musical, na Rússia pós-Gorbatchov?


EV: Agora está tudo bem. Desde que não queiram transformar o ensino na Rússia à imagem do que se passa aqui, no Ocidente.


AT: Mas acha que o conservatório de Moscovo continua a ser o grande viveiro de músicos e talentos que era há vinte anos atrás?


EV: O conservatório de Moscovo continua a formar músicos talentosos e continua a ser um dos melhores conservatórios do mundo. No geral o mundo é que está pior, não é a instituição em particular que decaíu.


AT: Quais são os chefes de orquestra com quem gostou mais de trabalhar?


EV: Gosto de trabalhar com qualquer um com quem me entenda. Gosto muito de tocar com orquestras por isso desde que haja uma linguagem comum entre mim e o chefe de orquestra tudo bem.


AT: Quais são as gravações que realizou em disco e em cd que aconselharia aos leitores do meu blog? As que prefere e que gostaria que as pessoas escutassem?


EV: Nenhuma. Não me ouço a mim mesma por isso não sei aconselhar os outros a esse respeito.



Entrevista realizada com a gentil colaboração de Artem Khmelinskii que fez a tradução simultânea e a foto da pianista.