2005/01/15

Hiromitsu Agatsuma no Auditório Olga de Cadaval



Promovido pela Embaixada do Japão, Hiromitsu Agatsuma intérprete de Tsugaru-Shamisen, ofereceu-nos um interessante recital em Sintra que foi o concerto inaugural de "2005 EU-Japan Year of People-to-People Excanges".

O Tsugaru-Shamisen é um instrumento de três cordas dedilhadas com a ajuda de um plectro que é quase a imagem de marca deste género de Shamisen que é um pouco maior que o resto dos instrumentos denominados "Shamisen". Tsugaru porque este género de Shamisen foi desenvolvido na região de Tsugaru, no norte do Japão.

Existe um rico repertório folclórico que Agatsuma trabalha de forma virtuosística ao qual acrescenta algumas inovações sobretudo ao nível de repertório, o que levam a designá-lo como "intérprete de Tsugaru-Shamisen Contemporâneo".

Este recital foi enriquecido sobretudo pela presença de Kenichi Koizumi na execução de tambores japoneses. A sua performance, sobretudo nas peças de carácter tradicional, deram ao recital uma potência e uma acuidade impossiveis na ausência destas percussões. Já nas interpretação das obras de Agatsuma, algumas das quais revestiam um carácter fortemente "ocidental", a utilização destas percussões poder-se-ia questionar. Em determinados momentos pareceu-nos ouvir um "forcing". Já o instrumento de Hiromitsu conseguiu uma estranha adaptação a este género de repertório estranho à sua génese. Claro que nestas peças havia um piano de carácter eminentemente jazzístico sob os dedos de Yoichi Nozaki. Numa das composições de Agatsuma ouvimos harmonias muito parecidas ás dos Dire Straits e a execução de Agatsuma muito próxima da guitarra de Knopfler o que não deixou de nos impressionar. Noutras o pendor jazzístico era evidente.

Um arranjo especialmente bem conseguido e onde as percussões tradicionais conseguiram um grande envolvimento e efeito musical foi Libertango de Astor Piazzola que é música de enorme potência e impacto emocional, do qual este grupo nos deu uma interessante leitura com a sua sonoridade e estética peculiares.


A participação de Yuko Agatsuma na voz utilizando técnicas tradicionais de canto, foi também uma mais valia. Já a sua contribuição nas percussões (com uns guizos tradicionais e umas clavas) foi não só desnecessária como empobrecedora: limitou-se à quadratura, imprimindo pulsações regulares e previsíveis (ás vezes parecia um metrónomo...), coisa que empobrece qualquer texto musical seja em que estilo fôr. A sua contribuição vocal nas duas ou três peças em participou bastava para justificar a sua presença no concerto.


Este género de concertos, que infelizmente escasseiam em Portugal, são fundamentais não só para um (re)conhecimento da(s) música(s) e da(s) cultura(s) mas sobretudo para quebrar um certo isolacionismo estilístico que nos fecha os horizontes e nos impede o desenvolvimento das variadas formas de sensibilidade que se perdem se não forem estimuladas e desenvolvidas. Basta lembrar-nos de Debussy para percebermos o importância determinante que teve para ele o contacto com as músicas não ocidentais.
Mas mais do que isso o que está em causa é de facto a nossa capacidade ou incapacidade de disfrutar genuinamente de outras estéticas mesmo que elas já não nos cheguem no seu "estado puro". Mas a pureza é um conceito. Com o fosso que fatalmente permanece entre qualquer conceito e a "coisa em si" que ele re-inventa. AST















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