2004/11/17

UM ESTILO SEM CLAREZA MAS MUITO TEATRO


Dimitri Baskirov apresentou-se na Gulbenkian em Lisboa interpretando Haydn, Beethoven, Liszt e Debussy.

Em Haydn não o podemos acusar de falta de clareza na interpretação global, no entanto por várias vezes esmagou as sequências de escalas no desenvolvimento da sonata.

Apresentar em concerto a "Sonata ao Luar" de Beethoven é um acto de coragem. A falta de fidelidade às indicações da partitura não é em si grave quando assenta numa concepção singular e inspirada da obra. No início do primeiro andamento Beethoven é muito claro ao indicar que é um pianíssimo sem surdina. O pedal de sustentação só aparece na primeira sequência de arpejos ascendentes que não possuem qualquer indicação de "ralentando" ou de mudança de andamento. Aliás é pela manutenção da pulsação que se vai criar um progressivo efeito de tensão através de crescendos e da utilização do pedal. Baskirov praticou uma redução do andamento que anulou aquele aumento progressivo de tensão magistralmente concebido pelo compositor. Além disso usou surdina o tempo todo e serviu-se do pedal para criar um efeito "legatto" que tem de ser feito utilizando uma grande técnica de ligação das notas exclusivamente pela dedilhação e o "touché", tudo em dinâmicas de "piano". No terceiro movimento, os arpejos ascendentes iniciais que re-aparecem modulados ao longo de todo o andamento foram executados de forma plana e pouco clara. Arriscou e o público gostou mas a sua interpretação pode ser um exemplo daquilo que não se deve fazer nesta sonata.

Quanto ao Debussy o pianista primou quer pela falta de clareza quer por uma interpretação aos "solavancos" que não conseguiu transmitir-nos o universo de constelações sonoras, de nuances e "colorações" que fazem a magia desta música.

O que ficaram foram as imagens de um pianista cheio de gesticulações e performances corporais que consegue transmitir convicção a uma interpretação muito, muito longe mesmo de ser grandiosa. AST















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