2006/02/21

ORQUESTRA DO SÉCULO XVIII INTERPRETA MOZART

Hoje, 20 de fevereiro, o célebre agrupamento apresentou-se, com a sala principal praticamente cheia, na Casa da Música, no Porto, sem o seu carismático fundador e chefe de orquestra, Frans Brüggen, num programa totalmente preenchido por obras com pianoforte de W. A. Mozart.

Na primeira parte foi o concerto para piano e orquestra nº 26, k 537, conhecido como da "Coroação". Na segunda tivemos o quinteto para piano e instrumentos de sopro em mi bemos maior, k 452, que antecedeu o concerto para piano nº 20, k 466.

Um programa curioso. Não é de todo usual, na actualidade, escutarem-se dois concertos para piano no mesmo programa e ainda um quinteto a anteceder um dos concertos. A verdade é que foi uma grande decisão terem substituído o trio inicialmente previsto por este quinteto que raramente nos é possibilitado escutar ao vivo, se bem que o mesmo se passe com o trio k 498 para pianoforte, clarinete e viola que estava inicialmente programado. De todas as maneiras o quinteto coadonou-se mais com o espírito concertante do programa e foi, na nossa opinião, o "ex-libris" deste concerto.

Evidentemente que os executantes deste quinteto k 452, para pianoforte, oboé, clarinete, fagote e trompa, exceptuando o intérprete do teclado, foram elementos da orquestra do seculo XVIII que demostraram a sua excelência suprema na arte de interpretar Mozart com os instrumentos da época. Foram eles: Frank de Bruine no oboé, Eric Hoeprich no clarinete, Danny Bond no fagote e Teunis van der Zwart na trompa. O pianista, Kristian Bezuidenhout, no pianoforte, revelou intuição e musicalidade, conseguindo ora destacar-se ora fundir-se com o resto dos instrumentistas, contribuindo assim para um resultado que foi uma interpretação soberba, musical, perfeita e inspirada, desta obra belíssima e de grande génio.

Em relação aos dois concertos para piano deve ser dito de entrada que a não vinda do maestro só por si nunca prejudicaria a performance de uma orquestra coesa, composta por músicos de nível máximo, num programa onde existe sempre um instrumento solista. Isso ficou bem claro ao longo dos dois concertos. Os concertos para piano de Mozart eram dirigidos pelo próprio a partir do pianoforte ou do clavicórdio. O "busílis" da interpretação está, ou deveria estar, nos dedos e na cabeça do intérprete ao teclado. A verdade é que Paul Komen, o intérprete ao pianoforte nos dois concertos, não só não dirigiu o agrupamento, tarefa da qual se encarregou o primeiro violinista (no ensaio qualquer dúvida era esclarecida entre os quatro primeiros instrumentistas dos naipes das cordas), como demonstrou não possuir "carisma" para impôr a um agrupamento destes uma visão, se é que a tem, pessoal sobre os dois concertos que interpretou. A questão de não ter feito o "continuum"(*) seria irrelevante caso a sua interpretação revelasse singularidade e inspiração. Komen foi correcto e demonstrou ser um pianista muito razoável. Pouco demais quando se está acompanhado, ou a acompanhar, um agrupamento como a Orquestra do Século XVIII. Bruggen fez muito bem em não ter vindo. É que o maestro, por norma, não faz milagres. Bruggen já fez um que foi criar esta orquestra que é, desde que foi formada, uma das principais referências mundiais na interpretação da música "antiga" e "clássica", capaz de fazer interpretações do mais elevado nível na ausência da batuta do fundador. AST

(*) Acordes com função de acompanhamento que aparecem na partitura sob a forma de pequenos números, sobrepostos ou não, o que se referem a acordes diminutos estão barrados, que simbolizam os acordes e respectivas posições. Era hábito, na época de Mozart, o teclista executar estes acordes, enriquecidos com notas de passagem e ornamentos, nas partes em que o instrumento não está a desenvolver linhas e polifonias escritas pelo compositor. Os pianistas desde há muito que só executam o que foi escrito especificamente, não tocando o que está em cifra. Em muitas edições as cifras já nem aparecem. No entanto, ouve artistas (na realidade só possuimos um registo no qual o pianista concretiza o baixo cifrado com muita subtileza, passando quase despercebido) que fizeram o "continuum" em interpretações realizadas em instrumentos modernos. Por isso, numa interpretação sobre um instrumento da época, com um agrupamento utilizando "instrumentos históricos", poder-se-ia esperar que o intérprete ao pianoforte realizasse o "continuum".
















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