2005/04/22

O DELÍRIO DO KITSCH

Pierre Henri. Um histórico. O inventor da música electroacústica. Trouxeram-no a Lisboa para inaugurar a Festa da Música com a sua "10ª Sinfonia". Evidentemente entre aspas. Inspirou-se, diz ele, em Beethoven. No Ludwig. Naquele que dá o mote à festa da música deste ano.

Que nos trouxe Henri? Colagens. Colagens de excertos de obras do Ludwig com uns ruidos muito identificáveis que ele gravou lá no seu laboratório em Paris. O problema foi evidente. A estas colagens faltou a cola. Tudo se sobrepôs, presentificando-se num mesmo presente, mas não fundiu. Não se trata já do velho preceito inventado pelo mesmo Henri que nos diz que todo o material concreto utilizado deve, na obra final, estar totalmente metamorfoseado e não ser identificável. Não se trata já disto. Tratam-se de elementares questões de bom gosto no que toca ás densidades e à gestão de tensões, à organização das polifonias, à concepção formal e a resultante perceptiva na audição, enfim à maneira como se cria uma obra.

Mas Henri conseguiu surpreender-nos a todos. De repente pôs uma batida dance-rasca que pôs o René Martin a abanar a cabeça como se estivesse numa disco. Só lhe faltava mesmo um copo de whisky na mão. Talvez um gin-tonic... Gente do público ria-se, o meu amigo "melómano" na fila de trás parecida algo estupefacto mantendo-se muito silêncioso. O maestro brasileiro e a esposa pareciam consternados. Afinal tratava-se de Pierre Henri, não de um qualquer dj a fazer de palhaço.
Isto é patético, pensei olhando para a histórica figura que dava saltinhos cada vez que manuseava os botões da mesa de mistura e movia o pé ao som da batida. Sentia-me comovido e nauseado pelo ridículo daquilo tudo.

Ouve-se uma cabra berrar. Uma, duas vezes. Foi o auge, pensei. Mas não. Passados momentos voltou a cabra berrando ainda mais alto, desta vez ao som de chocalhos. Isto é que é o verdadeiro espiríto da 6ª que esse bacamarte do Ludwig não captou.

Muito tempo depois ouve-se um relógio dar horas.

- Sim já são horas de fechar a loja, comentei eu.

E fechou mesmo. Um estrondoso ruído de uma porta (esqueceste-te dos nossos suspiros de alívio, Henri) fez-nos perceber que a loja tinha de facto fechado. O público saíu sem aplaudir. Ast





Um e-mail que vale a pena publicar


Boa tarde caro Álvaro Teixeira,

antes de mais quero agradecer-lhe o facto de me ter acompanhado a mim a ao Maestro Atalaya até à praça de táxis, depois do "memorável" espectaculo. Apresento as minhas humildes desculpas pelo modo como me ausentei ontem. Não tinha contado com a demora depois do "espectáculo" e os transportes públicos não são de muita confiança. Mas foi agradável a conversa através do jardim até aos Jerónimos. Agradeço que apresente as minhas desculpas à jovem que acabara de chegar e que me deve ter considerado " um bicho do mato".
Memorável espectáculo, bom gosto timbrico e chocálhico nas cordas de um 10ª à moda moderna. Remix de salão com ovelhas e cabra à mistura ( pareceu-me a mim ). Concordo plenamente consigo "aquilo" foi horrível, intragável e de mau gosto estético. Alguém não acreditou que o Henri suportava todo aquele tempo em pé. Perdeu a aposta. Impávido e não acreditando que aquilo demorasse tanto tempo, ele lá conseguiu suportar. Acto heróico concerteza.
Lembro-me de uma visita de estudo que efectuei ao museu da Gulbenkian, estava uma exposição de Picasso. Uma grande quantidade de pessoas aglomerava-se junto a um quadro, aproximei-me mas não consegui ver nada, tal era a quantidade de entendidos. Esperei que eles saíssem e fui investigar o que tanto entusiasmava aquele público. Olhei e juro que não consegui ver coisa alguma, uma enorme tela com uma pinta verde no canto superior esquerdo, mais nada. Fiquei ali a tentar entender o porquê de tanto interesse. Uma senhora idosa aproximou-se de mim e perguntou baixinho " fantástico, não acha?", olhei para ela e respondi "pois, mas o que é que está pintado?". Olhou para mim espantada e disse " meu jovem,não está a ver? Aquela pinta representa uma grande dor no artista, você é que não percebe nada". E afastou-se.
Pronto! Nós é que não percebemos nada do concerto de ontem. Tá explicado. Os melhores cumprimentos. Antonio Feio

Nota do editor: não se trata do actor homónimo.









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