2005/05/27

ABERTURA PARA ORQUESTRA DE JOÃO DOMINGOS BOMTEMPO


Dia 26 a Orquestra Gulbenkian interpretou a Abertura para Orquestra em Dó menor do compositor português. Uma obra de grande talento e inteligente organicidade. Uma criação maior que demonstra que o português foi um compositor inspirado. Bem mais interessante e com mais "veia musical" que outros mais tocados e conhecidos. A orquestra parece ter preparado mal esta obra revelando sucessivas desafinações por parte dos primeiros violinos, "fenómeno" que não é de espantar nesta orquestra...
Seguiu-se o Concerto para violino op. 61 de Beethoven magnificamente interpretado pela célebre Viktoria Mullova que arrebatou a sala. É de facto uma imensa violinista e detentora de uma têmpera de grande artista. A prestação da orquestra foi razoável apesar das descoordenações no último andamento.
O programa acabou com as Danças Eslavas op.46 de Dvorák que não são, para mim, "grande música" mas tiveram uma boa interpretação por parte do agrupamento da Gulbenkian. Lawrence Foster, o maestro titular, foi eficaz. Ast




Um e-mail que vale a pena publicar

É de facto uma obra extraordinária. Sabe que Bomtempo não lhe chamou "Abertura"? O nome original é "Sinfonia para Huma Grande Orchestra". Sendo verdade que, no século XIX, era possível usar ambos os termos indistintamente, não vejo razões para não utilizar a designação original. Conhecendo bem o manuscrito original, acredito estarmos em presença do 1º andamento de uma das cinco sinfonias de Bomtempo que se perderam (!!!) já no século XX. (Ernesto Vieira afirma em 1901 existirem sete sinfonias; como só conhecemos duas...). Seria assim a "incompleta" de Bomtempo...
Há realmente duas passagens terrivelmente difíceis, tanto para os primeiros como para os segundos violinos (que nesta obra não podem fazer cera, têm mesmo de trabalhar tanto como os primeiros). Um abraço, e continue o seu bom trabalho de crítica inteligente e isenta. César Viana














Serviço público: Um taxista agrediu o proprietário de um conhecido bar na capital portuguesa de que resultou a morte da pessoa. Parece que em Portugal se está a fazer passar potênciais criminosos por "profissionais", o que é muito grave quando estão a desempenhar um serviço público e/ou ao público. Tudo questões de (não) educação e (não) formação básica. Que nos levam a questionar para que serve o ensino básico, universal, gratuíto e obrigatório em Portugal. Ou pelo menos a forma como funciona a dita educação básica e elementar que o estado disponibiliza gratuitamente para todos os que a sabem aproveitar mas também para aqueles que não a querendo disfrutar de forma positiva e criativa a "abandalham" e impedem os colegas de se desenvolverem plenamente. O editor.















2005/05/21

ANTÓNIO PAPPANO DIRIGE A ORQUESTRA SINFÓNICA DE LONDRES

Actual titular do Convent Garden, Pappano teve uma actuação fantástica à frente da justamente célebre sinfónica inglesa que nos trouxe obras de Bernstein, Chostakovitch e Rachmaninov. Pappano revelou-se um dos principais e mais prometedores chefes de orquestra da actualidade, onde a absoluta precisão se alia a uma grande inteligência e musicalidade.
On the Waterfront é uma espantosa Suite Sinfónia de Leonard Bernstein que teve nestes intérpretes uma leitura deslumbrante que hipnotisou a grande sala do Coliseu de Lisboa onde se viam algumas clareiras na plateia.
O Concerto para Violoncelo e Orquestra nº1 de Dimitri Chostakovitch, do qual falamos recentemente, teve como protagonista a jovem Ha-na Chang, Coreana, 22 anos, que levantou o público das cadeiras. A sua técnica suprema e a sua intuição musical fazem dela uma grande artista mundial da qual muito há a esperar.
Finalmente a Sinfonia nº2 de Sergei Rachmaninov, que é uma obra longa e formalmente pouco consistente, teve nesta formação uma leitura grandiosa que conseguiu "encher as medidas" de toda a sala. Apesar da obra...
Um concerto de primeiríssimo plano que foi um dos grandes acontecimentos da temporada que agora acaba. Ast















OUÇAM A SOMA DOS SONS QUE SOOAM


É este o título da obra de Jorge Peixinho interpretada pelo Remix Ensemble na Gulbenkian.

Foi um momento em que de alguma maneira se homenageou o compositor prematuramente falecido e também um momento em que podemos uma vez mais compreender aspectos da estética musical de Peixinho. Ele tinha uma capacidade interessante em lidar com a grande forma. A peça com cerca de 15 minutos em um único andamento, onde não existem roturas temáticas substânciais, atesta-o.

Basta comparar com todas as outras obras apresentadas onde ou havia movimentos claramente demarcados ou existiam cortes temáticos evidentes que introduziam a variação e o contraste. A metamorfose em Peixinho acontece dentro e partir do mesmo, o que gera uma consistência elevada mas também é um risco que a não ser bem gerido pode criar uma sensação de monotonia. Tal não acontece pois o compositor era mestre na gestão da tensão. Esta obra é só uma amostra do talento e capacidade de um criador que trabalhou pouco ao nível sinfónico graças a um país que não o soube estimar.

O espectáculo acabou com o Concerto para Clarinete de Elliott Carter, que é uma interessante obra onde o contraste e as oposições solista/agrupamento ou naipes são concebidas de maneira inteligente e eficaz, resultando numa criação de interesse máximo. Ast















SINFONIA 14 DE CHOSTAKOVITCH COM BORIS MARTINOVICH E MIHAELA KOMOVAR


A Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida por Brian Schembri, re-criou esta obra genial dia vinte na aula magna da universidade de Lisboa, tendo como solistas aqueles fabulosos cantores.

Martinovich demonstrou por que é considerado um dos melhores baixos-baritonos da actualidade. Com uma voz potente mas clara, bem colocada e expressiva, foi protagonista de alguns dos momentos mais emotivos deste concerto. Komocar, a surpresa, trata-se afinal de uma soprano grave capaz de performances do mais elevado nível, devendo-se a ela em grande parte a grandiosidade deste espectáculo.

Esta criação inteligentemente contrastante, densa e com elevada consistência formal, como todas as sinfonias do compositor, pode ser de alguma maneira comparada ao Canto da Terra de Mahler. Estilísticamente são bem diferentes, mas em termos conceptuais podem-se estabelecer parentescos evidentes. Esta sinfonia número catorze é uma impressionante obra lírico-sinfónica de grande impacto emocional. A leitura que nos foi oferecida (literalmente pois foi um concerto de entrada livre) foi inteligente, musical e fez juz a esta obra principal da arte musical.

A orquestra (cordas e percussões) entregou-se totalmente e o maestro foi eficaz e preciso, revelando ter estudado bem a obra, o seu estilo e o seu "espirito". Para resumir basta dizer que foi uma grande interpretação.

A primeira parte foi preenchida com o concerto número um para violoncelo e orquestra do compositor russo sendo Irene Lima a solista. Trata-se de uma obra de elevado grau de dificuldade para o violoncelo solo. Irene Lima revelou-se uma excelente artista. No entanto este concerto exige uma técnica mais apurada, sobretudo nas tessituras sobre-agudas. A orquestra esteve muito bem, com um naipe de madeiras que uma vez mais demonstrou ser excelente. A trompa cumpriu com honestidade e as cordas revelaram-se coesas.

O público presente ovacionou longamente (e justamente) os protagonistas deste grande concerto que nos deixa a pensar como as imagens e as virtualidades condicionam totalmente os comportamentos do público português. A sala que leva muitas centenas de espectadores, tinha apenas algumas dezenas. Perderam (e muito) os que faltaram. Não só perderam um grande concerto sinfónico no qual foi interpretada uma obra fantástica, como perderam o que para mim foi claramente o melhor concerto lírico-sinfónico da temporada e o melhor evento de toda a temporada lírica portuguesa. Agora que se agarrem ás suas imagens (e aos respectivs cd's). Ast















JORGE MOYANO INTERPRETA CHOPIN

Acompanhado pela Orquestra Gulbenkian o pianista interpretou no dia 19 o concerto nº2 de Chopin (que na realidade é o nº1).
Se no primeiro andamento o fraseado de Moyano foi pouco transparente e demasiado linear, já no segundo o intérprete deu-nos uma leitura do "larghetto" plena de poesia. Também no terceiro andamento Moyano teve uma boa performance conseguindo um contraste eficaz e um movimento ritmico convincente. Este concerto é particularmente bem orquestrado. Dizer, como se pôde ler nas notas do programa, que em Chopin "a orquestração é débil" e que nunca há "de facto" diálogo entre o piano e a orquestra é uma tonteria que até o ouvinte desprevenido compreende ser uma idioteira total. É esse o cliché do final do romantismo. Que Chopin não sabia ou não se interessava pela orquestração. Mas isso foi um cliché de há cem anos atrás! Nada mais absurdo e basta ouvir o primeiro movimento para perceber que as intervenções do fagote, do oboé e do clarinete são "diálogos" com o piano. A orquestração do segundo movimento é absolutamente espantosa: trata-se aí sim quase de puro acompanhamento, mas um acompanhamento que contribui decisivamente para todo o balanceamento estrutural do movimento. Só um idiota não compreende isso e pode dizer barbaridades como as que se lêm no programa do concerto. Também no terceiro movimento a orquestração é absolutamente eficaz contribuindo para o contraste dançante dos temas. Chopin esse demasiado inteligente para o caso de não ser necessário uma orquestra para os seus concertos de piano, prescindir dela, como o fez Schumann no seu concerto sem orquestra.
A Orquestra não esteve mal, apesar da não direcção de Scimone que está doente mas sempre dirigiu assim ou seja, incrivelmente mal, sem alma, batendo desacertadamente o tempos (nem sequer marca os compassos), arrastando-se atrás da orquestra que se não se segurar por ela própria entra em colapso e pára. Aliás espantou-me a boa performance no Idilio de Siegfried de Wagner que abriu o concerto pois as cordas estiveram excelentes numa obra em que os violinos, especialmente os primeiros, têm um papel fundamental.
Mas nada justifica a grosseria dos músicos da orquestra que foram incapazes de se levantar e oferecer uma cadeira ao maestro, nitidamente doente, depois deste ter pedido ao pianista um extra (para contentamento de uma sala repleta de público entusiasta) e ficou de pé, durante longos momentos, a escutá-lo num "encore" de Chopin (uma grande valsa) onde o intérprete demonstrou a sua profundidade de leitura e a sua grande intuição musical. Ast




"Quando pudermos ver nos ecrãs o equivalente à Vida de Brian, com Maomé como protagonista, realizado por um Theo van Gogh árabe, então teremos dado um grande passo." do livro De Maagdenkooi (A jaula das virgens) de Ayaan Hirsi Ali, citada no volume seis da edição portuguesa do Courrier Internacional














2005/05/06

SAKARI ORAMO DIRIGE SIBELIUS E MAHLER

À frente da Orquestra Gulbenkian o conhecido maestro finlandês apresentou-nos A Filha de Pohjola e Luonnotar de Jean Sibelius, esta última com a participação da soprano Anu Komsi, da mesma nacionalidade.

A primeira obra é uma criação onde a magia está presente no discurso musical e na fantástica orquestração do compositor finlandês que encontra neste director um intérprete que intui a "essência" do seu espírito musical e criativo. Uma obra maravilhosa onde o maestro arrancou a orquestra de um certo amorfismo e a ganhou para uma interpretação totalmente conseguida pese algumas falhas irrelevantes no conjunto.

Luonnotar é uma obra dotada de um certo dramatismo imbuído de mistério. Trata-se de um outro espírito distinto das "paisagens" mágicas da obra anterior. Luonnotar é uma obra "profunda" e na medida em que todos os cisnes são brancos até que nos apareça um negro, a "profundidade" costuma andar de mão dada com o drama sendo que o "mistério" pode coexistir tanto com o drama, como com a magia. A escrita da voz move-se nos registos agudos contrapostos às tonalidades "profundas" e graves da orquestra. Apesar de considerada "especialista" em Sibelius a voz de Komsi é, nos agudos, demasiado aberta e pouco timbrada não conseguindo transmitir-nos o mistério colorido de drama (a criação pode também ser um drama. Ou o início dele...) que suporta esta obra, também ela de alguma forma maravilhosa.

Depois do intervalo Oramo dirigiu a Quarta Sinfonia do maior sinfonista de todos os tempos: Gustav Mahler. Desde já devo realçar que este concerto foi talvez o momento alto da actuação da Orquestra Gulbenkian ao longo da temporada que está prestes a terminar. Como à partida isto não diz muito (pode-se talvez deduzir que devo ter gostado) vou tentar desenvolver.
Esta sinfonia é a de execução mais simples (isto é: menos problemática) e é a mais curta do ciclo das sinfonias de Mahler (é disso que se trata: deram-se conta que logo no primeiro andamento o trompete enunciou textualmente o primeiríssimo tema da quinta sinfonia). No entanto possui um poderoso adágio (Ruhevoll) em que as cordas garantem o fundamento e a continuidade discursiva. Um "cluster tonal" impressionante introduz-nos na coda que termina o andamento e nos conduz de imediato ao movimento final que o criador indica como "muito agradável" e que foi extraído do ciclo Des Knaben Wunderhorn.
A direcção de Oramo demonstrou-nos que este director é já um grande chefe de orquestra. Talvez por isso conseguiu deste agrupamento da Gulbenkian um prestação bem acima do habitual. A tranquilidade suspensiva que conseguiu no adágio que afinal aparece como um "tranquilo" foi notável. As respirações a que induziu a orquestra e que pontuavam um discurso de uma "tranquilidade profunda e sentida", surpreenderam-me. Quando este andamento estava para começar e os músicos estavam já de instrumento debaixo dos maxilares (concerto de quinta), o maestro sorrindo colocou as duas mãos sobre a estante da partitura obrigando-os a colocar os instrumentos em posição de "attente" pois quem dá a entrada é ele e não a pressa dos músicos, mostrando-lhes desta maneira que iam para um "tranquilo" reflexivo, como toda a música de Mahler. Sem essa compreensão não existe interpretação mahleriana. A Orquestra Gulbenkian teve sorte. Teve sorte em ter Oramo a dirigir Mahler. E teve sorte porque com um maestro qualquer de terceira categoria esta interpretação poderia não passar de uma amálgama sem espírito, sem "substância" e logo sem sentido. Assim o agrupamento da Gulbenkian aproxima-se do fim da presente temporada com a "cotação em alta".
Individualmente tenho de salientar todo a performance do oboísta Pedro Ribeiro. Com este intérprete a Gulbenkian tem garantida pela tabelagem mais elevada a continuidade do trabalho iniciado por Swinnerton. Pessoalmente gosto bastante mais do desempenho de Ribeiro que de Swinnerton. O primeiro fagote esteve muito bem, o mesmo se passando com o corne inglês e as flautas. O clarinete de Esther Georgie... nesta obra esteve bem. Pois. Numa obra em que o autor pede frequentemente um som aberto, rústico e com um toque de agressividade, a primeira clarinetista sai-se bem. Muito bem esteve o clarinete baixo. Jonathan Luxton o "número um" do naipe das trompas merece um bravo. Malher exige sempre um trabalho solista por parte do primeiro trompa e Luxton correspondeu. Todo o naipe das trompas, com uma única ressalva no concerto de quinta, esteve bastante bem. Os trompetes, como habitualmente, com o Stephen "à cabeça", estiveram excelentes. Igualmente para a harpa e para os percussionistas com Voss nos timbales. As violas e os contrabaixos estiveram bem. O naipe dos violoncelos no conjunto revela uma sonoridade pouco homogénea, pouco redonda e pouco consistente. Uma situação estranha dado que é um naipe constituído por bons músicos. Os violinos estiveram regulares conseguindo fraseados nos pianíssimos do terceiro andamento que muito contribuiram para a boa performance global. Não gostei do solo do concertino principal no início do segundo andamento: ríspido como deveria ser mas tenso e quadrado. Gostei bem mais do solo da concertino auxiliar que tem um fraseado mais flexível e com mais "alma", coisa que parece ter-se ausentado do concertino principal. Anu Komsi no andamento final esteve melhor que em Sibelius. Trata-se de um canto que se movimenta sobretudo nos registos médios onde a artista denota um timbre bem mais suportado e cheio.

O balanço final, como agora se deduz fácilmente, é francamente positivo e surpreendi-me de algum modo ao escutar esta orquestra a tocar Mahler bem acima daquilo que normalmente esperaria. Não se esqueçam de enviar ao maestro um ramo de flores gigante. Pode ser que ele volte.


Referências discográficas para esta obra? A preços simpáticos?

Sem hesitar uma "referência entre as referências": George Szell à frente da Cleveland Orchestra com a soprano Judith Raskin. Um deslumbramento. Este cd oferece como "bónus" os Lieder eines fahrenden Gesellen por Frederica von Stade numa interpretação inesquecível. Re-edição na colecção essential classics da sony (ou a que a substitua actualmente). Colecção esta onde também pode encontrar a sexta sinfonia de Malher pelo mesmo agrupamento e maestro numa interpretação considerada uma das "referências absolutas".

Porém... a minha interpretação favorita da 4ª sinfonia é a de Klaus Tennstedt à frente da Philharmonia Orchestra num duplo cd da emi (colecção double forte) a "preço simpático". Duplo cd este que também tem uma interessante interpretação da 3ª sinfonia. O único senão é a presença de Lucia Poop no andamento final da 4ª sinfonia... Quanto à 3ª, entre as versões que tenho, recomendo a de Armin Jordan à frente da Orquestra da Suisse Romande que inclui uma fabulosa interpretação da Sinfonia Lírica de Zemlinsky. Uma re-edição económica da Virgin Classics. Ast









2005/05/05

FELICITY LOTT EM LISBOA

A famosa "diva", acompanhada ao piano por Graham Johnson, ofereceu-nos o segundo melhor acontecimento da temporada lírica portuguesa (o primeiro já o referenciei um pouco mais acima). Foi dia 3 na Gulbenkian (para não variar) e a escolha do repertório denota a enorme inteligência destes dois intérpretes de referência na arte do "lied". Poder-se-ia dizer que foi uma colagem de canções, como fizeram outras "divas". Seguramente que o foi. A questão diferencial reside não só nas canções escolhidas mas também na sua sequenciação e na forma ininterrupta como foram apresentadas, evitando aplausos e tosses convulsas. Mas não só. Os Drei Lieder der Ophelia de R. Strauss tiveram aqui uma leitura só comparável a interpretações "míticas" de artistas já desaparecidas ou que já não actuam, como Elisabeth Schwarzkopf. Para isso muito contribuiu o piano de Johnson que na actualidade é talvez o melhor pianista acompanhador de "lied". Mas também nas canções de Wolf, Hughes, Bliss, Britten e Weill, Lott demonstrou estar muito para além do vedetismo fútil das divas vulgares que cobram milhões para entreterem o público das peles de marta que felizmente não é o "público típico" em portugal. Felicity Lott demonstrou estar na sua maturidade técnica e interpretativa e ser uma cantora dotada de inteligência e intuição musical. Qualidades que não são evidentes em grande parte dos cantores/as líricos/as do nosso tempo. Com isto não estou a promover Felicity Lott a "maior cantora da actualidade". Essa "elevação" guardo-a para outras duas: Karita Mattila e Magdalena Kozena. Ast











2005/05/03

XENIA ENSEMBLE E CHAMANISMO

Em tempos alertei para o bluff que poderia vir a ser um concerto que incluía "canto xamânico", apesar de o ter aconselhado. Posteriormente retirei o artigo em que fazia recomendações de concertos depois de constatar a mediania das interpretações de alguns dos artistas que tinha recomendado.

Na realidade este concerto do Xenia Ensemble foi um concerto bastante interessante que me fez lembrar as performances da minha falecida professora Constança Capedeville, injustamente esquecida do panorama musical português. A Constança tem obras bem mais conseguidas (Libera me e Amen para uma ausência, por exemplo) que as apresentadas no concerto deste ensemble. Algumas dessas obras foram alvo de uma edição em cd que actualmente não só é uma raridade com é uma preciosidade musical. Apesar de muitas vezes inspirada nos cânticos e recitativos dos monges budistas Constança Capedeville teve a ombridade de nunca relacionar as suas obras com budismo ou qualquer outra corrente "trancendental" bem em moda. A Constança era uma pessoa de grande desenvoltura espiritual e acreditava profundamente no que fazia como também em alguns aspectos das doutrinas orientais das quais nunca se serviu para "comercializar" a sua obra.

Depois desta "introdução" posso continuar a escrever um pouco mais sobre o concerto de 2 de Maio na Gulbenkian.
Cheguei atrasado. O que ouvi da obra de Franghiz Ali-Zadeh foi demasiado pouco e insuficientemente impactante para tecer quaisquer considerações sobre a peça Mugam Sajahi desta compositora. Compreendo bem a atitude de resistência face ao comunismo soviético que procurou esmagar todas as formas de religiosidade e que foi responsável pelo extremínio de parte da tradição chamânica siberiana assim como responsável pela contaminação radioactiva de parte da Taiga siberiana. Um acto de "ressuscitamento" só por si não é uma obra de arte. Mas, tal como acima escrevi, só assisti ao final da criação de Ali-Zadeh que nasceu em Baku (Azerbaijão, segundo as notas do programa).

Seguiram-se duas deliciosas peças de música tradicional chinesa interpretadas em pipa pela excelente Liu Fang. Uma artista dotada de grande técnica e subtileza que nos ofereceu momentos belíssimos entre as duas obras do "menú".

No que respeita à Ghost Opera de Tan Dun já foram referidos os aspectos performânticos "para além da música" que estiveram tão presentes em toda a obra de Constança Capedeville, investidos aqui de um simbolismo mais forte que na obra da minha falecida professora onde a performance por vezes era algo gratuíta e excedentária apesar de musicalmente as suas obras serem na generalidade mais interessantes, intensas e emotivas que esta Ghost Opera que obedeceu a um esquematismo gráfico-conceptual que em meu entender não garantiu suficientemente a consistência da obra. Obra que no entanto não deixou de ser um trabalho interessante e certamente gratificante para todos aqueles que se deslocaram à Gulbenkian. Finalizo com palavras do autor, extraídas do programa do concerto: "A tradição da ghost opera recua a milhares de anos: o actor da ghost opera entra em diálogo com a sua via passada e futura - um diálogo entre passado e futuro, espírito e natureza. Quando a Ghost Opera foi estreada em Beijing, 1500 pessoas na sala conheciam a canção popular e reconheceram a antiga tradição, mas não sabiam que um quarteto de cordas podia tocar rochas, juntamente com Bach e tocar papel, gongs, água e voz". Ast











2005/04/28

GOSTAVA DE FAZER MAIS TRABALHOS SINFÓNICOS

Peter Neumann esteve na Festa da Música a dirigir o Kölner Kammerchor e o Collegium Cartusianum que foram protagonistas dos melhores momentos desta festa. Como tinha decidido fazer uma só entrevista a escolha só poderia recair sobre este grande músico com o qual me cruzei por acaso num concerto de outro agrupamento.


Álvaro Teixeira: Ouvi-o a primeira vez em Bach. Já não me lembro o quê. Era um cd de uma editora alemã. Fiquei impressionado.

Peter Neumann: Talvez a Paixão Segundo São João...

AT: Exatamente! Gostei muito de facto.

PN: Obrigado. Muito obrigado.

AT: Finalmente encontro-o aqui em Lisboa e ontem escutei dirigidas por si uma maravilhosa, uma genial, leitura da oratória e da missa em dó de Beethoven. Mas... você faz frequentemente os clássicos como Beethoven?

PN: Beethoven não tanto. Fiz a Missa Solemnis, a Missa em Dó e a cantata para o Imperador. Fiz muito Mozart. A integral das missas para a emi.

AT: Prefere as obras com côro e cantores?

PN: Sim. Tenho um côro o Kölner Kammerchor e trabalho muito com eles. Normalmente estou ocupado com este género de repertório mas gostava de fazer mais trabalhos sinfónicos. Também fiz a segunda sinfonia de Beethoven.

AT: E com este grupo com quem tocou a missa e a oratória? Dirige-os frequentemente?

PN: Collegium Cartusianum.

AT: Exatamente. São geniais!

PN: Sim, sim. Normalmente os meus concertos são feitos com eles. Juntam-se nestas ocasiões.

AT: Nunca pensou, por exemplo, fazer a integral das sinfonias de Beethoven?

(risos)

PN: Ainda não, ainda não... Ainda não me solicitaram isso.

AT: É pena porque achei a sua direcção genial. Daquele fabuloso grupo que toca nos instrumentos antigos. Tudo perfeito. Os tempos, as dinâmicas, os ataques... Por isso espanta-me que não o convidem para fazer uma integral das sinfonias de Beethoven.

PN: Já existem muitas integrais dessas sinfonias.

AT: Seria mais uma de grande nível.

PN: Sim. Se me pedirem posso pensar no assunto.

AT: Você faz concertos sobretudo na Alemanha ou por todo o mundo?

PN: Sim. Na Alemanha. Também na Foule Journée em França e na Itália fizémos muitos, muitos concertos. Agora menos. Na Alemanha fiz muito Haendel, muitas oratórias. Gosto muito das oratórias de Haendel.

AT: Eu também. Quais são os seus projectos para o futuro próximo?

PN: Faremos a oratória de Haendel, Débora, em Novembro. Faremos a Paixão segundo São João em St. Peteresbourg e Moscou em dez dias. O próximo ano será um pouco mais calmo. Espero fazer Saúl de Haendel na Festa da Música. Também em Nantes e em Bilbao.

AT: Creio que não é suficientemente conhecido no mercado francês...

PN: Tivémos muito boas críticas em França para os oratórios de Haendel...

AT: Imagino...

PN: Sobretudo na "Réportoire". Gostaria muito de fazer as óperas de Mozart. Isso agradar-me-ia muito.

AT: Na actualidade há uma enorme onda de grupos que se dedicam a tocar nos instrumentos da época, supostamente ao estilo da época. Sobretudo na Europa, nos Eua não sei, mas que pensa desta explosão de músicos que buscam uma suposta autênticidade?

PN: Penso que é uma maneira de dar uma vida nova à música. Creio que é muito bom. No princípio era de cariz mais historicista mas agora há a maneira de tocar, as colorações, fazem-se interpretações modernas, de hoje.

AT: Conheço muitas orquestras alemãs que ouvi aqui e na Alemanha, sobretudo orquestras convencionais. Mas... todas as que ouvi são excelentes. As melhores entre as melhores!

(risos)

AT: Mas é verdade. Nem sequer falo na Berliner Philarmoniker... Há dois anos escutei a Orquestra Sinfónica de Berlim que acabou de falir. Que tem a dizer sobre isto?

PN: Certamente que é uma pena mas creio que vai haver uma mudança na construção e funcionamento das orquestras. Em trinta anos, não sei, haverá mais formações como a nossa que se juntam para um projecto concreto mas os músicos mantêm as suas actividades noutras orquestras, agrupamentos e no ensino. Haverá menos orquestras das cidades pagas pelo governo das cidades. Haverá mais orquestras de "mercado livre", constituídas por free-lancers.

AT: Ha!!! A sua orquestra é privada!

PN: Foi formada para um projecto. Os músicos tocam noutras orquestras.

AT: Acabou de me dizer que esta orquestra que dirigiu não tem um trabalho em permanência!

PN: Não. Não tem.

AT: Incrível!

PN: Sim. Mas tentamos sempre chamar os mesmos músicos para os diversos projectos. Desde que eles estejam disponíveis.

AT: Estou espantado. Eles revelam uma invulgar coesão de conjunto...

PN: Sim. É desta maneira.

AT: Isto é uma questão estranha mas... você ouve música contemporânea? Dos séculos vinte e vinte e um?

PN: Do século vinte escutei em Berlim e em Paris, escutei muitas obras da escola de Viena. Estudei também na classe de Messiaen. Durante um mês. E depois com Maderna e Boulez. Foi em 65/66. Toquei muito Messiaen no orgão também.

AT: Que pensa da construção europeia?

(risos)

AT: Ao nível cultural o que é que espera?

PN: É uma questão demasiado geral...

AT: Ao nível dos intercâmbios. Eu espero que você venha mais vezes a Portugal, por exemplo.

PN: Sim. Isso seria muito bem. Mas existem impostos que nos impedem. Impedem-nos de ir, por exemplo, a Itália onde se tem de pagar 30% de impostos. Muito mais que aquilo que pagamos ne Alemanha. E isto impede-nos de ir.

AT: Talvez uma Europa Federal com leis e impostos uniformes resolva isso...

PN: Pode ser, pode ser...

AT: Esta-me a dizer que em Itália paga 30% de impostos sobre o cachet que lhe pagam e aos músicos...

PN: Sim. Desta forma saímos demasiado caros ou então ganhamos demasiado pouco. Aqui e em Espanha não sei.

AT: Eu também não. De uma maneira geral o que pensa da actualidade musical não sómente ao nível da música antiga mas também ao nível das grandes orquestras românticas. Pensa que actualmente existem formações ainda melhores que há vinte anos?

PN: Sim. Eu penso que o nível técnico é verdadeiramente mais elevado. Mas ao nível da expressividade creio que se perdeu. Por vezes é somente a técnica. Mas também as gravações exigem que os concertos estejam ao nível dos registos.

AT: Acha que esqueci alguma pergunta? Quer dizer algo que ache importante?

PN: Não sei...

(risos)

AT: Gostou de estar nesta Festa?

PN: Muito. Gostei muito. Viémos aqui três vezes a Lisboa, quatro a Nantes e três a Bilbao e é verdadeiramente uma grande festa. Gostei muito.

AT: E para mim foi um grande prazer esta pequena conversa consigo que protagonizou os que foram para mim os melhores momentos desta Festa. Muito obrigado Peter Neumann.

2005/04/26

BEETHOVEN POR RUDOLF SERKIN


Pianista pouco conhecido entre nós e que no entanto é um dos "grandes absolutos" de todos os tempos, tem uma peculiar abordagem do compositor alemão caracterizada por uma depuração que muitos referiram como uma tentativa de anular a sua personalidade para que o resultado fosse "a música". Claro que da sua personalidade única faz parte essa modéstia e humildade extremas de alguém que procura de alguma maneira desaparecer para deixar a obra no "estado puro". Depois de uma Festa da Música com interpretações más ou medianas das sonatas para piano de Ludwig não poderia deixar de referir algumas gravações do grande Rudolf Serkin, todas a preços convenientes.

A aura-music tem editado um recital ao vivo de 1957 no qual é interpretada de uma forma miraculosa a sonata Apassionata. Contém peças de outros compositores. Uma preciosidade por cerca de sete euros em que se pode ter uma ideia da dimensão real deste imenso pianista.

A sony na colecção essential classics re-editou a sonata "patética" e a "hammerklavier" com leituras deslumbrantes do grande artista.

Foi também a sony que há anos colocou no mercado "The Unreleased Studio Recordins" onde nos três cd's, entre várias sonatas para piano, estão incluídas a primeira e as três últimas. Tratam-se de interpretações históricas e geniais.

Finalmente a telarc editou os concertos para piano onde Rudolf Serkin é acompanhado pela Boston Symphonic Orchestra dirigida por Seiji Ozawa. Estes registos receberam Awards 2004 da Gramophone além de um "galardão" da revista hi-fi pela qualidade sonora. O meu preferido é o cd que contém os concertos 1 e 3.

O outra grande referência (uma não exclui a outra, evidentemente) é o estojo de seis cd's de Emil Gilels, re-editados pela brilliant classics, que contém várias sonatas e a integral dos concertos para piano. O preço varia entre 18 e 22 euros. Sobre estas gravações já escrevi noutra ocasião.


A já referida aura-music também tem um cd ao vivo de Arturo Benedetti Michelangeli com três sonatas do compositor entre as quais a op.111. Por cerca de sete euros. A adquirir sem hesitações. Ast




Um e-mail que vale a pena publicar

Oláaa, Ast
Finalmente consegui ler o teu blog com calma.
Está muito bom (e é nº1 nos motores de busca da google e yahoo, UAU!!). Mesmo para leigos, como eu, está bastante interessante. Ajuda-nos a ter uma perspectiva um pouco diferente da música a seleccionar, o que poderemos ou não comprar. E também a não nos sentirmos uns 'babalus'. Dá vontade de ouvir música. Gostei muito. Parabéns. Beijinhos. Inês Portugal (Porto)


Aqui fica um e-mail que um tal "peão contemporaneo" me desafia a publicar. Se o PC só está a tentar "ajudar-me" a ultrapassar as minhas limitações porque é que faz tanta questão em ser publicado? Isto não é uma polémica e este espaço não é de todo um "fórum". Por isso o comentário da Inês à insinuação do "peão" não será publicado. Evidentemente que o "peão" não pode esperar vir a ser publicado novamente nesta página, independentemente dos argumentos mais ou menos artificiosos que esgrima. O editor.

Caro Sílvio,
Estou a escrever-lhe desinteressadamente e gostaria que publicasse este meu comentário do mesmo modo que publicou o da personagem "Inês Portugal", por favor.
Quero dizer-lhe que o seu blog me despertou algum interesse pelo facto do seu próprio autor fazer de tudo para que ele seja notado. Não posso deixar de lhe dizer que o seu esforço é realmente digno de nota. Consegue que (quase) toda a gente, pelo menos uma vez na vida, tenha consciência da sua existência. Porém, o teor da informação nem sempre é o mais interessante, a escrita é descuidada e revela uma certa iliteracia: uma grande quantidade de erros ortográficos, erros de sintaxe, erros de toda a espécie. Só com boa vontade se percebe o que quer dizer. Isto torna a leitura francamente desconfortável, aspecto que apenas poderia ser superado com a qualidade da informação (que neste caso é fraca, portanto não adianta nada). É visível o seu gosto pela escrita. Dado que descobriu essa sua inclinação, poderia tentar ler bons autores (romancistas, mesmo) e perceber por que motivo eles são bons autores. O que faz dum escritor um bom escritor? Tente aplicar as suas descobertas, depois, nos seus textinhos sobre música e músicos. Sinceramente, desaconselhava-o de tentar chamar a atenção para a sua pessoa. Um verdadeiro intelectual quer-se discreto. Não é fazer de tudo para ser notado e para imitar aqueles que o são que se chega a algum lado. Não inveje aqueles que têm algum protagonismo mesmo não o merecendo. Esse protagonismo será sujeito à triagem da história e, com ela, só os intelectuais elegantes e que deixam obra conseguem perpetuar. Também não é a segurar-se à muito antiga prática jornalística de pasquim (na publicação local a que o seu pai estava directamente ligado...) que conseguirá elevar-se aos olhos daqueles a quem pretende agradar (ou junto de quem pretende reconhecimento). Seja discreto. Escreva mais e publique muito menos. Pratique. Não tenha pressa. Seja homem e publique este meu comentário no seu blog. Mostre a sua disponibilidade para aceitar críticas construtivas. Se precisar de outros conselhos, não se acanhe. Os leitores servem para ajudar os críticos que estão a começar. Atentamente, PC









2005/04/24

TERCEIRO E ÚLTIMO DIA


Como já foi abaixo referido este domingo começou com a Heróica de Beethoven numa excelente interpretação da Sinfonia Varsóvia.
O Quarteto Prazák fez uma interpretação paradigmática do quarteto nº 11, 0p.95. Este quarteto possui um elevadíssimo nível e entre os quartetos de cordas presentes foi de longe o melhor. No outro extremo, o Quarteto Aviv deu-nos uma leitura mediocre da mesma obra. Má sonoridade, desafinações, brutalidade e falta de subtileza foi a "imagem de marca" deste agrupamento. Para esquecer.

Para relembrar foi a interpretação do concerto nº 5 do grande Ludwig tendo como solista Boris Berezovsky no piano, acompanhado pela Orquestra Filarmónica de Varsóvia dirigida por Antoni Wit. Berezovsky no seu estilo rápido e potente deu-nos uma leitura fulminantee desta obra grandiosa, acompanhado por uma boa orquestra dirigida por um grande maestro. As falhas do pianista foram irrelevantes num contexto de grande música.

A Festa da Música finalizou não como estava previsto com Variações Diabelli de Beethoven por Boris Berezovsky no piano mas com o trio op. 97 "Arquiduque" do compositor, numa fantástica interpretação de Dimitri Makhtin (violino), Alexander Kniazev (violoncelo) e o mesmo Berezovsky ao piano. Sobretudo no terceiro andamento a poesia fez música e os artistas ofereceram-nos momentos de genialidade. No entanto nas partes em que as cordas têm uma função de acompanhamento, continuaram a tocar como se tivessem a linha melódica condutora, escondendo as subtilezas melódicas que aconteciam no piano. Aconteceu sobretudo com o violoncelista que, diga-se de passagem, é um grande músico mas talvez tenha alguma dificuldade em fazer música de câmara onde todos os instrumentos têm os seus momentos de "brilho".



Excluindo como seria de prever a execução das sonatas para piano, pois pianistas de génio escassearam nesta festa, o balanço geral é positivo. As minhas escolhas pessoais estão feitas. São as mesmas que poderão ler mais abaixo. Quanto ás sinfonias de Beethoven, apesar da ausência de orquestras sinfónicas de primeiro plano, a Sinfonia Varsóvia (que não é um agrupamento sinfónico) teve um excelente desempenho. A Orquestra Filarmónica de Varsóvia também esteve bastante bem. Foi pena que agrupamentos como o Concerto Köln e o Colegium Cartusianum de Peter Neumann não tivessem sido solicitados para uma integral dessas sinfonias. Isso seria seguramente algo de muito especial.

Quanto ás futuras Festas da Música o governo tem de acautelar desde já uma descentralização progressiva dos concertos. Se é verdade que o público lisboeta acorreu em massa também é evidente que este acontecimento é pago por todos os portugueses que não fogem ao pagamento dos impostos. E que por consequência têm direito a participar deste evento. Ast










2005/04/23

GENIAL INTERPRETAÇÃO DA MISSA EM DÓ E DA ORATÓRIA OPUS 85


O Kölner Kammerchor e o Collegium Cartusianum dirigidos pelo fantástico Peter Neumann, tendo como solistas Simone Kermes, Franziska Orendi, Virgil Hartinger e Markus Lemke, ofereceram aos lisboetas no segundo dia da Festa da Música uma leitura assombrosa destas obras de Beethoven.

Tudo o que anteriormente foi escrito sobre o Concerto Köln aplica-se a este agrupamento que também utiliza instrumentos da época. Neste caso sob direcção de um maestro inspirado, com um côro deslumbrante e com solistas à altura. Simplesmente genial.

Genial foi igualmente a interpretação pela mesma orquestra e côro dirigidos pelo fantástico Neumann da oratória Cristo no Monte das Oliveiras, tendo como solistas Simone Kermes (soprano), Virgil Hartinger (tenor) e Markus Lemke (baixo). Para além dos aspectos já referidos noutro local foi impressionante a gestão das tensões por parte do chefe de orquestra que nos transmitiu uma leitura impressionante que comoveu o público que enchia totalmente o auditório principal do CCB. Destaque também para a grande técnica e expressividade dos solistas. A orquestra e o côro, tal como já foi escrito, são do melhor que existe no mundo não só para interpretações do periodo clássico como para um Beethoven da "segunda época" que já transcendeu o classicismo. A minha escolha antecipada, já o tinha dito na antena 2 da rdp que esteve totalmente entregue de corpo e máquinas à "festa", vai portanto para os dois agrupamentos alemães, para director Peter Neumann e para este fabuloso côro que nos trouxeram a Lisboa o que de melhor se pode fazer na interpretação do grande Ludwig (e também na interpretação dos amigos do van Beethoven).

A grande decepção foi a Missa Solemnis op 123, à volta da qual se geraram as maiores expectativas. O Concerto Köln que no dia anterior, sem maestro, foi genial demonstrou logo no início descordenação entre os naipes e até entre os instrumentistas do mesmo naipe. O grupo coral de renome (Rias-Kammerchor) surpreendeu pelo agudos gritados das sopranos sendo as cantoras solistas fracas. O maestro (Daniel Reuss) parecia nunca ter dirigido uma orquestra e foi ele quem provocou as descoordenações num agrupamento que é dos melhores do mundo em instrumentos da época. Malogro total. Ast








2005/04/22

SINFONIA VARSÓVIA, DUMAY E CONCERTO KÖLN


Se as Vinte e seis Variações sobre La Folia di Spagna de Salieri foram o "fait-divers" do concerto da Sinfonia Varsóvia não deixaram por isso de mostrar uma orquestra excelente e coesa com um óptimo concertino que desempenhou com falhas desprezíveis o dificil sólo que esta peça lhe reserva.
Mas foi na 5ª Sinfonia de Van Beethoven que a orquestra hipnotisou uma sala totalmeente cheia que aplaudiu estrondosamente no final. Impressionantes as duas trompas, o oboé e o clarinete. O fagote nem por isso mas as cordas são invejáveis. Os trombones foram emprestados: Hugo Assunção e companhia da orquestra Sinfónica Portuguesa desempenharam com valor o papel que lhes foi confiado. Um grande momento com pequenas falhas que no contexto global são irrelevantes. Peter Csaba, o maestro, foi eficaz.

A mesma orquestra com o mesmo director interpretaram o concerto para violino do mesmo compositor com o célebre Augustin Dumay como solista. No início descoordenados (devem ter tido um curto ensaio antes do concerto...) mas conseguiram entender-se e oferecer uma boa interpretação com desafinações muito pontuais do solista que no entanto é dono de uma sonoridade única. No terceiro andamento Dumay conseguiu momentos memoráveis apesar de quebras esporádicas.


No último dia da "festa" logo de manhã, este mesmo agrupamento interpretou a 3ª Sinfonia de Beethoven. Uma leitura muito boa onde a orquestra demonstrou a excelência de todos os naipes (os fagotes estiveram melhor) e Csaba mostrou ser pelo menos capaz de dirigir correctamente um agrupamento com um nível de excepção. Poderia ser diferente com outro chefe de orquestra mas o que nos foi oferecido foi de muito grande qualidade.


Em instrumentos da época e sem maestro o famoso Concerto Köln, no primeiro dia, interpretou três andamentos da sinfonia nº6 de Jan Willem Wilms (1772-1847) onde o impto romântico é uma evidência e que teve uma espectacular leitura por parte deste agrupamento que é talvez o melhor do mundo em instrumentos da época. Afinações perfeitas, controles dinâmicos impressionantes o que nem sempre é evidente nos instrumentos antigos e uma coordenação (sem director. Mas atenção que antes de Beethoven era o concertino ou o solista, no caso de concertos, que dirigia a orquestra) impressionante fazem-me eleger este concerto como o melhor deste 1º dia da Festa da Música. Foi também interpretado o Andante com moto da sinfonia op.33 de Anton Eberl, sendo a leitura igualmeente excelentee. Finalmente no primeiro andamento da 3ª de Beethoven (em meu entender foi uma interpretação excessivamente rápida. No entanto devo ressalvar que é este o andamento que Beethoven indica na partitura. Raramente os intérpretes optam por esta velocidade de leitura que pode impedir nuances expressivas) o concerto Köln mostrou porque é que durante anos e anos se tem mantido como uma das grandes referências nas interpretações "antigas". Ast








O DELÍRIO DO KITSCH

Pierre Henri. Um histórico. O inventor da música electroacústica. Trouxeram-no a Lisboa para inaugurar a Festa da Música com a sua "10ª Sinfonia". Evidentemente entre aspas. Inspirou-se, diz ele, em Beethoven. No Ludwig. Naquele que dá o mote à festa da música deste ano.

Que nos trouxe Henri? Colagens. Colagens de excertos de obras do Ludwig com uns ruidos muito identificáveis que ele gravou lá no seu laboratório em Paris. O problema foi evidente. A estas colagens faltou a cola. Tudo se sobrepôs, presentificando-se num mesmo presente, mas não fundiu. Não se trata já do velho preceito inventado pelo mesmo Henri que nos diz que todo o material concreto utilizado deve, na obra final, estar totalmente metamorfoseado e não ser identificável. Não se trata já disto. Tratam-se de elementares questões de bom gosto no que toca ás densidades e à gestão de tensões, à organização das polifonias, à concepção formal e a resultante perceptiva na audição, enfim à maneira como se cria uma obra.

Mas Henri conseguiu surpreender-nos a todos. De repente pôs uma batida dance-rasca que pôs o René Martin a abanar a cabeça como se estivesse numa disco. Só lhe faltava mesmo um copo de whisky na mão. Talvez um gin-tonic... Gente do público ria-se, o meu amigo "melómano" na fila de trás parecida algo estupefacto mantendo-se muito silêncioso. O maestro brasileiro e a esposa pareciam consternados. Afinal tratava-se de Pierre Henri, não de um qualquer dj a fazer de palhaço.
Isto é patético, pensei olhando para a histórica figura que dava saltinhos cada vez que manuseava os botões da mesa de mistura e movia o pé ao som da batida. Sentia-me comovido e nauseado pelo ridículo daquilo tudo.

Ouve-se uma cabra berrar. Uma, duas vezes. Foi o auge, pensei. Mas não. Passados momentos voltou a cabra berrando ainda mais alto, desta vez ao som de chocalhos. Isto é que é o verdadeiro espiríto da 6ª que esse bacamarte do Ludwig não captou.

Muito tempo depois ouve-se um relógio dar horas.

- Sim já são horas de fechar a loja, comentei eu.

E fechou mesmo. Um estrondoso ruído de uma porta (esqueceste-te dos nossos suspiros de alívio, Henri) fez-nos perceber que a loja tinha de facto fechado. O público saíu sem aplaudir. Ast





Um e-mail que vale a pena publicar


Boa tarde caro Álvaro Teixeira,

antes de mais quero agradecer-lhe o facto de me ter acompanhado a mim a ao Maestro Atalaya até à praça de táxis, depois do "memorável" espectaculo. Apresento as minhas humildes desculpas pelo modo como me ausentei ontem. Não tinha contado com a demora depois do "espectáculo" e os transportes públicos não são de muita confiança. Mas foi agradável a conversa através do jardim até aos Jerónimos. Agradeço que apresente as minhas desculpas à jovem que acabara de chegar e que me deve ter considerado " um bicho do mato".
Memorável espectáculo, bom gosto timbrico e chocálhico nas cordas de um 10ª à moda moderna. Remix de salão com ovelhas e cabra à mistura ( pareceu-me a mim ). Concordo plenamente consigo "aquilo" foi horrível, intragável e de mau gosto estético. Alguém não acreditou que o Henri suportava todo aquele tempo em pé. Perdeu a aposta. Impávido e não acreditando que aquilo demorasse tanto tempo, ele lá conseguiu suportar. Acto heróico concerteza.
Lembro-me de uma visita de estudo que efectuei ao museu da Gulbenkian, estava uma exposição de Picasso. Uma grande quantidade de pessoas aglomerava-se junto a um quadro, aproximei-me mas não consegui ver nada, tal era a quantidade de entendidos. Esperei que eles saíssem e fui investigar o que tanto entusiasmava aquele público. Olhei e juro que não consegui ver coisa alguma, uma enorme tela com uma pinta verde no canto superior esquerdo, mais nada. Fiquei ali a tentar entender o porquê de tanto interesse. Uma senhora idosa aproximou-se de mim e perguntou baixinho " fantástico, não acha?", olhei para ela e respondi "pois, mas o que é que está pintado?". Olhou para mim espantada e disse " meu jovem,não está a ver? Aquela pinta representa uma grande dor no artista, você é que não percebe nada". E afastou-se.
Pronto! Nós é que não percebemos nada do concerto de ontem. Tá explicado. Os melhores cumprimentos. Antonio Feio

Nota do editor: não se trata do actor homónimo.









2005/04/18

JIAN WANG INTERPRETA AS SUITES DE BACH


O violoncelista chines tocou as suites 1,5 e 3 de Johann Sebastian Bach na Gulbenkian na segunda-feira.
A sua leitura caracterizou-se por um virtuosismo inteligentemente manipulado e aparentemente trespassado por um conceito pessoal que se afasta tanto da leitura romantica quanto das mais recentes que se preocuparam essencialmente com uma suposta fidelidade ao "espirito da epoca". Trata-se portanto de um acontecimento em que esperamos podemos escutar, nas suites seguintes, Bach por um artista que revela uma autonomia interpretativa que pode fazer dele um marco contemporaneo na re-leitura destas suites para violoncelo solo.


Infelizmente na terça-feira Jian Wang nas suites 2,4 e 6, demonstrou não ser uma "terceira via" mas muito simplesmente uma repetição estafada das leituras românticas do passado mas muito abaixo de um Casals ou de um Fournier. De facto nas sonatas e partitas para violino do mesmo criador existem interpretações fabulosas em instrumentos modernos que se impuseram ao lado das leituras nos instrumentos da época (algumas para melhor) e que nada têm a ver com as "velhas" interpretações romantizadas. Era isto que esperávamos de Wang.

A "velha" leitura romântica só tem interesse devido aos "rasgos" daqueles grandes intérpretes pois no que diz respeito a aspectos como os fraseados, respirações, questões interpretativas relacionadas com o carácter de dança das várias partes das suites, esses eram pura e simplesmente escamoteados dando-se ênfase a uma individuação determinada por aspectos que não têm em conta a vertente estético-estilística destas composições, embora nas leituras de um artista genial como Casals se (pre) sinta uma "alma" muito peculiar que ainda hoje nos pode comover.

Na actualidade outros intérpretes de excepção tocaram estas suites em instrumentos da época (com cordas de tripa e um arco com curvatura contrária à dos arcos modernos que manipulado com posição diferente de prensão permite um fraseado muito ritmado e "dançante") que se tornaram as "grandes referências" contemporâneas. Primeiro foi Anner Bylsma que as gravou duas vezes, sendo a minha preferida a última tocada num grande Stradivarius com espigão (os instrumentos antigos são mantidos entre as pernas sem qualquer outro apoio o que permite outra ligação e manipulação do instrumento. Dado o tamanho do Stradivarius utilizado por Blysma esta posição não é praticável tornando-se indispensável o uso do espigão). Depois foi o seu aluno Pieter Wispelwey que as gravou para a Channel Classics e foi louvado em todo o mundo, continuando esta a ser para mim "a interpretação referência" para estas suites.

Leituras como a que Wang fez na terça-feira são maus produtos de uma concepção romântica que não consegue singularizar-se por falta de génio e incapacidade de inovação que é indispensável especialmente quando se está nos limites de uma concepção romantizada.
Não vou especificar mas genéricamente chocou-me a falta de "respiração" que é um aspecto essencial para delimitar os arcos discursivos. Chocou-me a falta de "balanceamento ritmíco". Chocou-me o fraseado monótono, consequência dos aspectos acima referidos. Chocou-me o ênfado e a falta de alma na Allemande e na Sarabande da 6ª suite em que intérprete soçobrou a um romântismo kitsch só capaz de provocar bocejos. Chocaram-me as desafinações consecutivas no prelúdio da mesma suite e na Giga que finaliza a obra, não aceitáveis num intérprete que nos é apresentado como sendo de "top mundial". Por acaso até tomei mais notas mas isto basta e sobra. O público que enchia o grande auditório da Gulbenkian aplaudiu de pé e com estrondosos "bravos". Assim é que é!

Procuram o sublime através destas suites? Então ouçam a interpretação de Peter Wispelwey.


Nota: não me sinto na obrigação de dar explicações mas como já fui repetidamente acusado de erros ortográficos ficam a saber que a primeira parte deste artigo foi escrito numa máquina sem acentos. Como não me apetece fazer a correcção aqui fica a informação. E a rima foi propositada.









2005/04/14

DAVID GRIMAL EM LISBOA

David Grimal, que é um dos expoentes interessantes do violino na actualidade, interpretou o concerto para violino e orquestra de Erich Korngold acompanhado por uma pateticamente mediana Orquestra Gulbenkian, dirigida por Daniel Nazareth. Do programa fez parte a abertura de Hänsel und Gretel de Engelbert Humperdinck e na segunda parte foi interpretada a terceira sinfonia de Robert Schumann. No final do concerto de quinta-feira, que repetiu sexta, conversámos com David Grimal.


Álvaro Teixeira: Há muitos anos escrevi num diário português que este concerto não passa de um pastiche ultra-romântico. Continuo a pensar exatamente o mesmo...

David Grimal: Eu penso que é uma música muito kitsch. É uma música muito hollywoodesca mas com as raizes vienesas. No parte central do segundo movimento há como uma recordação de Schoenberg. Mas tudo o resto está no modo de fá que será posteriormente, depois Korngold porque foi ele quem começou a escrever no modo de fá, vulgarizado. Agora temos John Williams e outros que escrevem nesse modo, o que é completamente kitsch.

AT: Mas mesmo essa melodia do segundo movimento está muito mas construída. Na minha opinião. Depois existem fortes dissonâncias absolutamente desintegradas do contexto, do discurso musical.

DG: Isso não sei. É bastante naif sobretudo, a melodia do segundo movimento. Eu penso que dentro do género que esta obra representa está é bastante conseguida. Mas... não podemos dizer que é música séria.

AT: Você que acabou de tocar uma peça muito interessante (um extra de Bela Bartók) pouque é que toca uma peça nula como este concerto de Korngold?

(muitos risos)

DG: Nem sempre escolhemos com quem e o que vamos tocar...
Mas isto faz parte da música também. Eu toco muito o concerto de Beethoven, o de Brahms, o de Bartók, o de Berg, ou os de Mozart mas também toco Paganini e Korngold que também fazem parte da vida. Pode-se ter um prazer diferente tocando-os e escutando-os. São coisas diferentes que existem e que eu acho que merecem ser tocadas.

AT: O problema é que para vocês violinistas não há muito repertório... Contráriamente ao piano por exemplo.

DG: Não é verdade. Eu tenho cinquenta peças no repertório e tenho de estudar mais cinquenta. É um repertório enorme. Não sei se toda a minha vida será suficiente para tocar todo o repertório. Pode-se tocar Pendereki, Lutoslawski, Britten, não sei que mais... o concerto de Schoenberg, toda a música francesa, os concertos menos conhecidos de Miklos Rosa...

AT: Rosa?

DG: Rosa é um húngaro que foi para hollywood também. Há muito para tocar e a descobrir. Mas grandes obras? Concertos de Beethoven há só um. Não existem cinco. De Mozart não existem trinta. De Brahms não há dois, não contando com o duplo concerto. Mas há também um concerto de Schumann, um de Elgar, dois concertos de Prokovief, dois concertos de Chostakovitch...

AT: Ao nível da música contemporânea existem muitas obras para violino solo?

DG: Não existem assim tantas. Há muito mais para violoncelo solo, de facto. No século vinte o violoncelo conseguiu um grande destaque porque pessoas como Rostropovitch fizeram muito trabalho com os compositores e os violinistas foram mais preguiçosos. De tal maneira que se para o violoncelo existem muitas obras, para o violino de facto não existe uma verdadeira sucessão para a sonata de Bartók. Eu procurei... Há uma sonata de Zimmermann que no meu entender não tem a mesma qualidade.

AT: Não conheço essa obra mas Zimmermann é um grande compositor.

DG: É um grande compositor mas essa peça para violino não está, na minha opinião, ao nível da sonata de Bartók. Falei de Zimmermann justamente porque é um grande compositor. Trabalhei com muitos compositores que escreveram...

AT: Pascal Dusapin não tem nada para violino sólo?

(silêncio)

AT: Não gosta de Dusapin...

DG: Não sei. Não conheço tudo de Dusapin. Ele escreveu uma pequena peça para violoncelo mas que não é uma coisa séria... Mas isso depende se falamos de coisas sérias ou se falamos de tudo. Fomos muito severos com Kornagold mas na música contemporânea há muito "Korngold" também. E estão vivos!

AT: Bom... eu conheço bem a obra de Dusapin e em meu entender é um muito grande compositor. Mas não conheço essa peça para violoncelo. Mas qual é para você o limite entre a música séria e a não séria?

DG: Para mim não é uma boa pergunta porque não existe música séria e música não séria. Existe sim a maneira séria de abordar a música ou a maneira não séria de o fazer. A maneira não séria não me interessa. Daí que mesmo a música de Korngold para mim também pode ser séria nos limites do "décor" e do seu enquadramento. Mas pode ser trabalha com seriedade também. É isto.

AT: Mas assim temos limites demasiado volúveis... Podemos dizer que o último andamento do concerto de Korngold é absolutamente kitsch. Estivemos de acordo: não é música séria. Não podemos dizer agora, passados poucos minutos, que afinal é música séria.

DG: Mas não é isso. O que pode ser sério é a maneira de a interpretar.

AT: A sua forma de a tocar.

DG: Exatamente. Eu não sou compositor. Não sou compositor, nem crítico, nem professor de reflexão estética. Eu sou simplesmente um intérprete. Quer dizer que devo tocar toda a música. A minha missão é tocar tudo. Mas cada coisa que abordo, abordo-a de acordo com o seu carácter, de acordo com o seu contexto mas com o respeito pelo trabalho do compositor que eu de todas as maneiras não sou capaz de fazer. Depois há a música que eu recuso tocar porque é desonesta. Mas para mim Korngold não é uma música desonesta. É uma música sincera. Kitsch mas sincera.

AT: Pode-me dar um exemplo de música desonesta?

DG: Música desonesta... Sim, vou-lhe dar um exemplo de música desonesta... Existem obras sim... Mas não vou falar delas diante de um microfone. Em frente de uma garrafa de vinho podemos discutir sobre música. Existem mesmo compositores muito respeitáveis e muito sérios... Em Chostakovitch, por exemplo, existem obras desonestas. Para mim. Ele tem obras extraordinárias mas também tem obras em que ele não é sincero. Eu sei que foi por causa do sistema que ele foi obrigado a escrever obras um pouco de propaganda.

AT: São casos particulares...

DG: São casos particulares eu sei mas há obras em Beethoven que são peças de circustância e mal conseguidas. Ele próprio viu isso. Podemos encontrar muitos situações entre os maioires que escreveram música porque foram obrigados. Daí que essa música não funciona. E podemos ao mesmo tempo ver em compositores menores como Korngold, que era no entanto um compositor dotado mas que começou a fazer merdas como este concerto, mas ele fez isto com humor. Daí que eu aceito isto. Eu prefiro isto, onde há apesar de tudo talento, a coisas mais escolares como a Sinfonia Espanhola de Lallo que é mais estúpida. Bem mais estúpida. Há obras de Saint-Sains que também são mais estúpidas.

AT: ...

DG: O Rondó-Caprichoso foi conseguido como peça de circunstância. Não é música séria mas foi bem concebido. Mas o primeiro concerto não o foi.

AT: Você vive em França ou no Estados Unidos?

DG: Eu vivo em Paris!

AT: Como começou a falar inglês... É que existem alguns músicos franceses que foram para os Eua... A Hélène Grimaud foi viver para lá...

DG: É verdade?!

AT: Sim, é. Porque acha que ela foi para lá?

DG: Não sei. Temos de lhe perguntar.

(muitos risos)

AT: Que tem a dizer da música francesa post-Boulez? Crê que agora há mais liberdade estética que quando Boulez controlava tudo?

DG: Não se pode dizer que estamos no post-Boulez porque Boulez é ainda o papa. Mas há bastantes correntes estéticas em França e a linguagem está em vias de se re-definir, já não há uma linguagem homogénea. É muito dificil saber, quando não há continuidade histórica do ponto de vista da linguagem, o que tem valor ou não. É dificil dizer o que é experimental e o que vai ficar porque é uma linguagem que vai ter continuidade. A actualidade, para mim, é um periodo de transição onde se vai encontrar uma continuidade histórica com o passado, seja com a música tonal seja com a música modal , seja com outros caminhos expressivos que em meu entender estão ou na modalidade ou na tonalidade porque em meu entender a música serial ficará sempre em estado experimental.

AT: Você crê que todo o post-serialismo, todas as técnicas de triagem serializadas ficarão sempre em estado experimental?

DG: Penso que a música serial não funciona nas grandes formas. Funciona para as pequenas formas como em Webern. E Berg é música tonal não é música serial. Daí que funciona muito bem, efectivamente. A música serial é muito interessante mas não funciona. Como a Ars Subtilior do XIII século que era a música contrapuntística pura, isto não funciona. Os monges faziam vinte e quatro cânones ao mesmo tempo... isto não funciona. A música tem necessidade de um centro. Isto é muito interessante no papel mas não funciona. Na música serial é o mesmo. Há muitos acontecimentos ao mesmo tempo sem uma continuidade orgânica e uma correlação de tensão e distensão. E a música é isso. A música modal está menos neste registo de tensão/distensão mas é muito descritiva através das colorações. Para mim a linguagem serial na forma da música clássica não funciona.

AT: Muito obrigado.





ENSEMBLE MICROLOGUS INTERPRETA CANTIGAS DE SANTA MARIA


Afonso X, o sábio, século XIII, dedicou-se a homenagear a virgem pela composição de textos poéticos com música nos quais foram relatados os milagres e feitos louvores à dita virgem. Existem outras histórias que nos dão um retrato da época e das preocupações de Afonso: uma freira que é seduzida por um cavaleiro... batalhas entre Mouros e Cristãos... Numa das cantigas Afonso relata como foi milagrosamnte salvo mantendo sempre ao seu lado um livro com as cantigas...

É interessante por outro lado verificar a utilização de ritmos tipicamente árabes com métricas quinárias e octanárias. Ainda segundo as notas do programa, no que toca à rima existe uma relação evidente com a forma do Zajal que é um género mouro-andaluz que se desenvolveu na península ibérica. O idioma utilizado por Afonso foi evidentemente o galaico-português. No entanto deve referir-se que estilisticamente este ciclo tem pouco que ver com as cantigas de amor, de amigo, de escárnio e mal-dizer que todos estudamos no ensino secundário.

A corte de Afonso X foi um viveiro de intelectuais e artistas vindos de todo o mundo. Também essas influências estão presentes na sua obra.

A interpretação de Ensemble Micrologus foi de uma vivacidade fantástica utilizando instrumentos da época que nos permitiram contactar com as mesmas sonoridades que supostamente Afonso escutou. Interessante também é o conceito de não especialização. Os cantores eram também multi-instrumentistas.
Um espectáculo pleno de vivacidade e interesse. Como notou no final o doutor João Bosco, ainda hoje nos Açores se ouvem músicas populares que nos fazem lembrar algumas das escutadas neste concerto. Uma amiga assinalou ter ouvido algo parecido no folclore turco. Não tenho dúvidas que a influência deste códex se estenda muito para lá das antigas delimitações geográficas da cultura galaico-portuguesa. Existe um cd muito interessante da naxos com outras cantigas do códex interpretadas por outro agrupamento. Ast









2005/04/13

SÃO CARLOS COM O MESMO ORÇAMENTO QUE A GULBENKIAN?!


Pode ler-se em bajja.blogspot.com no artigo "O cancelamento de parte da temporada em São Carlos":

"O S. Carlos leva a cabo 4 ou 5 produções por ano, com 4 ou 5 récitas de cada uma. Não existe qualquer itinerância ou mesmo récitas populares (coliseu, etc.) que levariam as suas produções a um auditório muito alargado. Assim, o seu orçamento, só equivalente ao do serviço de música da Gulbenkian (e compare-se a actividade...) ou ao total do orçamento do IA, para todas as áreas!!! (teatro, música, dança), embora proveniente das contribuições de todos os cidadãos, é gasto num plano de actividades de uma irrelevância incontornável, já que a acção do Teatro apenas afecta uns 2000 portugueses. É muito, muito grave e começa a ser altura de alguém dizer que o rei vai nu."


Isto a ser verdade (ainda me custa a crer que um teatro de ópera de vigéssima categoria tenha um orçamento igual ao da Gulbenkian que é a oitava maior fundação europeia, que mantém a única temporada de música de nível internacional em Portugal e que não depende um cêntimo dos dinheiros públicos) exige algumas medidas imediatas. A saber:

1- Desvinculação da Orquestra Sinfónica Portuguesa da Fundação São Carlos. Esta orquestra que poderia ser uma boa orquestra tem vindo sucessivamente a ser destruída pela política dos responsáveis do São Carlos. A orquestra deve passar para a tutela directa do secretário de estado da cultura e de uma vez por todas deve ser ordenada à fundação do ccb (tantas fundações "públicas" para expoliarem o que os portugueses pagam de impostos...) que esta orquestra passe a utilizar a tempo inteiro as suas instalações, passando a orquestra residente.

2- Declaração de falência da Fundação São Carlos com a respectiva extinção.

3- Organizar um corpo heterogéneo de consultores para estudar e apresentar projectos para uma nova companhia de ópera, projectos a serem submetidos a debate público entre as partes interveninentes e os "críticos", "comentadores", "melómanos", políticos, etc. Não me parece pertinente a existência de uma companhia de ópera sem ser ser bem definido um projecto claro e consistente fundado sobre uma filosofia descentralizadora para a única companhia de ópera suportada com dinheiros públicos.


Um governo pode ter ou não coragem para governar contra as expectativas de alguns. Mas deve pelo menos ser capaz de impedir que os impostos dos cidadãos sejam totalmente espoliados em conjunturas nas quais nem há montanha nem há rato mas sim absurdidades que transcendem o rato e a montanha.


Nota: Uma regra básica do jornalismo é a das duas fontes: uma informação deve ser confirmada pelo menos através de duas fontes diferentes, coisa que não fiz neste caso. Em conversa com o ex-ministro da cultura Pedro Roseta, este demostrou-me o seu cepticismo em relação à veracidade da informação acima veículada e informou-me que uma parte do orçamento da ministério da cultura é cativo, isto é só pode ser disponibilizado pelo ministro das finanças. Daí as últimas peripécias do governo Santana em que a secretária de estado da cultura dizia haver todo o dinheiro necessário para a temporada do S. Carlos ser totalmente levada a efeito e o director do Ipae garantir que não. Evidentemente que não existiam as verbas porque o ministro das finanças não as tinha disponibilizado e o despacho da sec não teve qualquer efeito na libertação das mesmas.

Quanto à comparação dos orçamentos, o blog referido não diz se nele (no da Gulbenkian) estão incluídos os gastos fixos com a orquestra, o côro e a companhia dee dança (que está tutelada pelo serviço de música) ou é "únicamente" o orçamento respeitante aos artistas convidados.

No que diz respeito à descentralização, e nisto Pedro Roseta esteve de acordo comigo, existem já por todo o país salas com fosso de orquestra que permitem a apresentação de óperas, coisa que aliás tem acontecido com as companias do "ex-leste" que fazem digressões para ganharem "o pão nosso de cada dia". Ast



Uma saudação

"Desta vez tive tempo para visitar a sua página, com interesse e proveito. Tentei deixar um comentário no blog, mas não consegui. Por isso envio esta mensagem de felicitações. Cumprimentos do João Bosco Mota Amaral"















2005/04/10

ORQUESTRA SINFONICA DE BERLIM FALIU


Este acontecimento remete-nos para a entrevista de Heinz Holliger em que ele referiu exatamente a possibilidade, que a mim me pareceu irreal, do desaparecimento de orquestras e grupos corais de renome.
Ao dramatismo do discurso de Holliger contrapus um optimismo que parece de alguma maneira posto em causa.

Tempos estranhos estes...
No entanto devo assinalar que a Alemanha continua a contar com dezenas de orquestras de top (a Berliner Philharmoniker, por exemplo). A realidade demonstra que discos de musica classica continuam a aparecer nos top's de vendas de muitos paises europeus e que os grandes concertos encontram-se permanentemente esgotados em todo o mundo. Ast









2005/04/06

SETE DISCOS TRÊS PIANISTAS E UM CONCERTO


Um dia em conversa-entrevista com o grande pianista Abdel Rahman El Bacha que vem de editar a integral dos concertos de Prokovief que parece ter entrado na moda, referi-me a Hélène Grimaud como uma vedetazita superficial. El Bacha imediatamente saltou em defesa da pianista ficando eu a imaginar uma paixão longínqua que o impeliu à defesa da virtual amada que na altura passava de dez em dez minutos no canal muzik, agora mezzo, publicitando a sua última realização discográfica.

El Bacha disse-me algo do género: não sei como ela toca actualmente mas era uma pianista com uma intuição e uma inteligência musical fora do comum.

Passaram-se meses, menos de um ano. Já há algum tempo que tenho uma colecção de cinco cd's de Hélène Grimaud editados pela Brilliant Classics (a um preço fora de concorrência como todas as suas edições). Foi o preconceito que me levou a esperar meses até os escutar. Hélène Grimaud para mim era uma espécie de vedeta de tv (ainda que televisão de qualidade) e não ia perder tempo a escutar cinco discos desta pianista. Mas acabei por os ouvir...

O que El-Bacha disse é uma evidência nestes registos e só um surdo ou alguém com má fé poderá negar. São registos de há anos onde se escuta uma pianista radiosa, plena de talento e expressividade, tanto no 2º concerto de Rachmaninov como na 1ª Balada de Chopin interpretada com um vigor e uma frescura fabulosas. Também na "sonata Dante" de Liszt a pianista revela grande técnica ao serviço de uma expressividade inteligente, o mesmo se passando na Kreisleriana de Schumann e nas sonatas e peças de Brahms.

Na primeira série dos Études-Tableaux de Rachmaninov, que aparece num dos cd's deste estojo, Grimaud não é de todo convincente. Para estes "études" recomendo-vos vivamente a interpretação (re-editada pela emi a preço ultra-económico na série encore) de Vladimir Ovchinnikov. Interpretação absolutamente transcendente. Neste disco Ovchinnokov demonstra ser um pianista imenso.

Já agora... recomendo Rudolf Buchbinder em "Chopin - piano works" da mesma série. Grandes interpretações por um grande pianista práticamente desconhecido em Portugal que na Gulbenkian fez uma excelente interpretação do concerto em fá para piano e orquestra de Gershwin. Consta no programa que Sergei Diaghilev terá dito que este concerto é "bom jazz mas Liszt mediocre". Não me parece. Liszt não é de todo e se fosse bom jazz seria boa música.
Pena é que Buchbinder não tivesse sido convidado para um recital a solo.

A segunda parte do concerto foi preenchida com obras para orquestra de Maurice Ravel. A Orquestra Gulbenkian dirigida por Lawrence Foster esteve bem, sendo muito aplaudida no final. Deveria ampliar-se integrando os musicos convidados. Neste tipo de programa para grande orquestra demonstra ser bem mais eficaz que nas obras para orquestra reduzida. Ast



Nota: em www.portugalmusical.com encontrará uma agenda dos eventos musicais.










2005/04/04

MARATONA PROKOFIEV

Aconteceu domingo dia 3 em Lisboa e apresentou-se um grupo de alunos de Alexander Toradze e o próprio na interpretação da integral das sonatas de Sergey Prokofiev.

A "maratona" começou com a pianista Irma Svanadze que na interpretação das sonatas 1 e 2 conseguiu transmitir-nos de forma arrebatada e inteligente a profunda rotura estilística que acontece de uma para a outra. Apesar de serem as primeiras, são obras bem conseguidas do ponto de vista formal. Parte da música de Prokofiev padece de um pensamento descritivo que que não consegue garantir uma boa consistência formal. Estas sonatas são obras deliciosas onde a errância ao nível do desenvolvimento que marca outras, sobretudo a quarta e a nona, não se faz sentir. Irma é uma pianista sensível dotada de grande técnica que está a dar os primeiros passos numa carreira internacional que prevemos grande. Esperamos ouvi-la brevemente na interpretação de Scriabin.

Vakhtang Kodanashvili deu-nos uma fabulosa interpretação das terceira e sexta sonatas. Foi o único que levantou o público das cadeiras, em nosso entender justamente. A sua paleta de dinâmicas é grandiosa, o seu controle é total e as suas interpretações arrebatadas são de grande clareza e compreensibilidade. Auguram um grande pianista que em certa medida já é.

Tea Lomdaridze interpretou a quarta sonata que é uma obra desinteressante e aborrecida. É uma boa pianista que conseguiu grandes aplausos. Apesar da obra...

Sean Botkin ofereceu-nos a sonata nº5 e a 8ª sonatas. Substancialmente um bom pianista.

O mesmo direi de George Vatchnadze que interpretou a nona sonata, demasiado longa para o tipo de concepção estrutural que adopta. Motivos que aparecem e desaparecem sem consequências, retorno sistemático aos temas sem um desenvolvimento bem sustentado. Enfim, o contrário da escrita genial que Prokofiev conseguiu nos concertos para piano e orquestra e na 7ª sonata que é uma grande obra. Esta última foi interpretada por Toradze que teve uma performance excelente no primeiro andamento (o contraste entre o primeiro e segundos temas...) mas já no segundo que é um "andante caloroso" o pianista foi linear com um arco dinâmico restrito. No último que diz "precipitato" foi totalmente contido. Inevitável a comparação com a gravação de Polini.
Para acabar Vatchnadze ofereceu-nos os 40 compassos descobertos à poucos anos do que viria a ser a 10ª sonata do compositor. Pelo menos nesta quatro dezena de compassos pareceu que poderia vir a ser mais interessante e bem conseguida que a nona. Basicamente o "tríptico de guerra"(sonatas 6,7 e 8) é o grande legado do compositor na forma sonata. Ast



Nota: Durante os dias 2 e 3 decorreu no Teatro de São Luiz em Lisboa a 3ª Festa do Jazz onde para além dos "veteranos" portugueses se apresentaram agrupamentos de escolas de todo o país. Ficamos impressionados com o elevado nível que estes estudantes já apresentam o que augura um bom futuro para o Jazz Português. Destaque para o Sexteto da ESMAE-Porto. A 4º Festa do Jazz já foi anunciada para os dias 1 e 2 de Abril de 2006. Evidentemente a não perder.









2005/04/02

PROKOFIEV POR TORADZE

Acompanhado pela orquestra Gulbenkian que sob direcção de Bertrand de Billy lá fez fez o que pôde, Alexander Toradze interpretou o concerto para piano e orquestra nº3 de Prokofiev.

Alexander Toradze, fazendo justiça à fama que ganhou como um dos grandes intérpretes actuais do compositor russo, ofereceu-nos um autêntico show de sonoridades, ambiências, dinâmicas e contrastes ritmícos a que esta fantástica obra, que em nosso entender é uma das mais interessantes escritas para piano e orquestra, se presta.

Toradze gravou recentemente a integral dos concertos para piano de Prokofiev com a Orquestra do Kirov dirigida pelo grande Valery Gregiev, gravação saudada em todo o mundo como uma das referências discográficas para estes concertos. Para alguns "a referência", o que me leva a aconselhar muita precaução pois existem várias gravações por grandes pianistas e o registo deste 3º concerto por Martha Argerich é algo muito especial. Todos sabemos que sempre que há uma novidade discográfica surgem os "críticos de serviço" a falar em referência. Normal: faz parte da estratégia do mercado dos discos. Nesse mesmo cd, onde também é tocado o 3º de Bartók, Martha Argerich interpreta o 1º concerto do compositor russo de uma maneira simplesmente deslumbrante. Para além de tudo não nos podemos esquecer que a naxos tem o registo do 3º concerto tocado pelo próprio Prokofiev que era também um grande pianista. Na realidade se se falar de "a referência" para este concerto só pode ser seguramente esta fabulosa interpretação pelo próprio.

Comparações à parte, Toradze é um bom pianista que num dos dias nos ofereceu como encore uma muito personalizada (e discutível...) sonata de Scarllati e uma fulgurante (mas algo "amassada") interpretação do último andamento da 7ª sonata de Prokofiev. No dia seguinte (sexta-feira), Toradze ofereceu-nos outra peça de Prokofiev onde foi de novo mestre nos ambientes sonoros, assim como uma peça de Liszt (a 1ª consolação que pequenas nuances harmónicas à parte "é Chopin"). Aí Toradze revelou-se um mestre nas dinâmicas extremas dos pianíssimos. O limiar entre o audível e o inaudível. Ast









2005/04/01

PEDRO CARNEIRO INTERPRETA ERKKI-SVEN TÜÜR


Recebemos um exemplar "privado" daquilo que brevemente será disponibilizado ao público pela ecm. Tratam-se, tanto a obra como a interpretação, de algo que vale a pena ouvir, re-ouvir, colocar entre os cd's favoritos e voltar a ouvir sempre.

Tüür é um compositor completamente afastado da tradição post-serial. No entanto não se deixou resvalar para revivalismos de efeitos fáceis que na generalidade são para tratar como exercícios de estilo ou "brincadeiras" e não como obras de arte.

Ardor, concerto para marimba e orquestra, é uma grande obra de composição musical onde se demonstra que os caminhos existem "há é que caminhar". E para caminhar desta maneira há que ter intuição, inteligência e talento.

Pedro Carneiro é um percussionista português com uma excelente carreira internacional. Neste concerto em que é acompanhado pela Estonian National Symphonic Orchestra dirigida por Olari Elts o Pedro demonstra que para além de um virtuoso é um intérprete capaz de uma leitura meditativa e densa. A performance da orquestra é genial. Em nosso entender indispensável para os amantes da "grande música". Ast

Nota: a edição disponível ao público poderá aparecer interpretada por outra orquestra. O cd vai conter mais duas obras do compositor que já estão gravadas por orquestras diferentes. A ecm parece desejar que todas as obras do cd sejam executadas por uma única orquestra, o que vai obrigar a novas gravações talvez por uma orquestra diferente das três utilizadas nos anteriores registos.









2005/03/11

A ESTUPIDIFICAÇÃO INSTITUCIONALIZADA

Logo no final da primeira obra no recital de comemoração dos seus 25 anos de carreira tocou um telemóvel. Artur Pizarro parou e passados segundos recomeçou. Suponho que foi em La vallée des cloches de Miroirs de Ravel. Uma leitura miraculosa onde o pianista fazia "legattos" próprios de um artista inspirado e de grande técnica. O piano revelava problemas na parte sobre-aguda...

Mais tarde tocou outro (telemóvel) que ele ignorou talvez para evitar repetir a "cena". Ouviam-se barulhos e conversas vindas dos corredores: era o sujeito do telemóvel a atender a chamada e posteriormente a discutir com os funcionários do teatro. Porque é que não foi chamada a polícia para identificar os individuos dos telemóveis para o caso do teatro decidir avançar com um processo cível para ser indeminizado da péssima imagem criada e poder indeminizar quem pagou bilhetes e viu o recital interrompido?
 
Já depois do intervalo, a interromper uma genial e meditativa interpretação de Clair de Lune da Suite Bergamasque de Debussy tocou outro telemóvel. Era demais. Artur Pizarro saiu de palco esperando que a pessoa responsável por tal absurdidade se retirasse. Mas alguns tugueses têm uma lata infinita! Não só a pessoa não se retirou como foi reivindicar o dinheiro que pagou pelo bilhete devido ao facto do recital não se ter concretizado até ao final!!! É de facto impressionante! O portugalito dos galitos de barcelos na sua melhor erudição pois isto é gente supostamente culta que vai a recitais "eruditos"... 

Após o recital inacabado que decorreu no Teatro São Luiz em Lisboa, o pianista conversou connosco na presença de várias amigas e amigos à mesa de um restaurante onde tentamos esquecer a suite de Debussy que ficou incompleta e a sonata de Rachmaninov que não chegámos a escutar.


Artur Pizarro: Posso falar com a boca cheia?

Álvaro Teixeira: Podes. Depois das premiadas mazurkas do Scriabin

AP: Premiadas onde?

AT: Bom... Receberam três estrelas na Pinguin...

AP: Ha!

AT: Que outros registos tiveste em destaque?

AP: Não tens cassete suficiente para que eu as diga todas.

AT: Não te preocupes. Isto é uma memória digital...

AP: Olha... O penúltimo que foi um dos discos para a Naxos com a integral para piano do Joaquin Rodrigo foi Gramophone Editors Choice de Abril deste ano (ne: também recebeu o Classic FM Best Buy de Março). Um dos meus discos de Vorsichék recebeu o Diapason d'or... Tive vários Choc de la Musique quando gravava para a Collins, quando ainda existia...

AT: Quais?

AP: Já nem me lembro... Mas foram para aí uns três. Também tive três Gramophone Editors Choice para além daquele que já te disse. Pá, tenho uma carreira já longa! Normalmente não ando é com uma lista dos cd's que tive em destaque...

AT: Eu ouvi partes da tua interpretação das últimas sonatas de Beethoven... Pá, tenho dezenas de interpretações dessas sonatas... e devo dizer-te que achei a tua leitura com um nível interpretativo muito, mesmo muito elevado.

AP: Estás a referir-te a que sonatas?

AT: Ás últimas. Achei-as de facto com um nível impressionante. Como as gravaste? Por takes? Por andamentos completos?

AP: Não, não. Gravei três ou quatro completas, depois ouvi-as e fiz retoques. Por vezes o piano desafinava... Depois cose-se para tapar esse género de imperfeições. Ao nível dos takes fi-los o mais longos possivel. Se não fica tudo retalhado e os andamentos não batem certo, o timbre do piano não bate certo, as melodias não batem certo... Portanto tem de se fazer takes o mais longos possivel.

AT: Entretanto tu tens tocado muita música do século vinte. Neo-clássica. Isto é: nós conhecemo-nos para aí há vinte anos mas há quinze anos, para não falar em vinte, tu não tocavas nem pensavas em tocar este género de repertório.

AP: Não tinha tido tempo para a aprender. É óbvio! Aliás a construção do meu repertório foi feita cronológicamente.

AT: Neste momento és dos pianistas que toca mais obras do século vinte.

AP: Olha que não. Ainda ontem toquei Palestrina.

(risos)

AT: Ele disse que ontem tocou Palestrina...

AP: Olha que o repertório do século vinte vai de Rachmaninov, Glazunov e Rimsky-Korsakov até ao... áquele nosso conhecido...

(risos)

AT: E porque falaste nesse?

AP: Como a noite começou mal é para acabar pior...

(risos)

AT: Diz-me uma coisa: quando é que vais tocar os estudos do Ligeti?

AP: Quando o panorama musical português evoluir ou seja

AT: Desculpa! Tu que és um pianista de carreira mundial não podes escudar-te no panorama português.

AP: Não me deixaste acabar. Eu tocarei Ligeti quando o panorama cultural português evoluir ou seja quando as labaredas do inferno congelarem.

AT: A metáfora teve piada mas que eu saiba não fazes Ligeti na Inglaterra onde vives. Porquê?

AP: Porque não é para lá chamado.(risos) Para te dizer em bom português eu gosto mais de stacatto que de legattos.

AT: Ok. Ok. De qualquer das formas...

AP: Como diziam as meninas de Odivelas que não podiam dizer que não gostavam da comida que estava a ser servida, tinham que dizer "eu não aprecio este género de alimento". Será essa a frase que eu posso utilizar. É um género de alimento não necessáriamente apreciado à minha mesa.

AT: Sabes que eu já escutei algo parecido da boca de um pianista que eu sei que não aprecias particularmente? O El-Bacha.

AP: Então... Já marcou pontos no meu livro.

AT: Já ficaste a gostar um bocadinho mais dele...

AP: Do Abdel...

AT: Em relação a Portugal tu que práticamente nunca viveste cá...

AP: Desculpa! Eu só saí de Portugal em 1977 e vivo desde 1968. Mas também é verdade que o Portugal que conheci já não existe.

AT: Desculpa mas tu estudaste nos Eua com o Sequeira Costa e depois de uma curta passagem por lisboa foste para Paris de onde me escreveste a dizer que tudo era trivial naquele país... A começar pelo Cicolini com quem foste estudar... É uma carta histórica. É pena tê-la perdido. Dizias que até a Torre Eifel era trivial... E do Cicolini dizias... Hum... Não me apetece dizer.

AP: Isso mostra que não digo só mal de Portugal.

AT: Demonstra é que quase não viveste em Portugal. Consegues fazer uma análise distânciada deste país?

AP: Consigo. Quanto mais distânciada melhor.

(risos)

AT: Está tudo dito... Ia-te perguntar mais coisas em relação a Portugal mas parece que ficou tudo dito... Diz-me uma coisa: porque é que deixaste de tocar na Gulbenkian?

AP: Mas eu não deixei de tocar na Gulbenkian!

AT: Há anos que não tocas lá...

AP: Dois anos e meio.

AT: Porquê?

AP: Hum... Porque ainda não me convidaram para voltar. Não é a primeira vez...

AT: São eles que não te convidam?

AP: Não sou eu que vou lá pedir para tocar!!!

AT: Evidentemente, mas não te convidam?

AP: Quer dizer... Há muitos pianistas no mundo... terá de haver uma certa escoagem... uns certos intervalos... senão estou lá eu a tocar todos os anos o que também é uma chatice.

AT: Pois. Na Gulbenkian por vezes tenho ouvido péssimos solistas...

AP: (sussurrando) Não fales mal da minha amiga... ela é uma excelente violoncelista e só desafinou cá. Para a semana vou fazer um recital com ela...

AT: Sendo tu um pianista de grande nível com reconhecimento mundial porque é que não te convidam para ires lá mais regularmente?

AP: Não devem ter dinheiro para pagar o meu cachet... Sou muito caro...

AT: Repetindo... Os Diapason's d'or...

AP: São marketing... como o é qualquer prémio.

AT: E os Editors Choise?

AP: É marketing para vender discos inventados pelas revistas que querem vender discos. Portanto é marketing. Para o público que não sabe diferenciar entre um bom disco e um mau disco pensar "ha aquele disco tem a etiqueta xis portanto é aquele disco que eu vou comprar". Da mesma maneira que um actor tem um óscar ou não tem um óscar mas não é o óscar que faz com que o actor seja bom ou não. Tu não vais dizer por exemplo que todos os filmes que o Clint Eastwood escreveu ou dirigiu foram uma merda até ele ter recebido agora este óscar. Que até toda a gente faz troça do óscar por só lhe ter sido atribuído agora. Portanto: não é ele ter o óscar ou não, eu ter o diapason ou não, não é o outro ganhar o gramophon ou não que faz que ele seja bom ou que ele seja mau, que ele tenha carreira ou não tenha carreira.

AT: Concordo inteiramente. Conheces uma pianista que se chama Eliseo Versiladse?

AP: Eliso Virsaladze, conheço.

AT: Que achas dela?

AP: Uma grande senhora, uma grande pianista, tem óptimas interpretações... tem outras que podes gostar ou podes não gostar mas não deixa de ser uma séria artista e uma séria pianista.

AT: Práticamente desconhecida do mercado francês para não falar do ibérico que não tem relevância...

AP: Completamente em desacordo contigo. Toca imenso em França.

AT: Nunca vi nenhuma gravação dela em França... nenhuma etiqueta...

AP: Channel Classics, gravou para... qual é aquela que tem as gravações todas da Natália Gutmann e do Richter... da Eliso Virsaladze são para aí uns sete ou oito discos e estão todos à venda em França. Possivelmente o distribuidor francês não será grande coisa... Mas ouve lá: desde quando é que França é o centro do universo? Pergunto-te eu!

AT: Desde nunca. Hum... desde nunca...

AP: Também te posso dizer nesse caso que a Eliso Virsaladze nunca tocou com a Orquestra Metropolitana de Lisboa portanto não prestará para nada... nem nunca teve o prazer por exemplo de ir tocar com a Orquestra das Beiras...

AT: Existe?

AP: Acho que deixou de existir...

(comentários diversos)

AP: Quando eu comecei a tocar, a ser alguém e a ter carreira nunca tive o prazer de tocar com o Silva Pereira, portanto também não existo. Tá dito!

AT: O Richter disse que a Eliseo Verdiladze...

AP: Vir-sa-la-dze

AT: é a melhor intérprete viva de Schumann... concordas?

AP: ... na opinião dele seria... mas a opinião dele é a opinião dele! Mas sabes quantos pianistas são necessários para mudar uma lâmpada? Onze: um pá mudar e os outros par estarem à volta a dizerem "eu não teria feito bem assim". Portanto a resposta está dada. Portanto um pianista que dá uma boa opinião de outro pianista trás sempre água no bico.

(risos)

AP: Vamos ser honestos né?

AT: Achas que o Richter era especialmente amigo da Eliseo?

AP: Especialmente amiga em que sentido?

AT: Não sei... Para dizer uma coisa dessas...

AP: Que teriam ido para a cama juntos é?

AT: Não. Acho que não. Eu sei... imagino que isso não aconteceu. Não é essa a questão...

AP: Aliás o Richter gostava muito da sua esposa e que não haja confusões.

AT: Como te sentes depois de teres que interromper um concerto devido a toques de telemóveis?

AP: Francamente aliviado.

AT:...

AP: Pude vir jantar mais cedo!

(risos)

AT: Queres dizer mais alguma coisa?

(risos)

AP: Tão a ver como no meio desta coisa toda com o Álvaro...

(risos)

AT: Queres dizer mais alguma coisa? Que aches importante quer do ponto de vista artístico quer... por exemplo o que é que achas do panorama musical internacional em termos de produção de novas obras? Contemporâneas. Eu sei que não conheces muito mas fala do que conheces.

AP: Acho...

AT: Achas que vivemos um tempo de grande criatividade? Ou não conheces?

AP: Quantitativamente... Acho que vivemos um grande periodo de grande actividade quantitativa. Sim. Acho.

AT: Isso tem a haver com questões políticas não? Há minitérios da cultura e...

AP: Não, não, não, não. Acho que realmente se cria muito e há muita coisa nova a sair. Imensa! Uma quantidade brutal de novas composições... de novos compositores, de estreias de obras novas...

AT: Não vou pedir-te para me citares porque tu não vais citar... não conheces... Ou conheces compositores contemporâneos?

AP: Conheço...

AT: Diz lá então.

AP: Olha. Conheço... queres compositores contemporâneos com quem eu tenha trabalhado?

AT: Tu trabalhaste com compositores contemporâneos?!

AP: Finissy, George Benjamin, Hans Werner-Henze

AT: Trabalhaste com o Henze?

AP: trabalhei... com Takemitsu um pouco antes dele morrer, trabalho com o Ned Rorem

AT: Quem é esse?

AP: Ned Rorem. Compositor americano. Não conheces. Este conheço eu e tu não conheces. No entanto tem nnn discos gravados

AT: Na américa...

AP: E viveu em França!

AT: Ha!

(muitos risos)

AT: Os franceses são muito heterógeneos.

(mais risos)

AP: ... que era uma sua tia... chamada Schubert... que morava por cima de uma Stock-Hausen...

(risos)

AT: Olha... e em termos de pianistas... as novas gerações... o que achas que as novas gerações de pianistas que estão na forja... conheces alunos do conservatório de Moscovo? Ouviste tocar alunos desse conservatótio?

AP: Já...já... Olha: ouvi tocar o Richter, ouvi tocar o Gilels, ouvi tocar o Krainner...

AT: Alunos actuais!

AP: Não , não. Normalmente não vou à Rússia... Aliás não sei qual é o fascínio particular do conservatório de Moscovo. Era como por exemplo falar-te dos alunos da Nadia Boulanger que são pelo menos 300.000! Pronto, o conservatório é um edifício bonito. Por acaso tens umas histórias bonitas... Tem uns daqueles elevadores à antiga com as portas em acordeão, etc mas não sei qual é

AT: Achas que o conservatório de Moscovo perdeu qualidades?

AP: Acho é que estudar com um edifício é um bocadinho ridículo.

AT: O edifício tem professores lá...

AP: Tá bem, então diz-me o nome do professor e eu talvez te diga... porque isto de ir estudar para o conservatório de moscovo é... olha eu quero ir para ali estudar para a 112 e não para o 46. E no terceiro andar! Aliás eu nunca fui estudar para conservatório nenhum. Fui estudar com o professor tal ou o pianista tal. Dizer que estudou no conservatório de Moscovo é como dizer que estudou no liceu Maria Amália. Q

AT: Quais foram os professores com quem estudaste?

AP: ...

AT: Para além do Sequeira Costa.

AP: O Sequeira Costa... trabalhei com o Cicollini quatro um cinco lições... trabalhei com o Bruno Rigutto. Também quatro ou cinco lições...

AT: Quem?

AP: Bruno Rigutto. Mora em França, grava em França, toca em França... E em Itália também de vez em quando.

AT: Ele faz música contemporânea...

AP: Não, não. O Bruno Rigutto não.

AT: Mas já fez música contemporânea.

AP: Esse é o Bruno Canino...

(risos)

AP: Tive algumas lições também com o Jorge Moyano... tive algumas lições com o Claúdio Fink, toquei algumas vezes para o Fleisher... mas professor professor a sério só tive o Sequeira Costa.

AT: Quando é que voltas para fazer um recital... (risos) sentes-te com coragem depois de tantos toques de telemóvel, pá?

AP: Voltar aonde? A dar uma recital cá? Em Lisboa?

AT: Sim.

AP: Quando me convidarem. E se não desligarem os telemóveis é um programa curto... (risos) como foi o de hoje.

AT: Se isto se passasse no Barbican terias feito a mesma coisa?

AP: Se se tivesse passado no Barbican teria feito a mesma coisa mas a grande diferença é essa é que isto não se passa no Barbican. Mais a mais o Barbican tem detectotes de telemóveis para o caso de algum turista português, que por acaso saiba o que é o Barbican, queira ir a um concerto. Portanto estão lá. Tanto que nos detectores de metais estão as bandeiras portuguesas e só funcionam com telemóveis portugueses...

AT: Quando tive lá não havia... isso é verdade?

(risos, gargalhadas...)

AT: Acabou a entrevista!

AP: Aconteceu-me uma vez... e estavam várias pessoas portuguesas na plateia... aconteceu-me uma vez no Royal Albert Hall durante um promenade concert com a orquestra de Liverpool com o maestro Libór Pashék

AT: Já ouvi falar muito bem dele...

AP: Apesar de não gostar de dirigir em França mas tudo bem. Ha... (risos)

AT: Nada disso. França nem sequer tem nenhuma das minhas orquestras preferidas. Calma aí!

AP: Mas então tava eu a dizer... no andamento lento ...

AT: Nem maestros!

AP: Estava eu a dizer! No andamento lento do primeiro concerto de Liszt tocou um telemóvel no Royal Albert Hall que leva mais de 5.000 pessoas. Tocou uma vez. Foi apagado. Mas vieram as duas pessoas que pegam nos teus bilhetes e vão com a lanterna levar-te ao sítio... apareceu um de cada lado, isolaram a pessoa, pediram à pessoa para se levantar e a pessoa foi escoltada até à porta da saída. E pronto! Problema resolvido.

AT: É assim mesmo.

AP: Só em Portugal é que eu tenho de parar e dizer "atenda que eu espero um bocadinho". Mas como em portugal vive-se em democracia e cada um faz o que quer... Aliás: vive-se em anarquia que em portugal é tida como democracia porque em portugal a definição é ligeiramente diferente... é eu faço o que quero e escarro para cima de ti e posso ser nafabeto que nem sabem dizer analfabeto... Ha, o problema é ligeiramente diferente... é a estupidificação institucionalizada!