2008/04/27

Mas qual futuro, senhor?

É conservadora e de centro-esquerda, o que, no PSD, não é impossível. Mas o futuro é ser de centro-direita e liberal. Quem escreve assim, referindo-se a Manuela Ferreira Leite, que há dias defendeu a privatização do ensino, não é seguramente disléxico, mas só pode mesmo viver no reino de Portugal e ter fortes interesses num ainda maior "liberalismo". Se disser que o autor daquelas linhas delirantes se chama José Miguel Júdice, fica tudo esclarecido. Pois!

Numa altura em que o mundo assiste à derrocada do chamado "sistema liberal", com falências atrás de falências (falências reais que, artificialmente, estão a ser controladas pela injecção, ainda que dissimulada, de dinheiros públicos) de bancos que são autênticos "pilares do sistema", quem escreveu aquilo (não soubessemos nós os interesses que a liberal pessoa tem nos negócios muito pouco liberais do e com o Estado português) aparenta ser não de outro país mas de outro planeta (créditos a quem inventou esta frase e que não fui eu).

Já quando afirma que Sócrates está mais à direita que Ferreira Leite, o senhor mostra que está ancorado, e bem, no planeta Portugal, e que, de quando em vez, diz coisas que têm algum sentido.


Avaliação Por Objectivos, PJ Style

Inspectores da PJ avaliados pelo número de acusações

Isto faz-me lembrar aqueles coitados do telemarketing que recebem à peça, conforme consigam enganar os incautos a aparecer no sítio tal, em troca do brinde xis, sem mais nenhuma obrigação que não seja apanhar com umas horas de ensaboadela comercial.

Eu queria mesmo é que tudo fosse avaliado pelas condenações efectivamente conseguidas. Do que me interessam acusações se são arquivadas ao dobrar da esquina? in educar.wordpress.com (Abril 27, 2008)


Insucesso real e insucesso estatístico

Alguns comentadores de pena leve olham para as estatísticas de insucesso escolar e manifestam a sua incontida indignação pelos resultados. Contudo, se as estatísticas reflectissem apenas as aprendizagens tout court dos alunos, o panorama seria bem mais negro. Muitos dos resultados positivos vertidos nas estatísticas reflectem apenas modestos progressos dos alunos e não aprendizagens significativas. Contudo, a responsabilidade deste insucesso relativo jamais poderá ser seriamente atribuída aos professores, uma vez que resulta de problemas a montante da sala de aula que, em última análise, cabe ao poder político resolver. Não cabe seguramente aos professores e à escola solucionar os graves problemas sociais, familiares e de saúde de muitos milhares de alunos e das suas famílias. Os professores assumem as suas responsabilidades, o Governo que assuma as suas.

Ao contrário do que diz a senhora ministra da Educação, os professores não estão zangados por terem recebido este ano mais 30 mil dos piores alunos. Não. Os professores sabem que todos os alunos, melhores ou piores, devem estar na escola e não na rua. Os professores estão zangados, sim, é por lhes enviarem esses alunos “difíceis” para a escola, sem os devidos meios complementares que os permita recuperar de facto. Onde está a intervenção na família, muitas vezes desestruturada e maltratante? Onde está a intervenção ao nível da economia familiar, muitas vezes, em colapso? Onde está a indispensável intervenção terapêutica junto de muitas destas famílias? Os professores são profissionais polivalentes, têm uma formação em banda larga, alguns até se assumem como missionários da causa, mas ainda não têm o dom divino de fazer milagres. Não se formam eficazmente alunos problemáticos com palmadinhas nas costas, como não se tratam doentes graves com aspirinas. A escola inclusiva não pode ser confundida com um armazém de alunos, exige meios complementares de apoio significativos para ter sucesso efectivo.

A diminuição do abandono escolar no último ano tem sido um dos troféus apresentado por esta equipa do Ministério da Educação. Como sempre, as estatísticas devem merecer uma leitura mais atenta. O que fez alguns milhares de alunos regressarem ou decidirem não abandonar a escola? Além de outros factores, na minha opinião, como a situação difícil do actual do mercado de trabalho e a menor aceitação social da contratação de menores, houve dois factores decisivos: a promessa de diplomas profissionais fáceis e a oferta de computadores portáteis a preço reduzido. O Governo teve o mérito de pedir às escolas para recrutar o maior número de alunos possível e estas deram o seu melhor para o conseguir. O problema está no dia seguinte.

Não faltará muito até as empresas começarem a perceber que a leveza destes diplomas é incompatível com as suas necessidades de recursos humanos. Não basta conceder diplomas, é preciso que eles sejam credíveis e aceites no mercado de trabalho. Seguramente, alguns alunos tirarão proveito da formação ministrada e faço votos para que sejam muitos, será o País a ganhar. Todavia, o panorama não se afigura cor-de-rosa, numa época em que as empresas exigem cada vez mais dos seus profissionais. As escolas podem fixar objectivos mínimos para os alunos com dificuldades, mas nas empresas os objectivos serão sempre máximos. E o pior que qualquer sistema de ensino pode oferecer é diplomas sem credibilidade.

Já aqui defendi que a solução profissional para muitos destes jovens passa pela criação de uma bolsa de mercado social de emprego, apoiado pelo Estado, ao qual acederiam prioritariamente. Num mercado concorrencial, onde grassa o desemprego, a possibilidade de muitos destes jovens problemáticos conseguirem um emprego duradouro é quase nula. Só espero que, mais uma vez, não recaia sobre os professores, que dão o seu melhor em condições muito difíceis, o ónus destas políticas voluntaristas, traçadas para fazerem brilhar rapidamente as estatísticas. E estatísticas, como os chapéus, há muitas. Mário Lopes in tintafresca.net (edição nº 90)


Populistas clichés

Repete o Governo que é preciso distinguir os bons dos maus professores. Ora, quem percebe alguma coisa de educação sabe que esta divisão maniqueísta entre professores bons e maus não passa de uma ficção. Há professores com umas características, outros com outras e, de um modo geral, todas são importantes. A escola é feita de diversidade e os alunos só têm a ganhar em ter professores com características diferentes. Há, por isso, também fundados receios de que este sistema seja castrador das diferenças e promova mais a intolerância do que o mérito.

Uns professores valorizam mais a autoridade, outros a tolerância. Qual é o bom e qual é o mau? Um professor traz as aulas milimetricamente preparadas, outro é mais criativo e valoriza mais a interacção e a participação dos alunos. Qual é o bom e qual é o mau? Um professor é circunspecto, outro cultiva a proximidade com os alunos. Qual é o bom e qual é o mau? Como se vê, a avaliação de professores está muito longe de ser uma ciência exacta.

Outro cliché afirma que esta avaliação visa distinguir os professores com vocação dos professores sem vocação. Ora, não conheço nenhum “vocaciómetro” para medir a vocação de cada um, sendo a noção de vocação seguramente mais um estado de alma do que um dado objectivo. Nada garante que um professor supostamente com muita vocação seja melhor que um professor com menor vocação, mas que faz o seu trabalho com profissionalismo, como há péssimos cantores a jurarem que nasceram para cantar e óptimos músicos a dizerem que só o são por acidente. Exemplos não faltam, na música, na profissão docente ou em qualquer outra área. idem


Escrutínio e gestão escolar

Além do crédito comum à generalidade dos portugueses, os professores têm ainda o crédito de serem um exemplo para os seus alunos. E são-no de facto, ou não fosse a profissão docente das mais escrutinadas do mundo, sendo o comportamento de cada professor controlado diariamente por centenas de alunos, pais, auxiliares de acção educativa e pelos próprios colegas professores. Dificilmente este sistema de avaliação, informal mas efectivo, toleraria professores que não fossem um exemplo, pelo menos na escola. Têm, portanto, esse crédito acrescido.

Por último, uma nota para o novo sistema de gestão das escolas. Como já referi atrás, a comunidade docente numa escola reduz-se a algumas dezenas de professores. De entre estes, pouco mais de uma dezena podem, geralmente, ascender ao cargo de director, sendo necessário, para tal, experiência no cargo ou o curso de Administração Escolar. Ora, este número, em muitos casos, é claramente insuficiente para garantir massa crítica e proporcionar a indispensável pluralidade de opções para o cargo. Muitas vezes, só irá haver um candidato ao cargo de director. Por isso, nada garante que o futuro director seja uma pessoa reconhecidamente competente no cargo.

A democraticidade interna das escolas assegura hoje que estejam em cargos intermédios pessoas tanto ou mais capazes que os presidentes dos conselhos executivos, o que permite às escolas respirarem mesmo que um presidente do conselho executivo seja menos competente ou dialogante. Ora, o novo modelo de gestão escolar vai concentrar todos os poderes numa só pessoa, o que não garante necessariamente maior eficácia às escolas e vai fatalmente potenciar situações de prepotência e compadrio pessoal e partidário. Uma vez mais se comete o erro de importar mal um modelo das empresas para a Administração Pública, apesar de serem realidades completamente diferentes.

... temos assistido a um frenesim de comentadores do regime brandindo as estatísticas da educação para defender que “é preciso fazer qualquer coisa” e que estas “reformas” têm de continuar. Ora, o que o País certamente não precisa é que se faça “qualquer coisa”: isso foi o que fizeram os 26 ministros da Educação dos últimos 30 anos! O Ministério da Educação não deve ser um campo para o experimentalismo inconsequente nem palco de reformas voluntaristas. O que Portugal precisa é que a Educação seja definitivamente levada a sério e executada serenamente com o aval de quem sabe do assunto: os professores. ibidem

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