2009/09/13

Um gato é um gato

"Um cão é um cão. Um gato é um gato. Portugal é um túmulo". Infelizmente não consegui encontrar o nome do autor destas linhas. Compreendo bem a ideia, e não posso discordar (nem é por acaso que José Saramago disse e escreveu que Portugal está num processo de decadência irreversível), mas alargaria o conceito (de túmulo) a grande parte da Europa. E alargaria não só pelo seu passado de atrocidades sobre atrocidades. Basicamente a Europa é fechada e tribal, sem laços significativos (que não sejam artificiais e forjados politicamente) entre o norte, o sul, o este e o oeste, mas Portugal, devido à sua periferia e ao facto de só ter um tipo de vizinhos, com os quais nem sequer tinha uma boa relação, desenvolveu um tipo de fechamento típico das sociedades árabes e africanas mais fechadas. A decadência a que se refere Saramago é absolutamente normal se tivermos em conta que todas as sociedades endogâmicas (sociedades onde a troca de mulheres acontecia exclusivamente dentro dos limites do grupo ou tribo) desapareceram. Por isso Portugal e Espanha deveriam resolver o "seu problema", porque se existem laços significativos entre países europeus eles encontram-se seguramente entre Portugal e Espanha.

Quanto ás "regiões", só não vê quem não quer, a norte do Rio Douro há uma só, que integra o norte de Portugal mais a Galiza. Assim era nas origens (o idioma, como é sabido, era o galaico-português) e assim será no futuro, se isso corresponder, como parece, à vontade de populações que foram artificialmente separadas por fronteiras políticas.

Num cenário de uma hipotética união ibérica, a Península Ibérica poder-se-ia chamar Ibéria, como Saramago propôs, e seria uma federação das várias regiões ou "nações", ficando por resolver que tipo de Estado federativo teremos.

Este irá ser o grande e verdadeiro dilema (monarquia ou república?)* porque em poucos anos, compelidos pela decadência acelerada de Portugal (evidentemente que os portugueses, mais o seu "modus vivendi", só porque compreenderam o buraco que criaram e querem mudar, não vão ser completamente diferentes de um dia para o outro, de um ano para o outro, de uma década para a outra: não vão passar de tribais a cidadãos do mundo, de repetitivos a criativos, assim como Portugal não vai passar da sociedade mais desigualitária da Europa à mais igualitária, sendo este último ponto uma das causas principais do actual afundamento de Portugal: mas até isto é simplesmente uma das consequências da estruturação afectiva, cultural, social e económica de uma sociedade tribal), poucos portugueses porão em causa a necessidade de "voltarmos às origens" e juntarmo-nos a Espanha.

Basicamente será muito bom para nós portugueses. Não só nem principalmente por questões económicas: nós os portugueses estamos "um pouco" fartos uns dos outros. É como num casamento que só se mantém para salvar as aparências: não pode durar muito e se durar é um falso casamento. A União Ibérica permitir-nos-á em certa medida sairmos deste casamento que não tivemos oportunidade de escolher. Seguramente que os do Norte vão-se sentir muito mais felizes com os da Galiza, os da Extremadura estarão bem uns com os outros, e os do Sul com os Andaluzes.


* existirão outros dilemas "menores", como a localização da capital, os idiomas oficiais, a bandeira e o hino que terão obviamente de mudar. Não há bela sem senão e a união só será possível se os espanhóis de Castilha-Leão compreenderem e aceitarem isso (se não aceitarem Portugal vai definhar e a Espanha também porque vai ficar sem a Catalunha e o País Basco). Claro que a Catalunha abrirá garrafas de Freixenet para comemorar e, integrada na Ibéria, talvez abandone os seus imptos separatistas, o mesmo acontecendo com os Bascos, apesar destes serem imprevisíveis...


Gallæcia

O galego-português (também chamado de galaico-português, proto-galego-português, português antigo, português arcaico, galego antigo, galego arcaico) foi a língua falada durante a Idade Média nas regiões de Portugal e da Galiza, (Espanha), da qual as atuais línguas portuguesa e galega descendem, assim, o galego-português é o idioma ancestral comum às línguas galaico-portuguesas.

A língua considera-se formada no século VIII, principalmente como desenvolvimento do latim vulgar falado pelos conquistadores romanos a partir do século II d.C. No seu momento, foi língua culta fora dos reinos da Galiza e de Portugal nos reinos vizinhos de Leão e Castela. Por exemplo, o rei castelhano Afonso X o Sábio escreveu as suas Cantigas de Santa Maria em galego-português. A sua importância foi tal que é considerada a segunda literatura mais importante durante a Idade Média europeia , só perdendo para o occitano.
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A região que abrange os galegos da Galiza e os galegos do Norte de Portugal fazia parte da antiga província romana da Galécia ou Gallæcia (posteriormente Reino da Galiza) e ainda hoje, séculos depois da separação de Portugal e da Galiza, os cidadãos dos dois lados da Raia conformam uma mesma identidade cultural que é candidata a ser reconhecida património da humanidade pela UNESCO. in Wikipédia (Língua galego-portuguesa)

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