2009/10/17

Paredes meias

Aqui está um documentário na competição portuguesa do doclisboa 2009 revelando deficiências técnicas pouco aceitáveis nos tempos que correm. No entanto a temática de Paredes meias vale por si, e é paradigmática do que habitualmente acontece em Portugal*: um projecto de habitação social, no centro da cidade, acaba nas mãos dos "filhos do papá", como diz uma moradora da "primeira fase".

Trata-se do Bairro da Bouça, no Porto, desenhado por Álvaro Siza. O projecto data dos anos 70 e ficou a meio. Quando foi elaborado foi discutido e modificado de acordo com a opinião dos interessados. Passados 30 anos foi finalizada a "segunda fase" e, claro, como é no centro da cidade e tem a assinatura Álvaro Siza, logo apareceram os tais "filhos" que compraram as casas a "preços de saldo", dado serem subsidiadas pelo Estado. Os mesmos "filhos" que provavelmente estudaram nas universidades públicas, subsidiadas pelo mesmo Estado, e que agora são arquitectos, engenheiros e "doutores". Enfim, uns filhos da sorte...

Depois há a outra problemática: o projecto foi discutido e alterado de acordo com a opinião de quem dele ia usufruir, mas passados 30 ou mais anos as críticas são mais que muitas. Este aspecto é interessante pois revela como a percepção de qualidade de vida se vai modificando enquanto a obra arquitectónica fica congelada no tempo (o complexo foi finalizado 30 anos depois da conclusão da "primeira fase", seguindo o projecto original que foi discutido e aprovado democraticamente).

Há também uma situação interessante, em que o muro exterior é totalmente "grafitado", e Álvaro Siza aparece a observar a "obra" e dizendo em tom de aceitação que "é assim por todo o lado".

No fim surge Álvaro Siza afirmando que ter uma habitação se não elimina as desigualdades sociais pelo menos melhora a vida das pessoas e o direito à habitação deveria estar consagrado entre os direitos elementares (de facto até está na Constituição...). Mas, uma vez mais, foram os menos necessitados que compraram as casas a preços controlados (um eufemismo para dizer "subsidiadas pelo Estado").

A democracia portuguesa, nesta sua fase "avançada" (não é para rir), não está a funcionar nada bem...

* quem tem vivido em Lisboa lembra-se bem daqueles apartamentos fabulosos, com vista para a Praça do Camões, que foram remodelados ao abrigo do programa Recria. Constava que foram todos atribuídos (por concurso muito público evidentemente) a gente da freguesia, como por exemplo o filho do presidente da Junta (e outros familiares e amigos, segundo se dizia). Residir na dita freguesia era a condição indispensável para se poder concorrer áqueles apartamentos. Um dia mais tarde, depois da polémica esfriar, vi que um desses apartamentos estava para venda (revenda para sermos mais precisos) e do outro lado o número muito bem redondo foi: "400 mil".


Triologia Kenedi

Só vi excertos de dois filmes da triologia mas fiquei elucidado: agora compreendo porque Portugal é o país que melhor acolhe os imigrantes.

O que eu deixou-me aterrado: famílias avisadas de um dia para o outro que iam ser deportadas porque já não eram considerados refugiados. Verem todos os bens e dinheiro ser "apreendido" pelo "SEF" alemão antes de serem repatriadas. Cheguei a pensar que aquilo era uma ficção baseada nas deportações do periodo nazi. Mas não: era a Alemanha do século XXI. Senti-me chocado e defraudado.

Kenedi goes back home, Kenedi lost and found e Kenedi is getting married (este último não vi de todo) são uma triologia muito "pedagógica", a não perder. No doclisboa.

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