2009/11/17

A manada

Hoje ao ler o DN (não sou um leitor regular do DN, leio-o unicamente quando o proprietário do café das redondezas o decide comprar), deparo-me com a "teoria da manada", para explicar a "essência" supostamente corrupta dos portugueses.

Esta teoria não é nova e há anos, quando entrevistei o pianista e professor Sequeira Costa, ele remeteu-se a ela (na entrevista não consta porque, no contexto, não era pertinente e sobretudo porque a entrevista se destinava a outro media que poderia bloqueá-la devido a essa referência. Como acabou por acontecer mesmo com essa "auto-censura"...).

A análise feita por um grupo de sociólogos (ou antropólogos, não estou seguro) referida hoje no DN não deixa de ser interessante, apesar de, como acima referi, não ser nova.

Os portugueses comportam-se de forma tribal, em "manada", onde a individualidade é simplesmente destruída. Refira-se a propósito as teorias de Louis Dumont na análise que fez da sociedade indiana tradicional. Há coisas, em meu entender, erradas na sua teoria, que por vezes, em minha opinião, peca por um certo simplismo e um olhar demasiado "eurocêntrico" *, além de que o caso de Portugal (nomeadamente), na Europa, demonstra que o atrofio da individualidade não é de todo apanágio da sociedade indiana tradicional.

No comportamento em "manada" a tribo está acima do individuo e a ética resume-se áquilo que os chefes da tribo determinam, supostamente baseados na "tradição" ou em qualquer outro "código". Os casos mais exemplares são as redes mafiosas italianas onde a hierarquia e a "família" são o valores máximos cuja traição se paga com a vida. Também poderiamos ir até algumas sociedades no Médio Oriente, onde a tribo e a "tradição" estão acima de qualquer outro valor. Daí os recorrentes e endémicos problemas de corrupção no Afeganistão, por exemplo, onde os militares ocidentais chegam ao ponto de pagar protecção aos próprios talibâs que combatem. Uma vez até aconteceu terem pago ao grupo de talibâs errado e terem sido atacados...

Evidentemente que uma Europa Federal teria de pôr cobro a situações como a portuguesa, a Romena, a Búlgara, a Eslovaca, a Grega e a Italiana (com a "pequena" diferença que a Itália é membro essencialmente contribuinte enquanto os outros são sobretudo beneficiários da UE), nomeadamente, porque estaria em causa o prestígio e a credibilidade mundial da própria União Europeia. Há que dizer que a situação portuguesa e Grega, especialmente, são uma vergonha para a UE, dado que se tratam de membros antigos da União que continuam pobres e corruptos, e deve ter-se em conta que actualmente Portugal é substancialmente mais pobre e desigual do que a Grécia, ao contrário do que acontecia 10 ou 15 anos atrás.

A Eslováquia, um pequeno país jovem na UE, já ultrapassou Portugal nos índices económicos... Se entretanto a UE não intervir, com a corrupção e a derrapagem nos orçamentos das obras públicas que sistematicamente acontece, um dia até os paises dos balcâs hão-de ultrapassar Portugal.

Talvez seja essa (a Europa Federal) a "solução final" para os "casos complicados", notoriamente o caso português onde os valores tribais e de grupo estão acima do respeito pelos individuos e das normas éticas consideradas "universais" na Europa, e onde não acontecerão mudanças substanciais sem uma intervenção externa forte e contundente.

Claro que a Inglaterra recusará, agora e sempre, uma Europa Federal, mas o debate britânico já vai longe e já se equaciona, nos media, com a derrota iminente de Brown e com a eventual eleição de um Presidente do Conselho Europeu pró-federalista, uma retirada inglesa da UE, coisa que afinal seria melhor para todos uma vez que a Inglaterra sempre se comportou mais como um "parceiro priviligiado" que como um membro de pleno direito da UE.

Quanto aos outros, que recebem biliões da UE mas querem continuar como sempre foram, que sejam consequentes e tenham a coragem de, ou se retirarem e devolverem o que já receberam, ou compreenderem que aceitar receber milhares de milhões de euros em apoios implica alguma perca da independência. Já agora interessava fazer as contas ao que a Inglaterra recebeu da UE e áquilo que pagou enquanto membro contribuinte...

* para melhor compreender isto há que ler a obra "A Identidade Roubada", do grande antropólogo português José Carlos Gomes da Silva , com quem tive o privilégio de conversar e aprender, enquanto "aluno voluntário" de antropologia e candidato a doutor (não concretizei o doutoramento devido a divergências com o meu proponente e orientador, que não era José Carlos Gomes da Silva).

Leia-se o final da informação sobre José Carlos Gomes da Silva que aparece na wikipedia (neste dia à hora deste post): "José Carlos Gomes da Silva deixou de dar aulas a partir do ano lectivo 2006 / 2007 para realizar investigação na Índia, não tendo não regressado ao activo como docente, tendo «optado» antes pela reforma, em grande parte face ao empobrecimento do meio académico actual. Gomes da Silva era, também, até ao último ano em que leccionou no ISCTE-IUL, um crítico da política do ensino de Bolonha e das reformulações instigadas por este na estrutura curricular dos cursos, neste caso, de antropologia da instituição onde trabalhava."

Eu sei o que isto significa porque andei por lá. Uma boa parte do meio académico português é podre e mediocre. Enquanto o sistema de avaliação do ensino superior não fôr sério, totalmente independente das instituições que avalia, e constituído por uma equipe internacional, Portugal não passará da "cêpa torta".

Equipe internacional porquê? Por questões óbvias de qualidade e porque o sistema de convite dos jurados de doutoramento pelos orientadores dos candidatos criou uma "rede" nacional muito difícil de detectar (e até internacional pois não é raro, quando o candidato exerce na instituição onde faz o doutoramento, serem convidados para jurados de doutoramento académicos ou investigadores estrangeiros a expensas da instituição que convida. Neste caso, e também nos outros, as possibilidades de avaliação de favor estarão substancialmente reduzidas se se derem ao cuidado de suspender - no caso de se tratar de equipe de avaliação fixa, ou não convidar no caso oposto - elementos que já foram jurados nas instituições a avaliar. Esta deverá ser uma das regras básicas).

É muito, mesmo muito curioso observar-se como à ânsia de avaliar os professores do ensino básico e secundário não corresponde outra ânsia de se fazer avaliar os do superior...

A minha formação básica na universidade (licenciatura) foi feita numa instituição onde abundam ex e futuros ministros, como na outra instituição de ensino superior público que tive oportunidade de conhecer "por dentro". Nesta última diria mesmo actuais (ministros). Não posso dizer que a primeira, onde concretizei a licenciatura, seja uma má instituição. Inclusivé assisti à defesa de duas ou três teses de doutoramento que me deixaram impressionado pelo grande nível da argumentação. Mas devo acrescentar que foram casos excepcionais devido à envergadura intelectual dos candidatos, uma das quais, lembro-me perfeitamente, entrou num choque tão grande com o orientador, um conhecido filósofo que já não está entre nós, que a discussão passou praticamente a ser feita em alemão devido ás radicais divergências sobre o que o filósofo x queria exprimir na frase y no contexto z, citando de cor exemplos de aqui e de ali. A candidata, que foi minha professora na licenciatura e que possui uma envergadura intelectual extraordinária, não passou com a nota máxima porque o seu orientador votou contra! Mais tarde chegaram-me "rumores" sobre questões internas, concursos para catedráticos, etc, que me deixaram algo perplexo, pois ingenuamente imaginava que a "minha" universidade estava acima dessas malfeitorias, apesar de um tal sujeito, de nome estrangeiro, que por lá andava... Adiante.

Não poderei dizer o mesmo de outras (instituições de ensino superior público) que conheci, uma delas talvez com alguma "profundidade" devido à situação, à época, de candidato a doutor. O que posso dizer é que, grosso modo, em Portugal o único problema sério num doutoramento é entrar-se em discordâncias com o orientador, sobretudo se o orientador tem alguma "áurea", mesmo que passada. É o orientador que convida todo o júri que nos vai avaliar e é o orientador que vai defender (ou não...) a nossa candidatura em Comissão Científica, quando dela faz parte (neste particular caso seria até o presidente...).

Nessa instituição assisti a duas provas de doutoramento de antologia (depois disso decidi nunca mais assistir a provas de doutoramento naquela instituição): numa, no júri não havia um especialista na matéria que o candidato disse estar a tratar ("esse erro de interpretação é irrelevante porque a minha tese é em ...", retorquiu o candidato a uma envergonhada observação da arguente, uma conhecida "especialista" estrangeira convidada evidentemente a expensas da instituição). É! O candidato era professor na instituição e o presidente do júri, que era presidente de um desses institutos de "ciências sociais" que por aí proliferam *, disse claramente não perceber nada da matéria que o candidato disse estar a trabalhar (porque afinal não era uma tese na disciplina em que o candidato estava a fazer o doutoramento mas numa "área concomitante"...), mas achar a tese "muito erudita". O grave é que o orientador do candidato, um sujeito "porreiro", também nada percebe do assunto, não havia um co-orientador que percebesse, e no júri nenhuma das pessoas que lá vi percebe nada, para além das generalidades que fazem parte da cultura geral de um académico, de Hermenêutica, a área que o candidato afirmou estar a trabalhar, muito especialmente do filósofo em que o candidato fundou a argumentação da sua tese de doutoramento. Com a (tremenda!) agravante que o candidato dependeu de traduções uma vez que não tinha capacidade para ler os originais que Hans-Georg Gadamer escreveu. Todos os membros do júri louvaram a "grande erudição" do candidato e só não o transportaram em ombros porque parecia mal, dada a sua condição de grandes doutores e jurados.

Na outra prova de doutoramento a que assisti na mesma instituição, o júri arrasou como nunca vi a tese da candidata, tanto do ponto de vista metodológico como científico, mas no final votou, por unânimidade, atribuir-lhe a nota máxima. Por acaso o orientador dela era o meu proponente e orientador...

* ele, se chegar a ler este post, há-de-se lembrar muito bem porque, numa ocasião posterior, quando atacava virulentamente o trabalho de uns jovens antropólogos estrangeiros, perguntei-lhe que autoridade moral sentia para verbalizar um ataque daqueles depois de ter aceite presidir a uma prova de doutoramento numa área "concomitante" da antropologia em que ele confessou "não perceber nada" e onde não havia ninguém no júri que percebesse.


Numa universidade pública, algures no Norte, um coordenador de departamento "congelou" um concurso para assistente até que o amigo adquirisse o grau de licenciado numa escola privada, amigo que nessa altura foi directamente convidado pelo coordenador (apesar de não perceber literalmente nada da matéria, embora tivesse, previsivelmente, grandes notas de licenciatura, já que se trata de uma espécie de escola superior de educação) e foi fazer o doutoramento em Espanha, quiçá dispensado pelo amigo coordenador de funções lectivas. Esse amigo, já doutor por uma universidade espanhola, foi quem orientou o trabalho de final de curso da mulher do coordenador, que era aluna na instituição. E fico-me por aqui.


Portugal desceu novamente

Portugal desceu novamente no ranking anual sobre a percepção da corrupção, segundo um relatório hoje divulgado pela organização não-governamental Transparency International. O país obteve 5,8 pontos, numa escala de zero (altamente corrupto) a dez (altamente limpo), contra 6,1 pontos no ano passado, caindo da 32ª para a 35ª posição, entre 180 países avaliados.

Desde 2005 que o país tem vindo a baixar na lista. No ano passado, o processo Apito Dourado e o caso dos donativos do grupo Somague ao PSD tinham provocado uma baixa substancial no Índice de Percepção da Corrupção no país. Este ano, os casos Freeport e Face Oculta poderão ter contribuído para uma nova queda no ranking.

O Índice de Percepção da Corrupção, que a Transparecy International publica anualmente desde 1995, é calculado a partir de 13 inquéritos diferentes, conduzidos por diversas organizações internacionais. Este ano, os cinco países mais bem colocados são a Nova Zelândia (9,4), Dinamarca (9,3), Singapura (9,2), Suécia (9,2) e Suíça (9,0). Na cauda da lista estão a Somália (1,1), Afeganistão (1,3), Birmânia (1,4), Sudão (1,5) e Iraque (1,5).

Portugal está na metade superior da tabela, próximo de Espanha (6,1), Dominica (5,9), Porto Rico (5,8) e Botswana (5,6).

Dentre os países europeus, os piores classificados são a Roménia (3,8), Grécia (3,8), Bulgária (3,8), Itália (4,3) e Eslováquia (4,5). publico.pt, 17.11.2009, 10:26

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