2006/07/09

5 HEURES DU MATIN

Dia 8, no Teatro Nacional Dona Maria, em Lisboa, os Pigeons International Théatre-Dance, de Montreal, apresentaram a peça 5 Heures du Matin, concebida e dirigida por Paula de Vasconcelos e composta sobre um conjunto de fotografias de Serge Clément. No dia seguinte à apresentação conversamos com Paula de Vasconcelos.


Álvaro Teixeira: O espectáculo é falado em francês... Já o apresentou em França?

Paula de Vasconcelos: Não. Nunca me convidaram para apresentar em França.

AT: O facto de ser falado em francês não pode ser restrição? Para o público de língua inglesa, por exemplo?

PV: Não sei... Talvez não pois tenho apresentado muitos trabalhos nos Estados Unidos e no resto do Canadá que não fala francês.

AT: Qual o seu percurso em termos de dança?

PV: Não sou bailarina. Na universidade estudei teatro. O co-director da companhia foi bailariano clássico mas depois começou a interessar-se pelo teatro e abandonou a dança clássica.

AT: Portanto a opção pelo teatro-dança tem que ver com os seus estudos...

PV: No início a nossa companhia era uma companhia de teatro. Foi no final de 1997 que começamos a trabalhar com bailarinos.

AT: O facto de não ter desenvolvido estudos de dança não pode ser uma restrição?

PV: Lá em Montreal há muitos coreógrafos interessantes que nunca estudaram dança ou se estudaram não o fizeram formalmente. Alguns coreógrafos vêm do cinema, outros das "performance arts"... Percursos muito diferentes para resultados muito interessantes.

AT: Será que a dança permite maior expressividade que as outras artes?

PV: Felizmente no mundo das artes tudo é possivel. Pode haver um grande músico que sem ter estudado cria grandes composições... Quanto à dança não é muito fácil fazê-la sem estudar... É mais fácil fazer pintura sem ter estudado. Ou teatro. Ou literatura...

AT: A música também é muito técnica...

PV: É. Mas eu tenho uma sobrinha que faz composições extraordinárias que não têm nada que ver com a sua capacidade técnica actual...

AT: Qual é a sua relação com a Pina Baush?

PV: Tenho uma grande admiração por ela... Como no princípio éramos uma companhia de teatro nunca pensei entrar no campo dela. Acho-a tremenda e fantástica.

AT: No Canadá é no Quebec que se produz mais dança moderna?

PV: Em Montreal... Montreal é hoje para a América o que foi Paris no século XIX para a Europa. Lá trabalham muitos artistas com estilos diferentes. Todos muito bons. É uma cidade muito especial onde se produzem coisas muito diferentes, todas com muita qualidade e muito talento.

AT: Costumam trabalhar fora do Quebec?

PV: Sim. Também apresentamos na Europa e agora vamos à Colômbia.

AT: Como surgiu a ideia de mandar o fotógrafo dar a volta ao mundo?

PV: esta peça faz parte de uma triologia. A primeira chamava-se Babilónia. Era muito diferente que "Cinco Horas da Manhã". Eram muitos bailarinos e músicos em cena. Música ao vivo de influências médio-orientais. Muitas côres e muitos idiomas, como na antiga Babilónia. O terceiro que acabamos de fazer em Abril, em Montreal, chama-se "Amanhã" e é a propósito do futuro. Só trabalhei com jovens com menos de 25 anos. Eram bailarinos, artistas de circo, uma criança e uma rapariga que é surda e só fala com linguagem gestual. Era a intérprete dos artistas, ela que não tinha voz era a voz dos artistas pois o que ela dizia por gestos era o que os artistas pensavam sobre o mundo. Os gestos dela apareciam num écran gigante.
AT: Esse espectáculo vem cá? Seria interessante pois faz parte da triologia...

PV: Não sei.

AT: Quais os seus projectos próximos?

PV: Para o ano vamos apresentar a triologia inteira em Montreal, pois cada espectáculo foi apresentado em anos diferentes. Vamos também começar a montar o próximo que estreia em Dezembro de 2007, em Montreal.

AT: Como vai ser?

PV: Em 2007 a nossa companhia faz 20 anos. Há dez anos fiz a "Carta de Amor a Tarentino", um espectáculo em que tentava fazer uma proposta, em diálogo virtual com o Tarentino, diferente, longe da visão do mundo violento do Tarentino. Esse espectáculo foi presentado sobetudo na América mas também na Europa. O próximo espectáculo vai-se chamar Kiss Bill e é uma oposição aos Kill Bill do Tarentino .

AT: Qual é a sua mensagem?

PV: É mais uma pergunta, uma sugestão: será possivel imaginar um mundo sem violência?

AT: Acha que a violência é uma caracteristica masculina?

PV: Não é, mas o mundo ainda é dominado pelos homens que não deixam espaço para uma visão do mundo mais feminina, mais humana.

AT: Mas o Canadá é um país onde as mulheres têm grande peso...

PV: O Quebec é uma das sociedade mais evoluidas do mundo, onde as mulheres têm muito peso e importância. Mas ainda há trabalho a fazer pois os homens normalmente ganham, para o mesmo trabalho, mais que as mulheres...

AT: A sério? No Canadá?!

PV: Sim. Além de que o trabalho das mulheres não diminui ao longo da vida pois trabalha fora, trabalha em casa e é mãe. Nós vivemos em sociedades em que o sucesso é pirâmidal. Tem de se subir a escada ultrapassando o outro. Uma sociedade que não pensa que o sucesso pode ser de outra maneira: o sucesso de ser um bom ser humano não é valorizado. Trazer ao mundo crianças, educá-las para serem bons seres humanos é muito importante mas não é devidamente valorizado.

AT: Mas nos países escandinavos isso é valorizado...

PV: No Canadá também mas há que avançar mais pois não temos a vantagens que as mulheres escandinavas têm.

AT: Como escolheu a música para Cinco Horas da Manhã?

PV: Por acidente. Parte da música é do Oleksa Lowsochuk que é muito jovem. Estava a ouvir rádio no carro, gostei muito da música que estava a passar e esperei pelo fim para ouvir o nome do autor. Depois fui comprar o cd que é o primero cd dele. Esta música é do primeiro cd dele e até agora só nós é que utilizamos esta música como suporte. Depois há uma canção do Gian Maria Testa que é repetida duas vezes. A música mais oriental é do Steve Tibbetts e Choying Drolma. A última música é de um grupo canadiano que se chama K OS.

AT: No princípio eram quinze mil fotos...

PV: Sim. Tivémos que fazer uma grande escolha.

AT: Houve intenção de produzir uma mensagem política? Muitas fotos, muito impactantes, de gente a dormir na rua...

PV: Não. Não houve. Foram fotos tiradas ás cinco horas da manhã... Também há os jogadores de boxe tailandeses que se preparam para o treino que começa áquela hora.... E as dos mosteiros....

AT: Pretende utilizar as outras fotos para futuros trabalhos?

PV: Não, não me pertencem. São do fotógrafo.

AT: Porquê a temática do psicólogo?

PV: Não é um psicólogo. É mais um guia espiritual. Ela não tem um problema. Não está a atravessar uma crise. Falando com este senhor ela começa a identificar e a verbalizar a sua preoupação que é humanitária com o mundo.

AT: Porque a escolha de uma personagem que é uma fotógrafa?

PV: Queriamos usar as fotos e essa personagem dá-nos uma razão lógica para estarem ali, ainda que a razão seja sobretudo poética.

AT: Houve uma preocupação de trabalhar a profundidade, os vários planos do espaço...

PV: Sim. Tem que ver com a preocupação poética, assim como a criação de personagens misteriosas. Aquelas duas bailarinas, ainda que o público não se dê conta, representam duas facetas da mesma mulher. Uma que está sempre a fazer oração, agarrada ao chão. A outra é mais aérea, mais leve, mais serena.

AT: Nesta última o movimento é clássico...

PV: Ela tem uma grande formação em ballet clássico e eu procuro utilizar as potencialidades das pessoas.

AT: Foi um prazer esta conversa e espero poder ver outros trabalhos seus.














2006/06/29

AYRE

A Deutsche Grammophon fez uma forte promoção (há vários meses chegou-me ás mãos uma brochura promocional com o cd) de uma espécie de compilação de canções populares, umas anónimas outras de autores identificados, ás quais são acrescentadas umas "pinceladas", intitulada Ayre, do compositor Osvaldo Golijov. Recentemente esta gravação foi colocada à disposição do público com a transcrição de uma opinião publicada num conhecido jornal dos Estados Unidos que considera indispensável a sua aquisição...

Não por acaso, no mesmo cd, é-nos dada uma nova interpretação das Folk Songs de Berio, sendo apresentada como uma "homenagem a Luciano Berio". Evidentemente que associando as duas obras se pretende associar os dois compositores.

Acho, por isso, que devo exprimir a minha opinião sobre este lançamento da DG, que promete ser o primeiro de uma série de registos com obras de Golijov, segundo se lê na referida brochura.

Ayre pode ser uma compilação de melodias de vários meridianos e latitudes. Não é, seguramente, uma obra musical na qual se possa detectar a "impressão digital" do seu criador. Na realidade, prefiro escutar os originais que ouvir esta "compilação" em que um músico se apropria de culturas musicais distintas que não lhe pertencem nem foi por elas designado como sendo o seu porta-voz "erudito".

Ayre de Golijov está a anos-luz das Folk Songs de Berio porque a intuição e talento de Osvaldo Golijov está a anos-luz da intuição e talento de Berio. O único ponto em comum entre Golijov e Luciano Berio é só e somente este cd. E outros que eventualmente possam associar obras dos dois autores...

Pouco mais há a dizer de um compositor sem rasgos, que usa o riquíssimo legado musical colectivo, onde muitos dos protagonistas ficaram deliberadamente no anonimato, para construir colagens desprovidas de estilo próprio, de inspiração e criatividade. AST















2006/06/20

ARIODANTE

Até 24 de Julho encontra-se em cena, na ENO (English National Opera), a ópera em três actos de George Frederic Haendel, dirigida por Christopher Mouds com encenação de David Alden, restaurada pelo próprio co-adjuvado por Ian Rutherford. As luzes foram originalmente desenhadas por Wolfgang Göbbel.

Moulds conseguiu extrair da orquestra boas dinâmicas e expressivos contrastes, aspectos fundamentais para uma re-interpretação interessante desta música, neste caso feita com instrumentos modernos. O baixo-continuum foi garantido, muito eficazmente, por um cravo, tocado por Moulds, uma teorba, tangida por Dai Miller, e um violoncelo barroco por David Newby.

Esta ópera, que contém inúmeras partes musicais destinadas a serem dançadas, relata-nos uma história banal em que o bem leva melhor sobre o mal, com as devidas peripécias e dramas originados pelos indispensáveis equívocos que são o motor da história. Neste caso, uma inteligente encenação introduziu uma grande mais-valia na trivialidade do libreto. Tratou-se de uma encenação onde o barroco - presente nos candelabros desnivelados (cujos cristais serviram em determinadas cenas para dispersar a luminosidade), no tecto, pintado "à maneira da época", que descia para se transformar num objecto híbrido que tanto podia ser um submarino como um telhado, que também podia ficar desnivelado, simbolizando decadência e drama - foi re-criado com uma leitura moderna, produzindo um grande efeito expressivo. Também as coreografias, numa estética contemporânea, de Michael Keegan-Dolan, repostas por Rachel Lopez de la Nieta, foram outra mais-valia que só um excelente corpo de dança poderia materializar com a grande eficácia que aqui aconteceu. O corpo de baile da ENO recebeu, merecidamente, grandes ovações.

Esta produção da ENO vale por isso tudo, mas também pelo grande desempenho do seu côro que esteve sempre no fosso da orquestra, situação interessante, possibilitada pelo reduzido número de efectivos instrumentais, que potênciou a elevada performance do grupo coral. Um aspecto derivado da encenação que foi trabalhada com base nos solistas, nos bailarinos e em actores não cantates, que se revelou uma excelente opção.

Quanto aos solistas há que destacar de imediato Alice Coote que foi um fabuloso e expressivo Ariodante. Lurcanio, irmão de Ariodante, interpretado por Paul Nilon, esteve igualmente excelente. O rei foi Peter Rose que, no início revelou falhas na colocação mas, com a voz aquecida, demonstrou ser um bom intérprete. Ginevra, filha deste e centro de todo o drama, foi Rebecca Evans que inicialmente revelou agudos ásperos e mal sustentados mas, no decurso da performance, demonstrou conseguir uma voz redonda e bem colocada. No entanto, na minha opinião, faltam-lhe nuances tímbricas que potênciem uma maior expressividade. Polinesso, o mau da fita, foi uma excelente Patricia Bardon, que para além de grande cantora se revelou uma excelente atriz. Finalmente Dalinda, a apaixonada-enganada-usada por Polinesso, foi Sarah Tynan que possui um belo e expressivo timbre. No global foi uma grande produção de uma ópera barroca, utilizando instrumentos modernos estilística e musicalmente bem trabalhados. AST















2006/06/19

SUMMER EXHIBITION 2006

A 238ª edição da Summer Exhibition, na Royal Academy of Arts de Londres, que se encontra aberta a todos (mediante pagamento) até 20 de Agosto, impressiona logo pela colossal escultura de Damien Hirst, intitulada The Virgin Mother. Nesta obra gigantesca, em bronze, uma mulher aparece com as entranhas, de um dos lados, expostas, vendo-se um feto. Obra impressionante, para alguns chocante, fica como imagem de marca desta Summer Exhibition 2006.

No entanto existem obras, em nosso entender, mais interessantes que a espectacular The Virgin Mother.

Anish Kapoor, prosseguindo o seu trabalho de jogo com os sentidos, apresenta Untitled de 2004 e Untitled de 2006. Untitled de 2006, trata-se de um enorme prato suspenso na parede sobre o qual a nossa imagem surge distorcionada, provocando um colapso do nosso domínio das coordenadas sensoriais do espaço. Untitled de 2004, trata-se de uma pequena bola de aluminio onde a nossa imagem surge espelhada na superficie.

No entanto a grande novidade desta edição, em nosso entender, trata-se de Marilène Oliver. Em Show Me How To Float, uma obra genial feita em acrylic iluminada com luz fluorescente, percebe-se um vulto feminino tridimensional que toma forma pelos furos executados nas placas sobrepostas de acrylic. Esta obra ganhou o The London Original Print Fair Prize. Radiant, outra obra fenomenal na qual a criadora utiliza inkjet print, no acrylic, deixa perceber um vulto masculino, numa tridimensionalidade fatiada no interior de um cubo translúcido. O exemplar exposto estava vendido.

Quanto às obras dos alunos da Royal Academy, expostas noutro lugar (entrada livre), devemos destacar as colagens com pintura de Jessica Holmes, que utiliza folhas coladas das listas dos telefones chineses, construindo deste modo grandes superficies, sobre elas pintando blocos floridos, simulando continentes, cujas re-entrancias aparentam coincidir. Noutros casos os blocos pintados encontram-se dispostos simetricamente. As obras expostas de Jessica Holmes encontram-se todas vendidas.

Muitissimo interessantes são as foto-montagens de Liane Lang, onde os corpos das modelos surgem subtilmente corrompidos, pre-anunciando a estaticidez da morte simbolizada pelas esculturas decapitadas onde as modelos se entrelaçam. Pilar Villa














2006/06/18

NIXON IN CHINA

A English National Opera (ENO) está a apresentar esta ópera de John Adams com encenação de Peter Sellers.

Antes de mais devo dizer que não sou exatamente um fã do minimalismo em música. Depois desta nota à-priorística posso passar a comentar a récita a que assisti ontem, 17 de Junho.

Se o minimalismo na "música pura" resulta, invariavelmente, numa "trágica monotonia da repetição" (a expressão é de Freud referindo-se ás patologias), na ópera pode, caso haja intuição, funcionar bem. Só assisti a uma outra ópera minimalista, "O Corvo Negro", se bem me lembro (esta expressão também não é minha como todos sabemos), de Phillip Glass, que foi, para mim, um autêntico embuste. No entanto, não há qualquer pertinência, neste caso, em estabelecer comparações porque se uma foi um embuste, outra, a que trato aqui, é uma obra acabada e conseguida.

Adams conseguiu uma interessante gestão das tensões devido à estrita conexão entre acção e movimento sonoro. Quando me refiro, no minimalismo, a movimento, estou a falar da alteração do quadro, da "paisagem" sonora. E nesta ópera, Adams revelou-se um mestre, mesmo quando parecia que estavamos a resvalar para o "dejá-vu", como referências tangênciais a outras obras, feitas em contextos muito particulares.

Mas Adams teve golpes de genialidade: no encontro entre Nixon e Mao a dobragem das palavras de Mao pelas três secretárias teve um efeito fortíssimo, que remete para a metáfora do "grande mestre", cuja voz ressoa, e não é por acaso que, no acto final, Mao re-aparece a dizer "eu não sou um". Também a figura de Mao, neste encontro, foi tratada de forma genial por Peter Sellars: uma figura em colapso que dizia tratar de filosofia e não de política: "Isso fica aqui para o primeiro", ripostou quando Nixon tentou abordar questões de política internacional. O primeiro (ministro) era Chou En-Lai...

Na grande recepção, sem a presença de Mao, as luzes da sala acenderam-se, gradualmente, fazendo o público sentir-se participante daquele momento da história, em que, primeiro Chou En-Lai, depois Nixon, fizeram declarações de amizade e respeito mútuo. Nixon foi mais longe dizendo: vi a China como um inimigo, afinal enganei-me. Todos nós participamos, retroactivamente, dessa união da diferença, da mesma maneira que todos nós participamos, desta vez como espectadores uma vez que a acção voltou a confinar-se ao palco donde afinal nunca chegou a sair, da percepção de uma ilusão, pela queda e morte de Chou En-Lai e pelo quadro árido em que o último acto se transformou, transformando-se simultaneamente numa subliminar metáfora a toda a política. Aliás a libretista fez questão em realçar a aspiração de Nixon à história. O mesmo Nixon que comparou a sua viagem e estadia na China à ida à Lua... Na verdade foi uma viagem para o incógnito pois, o programa esclarece-nos, quando Nixon iniciou a viagem o encontro com Mao não estava garantido.

Paul Daniel, o condutor, soube compreender bem os "movimentos", a "direccionalidade", do trabalho sonoro de Adams. Em primeiro lugar, devido a ele, esta produção foi uma excelente reposição de uma obra datada mas incontornável da história da música do século XX.


  • A orquestra e côro da ENO esteveram excelentes, uma excelência a que já estou habituado. James Maddalena que foi Nixon quando a ópera estreou, voltou a sê-lo de novo. Adrian Thompson foi o incrível personagem Mao Tse-Tung, revelando-se não só um grande cantor como um grande actor. A figura dramática de Chou En-Lai, tentando conciliar o inconciliável, foi desempenhada por Mark Stone. Henry Kissinger teve igualmente um desempenho notável por Roland Wood, que também apareceu como o vilão (não por acaso...) no "ballet revolucionário" oferecido aos visitantes pela mulher de Mao, personagem terrível desempenhada por Judith Howarth. Finalmente Pat Nixon (a esposa de Nixon) foi desempenhada, com convicção, por Janis Kelly. Falta dizer que o inteligente libreto foi de Alice Goodman, que também escreveu um dos textos do programa, programa este que é dotado de um raro interesse histórico e artístico. O público que enchia o Coliseum de Londres, uma sala dotada de de uma acústica invejável, aplaudiu com vigor esta produção que é, no mínimo, de interesse máximo. Lívios Pereyra











2006/06/15

MOZART IN LONDON

Com um programa baseado nas estadias de Mozart em Londres, Paul McCreesh e os Gabrieli Consort & Players interpretaram obras variadas de Amadeus, incluindo a sinfonia k 16, supostamente a primeira sinfonia, escrita quando Wolfgang tinha oito anos, e a famosa sinfonia 40.

Pelo meio foi tocado o concerto para piano 12, cujo movimento lento se baseia num tema de Johann Christian Bach por quem Mozart nutria profundo respeito, chamando-lhe "o Bach de Londres" , concerto este que teve uma magnifica leitura pelo pianofortista Ronald Brautigam que se revelou um grande artista.

Ao iniciar a segunda parte, a soprano Rosemary Joshua deu-nos uma bela leitura de Ch'io mi scordi di te?, kv 505. A soprano revelou-se uma mozartiana de primeira apanha, conseguindo mobilizar os aplausos entusiastas dos escassos ouvintes que compareceram no barbican de Londres para este evento.

Outras obras de outros compositores foram tocadas mas, finalmente, a bem conhecida sinfonia 40, de Amadeus, teve uma leitura fabulosa, o que deve ser sublinhado uma vez que esta penultima sinfonia de Wolfgang se trata de uma grande e importante obra que marcou o sinfonismo do seu tempo e que costuma ser tocada por todas as orquestras, nomeadamente as que utilizam os instrumentos actuais.

Os Gabrieli revelaram ser grandes artistas e McCreesh revelou ter um conceito inteligente desta obra genial. O contrastante equilibrio das dinamicas, perfeitamente controladas, o diapasao afinado, o desempenho perfeito dos metais, instrumentos que oferecem dificuldades acrescidas por, nestes instrumentos antigos, carecerem de pistoes e terem de ser tocados na base de harmonicos controlados pela intensidade do sopro, tudo foi perfeito (esquecamos as muito pequenas e muito pontuais desafinacoes no naipe dos primeiros violinos), inteligentemente concebido e tocado com "alma". Tivemos pois uma sinfonia 40 do mais elevado valor artistico. Uma noite para recordar. Livios Pereyra














2006/06/14

SHOSTAKOVICH PELA WIEN PHILHARMONIC

Dirigida por Bernard Haitink a orquestra vienese apresentou-se em Londres com uma primeira parte dedicada a Mozart, tendo na segunda sido interpretada a sinfonia 10 do compositor russo.

Vamos por partes, pois recentemente escutamos esta mesma sinfonia pela Orquestra do Concertgebouw, dirigida por Mariss Jansons, o seu titular actual.

O Mozart foi divino, como se costuma dizer. A sinfonia 32, em um andamento, foi interpretada de maneira deliciosa pelo genial agrupamento, na sua forma de orquestra reduzida, o mesmo se passando com o primeiro concerto para flauta que contou com o flautista Wolfgang Schulz, um flautista fabuloso e primeiro do naipe deste agrupamento.

Passemos agora a Shostakovich. A sinfonia 10 trata-se de uma das grandes obras do compositor, sendo simultaneamente uma obra fundamental daquilo que poderemos designar por estetica neo-classica. Trata-se de uma obra com uma estrutura bem mais consistente que aquilo que aparenta. Em termos de motivos deve ser dito que existe o motivo fundado no nome do compositor, recorrente nas suas obras, e existe um outro motivo formado de maneira encriptada sobre o nome de Elmira Nazirova, por quem Shostakovich nutria, no tempo em que criou esta sinfonia, especial afecto.
Diria que a forma como os dois motivos se confrontam a partir do terceiro movimento tem mais de afectos que de mensagem politica, se se pode falar em "mensagens" na obra do compositor. O motivo sobre o nome do compositor apresenta-se como corrosivo, explosivo, por vezes em pesados unissonos nas cordas, enquanto o motivo de Elmira se apresenta como temperado, apaziguador e aparece nas trompas. Este motivo, que surge no andamento lento (Allegretto) cria uma nova dialectica que domina a obra a partir do seu aparecimento, obra que vinha sendo determinada fundamentalmente pelo motivo do nome do compositor. Claro que outras coisas podem existir mas tentar a todo o custo querer ler mensagens subliminares na obra se Shostakovich pode nem ser uma metodologia que valha a pena continuar a explorar, limitando-nos a recepcionar novos dados objectivos, como cartas, notas escritas pelo criador, etc.
Creio que na altura escrevi que Jansons, "especialista" em repertorio da alemanha, seria um chefe-de-orquestra muito pouco consensual, se bem que na arte os consensos se possam dispensar, para dirigir Shostakovich. Depois de ouvir a Wien Philharmonic son batuta de Haitink, devo dizer que, definitivamente e sem colocar em causa a grande qualidade musical de Jansons, a leitura de Haitink foi milhares de vezes mais convincente, mais sentida, mais "profunda" e mais transparente. Claro que a Wien Philharmonic tem uma sonoridade singular mas, estou convicto, que foi a leitura do chefe-de-orquestra que mais contribuiu para esta antinomia na leituras desta mesma sinfonia.
Finalmente, mesmo a melhor orquestra do mundo pode ter falhas: no primeiro surgimento do motivo de Elmira o trompa a custo atacou directo a nota. Num resurgimento mais adiante o ataque delizou meio tom abaixo. Mas que foi isso tendo em conta a grande performance que o mesmo trompa garantiu ao longo de toda aquela genial leitura, feita pela Wien Philharmonic dirigida por Bernard Haitink, desta obra impressionante? Livios Pereyra














2006/06/12

György Ligeti dies on 12 june 2006

On Monday morning, the Austrian-Hungarian composer György Ligeti died in Vienna at the age of 83 after suffering from a serious illness. With him, we have lost one of the greatest composers of the 20th century.
 
György Ligeti was an adventurer in form and expression and a great visionary of contemporary music. His richly varied output takes a special position in its musical quality and uncompromising individuality. Ligeti moved far away from aesthetic trends and methods all his life. He was characterized by fresh and unorthodox ideas, any form of dogmatism was foreign to his nature, his entire oeuvre is marked by radical turning points. Admired and hugely influential in the profession, the sensual accessibility of his music has won the hearts of audiences everywhere. 

in http://www.schott-music.com

2006/06/09

POWDER HER FACE

Trata-se de uma opera composta por um Thomas Ades com 24 anos (o compositor nasceu em 1971 em London). Mas trata-se de uma opera que vai ser uma obra importante entre os trabalhos de uma modernidade que se atravessou do seculo XX para o XXI.

O drama ronda o moderno realismo, com um libreto de Philip Hensher, nascido em 1965, tendo como ocaso a obra de Buchner, Woyzeck, que inspirou o libretto de uma das maiores obras musicais de sempre (a genial opera de Alban Berg com o mesmo nome), Woyzeck este que, talvez por acaso, se apresenta, na forma teatral original, no mesmo local (numa outra sala) onde foi apresentada, na forma de concerto, a opera de Ades.

Trata-se igualmente de uma mulher que uma sociedade machista trucidou. Ali a mulher, uma pobre mulher, foi engolida usada e assimilada pela lei da brutalidade. Da brutalidade que, praticada pelos homens, pode ser horrenda. Woyzec foi o pobre a quem os mais ricos disfrutaram da esposa. Woyzeck vingou-se no lado mais fraco: a mulher que considerava sua. Um triste e estafado conto... Aqui, no libretto de Hensher, tudo gira sobre e com uma mulher que se conduz e conduz os homens. Porque tem dinheiro e nome. Um antagonismo de protagonismos que distingue radicalmente o libreto de Hensher do de Buchner.

Ali, Woyzeck era o quase desamparado, que ficou totalmente desamparado depois de assassinar a sua esposa, membro de uma sociedade de castas onde ele ocupava um lugar na base social e militar. Aqui, a duquesa caiu, estampada, totalmente desamparada, quando lhe faltou o dinheiro. Originalmente ocupava um lugar na sociedade de castas inglesa. Um lugar de topo. Aconteceu com Margaret Williams, Duchess of Argyll, que foi expulsa da suite que ocupava num hotel no ano de 1991. Muito actual...
Os que para mim eram bons eram por mim pagos, constatou a duquesa no final. Seria com ela unicamente a acontecer algo assim? Sabemos que a resposta seria, em todos os casos, na generalidade de todos os casos, negativa. Mas a vertente de sadismo machista, de tremendo e insane sadismo masculino, evidencia-se aqui, muito particularmente e com especial talento, contra uma ex-Don Juan feminina. Talvez porque uma sociedade dirigida e manipulada por homens nunca lhe haveria de perdoar a maneira como usou e usufruiu dos homens. Por vezes pagando-lhes. O julgamento a que a duquesa foi submetida, acusada, entre outras, de condutas sexuais aberrantes ( "fellatio", imagine-se...), foi exemplar deste patetismo morbido a que a agressividade masculina pode conduzir, neste caso, como em muitos outros, sob forma de pretensa defesa da moral e dos bons costumes. Foi no sec XX... Foi igualmente em tonalidade de grande mas contido gozo que o manager do hotel, no final, lhe foi explicando, parco em palavras mas rico em maneirismos vocais, que teria de abandonar o hotel onde residia. Acabou o dinheiro, acabou a estadia. Fatal!

Mas vamos ao trabalho de Ades, criador da obra, que dirigiu o grupo reduzido da London Symphonic Orchestra, ao qual acrescentou um acordeonista que teve um desempenho fabuloso, o mesmo acontecendo com todos os outros instrumentistas. Servindo-se de reminiscencias de estilos musicais bem determinados e genialmente metamorfoseados, Ades conseguiu uma equilibrio dramatico impressionante, tendo produzido uma escrita orquestral de grande mestre. A dualidade solistas/grupo orquestral foi trabalhada de maneira assombrosa, sendo um dos aspectos mais fundamentais desta opera.

Sob batuta do compositor todos os solistas foram extremamente expressivos, muito especialmente Mary Plazas no papel de duquesa. Igualmente Daniel Norman como electricista e mordomo esteve excelente, assim como Valdine Anderson no papel de empregada e Stephen Richardson no de manager, juiz e duque. A sala (Barbican), bem composta, aplaudiu e gritou bravos intensa e longamente. Muitissimo merecidos. Livios Pereyra















2006/05/28

MOZART PELA SWEDISH CHAMBER ORCHESTRA E GALLOIS

É uma gravação de 2002, se não estou em erro. O que interessa é que apesar de ser uma interpretação em instrumentos "modernos", esta interpretação dos concertos para flauta um e dois e do concerto para flauta e harpa, de Amadée Mozart (Mozart deixou de assinar Amadeus para assinar Amadée), pode muito bem ser considerada uma das referências mais importantes para estas obras.

Patrick Gallois é um flautista "quase histórico". Mas a interpretação dos clássicos nem sempre é evidente por parte de alguns "históricos". Evidentemente que Gallois viveu todo o periodo áureo da "nova interpretação" da "música antiga", o que o dotou de conhecimentos que acrescem à sua mais valia como grande intérprete. Mas o decisivo é mesmo a sua interpretação imbuída de um genuíno espírito mozartiano, a sua sonoridade espantosa e os seus fraseados com colorações de espontaneidade, particularidade não mensurável, pouco definível, mas indispensável à interpretação do genial austríaco.

No entanto mais espantoso ainda, neste disco, é a prestação da orquestra sueca que tem Katarina Andreasson como líder. Esta orquestra parece ter sido talhada para a genialidade mozartiana. Claro que uma orquestra destas poderá fazer seja o que seja de maneira assombrosa, mas no que toca a Mozart será difícil conceber uma interpretação mais bela, mais inspirada e mais perfeita.

Como curiosidade posso dizer que este cd "ganhou" um "award" da Gramophone no ano passado (2005). O que não posso deixar de dizer é que é uma edição da Naxos e que custa seis euros. AST















DÉBORA HALÁSZ INTERPRETA CARLOS SEIXAS

Se pensam que as criações para teclado do português Seixas ficam muito aquém da obra para tecla do italiano Domenico Scarlatti, seu contemporâneo, que nasceu muito antes mas morreu bastante depois do falecimento do português, desenganem-se.

Apesar de uma vida injustamente curta, Carlos Seixas é um paradigma da música para teclado da sua época. Se dúvidas tiverem, adquiram o cd que tratamos, gravado em 2003 e lançado para o mercado no corrente ano, e, após uma audição atenta, ficarão devidamente elucidadas.

É claro que a interpretação de Débora Halász, cuja técnica, inspiração e inteligência ao nível dos fraseados e escolhas de registação, são notáveis, é uma mais valia. Uma mais valia tremenda. Mas a discussão é velha e desnecessária. O intérprete cimenta a sua excepcionalidade interpretativa sobre obras de génio. Não há criação mediocre que seja elevada à genialidade unicamente por obra e inspiração do intérprete, por mais espectacular e fenomenal que este último possa ser.

Temos portanto o primeiro cd de uma série que fará história. A história é feita de felizes conjunções, alguém disse. Também pode ser feita de encontros infelizes, sabêmo-lo demasiado bem. O relevante é que, neste caso, a história já começou e já teria um desfecho feliz mesmo que só tivesse sido editado o primeiro cd. Uma história de um compositor genial, por acaso português, de uma cravista (também pianista) inspirada, por acaso brasileira e, os intermediários por vezes podem ser relevantes, de um instrumento (cópia de um outro de 1734) com uma sonoridade fabulosa. Evidentemente tudo possivel pelo impulso, muito oportuno, de uma editora, chamada Naxos, que contou com o apoio de uma empresa e de uma rádio alemãs. O cd pode ser adquirido por 6 euros, em Lisboa, na Companhia Nacional de Música, que fica na Rua Nova do Almada. Esta publicidade não foi solicitada e não tem qualquer contrapartida (pago todos os cd's sobre os quais escrevo* e não aceito "prendas", sejam dos estabelecimentos, sejam das editoras ou distribuidoras). Trata-se simplesmente do local onde, em Lisboa, os leitores poderão adquirir os cd's da Naxos ao melhor preço. AST


* Posso disfrutar de preços vantajosos em algumas distribuidoras. No entanto, desde há muito que não utilizo esta possibilidade uma vez que adquiro os cd's, por preços ainda mais reduzidos, nas promoções que acontecem permanentemente em alguns países onde, episodicamente, me desloco.
Também recebo, muito esporadicamente, discos enviados directamente pelos artistas. Só escrevi, nestes casos, uma única vez. Infelizmente a editora ainda não se decidiu a lançar o cd, que é um brilhante registo de música contemporânea com Pedro Carneiro nas percussões.
















ARTUR PIZARRO INTERPRETA DEBUSSY E RAVEL

Decorreu no Teatro Municipal de São Luiz, em Lisboa, capital de Portugal, uma integral dos dois grandes compositores franceses, pelo pianista Artur Pizarro.

Devido a estar ausente de Lisboa só pude assistir aos últimos três recitais de uma série de seis.

No quarto recital, dia 25 de Maio, Pizarro revelou algumas debilidades na mão esquerda, falhando várias notas. No entanto, a sua leitura global do primeiro livro dos Preludes de Debussy foi "aristocrática". Pizarro trabalhou de forma inteligente tanto o jogo de sonoridades como a transparência rítmica, coisa que não foi evidente na primeira das Valses Nobles et Sentimentales, de Maurice Ravel, onde a sua interpretação padeceu de clareza. No entanto ultrapassou o mau começo, terminando estas "valses" de forma convincente.

Voltando aos Preludes de Claude Debussy (o segundo livro foi interpretado no recital de 26 de Maio), Artur Pizarro demonstrou uma boa compreensão da escrita "debussysta", compreensão essa que se reflectiu numa leitura bem sustentada nomeadamente ao nível do trabalho de dinâmicas e da aplicação do pedal, factores fundamentais quando se fala de Debussy (e Ravel), onde a "grande técnica" é somente o factor básico para uma interpretação que mereça ser escutada.

A interpretação do segundo livro de Preludes ficou bastante aquém daquilo que Artur nos ofereceu no dia anterior. No global a transparência foi aquilo que mais se perdeu. Mas também o leque dinâmico foi restringido e menos subtilmente trabalhado (em Feux d'artifice mas também ao longo da interpretação de todo o segundo livro). Os ostinatos perderam a uniformidade acentuando-se notas ou acordes quando era suposto existir um efeito de esbatimento na uniformidade modulada dinâmicamente em linhas amplas (por exemplo em Les tierces alternées). De facto existem dias menos bons e este quinto recital, dia 26 de Maio, foi disso exemplar.

Os 12 Études de Claude Debussy são, em meu entender, o obra mais importante do século XX para piano. Eles contêm o germe de toda a "contemporaneidade", além de fazerem uma interessante síntese com o passado. Se tivesse de escolher três obras, entre toda a literatura pianística, estes estudos estariam lá, ao lado dos estudos de Chopin e da última sonata de Beethoven. É raro poderemos escutar os dozes estudos de Debussy ser em concerto. Por isto o último recital de Artur Pizarro revestiu para mim um interesse muito particular. Não fui lá nem com muitas nem com poucas expectativas: o Artur é um grande pianista e potêncialmente poderia oferecer-nos algo de muito excepcional. Por outro lado estes estudos não se compadecem com falhas como as que assinalei em relação ao dia anterior.

O que aconteceu é que Artur, tal como quando nos tocou o primeiro livro dos prelúdios, se apresentou na sua melhor forma, brindando-nos interpretações fabulosas, inteligentes, musicais e requintadas, destas doze peças de genialidade máxima. O seu controle das sonoridades foi paradigmático, a sua dedilhação exemplar e o resultado final foi simplesmente magia sonora. La Valse de Maurice Ravel concluiu o recital (houve mais um encore...) de forma virtuosística, arrancando o público das cadeiras. AST















2006/05/20

INTERPRETAR MÚSICA CONTEMPORÂNEA É FUNDAMENTAL

Daniel Hope, reconhecido violinista com carreira mundial, interpretou o concerto de Schumann, para violino e orquestra, acompanhado pela London Philharmonic Orchestra, em dois concertos que se realizaram no QEH, em Londres. Conversamos com ele no final do concerto de 17 de Maio.

AST Acabou de interpretar um concerto que não é muito tocado... Você gosta desta obra?

Daniel Hope Sim. Gosto muito deste concerto. Mas você tem razão: não é tocado muito frequentemente. É muito dificil para orquestra. E mesmo para o violinista... Mas é uma obra com muito charme, com sonoridades calorosas, com visão, com muita paixão. Em todo caso é Schumann e eu adoro Schumann. Pensei que é uma pena que a obra não seja muito tocada e então procuro sempre uma possibilidade para a interpretar. Mas é muito raro que as orquestras me peçam para a tocar, por isso estou muito contente por estar aqui em Londres e poder fazer este concerto.

AST Nasceu onde?

DH Sou inglês. Nasci na África do Sul mas sou inglês. Actualmente vivo em Amesterdam.

AST Faz muitos concertos na Holanda?

DH Sim, mas sou convidado para tocar em todo o mundo. Toco muito nos Estados Unidos e também na Ásia, no Japão, e em todo o mundo. Estou constantemente a viajar.

AST Também toca música antiga?

DH Sim, muito. Acabei de gravar um novo disco com os concertos de Bach com a Orquestra de Câmara da Europa. Dirigi a orquestra a partir do violino. O registo estará disponivel em Setembro. Também trabalho muito com grupos que utilizam instrumentos antigos como o Concerto Koln e com muitos músicos que fazem música barroca. Adoro trabalhar com eles.

AST Quando faz música barroca utiliza o seu arco habitual ou muda para um barroco?

DH Toquei com um arco barroco e também com cordas de tripa. Também já utilizei um violino barroco mas devo-lhe dizer que prefiro adaptar o meu, que é de 1769 e prefiro então adaptar-lo pondo-lhe cordas de tripa. Toco tanto nele que para mim é dificil mudar de instrumento. Além de que não encontro uma boa razão para mudar de instrumento quando faço música antiga. É verdade que os violinos sofreram transformações, mas 1769 é quase o tempo de Bach e eu adoro a sonoridade do meu violino.

AST Qual é o seu instrumento?

DH É um Galliano. Genaro Galliano de Napoli. Foi o violino de Yehudi Menuhin...

AST Toca com o instrumento do Menuhin?!

DH É um violino que ele usou quando era jovem. Não é o Stradi ou o Guaneri que ele utilizou depois. É um instrumento da infância de Menuhin. Gosto muito deste violino e estou muito contente por ter tido a possibilidade de o adquirir. Espero que a música antiga funcione bem com este tipo de prespectiva.

AST Sente muitas diferenças de ordem técnica quando toca com um arco barroco?

DH Sim. É completamente diferente porque o peso é completamente diferente. Tem de se aprender a tocar com ele, quando se utiliza um arco barroco pela primeira vez.

AST E mesmo a forma de o segurar é completamente diferente...

DH Absolutamente diferente e as técnicas de o utilizar também. Para mim coloca-se sempre como vou utilizar o arco barroco nesta ou naquela obra pois para mim o normal é tocar com um Picazzi, que é um arco de 1850, portanto do tempo de Schumann. É uma coisa totalmente diferente pois os arcos barrocos são muito mais leves. É sempre muito interessante de trabalhar a maneira de encontrar o equilibrio. O som é o resultado do equilibrio entre as duas mãos e, em todos os casos, da maneira como se faz a abordagem das cordas com o arco. Tem de se descobrir a maneira de se exprimir utilizando um arco barroco.

AT Faz música barroca utilizando a técnica barroca, mas eu sei que toca igualmente música contemporânea...

DH É a música do nosso tempo. É a música de hoje! É muito, muito importante, para nós, experimentar e conhecer esta música, porque é o idioma de hoje. Deve-se escutar e viver o nosso tempo. Eu estou muito, muito interessado, em trabalhar com os compositores. Sobretudo os compositores jovens. Pedir-lhes sempre uma pequena peça nova. É muito excitante para mim de ter a possibilidade de estrear novas obras.

AST Faz isso frequentemente?

DH Muito. Encomendo sempre muitas obras aos novos compositores. Além de que existem muitas obras já escritas para o violino.

AST Esta é uma pergunta chata: quais são as orquestras com quem gosta mais de trabalhar?

(risos)

DH São muitas... São muitas... Eu tenho uma página na web onde estão todas as orquestras com quem tenho tocado.

(risos)

AST Foi um prazer.

DH Obrigado, igualmente.

2006/05/03

MOZART NO FEMININO

Na "grande música" não há "cotas": há trabalho exaustivo mas inteligente, muita inspiração e técnica perfeita. Depois vem a singularização que é aquilo que torna única determinada interpretação. Hilary Hann é um dos zénites da interpretação violinística na actualidade. Acompanhada pela pianista Natalie Zhu ofereceu-nos, numa gravação de 2004 lançada para o mercado em 2005, uma das mais geniais interpretações de sonatas de Mozart para violino e piano. O registo está disponível ao "preço forte", mas é possivel adquiri-lo, por cerca de oito euros, nas promoções que se fazem com regularidade em alguns países da Europa. Hann e Zhu dão-os fantásticas interpretações das sonatas k 301, k 376 e k 526 de Amadeus. Um registo para a história.
O outro "caso" é o da violista Midori Seiler. Acompanhada por Jos Van Immerseel ao pianoforte, ambos utilizando instrumentos da época (*), oferece-nos uma belíssima leitura, despojada de vibratos, onde a sensibilidade e grande musicalidade tocam profundamente. Para tal contribuiu, evidentemente, o desempenho de Immerseel, "especialista" em música antiga, também ele um grande artista. Aqui são-nos oferecidas interpretações, inesquecíveis, das sonatas k 379, k 454 e k 526. Este registo foi re-editado muito recentemente, ao preço de 3,99 euros, numa promoção de três jornais europeus, entre os quais o El Pais (Espanha) e o Diário de Notícias (Portugal). AST

(*) Os instrumentos dos grandes violinistas são, geralmente, da "época", isto é, de célebres construtores que imprimiram a sua marca pelo timbre excelente e particular de que o instrumento é dotado. Mais do que o instrumento são outros factores que interessam na execução ao "estilo da época": o tipo de "respiração" (que condiciona a construção do fraseado), a colocação do arco (na música antiga substitui-se o vibrato pela aproximação do arco ao cavalete, técnica que produz diferentes colorações tímbricas), o arco (a curvatura de um arco antigo é em forma de U invertido) e a forma como se segura o dito (que condiciona igualmente a forma de trabalhar o fraseado). Há, evidentemente, o material das cordas, que é tripa (actualmente sintética) quando se executa ao "estilo da época". Neste "estilo" o instrumentista segura o instrumento sem recorrer ao auxílio de suportes.
















INAUDÍVEL

Uma editora chamada "Andrómeda" trouxe ás estantes, numa re-edição de 2005, um duplo cd de Sviatoslav Richter, pianista que tive o privilégio de escutar duas vezes em recital a solo. No primeiro cd traz-nos obras de Bach, com as sempre elevadas acutilância e sensibilidade características deste grande pianista, sendo a última dispensável, não pelo desempenho de Richter, mas pelo da orquestra que o acompanha no concerto bwv 1052, dirigida, sublinhe-se, por um grande director: eram outros tempos e aquele género de leitura, actualmente, é considerada má. Se neste primeiro cd a qualidade do som é muito aceitável, já no segundo é vergonhosa, tornando incomprensíveis as geniais interpretações, ao vivo, dos Quadros de uma Exposição de Mussorgsky, as sonatas 2 e 6 de Scriabin, assim como os doze prelúdios op 11 do mesmo compositor. Nos tempos que correm isto é inadmissivel e a etiqueta deveria ser impedida que continuar a vender gato por lebre, até porque pratica preços muito superiores aos da Brilliant Classics, por exemplo (infelizmente não se pode afirmar que se possam dar "montes" de exemplos...), que consegue uma boa qualidade sonora nas re-edições que oferece ao preço de 3 euros por cd (em Portugal é mais mas existe sempre a possibilidade dos leitores encomendarem pela net). Para não falarmos em re-edições com fraca qualidade sonora, como as desta "Andrómeda", onde dez cd's são vendidos por sete euros... AST

Nota: Em Lisboa, Portugal, na Companhia Nacional de Música, na Rua Nova do Almada, podem-se adquirir cd's da Brilliant Classics a menos de 3 euros cada.















DIE ZAUBERFLOTE

Recentemente foi posta à disposição do público uma gravação de Die Zauberflöte, de Mozart, sob direcção de Claudio Abbado à frente da Mahler Chamber Orchestra e do Arnold Schoenberg Chor, com René Pape no papel de Sarasto e Erika Miklósa no de Rainha da Noite.

Trata-se evidentemente de um elenco de luxo mas devo avisar os desprevenidos, que antes de decidirem adquirir ouvem um pouco do início e vão gostar, do facto de parte substâncial da Flauta Mágica serem diálogos em alemão. A abertura sob batuta de Abbado é fora-de-série, mas a mesma abertura sob direcção de Nikolaus Harnoncourt não fica nada a dever a esta leitura recentíssima, gravada ao vivo em 2005, de Claudio Abbado, se bem que, neste caso, uma interpretação não se possa substituir à outra. Apesar das evidentes alusões franco-maçónicas (*), Die Zauberflöte é uma criação dentro da tradição vienense do singspiel: uma opereta com muitos diálogos. Mesmo em dvd, com visualização da encenação, A Flauta Mágica é uma obra que se torna aborrecida devido exatamente ao excesso de diálogos. Ao vivo quase que adormeci, apesar da qualidade dos intérpretes. Em cd é absolutamente dispensável. Quem faça questão de conhecer os melhores momentos desta obra pode adquirir um cd que contenha alguns excertos, como a referida abertura e uma ou outra ária, nomeadamente a celebérrima ária da rainha da noite. De resto, a Flauta Mágica não é, na sua consistência como um todo e apesar da elevada conceptualidade numérico-simbólica, uma das óperas onde o génio mozartiano se revele no seu explendor máximo. Existe um cd em que Harnoncourt dirige aberturas de óperas de Mozart que inclui a abertura de A Flauta Mágica. Cd esse que foi re-editado há anos entre os "100 Best" da Warner Classics, a preço reduzido, e que é uma preciosidade.

Actualmente um diário português vende cd's de Mozart a preços convenientes, cd's esses que podem ser adquiridos separados do jornal. Apesar de algumas, poucas, dessas ofertas serem duvidosas uma vez que existem como re-edições a preços iguais ou até inferiores aos propostos (3,99 euros por cd), com a vantagem, grande, de não terem a publicidade do banco que patrocina a iniciativa, outras podem ser excelentes aquisições. Se comparadas com as "ofertas" de música clássica feitas no passado por um "semanário-referência" português, que eram, na generalidade, interpretações mediocres sem qualquer interesse ou valor artístico, podemos dizer que as re-edições que o diário oferece na actualidade são propostas honestas. Pelo que pûde ver são interpretações de grandes artistas e algumas são gravações relativamente recentes das quais não existem, ainda, alternativas a baixo custo. De resto, o preço da generalidade das re-edições pode ser mais elevado que o proposto pelo referido diário. Eis portanto uma alternativa credível para quem se pretenda iniciar no génio de Amadeus. AST

(*) Parte do ritual maçônico é o emprego de um bater rítmicos três vezes sucessivas. Esta é a parte central da cerimônia, sendo repetida diversas vezes - como o tema em A Flauta Mágica. Segundo Philippe A. Autexier, que editou um livro sobre Mozart e A Flauta Mágica, nas Lojas vienenese do Século XVIII, o ritual empregado nessa época de Mozart continha ritmos característicos para cada grau:

- U - para o Aprendiz
U - - para o Companheiro
U U - para o Mestre

Portanto, os repetitivos acordes três-vezes-três se refeream ao Companheiro ou Segundo Grau. À medida que a ópera se desenrolava, os maçons da platéia deviam ficar estupefatos: um símbolo atrás do outro advinha da Confraria.
...
O número simbólico três domina toda a obra: três bemóis na clave principal (Mi bemol maior), trêsmeninos, três senhoras. Tamino é obviamente apresentado como um "profano" (ou seja, um não maçom), em seguida como um neófito (observem sua conversa com o orador, I ato, Cena 15: o orador lhe pergunta: "Wo willst du kühner Fremdling, hin? Was suchst du hier im Heiligthum" (Onde quéres ir, intrépido estrangeiro? Que procuras neste lugar sacro?), depois como um jovem maçom com o grau de Aprendiz (com sua cerimônica de viagem e voto de silêncio) e mais tarde, no segundo grau, como Companheiro (com o voto de jejum), e por fim o terceiro grau, Mestre (II Ato, Cena 21) A passagem simbólica da escuridão para a luz, parte integram da cerimônia de São João, ocorre com um brilhante efeito em A Flauta Mágica, sendo claramente indicada na ilustração do libreto de 1791. Porém Mozart e Schikaneder pretendiam mostrar mais do que a Maçonaria na cerimônia de São João, representado também os graus mais altos (os chamados Graus Escoceses). Na cena 28 do II Ato a cortina se abre, mostrando dois homens vestidos com armaduras negras e em seguida Tamino e Pamina. É o início das famosas provas de fogo e água, que nos conduzem a um poutro mundo maçônico: o soberano Grau Rosa-Cruz, o décimo oitavo no "Rito Escocês Antigo e Aceito 33º". O libreto original de 1791 observa discretamente que "eles (os homens armados) lêem para ele (Tamino) a escrita transparente que está gravada numa pirâmide". Ao som das palavras "fogo, água, ar e terra" o tetragrama sagrado JHVH talvez aparecesse por ser a parte central deste Grau Rosa-Cruz. A 30ª cena no II Ato em que Monostatos, o criado africano, junto com a Rainha da Noite e seu cortejo, tentam invadir e destruir o templo de Sarastro é um simbolismo do 30º grau do Rito Escocês, o "Grau da Vingança", enquanto que o final da ópera, II Ato, Cena 33, quando a escuridão (a Rainha da Noite) foi vencida e a luz (Sarastro, Tamino/Pamina, Papageno/Papagena) triunfa é representado pelo grau final (33º) do rito escocês - no triângulo cujo significado é "sabedoria, beleza e força" (Weisheit, Schönheit, Stärke), como no libreto. O lema do 33º é Ordo ab Chao (ordem advinda do caos) ou da escuridão para a luz. Para sublinhar a parte musical desta importante cena da Cruz Soberana com os homens armados, Mozart escolheu um tipo de prelúdio coral, empregando a antiga melodia luterana de 1524 "Ach Gott, von Himmel sieh darein" (ele havia escrito estas palavras num contexto diverso como um estudo contrapotístico para sua aluna Barbara Ployer ou no livro manuscrito de outra pessoa em 1784). A solenidade desta parte da ópera é assim diferente de qualquer experiência austríaca ou católica. É uma solenidade bíblica e com isso quero dizer, derivada da Bíblia. Ver Isaías 43:2:

Quando passares pelas águas eu estarei contigo: quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti.

"Caso você, leitor, passe a encarar todo este simbolismo numerológico com ceticismo, com certeza devo acrescentar que a introdução orquestral desta cena contém dezoito grupos de notas. Sarastro, o Sumo Sacerdote (ou seja, Venerável Mestre da Loja) aparece pela primeira vez no I Ato, na cena 18. No começo do II Ato, Sarastro e seus sacerdotes entram: em cena estão (como o libreto de 1791 faz questão de especificar) precisamente dezoito sacerdotes e dezoito cadeiras e a primeira parte do coro que eles cantam, O Isis und Osiris, tem a duração de dezoito compassos. Quando Papageno interroga a monstruosa velha, que se tornará Papagena, quantos anos tem, ela responde: Dezoito (provocando sempre hilariedade na platéia). E quando os três meninos aparecem suspensos no palco em uma máquina (o libreto de 1791 enfatiza) ela está "coberta de rosas" . Porém abandonando esta fascinação hipnótica com o 18º (Rosa-Cruz) devemos lembrar que dezoito é formado por seis vezes três, e três na verdade é o número simbólico crucial e básico da ópera." (Enquanto o Rito Escocês sempre fora uma organização de elite, o ritual mais comum de São João seria o mais familiar para os maçons vienenses que assistiram à primeira representação de A Flauta Mágica.)

in http://www.geocities.com/crdpldl21/index.html















2006/04/26

CRESCI COM A MÚSICA CONTEMPORÂNEA

Philippe Pierlot, um histórico na interpretação da chamada música antiga, foi uma figura central da Festa da Música, intitulada A Harmonia das Nações, que aconteceu em Lisboa entre 21 e 23 de Abril. Ofereceu-nos um elevado número de concertos com um amplo repertório, tanto estilística quanto instrumentalmente, e, finalmente, encerrou a "festa" (os concertos dos outros grupos que se seguiram a Dido and Aeneas foram repetições) com o grande ex-líbris deste evento: uma interpretação genial e electrizante de Dido and Aeneas de Henry Purcell. Conversamos com o director-executante no final de um dos concertos que realizou dia 22 de Abril, no qual interpretou, com o Ricercar Consort, obras de Purcell e Lawes.

Álvaro Teixeira Acabamos de o escutar interpretando e dirigindo obras muito antigas...

Philippe Pierlot Toquei um repertório à volta de Henri Purcell, seguramente estre os compositores barrocos dos mais importantes. Ele pertençe a uma época muito muito rica em Inglaterra, particularmente a época elisabeténe e nesta época em Inglaterra há um número absolutamente impressionante de compositores de um nível excelente. Os mais conmhecidos são Bird, que não é um compositor muito conhecido mas que, em meu endender é um dos grandes compositores da história da música, quase ao nível de alguém como Bach, ao nível da ciência e da profundidade da composição. Bird que não tocámos neste concerto...

(risos)

PP Purcell é o herdeiro desta tradição polifónica inglesa, muito pessoal, no sentido destes compositores que posssuem uma verdadeira identidade, ligada, talvez, à insularidade dos ingleses, e voilá, as peças que tocamos hoje, particularmente a fantasia Purcell são ao mesmo tempo o apogeu e o canto do cisne desta tradição porque, despois de Purcell, esta tradição de escrever fantasias para conjuntos de cordas, vai acabar, sendo portanto a apoteose e o fim desta rica escola.

AST Mas estas obras soam a algo extático, não acha?

PP Então...

AST Não se sentem as modulações...

PP Não partilho nada da sua opinião...

(risos)

PP Acho exatamente o contrário...

(risos)

PP Dentro da música barroca, e em particular nas fantasias, Purcell é dos compositores mais audaciosos, ao nível, justamente, da harmonia. Purcell foi muito influênciado pela música italiana. Bom... a música que tocamos neste concerto, é verdade, vem de uma outra tradição. Da tradição da música muito melancólica. É verdade que não é uma música extrovertida. É totalmente o contrário disso. É uma música muito interior. Na obra de Purcell há outro tipo de produções mais influênciadas pela escola italiana porque Purcell gostava muito dos compositores italianos, mas ele apreciava-os não pelo seu aspecto exuberante, mediterrâneo, digamos, mas, pelo contrário, pela profundidade das suas composições. E naquela época em Itália existiam compositores que faziam exatamente investigação no sentido de encontrarem harmonias mais ricas e expressivas. Estamos no lado oposto a figuras muito conhecidas como Vivaldi que é mais exuberante e mais...

AST E quais são esses compositores italianos a quem se está a referir?

PP Na música instrumental um compositor que seguramente influênciou Purcell foi Vitali. Coreli vem mais tarde mas há na escola de Roma gente como Carissimi, Cavalli, há também um compositor menos conhecido chamado Maratolli. São compositores muito audaciosos que fizeram muita investigação. Mais tarde, no século dezoito, há a nascença do classicismo que se vai instalar com as formas bem conhecidas como o concerto e a sonata.

AST Muito bem. Nesta festa da música traz-nos exclusivamente repertório da Inglaterra, não é verdade?

PP Pois. De facto o projecto de La Foule Journé, aqui Festa da Música, deste ano, era à volta da Inglaterra. Quando nos contactaram este era o tema que estava previsto e depois ao longo do tempo foi evoluindo para a Harmonia das Nações, mas nós já tinhamos começado a preparar algumas obras. Por isso também vamos fazer um programa com Núria Rial com Haendel. Também é verdade que no nosso repertório temos sempre imensa música alemã como Bach e os seus ancestres... Mas eu penso que o tema da música inglesa é um tema muito bom e muito interessante pois esta música está entre a mais rica mas é talvez a menos conhecida e, é necessário dizê-lo, a menos acessivel ao público pois como sublinhou, e bem, há muita melancolia e extaticismo nesta música. Não é uma música que dê vontade de balançar-nos enquanto a escutámos. Mas possui uma riqueza que é muito interior e que requer uma certa iniciação para conseguir apreciar toda a sua excelência.

AST Numa certa medida é uma espécie de Harnoncourt dos tempos modernos...

(risos)

AST Pensa "evoluir" para o classicismo, ou não?

PP Em duas semanas partimos para o Japão e lá vamos tocar Haydn e Mozart...

AST Ha!

PP Mas é a excepção para nós...

AST Ho...

PP Bom... Eu toco viola de gamba, por isso o meu repertório é sensivelmente o século dezassete, o século dezoito também... todo este periodo em que a viola de gamba teve uma grande projecção e muito repertório foi escrito para este instrumento. Mas eu toco também o bariton que é um instrumento menos conhecido, parecido com a viola de gamba, mas com cordas simpáticas, e para o qual Haydn escreveu muita coisa. E é verdade que me sinto muito próximo da música de Haydn. Por outro lado, pela primeira vez dirigi o Exultate de Mozart, recentemente.

AST Este é um percurso bem conhecido... músicos que começam pela música muita antiga, passam ao barroco e pouco depois ao clássico. Para já não falar dos que "saltam" para o romãntico... Harnoncourt acabou a dirigir Bruckner...

PP Não penso que esse vá ser o meu caso. Nunca se sabe como a vida vai evoluir... É verdade se me propusessem dirigir uma ópera de Mozart dificilmente recusaria. É uma música da qual me sinto próximo... Mas o meu interesse principal, e penso que vai continuar a sê-lo ainda durante muito tempo, é o século dezassete. Não creio que me vá afastar desse repertório. Penso que aqueles que evoluem para o classicismo e o romatismo é porque, enquanto chefes de orquestra, o classicismo e o romantismo é uma música que dá mais satisfação. Consigo compreender que aqueles que só dirigem sejam atraídos para este repertório. A música de Vivaldi, por exemplo, é um domínio em que um chefe de orquestra pouco pode acrescentar depois das obras serem trabalhadas nos ensaios. Poderiamos dizer que orquestra pode tocar sózinha. Apesar de tudo, quando estou lá á frente dos músicos, posso induzir a certas inflexões no momento do concerto.

ASTMas você toca, dirigindo simultãneamente o agrupamento.

PP Isso depende das obras e do tamanho do grupo. Quando trabalho com côro ou com uma orquestra com solistas, torna-se necessário estar à frente a dirigir para coordenar todo o conjunto e ser quem mantém a consitência interpretativa. Quando não há um chefe pode ser interessante porque permite maior liberdade de iniciativa aos músicos e dar azo a versões diferentes. Mas existir um chefe que coordene todo o conjunto pode revelar-se importante também.

AST Finalmente é a interpretação do chefe de orquestra que nos interessa... como no classicismo e no romantismo... não concebo uma orquestra tocar as sinfonias de Mahler sem um verdadeiro maestro à frente... é verdade que a Filarmónica de Berlim, depois da morte do Karajan, fazia isso com Beethoven... à moda do Karajan... Não o fazia com Mahler. Evidentemente. Mas nós queremos é a versão, a re-interpretação, de tal ou tal maestro. Se fôr de facto um maestro... Porque se fôr um idiota armado em chefe-de-orquestra mais vale deixar a orquestra tocar sózinha... na verdade a Filarmónica de Berlim, depois do Karajan, tocava sempre igual e os maestros movimentavam os braços, acompanhando-a. Só mesmo directores a sério, grandes artistas com carisma, conseguiram fazê-la tocar como eles desejavam. E não foi fácil...

PP Pois. Diz-se frequentemente que a Filarmónica de Berlim podia tocar o Beethoven, sem maestro, à maneira de Furtwängler ou do Karajan... Mas bom... a verdade é que quando o Furtwangler ou o Karajan estavam lá era seguramente diferente...

AST Pois...

PP Eu sou antes de tudo um instrumentista. Quando dirijo é porque é de facto necessário ir lá para a frente. Também porque desejo dar a minha visão da obra. Há uma ópera de Marin Marais que viu o dia graças à minha iniciativa. Depois do século dezassete não tinha voltado a ser apresentada... Fui eu que a re-escrevi. É sobretudo este tipo de coisas que me interessam enquanto chefe-de-conjunto...

AST Também é um musicólogo...

PP Desde sempre um dos aspectos que me atrai nesta música é a vertente da descoberta. Daí o nome do nosso grupo Ricercar. É o estado de espírito de estar sempre em investigação, quer do repertório, quer da maneira de o interpretar. É apaixonante porque percebemos que há uma quantidade impressionante de obras ainda por descobrir, por vezes de obras maiores de compositores a re-descobrir. Mesmo ao nível da interpretação de obras mais conhecidas, e nós dedicamo-nos neste momento a trabalhar algumas criações de Bach, ainda há muito para pesquizar, por exemplo ao nível da gestão das forças instrumentais e vocais, ao utilizar um grande orgão de igreja, por exemplo... nós acabamos de fazer um registo utilizando um grande orgão, não um orgão positivo como habitualmente se faz em concerto e também nos discos, decidimos fazer este registo com um verdadeiro orgão, um grande instrumento, como Bach o fazia na sua época. Isto parece um detalhe mas é este género de coisa que pode influênciar enormemente uma interpretação. Isto foi só um exemplo para lhe explicar que na música do passado, de cujas raízes estamos já muito afastados, há ainda muitas práticaa e hábitos a re-descobrir e esta é a vertente mais rica e apaixonante para quem trabalha e interpreta este género de música.

AST Uma resposta de um minuto para acabarmos: o que pensa da produção musical contemporânea?

PP Eu evoluí num meio musical onde a música contemporânea era muito importante. Nasci em Liége na Bélgica, onde o director do conservatório na época em que eu o frequentei era Henri Pousseur...

AST E Boesmans...

PP Exato. O Philippe Boesmans nasceu na minha cidade. Mas o Pousseur, que não é uma figura muito conhecida como compositor, fazia parte do círculo de Stockausen, Bério, Cage e no conservatório quando fiz os meus estudos escutei a interpretação de todas as obras de todos esses compositores que vinham regularmente ao conservatório para falarem sobre elas e orientarem a sua criação. Foi uma música na qual cresci e o nosso grupo encomenda muito regularmente obras a jovens compositores para serem executadas nos nossos instrumentos antigos.

AST Philippe Pierlot: muito obrigado por esta conversa densa e rica. Estarei lá para escutá-lo nos concertos que se seguem.



2006/04/23

O PÚBLICO GOSTA DE VIVALDI

Depois do concerto número 66 da Festa da Música, realizado no grande auditório do CCB em Lisboa, hoje, domingo 23, com a casa repleta de um público entusiasta que obrigou o famoso contra-tenor, Philippe Jaroussky (acompanhado pelo Ensemble Matheus), a fazer um encore, no final deste concerto, dizia, conversámos com o artista.

Álvaro Teixeira Esteve a fazer um programa inteiro com música de Vivaldi. O que significa este compositor para si?

Philippe Jaroussky Vivaldi é um dos compositores que marcou muito o início da minha carreira. Cantei muito Vivaldi, também fiz uma integral das suas óperas...

AST Para qual etiqueta?

PJ Para naïve mas fiz também para Dinâmique. Vivaldi fez parte das minhas primeiras experiências em cena e continuo a cantá-lo muito. Foi o meu encontro com o Ensemble Matheus que tornou esta experiência vivaldiana ainda mais importante grupo com o qual tenho imensos projectos e vamos gravar em disco este programa que apresentamos neste concerto. Faremos o registo este Verão.

AST Qual é o vosso repertório para além de Vivaldi?

PJ Faço muito o repertório italiano, como Porpora. Também faço Haendel e muitos compositores. Também canto repertório mais antigo, do "seisciento", como Monteverdi, Cavalli e todos esses grandes compositores. Trabalho muito esses dois séculos de música italiana mas também me debruço muito sobre o repertório dos "castrati". O que não me impede de, de tempos em tempos, fazer outro tipo de música como "la mélodie française", por exemplo, Debussy, Fauré, gosto muito, então, de tempos em tempos, faço concertos...

AST Mas eles não escreveram para contra-tenor...

PJ Mas escreveram para voz!

AST Mas por outro lado na música contemporânea há muita coisa para contra-tenor...

PJ Já estrei duas peças.

AST Quais?

PJ ...ssier que escreveu uma grande cantata para contra-tenor e orquestra e outra de Nicola Braci. E há outros projectos...

AST Tem novos projectos?

PJ Não posso revelar ainda.

(risos)

AST Também não ia perguntar...

(risos)

AST Então tem prazer em cantar música contemporânea?

PJ Muito mesmo porque finalmente na música barroca faz-se muita pesquiza, a aproximação que fazemos é de re-criação. Na música contemporânea há um estado de espírito muito próximo do mundo barroco, de pesquiza, além de que estamos a criar coisas novas e é muito bom estarmos a cantar algo que foi escrito para nós, especialmente para a nossa voz. É que passamos o tempo a adaptar a nossa voz ás obras que cantamos, obras que foram à época, escritas para determinados cantores muito particulares.

AST Isso acontece frequentemente?

PJ Sim, sim...

AST Sente isso sobretudo com que compositores?

PJ Todos praticamente pois eles utilizavam os "castrati" e as particularidades de cada "castrati", particularidades muito individuais, o que nos leva a ter de adaptar permanentemente a nossa voz a obras que foram escritas para "castrati" determinados. Nós temos de ser muito mais camaleões...

AST Sente-se o Andreas Scholl dos tempos actuais?

PJ Quê? Não sei , não sei. Sei que as pessoas são muito tocadas pela música de Vivaldi, que a música de Vivaldi lhe fala de maneira muito directa. Mesmo ás pessoas que não conhecem Vivaldi anteriormente.

AST Uma música fácil, então...

PJ Fácil em que sentido?

AST Fácil de se gostar...

PJ Sim.

AST E tem luminosidade.

PJ Voilá! Penso que é uma música boa para um cantor... Por exemplo é o meu primeiro concerto em Portugal...

AST Que foi um estrondoso sucesso...

PJ Sim, parece...

(risos)

PJ Foi muito agradável. A verdade é que o público reagiu com entusiasmo desde a primeira ária o que foi para mim uma grande libertação e fez-me sentir bem ao longo de todo o concerto. Trata-se uma grande sala que estava cheia...

AST Vivaldi faz sempre sucesso, creio...

PJ Sim. É um grande embaixador para os cantores.

AST Quer dizer qualquer coisa especial?

PJ Espero voltar porque infelizmente não tive tempo para visitar Portugal. Espero portanto voltar.

AST Vem de onde?

PJ De perto de Paris.

AST Mas o seu nome...

PJ É de origem russa.

AST País de grande cantores e grandes músicos...

PJ Estive em Moscovo há três dias atrás...

AST Continua portanto a ter relações com a Rússia!

PJ Foi a primeira vez que lá fui.

AST Ha bom. Posso saber quem foram os seus professores?

PJ Nicolle Falien. Desde há dez anos. Nunca mudei de professora. Dá aulas particulares em casa dela, em Paris.

AST Para acabar quero dizer-lhe que espero que volte brevemente a Portugal, de preferência com outro repertório. Talvez com obras contemporâneas... Podemos esperar que um dia a Festa da Música seja com obras contemporâneas...

PJ Com todo o prazer! De toda a maneira o próximo ano não será barroco e não penso que venha.

AST Então talvez daqui a dois anos.

PJ Espero que sim.

AST Eu também. Foi um prazer conversar consigo.




2006/04/22

Entrevista com Skip Sempé

Interpretou Couperin, Marais e Telemann na Festa da Música, que decorreu de 21 a 23 de Abril, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. No final conversámos com Skip Sempé, um dos cravistas mais interessantes e solicitados da actualidade.

Álvaro Teixeira: Acabou de tocar algumas peças de cravo de Couperin e pareceu-me que tem uma particular inspiração para este compositor.

Skip Sempé: Tenho sempre inspiração para tocar a música francesa porque é um nosso repertório de predilecção depois de tantos anos toco o Marais, o Rameau, o Couperin. É um repertório ao qual estou particularmente ligado e ao qual dediquei muito trabalho, muitos concertos e muitos discos.

AST Regista para que etiqueta?

SS Temos a nossa própria etiqueta. Chama-se Paradiso. Mas antes gravamos para Harmonia Mundi, Astré e Alpha.

AST Gosta de fazer este génro de recital, acompnhado por outros músicos que ora tocam em conjunto, ora se apresentam como solistas? Eu, como público, gosto muito pois é mais variado.

SS Gosto de tocar como solista mas gosto também de fazer música de câmera. Ser solista a tempo inteiro nem sempre é muito interessante.

AST Prefere o repertório françês ou o repertório mais tradicional, como Bach, por exemplo?

SS Há poucas coisas que não gosto mas não sou grande fã de Haendel e Vivaldi. Gosto de Bach mas também da música francesa, de Scarlatti, Telemann mas também gosto muito da música renascentista, tanto ao nível de grupo como na situação de solista. Sobretudo do repertório que foi negligênciado ao longo de décadas.

AST Por exemplo?


SS A música de dança do século XVII assim como a ópera de cãmera desse mesmo século, tudo isso é um repertório que não é verdadeiramente conhecido. O público adora a descoberta desse género de obras.

AST Então o classicismo não está no seu âmbito...

SS Não é a minha música. Há colegas, muitos, que fazem esse repertório, assim como a música romântica. Nós estamos mesmo na via da música da renascença e do barroco, com os instrumentos em que essa música era tocada.

AST Há muitos cravistas que tocam Haydn, por exemplo. E Mozart...

SS Sim mas eu prefiro fazer a música da renascença que tocar o repertório clássico. Prefiro fazer a música do século dezasseis que a música criada entre 1750 e 1830.

AST Ok. Nota uma grande diferença, enquanto intérprete, entre a música do norte, Holanda por exemplo, e a do sul? Vivaldi, etc. Diferenças ao nível da essência... e da forma...

SS Essa diferença sempre existiu entre os países que têm muito sol e aqueles onde há muita neve, frio e céu cinzento. Mas creio que nos séculos XVII, XVIII e mesmo no século XIX as estéticas foram bastante mais partilhadas que anteriormente. O violino italiano ganhou muita influência em toda a Europa, assim como o bel-canto com Haendel em Londres e Bach em Dresden. De facto a música barroca teve origem em Itália. E esta estética de fazer tudo pleno de luminosidade ganhou muitos adeptos na Europa do Norte e me Inglaterra também.

AST E a música francesa está no meio?

SS É uma música que se aproxima dos países latinos porque os franceses têm a tendência de impulssionar e tornar visível a sua costela latina. Mas a frança não é, de todo, um país latino. Mas na estética musical a França procura este lado ensolarado de criar música, sendo mais país ensolarado que nórdico.

AST Nasceu nos Estados Unidos... Costuma fazer muitos concertos lá?

SS: Não, não. Estudei lá, na Universidade e no conservatório, mas a maior parte do nosso trabalho é feito cá na Europa. E foi cá que gravamos todos os nossos discos. Mas há um público nos Eua muito fiel à música antiga, nomeadamente em São Francisco, em New York, em Chicago, Houston, etc. Mas de facto, a capital da música antiga das Américas, tanto do norte quanto do sul, é Montreal. Há mais música antiga em Montreal que em todos os outros países da América.

AST Há diferenças entre o público europeu e o americano?

SS Não. Os públicos da Europa são muito diferentes entre si. Diferentes segundo o concerto, o lugar do concerto, a atmosfera do concerto... Há o público do domingo depois do almoço, o público do sábado à noite, o público da ópera... Há o público jovem e o público dos habitués... O público num concerto numa grande catedral reage de maneira diferente do público numa pequena sala que assiste a um recital de cravo.

AST Acha o público português demasiado indisciplinado? Tocou, com insistência, um telemóvel enquanto tocavam...

SS Não é escandaloso. Não se pode procurar um novo público e esperar que esse novo público possua demasiada disciplina. Eu gosto doa artistas que estão descontraídos durante a actuação. Por isso se o público está descontraído creio que pode ser uma experiência bonita...

AST Em Nantes também acontece isto dos telemóveis?

SS Pode-se encontrar um público indisciplinado na Alemanha do Norte e um público com uma disciplina extraordinária em Palermo. Não se podem fazer generalizações. Felizmente!


2006/04/16

CARL SCHURICHT, O VISIONÁRIO

A colecção CenturyMaestros da etiqueta History, editou uma colecção de dez cd's com gravações deste chefe de orquestra que pode ser adquirida, em Lisboa, a um preço promocional de sete euros.

Entre elas a quase totalidade das sinfonias de Beethoven (faltam a 8ª e a 9ª). As leituras de Schuricht distânciam-se das interpretações pesadas e lânguidas de outros contemporâneos seus, nomeadamente de Furtwangler. Schuricht tem uma interpretação plena de vida e contraste, sendo simultâneamente mais clara que a daquele seu contemporâneo. As leituras de Carl Schuricht são, sem margem para dúvidas, interpretações-referência, sendo simultâneamente percussoras das concepções contemporâneas que são resultado de uma aproximação histórico-estilística à "essência" da escrita beethoveniana. Claro que a sonoridade está longe do ideal mas o ruído de fundo foi praticamente eliminado, ainda que à custa da eliminação de algumas ressonâncias e da percepção de profundidade, o que de resto é normal numa gravação mono.

O estojo de dez cd's dedicado a Schuricht termina com uma genial leitura de Das Lied von der Erde, num concerto ao vivo à frente da Concertgebouw Orchestra em 5 de Outobro de 1939. Schuricht potêncía as colorações luxuoriantes da orquestração, para além da força dramática desta criação ímpar. Se o tenor Carl Martin Ohmann está à altura do génio da obra e da veia do director, já a prestação da mezzo Kerstin Thorborg deixa a desejar, constituindo-se no elo demasiado fraco de um registo que podia (e devia) estar entre as referências fundamentais para esta obra imensa. Evidentemente que a sonoridade é o outro elo fraco. Mas pouco mais se poderia fazer de uma gravação ao vivo de 1939, que apesar de tudo está melhor que outras da mesma época realizadas em estúdio. Para todos os efeitos trata-se de um registo imprescindivel pela inspiração do director, pela prestação de Ohmann e pelo desempenho da célebre orquestra. O estojo no seu conjunto é uma preciosidade. Literalmente ao preço da chuva. AST















DA FÚRIA NARCISISTA

Num texto interessante reproduzido no excelente blog anonima.blogspirit, Corinne Sacca-Abadi, da Asociación Psicoanalítica Argentina, analizando o trabalho de Orlan, comenta:

"No hay muerte, grita el discurso desesperado de Orlan y grita tan fuerte que inevitablemente remite a aquello que calla. Calla el dolor, la impotencia, la humillación de ser uno más de los millones de seres anónimos que pueblan este planeta. Con sus intervenciones quirúrgicas intenta encubrir la furia narcisista que le genera la realidad de la muerte, la incompletud, la castración simbólica que nos convierte a todos en sujetos de la cultura, falibles, incompletos, carentes y mortales."

Sem colocar em causa a leitura desta analista que faz parte da associação psicanalítica argentina "tradicionalista", não lacaniana portanto, gostaria de colocar-nos uma pergunta: mas tudo isto que Sacca-Abadi acima escreve não se aplicará a qualquer criador, seja mais "convencional", seja mais "vanguardista"?
Os conhecidos ataques de fúria de Beethoven, por exemplo, não seriam afinal a expressão da sua "fúria narcisísta"? E a sua obcessão formal, que se revela nas partituras totalmente corrigidas e rasuradas, não seria a expressão narcísica do desejo de ser um Ser único, excepcional e eterno?

Se este fosse um argumento para provar que o que Orlan produz não é arte, estaria condenado pelo absurdo. Na realidade, a "fúria narcisísta" revela-se, com muita mais virulência, no crítico, por exemplo, que de alguma maneira, sempre a reboque da criação de outrém, procura elevar, sem o admitir, o seu comentário a uma espécie de obra de arte de opinião, com aspirações a mestre da escrita, juíz que produz opiniões com "peso" cultural e político, revelando-se aqui a "fúria narcisísta" na sua vertente perversa pois visa uma elevação sobre a aniquilação, ou manipulação, do "outro", do artista, íntimamente visto como objecto de um gozo pervertido que se manifesta na tentativa do exercício de força e poder, que o crítico, o director, o consultor, ou o que quer que seja, tenta exercer e frequentemente exerce. Manifesta-se igualmente na elevação deste ou daquele artista a "criador de culto". Trata-se de uma perversão igualmente em relação ao público que procura manipular. Neste particular a figura do crítico é uma aberração, fruto de um narcisísmo patético. Crítico pode ser qualquer um e, no artigo em questão, Corinne Sacca-Abadi, a pretexto de uma leitura analítica do "caso Orlan", encarnou, absolutamente, o (mau) papel do crítico.

Porque é que são dados exemplos de supostos artistas que tiveram actos, performances se quiserem, tangêncial e aparentemente na mesma linha estético-sociológica? É elementar compreender-se, e ao crítico "honesto" contribuir para isso, que obras aparentes não o são: se umas merecem ser votadas ao esquecimento, outras podem ter relevância e, no mínimo, merecem o benefício da dúvida.

Poderiamos colocar a questão inversamente porque Orlan já está na história. De alguma maneira já se imortalizou. Na verdade, Orlan não é mais uma entre milhões de seres anónimos. Qual a pertinência de Corinne Sacca-Abadi em dizer que Orlan foge da morte anónima? Não será ela, analista-crítica que, fustigando Orlan, tenta fugir da sua morte anónima? Aquela afirmação é completamente gratuíta e desprovida de sentido exatamente porque se refere a alguém que se destacou da massa dos tais milhões que não vão deixar rasto. Gostar-se ou não do trabalho de Orlan passa a juízo de valor, subjectivo, pessoal, pouco relevante, mesmo se produzido por alguém que transcende o simples crítico, como Corinne Sacca-Abadi.

Nesta altura, a discussão de ser ou não arte aquilo que Orlan produz deixa de ter qualquer pertinência. O que passou a ser julgado é a opinião da analista-crítica e não a obra ou o estatuto de Orlan.

"Orlan transmite a través de sus operaciones el deseo de Ser eternamente, como un ser absolutamente excepcional y único", escreve Sacca-Abadi quase a finalizar o seu artigo.

Quem é, o ser excepcional e único, que no fundo, bem lá no fundo, como se costuma dizer, não deseja ser excepcional e único? Será isto apanágio exclusivo de Orlan? Será isto apanágio exclusivo dos artistas? Ou será que os artistas exibem com mais transparência aquilo que o ser vulgar com pretensões, como o crítico, o director, o consultor, o político, e por aí fora, esconde (mal), com toda a sua "fúria narcisísta", do olhar do "outro"? Inutilmente porque esses sim, vão morrer, ao contrário das suas expectativas, entre os milhões que não deixam rasto, ou deixam um rasto fraco, geograficamente delimitado e irrelevante para o mundo. AST













Orlan es una artista multimediática que desde 1965 viene realizando audaces performances, en las que ubica a su propio cuerpo como eje protagónico de la obra, dirige desde el quirófano las intervenciones realizadas bajo anestesia local ante la vista de fotógrafos, cámaras de televisión, de acuerdo a una minuciosa planificación. Cada nueva operación es un paso más hacia la transformación de Orlan, que intenta unir arte y vida con su trabajo. Define su obra como un arte carnal que denuncia las presiones sociales ejercidas sobre el cuerpo femenino, considera caduca nuestra noción del cuerpo y propone un uso de la tecnología aplicado a la vida humana donde todo pueda ser intercambiable y renovable para lograr un ser humano "más feliz". Corinne Sacca-Abadi in http://anonima.blogspirit.com (17/02/06)








Rudolf Schwarzkogler del grupo accionista vienés, enrolado en el "Body Art", se seccionó el pene cm. a cm. mientras un fotógrafo documentó la acción. Las fotos fueron exhibidas en 1972 en la Documenta de Kassel, (el artista se suicidó poco después). Chris Burden se atravesó con clavos las manos y luego los vendió en una galería de Nueva York, donde también se hizo pegar un tiro documentando el hecho. idem









C.S.A.) Si pudieras renacer en el año 2000, comenzar de nuevo, ¿elegirías ser artista?

Orlan:) No, seguramente no, el medio del arte es horrible, patético, es una lucha muy dura para mí. Hubiera elegido ser científica, médica, o bióloga.
...
C.S.A.) Volvamos a tus operaciones, tus performances en el quirófano me despiertan sentimientos encontrados, pienso que se produce una caída de la metáfora, quiero decir que cuando utilizas el cuerpo para referirte a las conflictivas que suscita en lugar de hacer una alusión poética a su dramática, tu obra produce un grado tal de concreción en lo real que me recuerda la relación entre erotismo y pornografía.

Orlan:) (Visiblemente enojada) Ah! No, de ninguna manera, en mis performances hay mucha poesía, lo dicen los mejores críticos, yo armo una "mise en scene" bellísima, la música está muy cuidadosamente elegida, el vestuario, las lecturas durante la operación, todo es muy elaborado. Lo que ocurre es que mi transgresión es brutal, es revolucionaria, es totalmente radical y eso no es fácil que lo entiendan todos. Yo confío en el dictamen del próximo siglo, de todos modos yo nunca produciría un arte que sea aceptado sin cuestionamientos, porque sólo creo en un arte radical y absoluto.
...
C.S.A.) Yo creo que toda tu obra es como un gran desafío a la muerte pero que en realidad le tienes tanto horror a la muerte que no puedes imaginarte muerta. ¿Me equivoco...?Podrías fantasear ahora una obra con relación a tu muerte?

Orlan:) Yo he dado mi cuerpo al arte. Después de mi muerte no se lo daré a la ciencia, sino a un museo. Será la pieza central de una instalación con vídeo, ya lo he previsto todo pero no quiero hablar de mi muerte, yo no la creo, pienso que en el futuro la gente no va morir, la ciencia, te decía, brinda esperanzas, y si tengo que morir demostraré que soy una artista hasta el final.

Por Corinne Sacca-Abadi

2001-2003 APA - Asociación Psicoanalítica Argentina

in http://anonima.blogspirit.com (17/02/06)














Outro género de performance "multimédia".
Menos dolorosa para a crítica...

Peter Blau


















2006/04/12

PROMS 2004

Gravadas ao vivo durante os proms de 2004, a série BBC-Proms, editada pela Warner-Classics, trouxe-nos, num disco de 2005, três obras que revelam a interessante heterogeneidade da criação recente, com alguns dos exemplos mais conseguidos.
Começando pela última, Orion, uma criação de 2002 da compositora Kaija Saariaho que é uma "incontornável" da criação artística do nosso século, obra interpretada por Jukka-Pekka Saraste à frente da BBC Symphony Orchestra, há que dizer tratar-se de uma criação de suma inteligência e grande sensibilidade. Baseada em motivos que se repetem enquanto grandes linhas progridem noutras tessituras, trata-se de um trabalho paradigmático dentro do estilo e linguagem da compositora.
The Immortal, criação de 2004, de Zhou Long, é uma bela obra onde se re-trabalham, de forma inovadora e inspirada, motivos da música tradicional chinesa que são o esqueleto em que assenta esta composição musical. A interpretação, fabulosa, é de Leonard Slatkin à frente da mesma orquestra.
Finalmente o Concerto para Clarinete e Orquestra de John Corigliano, é uma obra de 1997, dotada de uma escrita que surpreende, pela positiva, face a outros trabalhos do mesmo compositor. Com uma virtuosística interpretação no clarinete, por Michael Collins, com o mesmo Slatkin à frente da mesma orquestra, temos neste disco um registo que nos permite o acesso a uma grande interpretação de uma obra bem conseguida e de grande interesse musical. O custo do cd deverá ser cerca de oito euros. AST















COGLIONES

Nunca imaginaria que metade dos italianos encaixavam na categoria que o berlusco lhes inventou. Mas assim é. Metade dos italianos gostam da imagem do homem rico, que manipula as leis a seu bel-prazer, que manda nas televisões... Mas metade dos italianos não esperava que o homem rico, o seu herói, aquele que os inspira, pudesse tropeçar nas leis que criou à medida, como os fatos que veste e os sapatos que calça.
Agora à "esquerda" (em Itália tudo o que não seja fascista ou pró-fascista é esquerda...) só lhe resta tentar governar mais um país na Europa que parece totalmente à deriva. Se isso é uma missão possível... Activar a justiça neutralizada por berlusco, pôr fim ao monopólio ultra-terceiro-mundista dos "media" (no chamado terceiro-mundo, agora em vias de desenvolvimento, não existe nada parecido ao que acontece em Itália, excepto nos estados em que toda a economia é estatal e o poder está concentrado nas mãos de um "líder") e, finalmente, congratular-se por, no mesmo dia em que "virou uma página", ter sido preso mais um crápula mafioso que andava a "monte" há dezenas de anos. Quem disse que não há coincidências? AST















Da Esperteza

A etiqueta Brilliant Classics há muito que re-editou Cosi fan tutte de W. A. Mozart, um estojo de 3 cd's, por nove euros. Mais de dez em Portugal... Sigiswald Kuijken dirige La Petit Bande com respectivos côros. Os solistas são Soile Isokoski (Soprano), Monica Groop (Soprano), Nancy Argenta (Soprano), Per Vollestad (Baritone), Hubert Claessens (Baritone) e Markus Schafer (Tenor). Nestes dias um diário português "ofereceu" aos seu leitores este produto incluindo nele publicidade ao banco que patrocina a iniciativa. Produto que venderam a um preço mais elevado (3x3,99 euros) e em embalagens separadas, o que constitui um inconveniente pois trata-se da mesma obra. Se isto não é esperteza saloia...














La ambigua reacción del Papa hacia la película es bien conocida: inmediatamente después de verla, profundamente conmovido, murmuró "¡es así como eso fue!" - y rápidamente esta declaración fue retractada por los portavoces oficiales del Vaticano. Una visión fugaz en la reacción espontánea del Papa se reemplazó así rápidamente por la posición neutra "oficial", corregida para no herir a nadie. Este cambio es la mejor ejemplificación de lo que está equivocado con la tolerancia liberal; con lo Políticamente Correcto se teme que cualquier especificación pueda herir la sensibilidad religiosa... Slavoj Žižek in http://psicanalises.blogspot.com (March 22, 2006)















PRODI: HOJE VOLTAMOS UMA PÁGINA

ROMA (AP) - Romano Prodi se declaró ganador el martes de las elecciones parlamentarias y prometió formar un gobierno "fuerte", aunque el escrutinio no había terminado y el primer ministro Silvio Berlusconi se negó a concederle el triunfo.

Aunque el Ministerio del Interior aún no había declarado un ganador, los resultados casi completos indicaban que la coalición de Prodi había ganado una mayoría en el Senado, lo cual le daría la victoria en ambas cámaras del parlamento. Aún estaban por escrutarse los votos emitidos en el exterior, que deciden seis bancas, aunque los resultados preliminares indicaban que la alianza de Prodi se había llevado cuatro de ellas.

Prodi, el opositor de centroizquierda, dijo en conferencia de prensa que su gobierno sería "política y técnicamente" fuerte a pesar del margen aparentemente pequeño de su victoria. El ex comisario europeo dijo que el centro de su política de gobierno sería Europa.

"Este es un resultado profundamente europeo, y como he dicho, Europa será el centro de la política de mi gobierno", dijo Prodi, al tiempo que prometió "relaciones constructivas con Estados Unidos".

La coalición de centroizquierda dijo que había ganado cuatro de las seis bancas aún en disputa en el Senado, un resultado que, de confirmarse, le daría el margen necesario para declarar la victoria.

Con todo, el campo de Berlusconi no concedió la victoria y reclamó un nuevo escrutinio en la Cámara de Diputados, donde la coalición de Prodi ganó por una décima de punto porcentual: 49,8% a 49,7%.

Prodi dijo que no le preocupaba el pedido de recuento y reconoció la estrechez del margen. Pero negó que el país estuviera "dividido por la mitad", señaló que había habido gobiernos aún más débiles y declaró que su coalición era "política y técnicamente fuerte".

Dijo que gobernaría para todos los italianos, "incluso los que no votaron por nosotros".

"Hoy damos vuelta una hoja", dijo.

http://ar.news.yahoo.com

(Martes 11 de abril, 10:26 AM)















2006/04/06

OBRAS ORQUESTRAIS DE MAGNUS LINDBERG

A editora finlandesa Ondine, para comemorar os vinte anos de existência, lançou um conjunto de re-edições a preços reduzidos que rondam os seis euros na Europa.
Numa dessas re-edições temos à disposição três obras de Magnus Lindberg, nascido em 1958, que é um incontornável do final do século vinte e também do panorama actual da criação musical mundial.
As obras abrangem o periodo criativo dos anos noventa. Feria de 1995 é uma obra de grande inspiração. Sensivelmente no meio, o som persistente de uma campaínha cria uma "tensão-ruptura" para pouco depois se escutar uma referência a Funeral Music for Queen Mary, de Purcell. A orquestração é prodigiosa, tanto nesta como nas outras duas obras incluídas no cd. Também em Corrente II, de 1991, se escutam referências à música setecentista. O trabalho harmónico denota a técnica de análise espectral. Lindberg foi um dos primeiros, senão o primeiro, a utilizá-la como ponto de partida semiológico-estrutural. Há no entanto uma "essência melódica" que é transversal ás suas obras. Os motivos são facilmente identificáveis e muitas vezes trabalhados ritmicamente de forma repetitiva, abrindo, pela exaustão relativa, brechas para um acontecimento novo ou a passagem a outro quadro sonoro. Estamos muito longe da monotonia e falta de imaginação das obras minimal-repetitivas, se bem que episodicamente o compositor utilize repetições com pequenas nunces que criam um "élan" interessante e eficaz.
Arena, de 1994, foi encomendada para a primeira edição do International Sibelius Conductor's Competition. Lindberg procura nesta obra um desenvolvimento de panoramas sonoros e orquestrais contrastantes, mantendo, aqui também, os aspectos melódicos em primeiro plano e remetendo-nos para rememorações de Berg, Mahler e Lutoslawski, cuja terceira sinfonia começa com um unissono muito mais lento mas com um efeito muito idêntico ao bloco harmónico que conclui Feria.
Estas três obras podem ser consideradas entre as obras primas mais interessantes da música do final do século XX, pela inventividade, pela orquestração, pelo eclectismo, pela musicalidade e pela grande intuição inteligentemente trabalhada.
A interpretação, excelente e inspirada, é de Jukka-Pekka Saraste, à frente da Finnish Radio Symphony Orchestra. AST
















DO SUBLIME

Hoje em dia é fácil e barato aceder-se ao sublime. Começo assim para desde já compreenderem que não se trata de uma dissertação pró-académica, provavelmente tão inútil quanto pretenciosa.
Aqui trata-se do sublime audível, visível e ao alcance de todos. Isto parece um slogan e lembra qualquer coisa estranha...
Vamos directos ao assunto, como de habitude.
Há uma colecção de estojos, de dez cd's cada um, por cerca de doze euros cada conjunto, chamada Documents, onde aparece um dedicado a Arturo Benedetti Michelangeli. Pronto. Não vale a pena continuar pois já todos compreenderam. Mas, para chatear, não vou acabar já. Interessante ouvir como um pianista fabuloso, um artista genial, nos dá uma interpretação pobre do Carnaval de Viena de Schumann...
Mas do estojo que tratamos terei de dizer um pouco mais, apesar de que escrever sobre este pianista para fazer um (mau) reparo justificaria o "post", uma vez que o "normal" é ouvirem-se e lerem-se laudas e outras celebrações mais ou menos efusivas à sua, pouco discutível, genialidade.
O cd 6, que contém as Baladas op 10 de Brahms é, para retornarmos à "normalidade", transcendente. Transcendente é o único adjectivo possível pois, mesmo quem não goste daquele autríaco, vai reconhecer que sob os dedos de Arturo Benedetti as páginas escritas por Brahms se transformam em algo de indizível, inqualificável, maravilhoso.
A sonata dois de Chopin, que vem no mesmo cd, é miraculosa, ainda que eu prefira uma gravação mais antiga, também "ao vivo", realizada em Arezzo, com o mesmo Benedetti ao piano.
A op 111 de Beethoven, que vem no cd 10, possuiu uma força implacável e foi gravada, "ao vivo", no ano de 1988, em Bregenz. Seguem-se cinco Mazurkas de Chopin numa visão tanto singular quanto assombrosa. Finalmente, uma interpretação arrebatadora da Ballada número um do mesmo Chopin.
Não ouvi o concerto de Lizt que remata este último cd. Depois da Ballada não ouvi mais nada. Nem o resto dos cd's que tinham ficado por escutar. AST

Nota: o estojo (de dez cd's) contém outras preciosidades. Ouçam-as. Mesmo que a qualidade sonora não seja a desejável...