2008/05/25

Festival Hola

Hoje domingo, foi o último dia deste festival que nos traz pouco mais de meia dúzia de filmes. Como é irrelevante o que o júri vai decidir, ou já decidiu, passo a dizer da "minha justiça", que também é irrelevante.

Primeiro tenho de constatar a total ausência de preocupações e questionamento das problemáticas económico-sociais nos filmes que nos chegaram do Chile. Chile onde a comunidade Mapuche é totalmente discriminada e onde os governos, mesmo sendo "socialistas", não têm avançado no reconhecimento dos seus mais que legítimos direitos, pois os Mapuches, e outros "povos originários", já lá estavam quando chegaram os colonizadores cujos descendentes continuam a dominar a economia e o poder político, detendo a propriedade quase total das terras produtivas. É grave, tanto mais que um dos dois filmes, Padre Nuestro, de Rodrigo Sepúlveda, é um melodrama de uma família burguesa, sendo basicamente um trabalho mau em todos os aspectos. Já Radio Corazón, de Roberto Artiagoitía, também do Chile, é uma ficção interessante sobre um programa de rádio, muito popular, onde as pessoas falam das suas histórias amorosas...

Tropa de Elite, de José Padilha, abriu, e bem, o festival. Este filme foi amplamente criticado pelos politiqueses, pelos eduqueses e toda essa gente. No entanto, quando ganhou, e bem, o Urso de Ouro no Festival de Berlim, os politiqueses, eduqueses e o resto da seita, calaram-se muito caladinhos. Pois... O público aplaudiu, sentidamente, o filme, talvez numa homenagem aos polícias brasileiros da "tropa de elite" que lutam contra a corrupção na polícia (um dos maiores cancros do Brasil, México, etc...) e contra os exércitos dos traficantes de droga. Um filme sintomático dos tempos que correm e que desvela a máxima que para grandes problemas há sempre grandes soluções. Karl Popper escreveu, e repetidamente re-afirmou, que as "sociedades abertas" têm de utilizar os meios adequados para se defenderem e protegerem daqueles que as querem destruir.

Soñar no cuesta nada, de Rodrigo Triana (Colômbia), é uma divertida comédia, baseada em factos reais que aconteceram durante uma expedição de jovens soldados do exército colombiano para resgatar uns "gringos" que cairam nas mãos das FARC...

Ó Paí Ó, de Monique Gardenberg (Brasil), é um hilariante filme que tem como fundo o carnaval da Baía. Filme onde, sintomaticamente, a alegria carnavalesca coexiste com a tragédia. Que, obviamente, não impede a continuação do carnaval...

O filme, em meu entender, com mais densidade e simultaneamente o mais belo, é XXY, de Lucía Puenzo, da Argentina. Trata o drama de uma jovem de 15 anos hermafrodita. Um drama sereno, temperado pela imensidão e tranquilidade do mar (que não é assim tão tranquilo...) e da natureza uruguaya. Não é a primeira vez que Lucía Puenzo apresenta um trabalho de grande qualidade e beleza, o que faz dela uma mais-valia segura para o cinema argentino e Ibero-Americano. É este, em meu entender, o melhor filme apresentado neste festival. Todos os filmes aqui referidos são de 2007, excepto Padre Nuestro que é de 2006.

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